“Palavras de ordem + Palavras de respeito: os cartazes para a Marcha das Vadias”, texto da SlutWalk Belo Horizonte

“A Marcha das Vadias está aí e vai ganhar as ruas de Belo Horizonte no próximo dia 26.

Trata-se de um ato a favor da liberdade, da diversidade e contra a violência contra a mulher. Mas no que consiste essa violência? Como abordá-la nas manifestações?
Em primeiro lugar, devemos lembrar que a violência contra a mulher não é apenas a agressão física, sexual ou psicológica. A violência aparece de forma desavisada, muitas vezes, na linguagem.
Tanto é que esse é um mote importante da Marcha das Vadias: queremos nos apropriar de expressões que comumente são usadas para rotular e agredir as mulheres que não seguem a cartilha dos “bons modos”.
Nesse sentido, é sempre bom lembrar que a batalha da Marcha das Vadias passa também, e muito, pelo campo das palavras, dos seus significados, de se seus pesos e conotações sociais.
Assim, antes de escrever o seu cartaz, sua faixa ou inscrever em seu próprio corpo um lema, lembre-se disso. Lembre-se que a sua palavra pode excluir, machucar, ferir, violentar. Parece exagero?
No ano passado, na primeira edição da Marcha em Belo Horizonte, por exemplo, a tentativa de abarcar a diversidade de comportamentos e escolhas acabou por desencadear um mal entendido para com as prostitutas que, a nosso convite, optaram por aderir à Marcha, na luta por respeito.
Uma frase recorrente nos cartazes e corpos das manifestantes foi a emblemática “Nem Santa Nem Puta”. Uma frase forte, potente, que visa a questionar os extremos por meio dos quais a sociedade insiste em dividir as mulheres, ignorando a multiplicidade de escolhas e de comportamentos a que estamos sujeitas todos os dias.
Em todo caso, uma frase também ambígua, que foi interpretada por algumas prostitutas como uma exclusão, como se o que estivéssemos rechaçando não fosse o rótulo, mas as próprias putas. Como se não quiséssemos nunca ser confundidas com santas, tampouco com putas.
Entendemos que se trata de um grupo que é essencial para o fortalecimento da Marcha e que deve ser incluído, de forma orgânica, tanto na manifestação quanto em sua organização, sobretudo porque é uma luta que diz respeito direto a elas: quando vítimas de abuso, as prostitutas são atendidas com desconfiança e desprezo nas repartições, como se, na profissão delas, sofrer abusos e ser vitimada por crimes fosse algo
natural. Tanto é que grande parte delas já nem pensa mais em notificar a polícia quando sofre violência, pois sabe que sua queixa não merecerá crédito, pois de vítima ela pode passar a ser considerada culpada.
Por isso, ainda que frases como “Nem Santa Nem Puta” possam ser compreendidas como uma crítica ao estigma e ao preconceito, uma vez que identificamos que pode haver certo desconforto por parte daquelas que são putas por profissão, optamos por aconselhar aos participantes da marcha que evitem provocações que possam ter interpretações excludentes.
Afinal de contas, nossa proposta é unir, e nunca segregar!
Todas as santas, todas as putas, todas as vadias, todas as mulheres; todas nós exigimos respeito.”
About these ads

One thought on ““Palavras de ordem + Palavras de respeito: os cartazes para a Marcha das Vadias”, texto da SlutWalk Belo Horizonte

  1. patricia disse:

    levarei um “não a violência sexual contra a mulher e a criança”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 124 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: