“littlegirlslut”, lindo texto de Simone de Lima sobre sua experiência na Marcha das Vadias

A Marcha das Vadias, desde o ano passado, é um momento dentro de um processo extremamente empoderador para centenas de mulheres, e no último sábado não foi diferente. Muitas se sentem protegidas e seguras ao lado de tantas mulheres marchando juntas, outras se sentem encorajadas a gritar, pela primeira vez, que não têm culpa pelos estupros ou as agressões que sofreram e que a culpa é sempre do estuprador! São muitas emoções diversas e fortalecedoras! Algumas dessas mulheres fantásticas resolveram compartilhar os seus relatos com a gente, e é com muita gratidão que os publicamos aqui, para que sejam lidos por milhares de mulheres que provavelmente se sentirão tão identificadas e fortalecidas quanto nós nos sentimos. Ainda temos de enfrentar diversas agressões todos os dias, mas a Marcha das Vadias é o nosso momento de liberdade, nosso espaço de força e empoderamento, é a nossa voz sendo ouvida por milhares de pessoas! NÃO NOS CALAREMOS!

Continuaremos marchando até que todas sejamos livres!

*

littlegirlslut

Eu só notei ali, na descida da rodoviária. Muitos anos sem andar por lá, depois da condição de motorizada e a vida mais pras bandas norte do que sul. Meio sem voz de tanto gritar, sozinha porque já tinha me desencontrado de tanta gente querida, vi os cartazes que eu já tinha visto, pensei naquilo que já tinha pensado, e, num repente, senti integralmente  o que eu já tinha tentado sentir:

NADA JUSTIFICA.

NÃO SOU CULPADA.

O CORPO É MEU.

 , uma coisa súbita e forte, aquela multidão de mulheres de todas as idades e de homens-que-respeitam-mulheres gritando juntos, tomando aquele lugar que sempre foi inóspito para a  adolescente,  por conta dos homens que vinham mexer, falar, tentar passar a mão,  irritantemente confirmando a profecia do meu pai, “Tá achando que vai sair assim? Vilneyde, manda a sua filha trocar de roupa! “. O mesmo pai que me disse, no dia em que comprei, feliz, minha primeira camiseta feminista, Corpoéparaamar escrito no peito:  ” vai provocar um estupro” Entendi então, ali, na rodô:   quem teve vergonha fui eu,  mas essa vergonha-culpa que eu carrego  não me pertence. Uma culpada de  4 anos de idade, pelos abusos  que sofreu? Porque a coisa falante me dizia, se você disser pros seus pais, eles não vão acreditar. E vão falar que você é feia. Que poder, me convencer, fundar em mim essa identidade:  Não acreditam em mim, e ainda por cima, sou feia por que deixei que fizesse aquilo comigo. Quando, aos 11 anos, me deparei com a memória  e entendi o que tinha ocorrido, foi com alarme,  pânico , mas principalmente vergonha, que feia, que suja, que nojo, como eu deixei?  Nada justifica, o cartaz que passou ficou reverberando, nada, nada, nada justifica. A vergonha que as meninas e mulheres e senhoras em minha volta, algumas bravamente, outras tentativamente, estavam rasgando, desfazendo, desdenhando, descontruindo, aos gritos,  em estrondos,  na rodoviária. Eu a menina de 4 anos, eu a adolescente, eu a  mulher, eu todas, andando sem medo, o nó da garganta jorrando líquido pelos olhos, eu a menina, sem culpa, sem vergonha, protegida por  multidão solidária, o  exército de  meninas de rostos cobertos, punhos roxos, rápidas no gatilho, articuladas, lindas e altivas, ah, se elas estivessem lá para me defender, ele ia ver só, mas era como se se os tempos se tivessem unido, elas lá e me defendendo, e agora estava  tudo bem, todos os homens maus do mundo fugindo , nós marchando, vadias e santas, mulheres, crianças, adolescentes, livres.

(Simone de Lima)

Foto: Alexandra Martins / Marcha das Vadias DF 2012

About these ads

12 thoughts on ““littlegirlslut”, lindo texto de Simone de Lima sobre sua experiência na Marcha das Vadias

  1. Lara Cerri disse:

    …Simplesmente emocionada com este texto.

  2. Normando disse:

    Gosto bastante do movimento,a mulher esta com anos de atraso nos seus direitos em relação ao homem,mais como morador de periferia e a partir de algumas observações de perfis no face e conversas de quem foi,ha algumas coisas que me deixam confuso,a marcha invariavelmente parece receber mais um sentido de reunião social do que engajamento ,talvez esteja errado,de novo,minhas fontes são o face e pessoas que vão la, vejo pessoas que fazem ensaios fotograficos, vão com roupas que inves de serem de vadias,ficam mais com tons ludicos,chega a quase abstração de arte,tira o peso que esse movimento passa,claro que essa ligação estetica esta em outra raiz que se diferencia do genero,a classe,e um movimento composto pela classe media,a burguesia, logico que se fala em nome de todas as mulheres,principalmente as mais afetadas…as pobres daqui da quebrada que se vão,são minorias ai(Plano),moro em Santa Maria DF,nada contra por favor,mas esses pontos devem apenas receber uma luz,sou aluno de ciencias socias, e que mais vejo e são os burgueses colarem nas comunidades,se misturarem, difundirem um pouco suas ideias,sairem com suas teses e vazarem,então de boas intenções….esta mensagem e mais para direcionar o olhar aos varios pontos que um movimento gera, a contradição imagino que seja normal em qualquer lugar,mais como morador de periferia e vendo que se fala em nome de todas as mulheres esse movimento,achei importante escrever isso.

