Quem o machismo matou hoje?

Estamos diante de sete mulheres que foram estupradas e ofertadas como “presente”. Duas delas, depois perderam a vida. Que direitos tiveram aquelas mulheres?

É uma mistura de revolta, angústia, impotência, indignação, pavor, raiva, nojo, tristeza. Muita tristeza. Não é possível definir sentimentos que nos tornam quase que incapazes de acreditar no ser humano.

O estupro coletivo de sete mulheres e assassinato de duas delas, ocorridos na cidade de Queimadas, no interior do Estado da Paraíba, foi um crime premeditado. O estupro seria um “presente de aniversário” de um irmão para outro. O caso revela muito mais que psicopatia. Revela um cenário brutal de machismo e misoginia.

O fato de que a sociedade trata os estupradores como psicopatas, monstros e indivíduos que não pertencem à sociedade é, no mínimo, hipócrita. Os homens que violam e violentam os corpos das mulheres estão apenas reproduzindo os padrões disseminados pela sociedade. Padrões que colocam os nossos corpos como mercadorias, objetos de desejo, sem que nós sejamos protagonistas desse desejo. Sempre representadas como incitadoras da violência, como se fosse nossa vontade não sermos donas de nós mesmas e nossos corpos sendo apenas objetos que estão lá para satisfazer vontades de outros, sonhos de outros, vidas de outros.

 Em propagandas como a da Hope com a Gisele Bundchen, não basta sermos objetificadas, devemos também nos orgulhar disso e nos objetificar também.

Então, um homem ganha de aniversário um estupro coletivo e as mesmas pessoas que corroboram com essas relações sociais distorcidas se chocam, acusam, apontam dedos, desejam a morte desses homens. Sem perceber que esses homens trataram aquelas mulheres como elas são retratadas cotidianamente, como objetos. Já passou da hora de refletirmos que a culpa é do estuprador e não da vítima, e que é também dos que perpetuam o imaginário da mulher objeto. Um imaginário doente, violento e que nos agride todos os dias. 

Temos acompanhado também o julgamento de Lindemberg Alves, acusado de manter em cárcere privado e matar Eloá Pimentel, 15 anos, sua ex-namorada. Em sua defesa, a advogada Ana Lúcia Assad declarou: “Ele não é bandido. Ele confessou que atirouem Eloá. Lindembergé apaixonado por Eloá. Foi o grande e único amor da vida dele, tanto é que ele não recebe visita íntima porque ele não quer ter outra mulher. Lindemberg sofre pela morte de Eloá”.

Não podemos enxergar o homicídio de Eloá Pimentel como apenas mais um “crime passional” entre namorados, como resultado de um “descontrole emocional”. Aqui há também a questão do sentimento de posse de um homem com relação a sua namorada, a idéia de que “se ela não for minha, também não será de mais ninguém”; o machismo estrutural em nossa sociedade que fundamenta o argumento de que Lindemberg teria matado por “amar muito” Eloá.

A advogada ainda enfatizou que a vítima era “geniosa e explosiva”. Segundo ela, “Eloá contribuiu para deixar a situação pior do que estava”. Uma defesa pautada na idéia da culpa da vítima, responsabilizando Eloá pela violência que sofreu. Mas pra nós está claro: quem ama não mata.

Esses dois episódios não são fatos isolados. Casos como estes, em que mulheres são estupradas e mortas, acontecem todos os dias. Mas é mais fácil situar os estupradores como psicopatas ou doentes mentais à ter que enfrentar uma sociedade que é doente: entende-se machista.

É necessário juntar forças de todos os cantos para combater o machismo e nunca mais permitir que apareça qualquer sintoma dele, como o estupro e mortes de mulheres.

E, por isso, nós, da Marcha das Vadias do Distrito Federal, repudiamos toda e qualquer violência contra as mulheres. Lutamos para que casos como estes não mais existam. E continuaremos lutando pelo fim do machismo e fim da violência.

Por Mariana Castellani, Kilma Cavalcanti e Lia Padilha da Marcha das Vadias do DF.

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8 thoughts on “Quem o machismo matou hoje?

  1. Yahya disse:

    O machismo matou hoje todas as mulheres estapandas em Outdoors e capas de revista vendidas no supermercado da carne digital contra o qual não vejo nada na midia vindo de voçes !! E mais alguns miilhares de mulheres sem formção cultural real que acreditam que esse mercado é legal e copiam sua forma de se propagar !!!

  2. Felipe disse:

    Bem,a violência também é uma via de mão dupla.E as mulheres que correram atrás de um homem contrário a “causa” para linchá-lo,na marcha das vadias?
    E quantas mulheres possessivas também existem por aí?Mulheres que matam por ciúmes etc?
    E a violência psicológica que muitas mulheres fazem nos homens?
    Sinceramente,culpar o machismo de tudo,e colocar o homem como vilão e a mulher como sempre a vítima de tudo,não é caminho para a igualdade.
    Aliás,sempre foi uma característica de prestígio social o cavalheirismo,que trata a mulher como uma dama.=D
    Culpar a sociedade de tudo,não é o caminho!

    • Alexia disse:

      Concordo com você! Isso tudo que estão fazendo não estão a tornando mais mulheres e sim mulheres machistas. Pq estão atacando com violência quem faz a violência. Esqueceram que a violência só gera mais violência??

  3. Teste disse:

    E o homem que foi agredido na passeata em Brasília? Como explicam isso? Vocês são a favor de coisas louváveis porém atacam as coisas erradas. Igualdade entre TODOS OS SERES HUMANOS é uma bandeira com mais de dois mil anos, levantada por Jesus Cristo e não é criação do feminismo. Defesa da vida e ser anti mídia e toda essa materialização do ser humano (não apenas da mulher mas das crianças e até dos homens) é uma antiga bandeira e prática da Igreja.

    Vocês acham que são criadoras do bem mas na verdade apenas exaltam coisas que são boas (e fazem parte da doutrina cristã) e atacam as Igrejas para depois ficarem com todo o crédito.

    Tsc tsc tsc…

    Feminismo cada vez mais se Assemelha ao lado ruim do machismo, opressao, violencia, intolerancia com quem é contra. Com essa postura so fazem sujar o nome das feministas reais, as primeiras, essas sim lutavam por causas justas e conquistaram seus direitos. As feministas de hoje lutam pra mostrar a bunda na rua e andar com os peitos de fora. Acreditem: ninguem vai querer que protesros com varias mulheres nuas acabem pois isso e justamente algo que os velhos politicos adoram: ver manchetes com um monte de mulher nua. Pra que acatar as reivindicacoes e parar de ver um monte de seios de fora?

    Fica a dica…

  4. Joao flavio disse:

    porque? sabe o que acontece quando a esquerda toma o poder da direita? ela se torna a direita é um ciclo sem fim de dor odio e violencia, tente machar para concentizar não para mostrar que são o mesmo com o que estão lutrando

  5. Alexia disse:

    A marcha das vadias está com propósitos louváveis, que seria acabar com a violência contra a mulher. Mas estão apenas se demonstrando um pedaço de carne desse jeito todo, mostrando o corpo e dizendo e o corpo é seu e faz o que quiser. Isso não é ser feminista isso é a mulher querer pegar a PIOR parte que o homem tem e querer pra si. E por que esse nome? Ser livre não é ser vadia, ser livre é vc ter o poder de ser independente. O que muitas de nós já conquistamos como poder estudar, trabalhar e votar. no dia que esse movimento feminista novo ser diferente parar de brincadeiras querer mostrar o corpo nas ruas, eu acato o movimento. Pq sou contra a violência da mulher assim como sou mulher independente! Mas enquanto ser essa p**aria eu prefiro ficar em casa pq acho isso uma vergonha para as mulheres…

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