    • Alice disse:

      Normando, não entendo o seu ponto de vista. Não te conheço, não sei sua realidade, não sei seu pensamento, não sei o que você sabe. Mas eu sei, que essa luta e essa dor da Simone, eu já senti, e a sua vizinha, do lado e da frente, e a moça que mora na outra rua da sua cidade, talvez também tenham sentido. Eu sou do plano, especificamente da Asa Norte. Eu sei o que eu vivi, e onde eu vivi, e o que eu passei, e sinceramente, nunca, em nenhum momento SENTI neste movimento um abraço menos apertado para mim, ou para mulheres que vem da periferia. Este movimento é gigante, é mundial, não é do plano piloto. E se a sua vizinha, que talvez não tenham podido vir a marcha por qualquer motivo, inclusive porque estava trabalhando, esse movimento a abraça, e é por ela, e é por mim, que já fui estuprada dentro de casa, por um homem que dizia que me amava. Esse movimento é para a Simone, aos 4 anos, e para a senhora da sua rua, é para você também, para que você possa ter suas filhas e filhos, se for a sua escolha, vivendo num mundo mais seguro, e o seu coração fique bem tranquilo quando eles saírem de casa, independente do lugar onde vocês morem, e eles voltem, sempre, seguros e sadios, sem histórias tristes para contar! Esse movimento é de corações que cansaram de viver sofrendo calados… Essa marcha é nossa!!! Abraça ela também! Porque ela abraça a todos e todas que são de bem.

      • Simone Lima disse:

        Alice, me emocionei muito com seu relato, e imagino que as violências praticadas contra mulheres adultas dentro de suas casas por “parceiros” são as mais invisíveis, e imagino o quanto ouvir as dúvidas e a culpabização deva ser como acrescentar sal a uma ferida aberta. Receba meu abraço carinhoso! Por um mundo novo!

  3. Simone Lima a sempre aguerrida, forte e batalhadora me encheu os olhos d´água.

    • Simone Lima disse:

      Companheiro Fowler, muito carinho! Peço que divulgue, não por mim, mas por tantas outras mulheres-crianças que se sentem sós em seu medo e culpa

  4. Alice disse:

    Simone, me fizestes chorar, de alegria, porque tu eres a voz e o corpo de uma revolução! Que o nosso grito proteja todas as mulheres do mundo!!! E a nossa Marcha não perca sua força! Sejamos livres! Com amor, Alice

    • Simone Lima disse:

      Alice, um abraço, com muito carinho e na luta diária por um mundo em que a violência contra humanos e outros animais não seja admitida.

  5. carlinha disse:

    Muito legal essa coisa da marcha, do movimento de liberação sexual, profissional, política… sensacional mesmo. Acho que vocês garotas classe media, inteligentes e revolucionárias deveriam juntar suas forças para lutarem contra o preconceitos contra as mina da periferia também… lutar a favor da liberação do corpo periférico que dança funk e tal… baile. Acho que só quando uma classe intelectual e formadora de opinião se levanta a favor de uma causa é que ela passa a ser respeitada. Deixo aqui o meu pedido. sofro muito preconceitos porque gosto de funk e de dançar e essas coisas… sugiro Marcha das mina gostosa do funk.

    • Simplesmente o que a mulher veste não diz que pessoa ela é, bem como não justifica os atos de violência. É necessário romper com o discurso do moralismo e repensar na cultura machista e patriarcal que ainda permanece na nossa sociedade. Chega de fingir que não sabemos que muitas mulheres são estupradas fisicamente e “moralmente”, devemos admitir este triste cenário e procurar meios para transformação social em prol da igualdade de gênero e combate à violência.

  6. Bruno Saraiva disse:

    Si, meu amor, ler seu texto assim aa distancia, me deixa com um enorme aperto no coracao e uma vontade louca de estar junto. E’ desolador ver como a culpa e a vergonha impostas socialmente deixam feridas abertas por decadas. Sua coragem e a de tantas mulheres em se expor e’ um caminho pra cicatrizacao. Mas e’ preciso inverter o peso da pressao social e interromper o ciclo de reproducao da violencia. A leveza do movimento, nao retira a importancia da causa. Parabens para as vadias! Parabens por sua coragem, amor! Estamos juntos em mais esta! Beijos,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 126 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: