No Dia Latino-Americano e Caribenho pela Descriminalização e Legalização do Aborto, um relato sobre uma experiência pessoal:

Há exatos dois anos atrás fiz um aborto. É simplesmente assim, sem eufemismos, sem rodeios, sem culpa e sem remorso que eu digo essa frase: eu fiz um aborto. É por solidariedade a todas as mulheres (próximas a mim, ou distantes, mulheres que simplesmente dividem comigo os espaços da cidade onde eu moro, ou que vivem em tantos outros lugares do Brasil, da América Latina, do mundo, de diferentes níveis sociais, com outros credos, de peles de diferentes cores, inúmeras outras personalidades), é por solidariedade a todas essas mulheres-mundo que um dia sentiram a dor de não serem donas de seus próprios corpos, que eu decidi contar uma entre as infinitas histórias desconhecidas de abortamentos clandestinos: a minha.

Há dois anos atrás me descuidei. A gente sempre acha que essas coisas só acontecem com as “outras”. Com as mulheres sem rosto dos documentários sobre aborto, aquelas dos dados estatísticos, ou com aquela amiga da amiga cujo nome você desconhece. Nunca me dei bem com pílula, elas provocam efeitos colaterais insuportáveis em mim (sim homens que adoram bradar a frase “por que não tomou pílula antes de abrir as pernas?”, essa pílula que as companheiras de vocês engolem todos os dias podem causar inúmeros efeitos colaterais, uns inclusive muito sérios como trombose e formação de coágulos, por exemplo), assim como a pílula do dia seguinte que também me deixa péssima. Diante da máxima “isso nunca aconteceria comigo” acabou que o sexo rolou sem preservativo.

Algumas semanas depois minha menstruação atrasou. A primeira coisa que eu fiz foi dividir a preocupação com meu namorado (sempre achei bizarro quem acha que até se ter certeza as mulheres devem carregar o peso da dúvida sozinhas), já tínhamos dado mole antes e nada tinha rolado, então ele não levou muito à sério, me disse que tudo ia ficar bem. Falei com algumas amigas e ouvi a mesma coisa. Mas eu tinha certeza. Não sei explicar, é como se eu conhecesse tão bem o meu corpo que tivesse notado uma mudança, por menor que ela fosse. Passei a noite toda chorando, pensando no que fazer. No outro dia levantei cedo, fui ao médico e fiz um exame de sangue.

Olhei o resultado na Internet enquanto conversava com meu namorado que estava no trabalho. Positivo. Mas eu estava calma, tinha passado a noite toda pensando, sabia exatamente o caminho que queria seguir. Desde onde posso me lembrar sempre fui “pró-escolha”, como hoje, penso que nós, mulheres, como seres autônomos que somos, temos o total direito de decidir sobre o nosso próprio corpo. Nunca acreditei nessa baboseira de que aborto é assassinato, pra mim sempre pareceu uma condenação antes que o crime tenha sido cometido, visto que o feto, até as 12/14 semanas de formação, não tem ainda sistema nervoso. Ou seja, a mulher que decide pelo aborto está eliminando apenas a possibilidade de gerar um ser humano e não o ser humano em si, como se pode matar uma pessoa antes mesmo dela existir? Mesmo pensando tudo isso, dizia que eu jamais faria um aborto, por uma escolha pessoal minha, não por condenar o ato. Mas como é fácil fazer suposições quando não é a gente que está precisando decidir, né? Quando fui eu quem precisei optar entre esses dois caminhos não tive dúvidas: vou fazer um aborto.

Meu namorado foi o melhor companheiro que eu poderia ter tido nessa hora. Quando perguntei o que ele queria, a primeira coisa que ele me disse foi “o corpo é seu, é você quem vai sofrer as conseqüências de uma gravidez ou um aborto, independentemente da decisão que você tomar, vou te apoiar”. Depois de decidido o caminho a tomar, era preciso decidir qual o método, não tínhamos dinheiro, então optamos por um método relativamente seguro e mais barato que uma clínica: remédio. Depois de muito procurar, olhar sites, ouvir histórias de “fulano que tem um amigo que tem uma namorada que já tomou”, conseguimos o remédio por R$500, emprestados por uma amiga. Nessa semana de correria, descobrimos nada menos do que sete mulheres próximas que já tinham abortado e precisavam esconder, camuflar essa vivência! Curioso é que poucas semanas antes a PNA (Pesquisa Nacional do Aborto) tinha sido lançada, dizendo que uma em cada sete mulheres no Brasil já fez um aborto.

Fui a um médico, pedi pra fazer uma ecografia e ele me disse “nem vale a pena, é menor do que a cabeça de um alfinete a essa altura, nem vai dar pra ver”. Fiquei indignada de ter que passar por toda essa tensão por ter gente que ainda pensa que é um fato que um amontoado de células já seja uma criança! Pouco depois fui para a casa de uma amiga. Algumas pessoas próximas me acompanharam. Não posso descrever a importância  que teve essa rede de solidariedade no momento que eu estava passando, foi ela que me manteve em pé, sem dúvidas. Quando eu engravidei estava passando por uma depressão há meses. Fazia análise, acumpuntura, tomava remédios homeopáticos, mas nada estava resolvendo o problema. Levantar da cama era difícil pra mim, imagina só ter um filho ou uma filha? Eu não tinha a menor condição de levar a gravidez adiante, tanto pelo meu estado psicológico quanto pelo fato de que uma criança não cabia na minha vida naquele momento. Eu tinha que me formar, queria viajar, precisava de um emprego, tinha planos de uma pós-graduação, assim como o meu namorado. Não havia espaço para uma criança nas nossas vidas, não naquela época.

Pedi para ficar sozinha na hora de colocar o remédio. Lembro que fiquei um tempão parada, olhando pros comprimidos, olhando pra mim, com medo de colocá-los dentro do meu corpo. Reuni coragem e coloquei. Lembro de ter pensando “é isso, agora eu tô sozinha, não existe Estado, não existe hospital, não existe médica/o que faça nada por mim se der merda”. Eu acho que é essa a sensação, de fragilidade, de solidão, de vulnerabilidade, não importa quantas amigas você tenha do seu lado, não importa se seu namorado for um cara incrível e te acompanhar em todos os momentos, o fato é, se der merda é o seu corpo e, a não ser que todo mundo do seu lado te apoiando seja médica/o, não há nada que possam fazer para te ajudar caso algo dê errado.

Passaram-se duas, três, quatro horas. Eu estava sob uma ansiedade horrível, medo, medo de acabar com meu corpo, medo de sentir dor. Fiquei horas esperando as cólicas virem, horas esperando essa dor que todo mundo me disse que eu ia sentir… Estava fraca, em jejum de mais de 14 horas, enjoada, sem poder vomitar com medo do remédio não fazer efeito. O fato é que não rolou nada. Imagine a frustração que eu senti, o desespero. Não sei se o remédio era falso, ou se foi meu corpo que não respondeu aos comprimidos. Eu achava que estaria tudo resolvido à noite, mas voltei pra casa com o peso que não queria mais carregar.

Na minha casa era um desconforto. Vomitava toda a hora, meus seios estavam enormes. Tinha que disfarçar ao máximo os enjôos, usava top pra esconder os seios. Tinha que ouvir as pessoas na minha casa comentando sobre a “fulaninha que tinha tomado um remédio pra abortar e a filha nasceu toda defeituosa e agora tava lá, na casa dos pais, chorando com a criança no berço”.  Pouco tempo depois essa criança morreu. Queria dormir toda a hora,e  ainda tinha o semestre da faculdade pra terminar, tinha que ir pro estágio, tinha que sorrir nas reuniões familiares. E quando deitava na minha cama, sozinha, era como se sentisse crescer algo horrível dentro de mim, é como se eu estivesse sendo obrigada a mudar minha identidade, obrigada a assumir um papel social que eu não queria de forma nenhuma pra mim.

Consegui outros comprimidos. Tomei na casa de um amigo. O mesmo enredo, jejum, medo de colocar, expectativa e… frustração. Nada aconteceu de novo. Aí eu me desesperei de vez, fiquei pensando no que ia falar pros meus pais, em como ia levar minha vida, e se a criança nascesse com problemas graves?… Depois de muito pensar, optamos por uma clínica. Conseguimos levantar o dinheiro com pessoas próximas.

Depois de alguns dias cheguei na clínica. Era uma realidade de novela. TVs de LCD em todo o canto, sala confortável, ampla, iluminada. A sala de espera tava LOTADA, lotada mesmo. Pessoas de todas as idades aguardavam para ser atendidas, as/os acompanhantes eram desde avós velhinhas, até maridos engravatados, ou amigas ansiosas. Fui chamada e entrei sozinha, fiquei esperando no corredor com outras mulheres, todas tensas. Depois de 1h mais ou menos, fui levada para um consultório. Uma médica me explicou o procedimento detalhadamente, me examinou, olhou a ecografia que eu tinha levado. Depois disso fui encaminhada para outra sala de espera, onde fiquei trancada com umas dez mulheres esperando atendimento. Da minha idade só tinha mais uma menina. As outras todas eram mulheres mais velhas, muitas casadas,  religiosas, todas já tinham filhos/as e falavam delas/es de forma apaixonada. Mas também diziam que não tinham condições financeiras de ter uma criança agora, ou que estavam crescendo no trabalho e não poderiam parar naquele momento para encarar uma gravidez e cuidar de um recém-nascido. Fiquei olhando para aquela sala, parecia que a PNA estava li na minha frente, escancarada.

Passei umas 3h dentro da sala, conheci um pouco da vida de cada uma daquelas mulheres, dividimos nossos medos, algumas falaram que se consideravam monstros por estar ali. Outras, como eu, só queriam se livrar de um problema, e não se sentiam culpadas de antemão por estarem interrompendo uma gravidez. Entrei no consultório, não me lembro direito dessa parte, todo mundo usava máscara, e havia umas cinco ou seis pessoas na sala. Falei um pouco sobre a minha cidade para o anestesista e logo cai no sono. Acordei em uma maca, com um absorvente, tonta e com uma fome absurda. Pouco depois consegui ficar em pé, comi. Pelo intervalo com o que chegavam as pacientes depois de mim, deduzi que o procedimento durava entre 5 e 10 minutos. Saí da clínica sem sentir dor, passeei pela cidade, e à noite ainda enchi a cara num boteco. Segundo as/os médicas/os eu poda fazer praticamente tudo, era um procedimento simples. Eu estava livre, finalmente, depois de um procedimento de apenas 5min.

Não digo que em alguns momentos nos meses seguintes não tenha batido aquele sentimento de “e se…?”. Mas isso não quer dizer arrependimento. Acredito que na vida sempre temos que escolher entre diversos caminhos, isso acontece diariamente. Quando você escolhe seguir por um lado, abre mão de outro destino possível, são escolhas que a gente faz, prioridades do momento. Mas é claro que vez ou outra a gente acaba pensando o que teria acontecido se tivesse seguido por outro rumo; no que teria rolado se tivesse feito faculdade de economia, ao invés de Reações Internacionais; no que seria da vida se não tivesse terminado com a Maria e ficado com a Joana. Tenho certeza de que fiz a escolha certa, nunca me arrependi dela, em momento algum. Sou muito feliz com a vida que tenho hoje e sei que se tivesse tido uma criança teria sido tudo diferente, estou onde eu queria estar devido ao caminho que eu tomei.

Um dia, mulher nenhuma vai  precisar passar pelo que eu passei. Isso porque tive condições financeiras, um namorado companheiro, amigas/os que me apoiaram em todos os momentos, acesso a métodos seguros. Imagino o que passam as mulheres que todos os dias tomam chás duvidosos, enfiam agulhas de crochês nos seus úteros, confiam suas vidas a açougueiros de fundo de quintal, algumas sozinhas, sem ninguém para dar apoio. Quantas mulheres não sangram até a morte por negligências nos hospitais, quantas não são denunciadas pelas/os próprias/os médicas/os que quebram um princípio básico de suas profissões: o sigilo médica/o paciente.

Se o Brasil se diz o ‘país do futuro’ e quer estar entre ‘os grandes’ do mundo, tem que começar a olhar primeiro para as suas cidadãs e não deixar que argumentos e pressupostos religiosos nos tire o direito sobre nossos próprios corpos. Tem que parar de negar a responsabilidade sobre a vida e a saúde das mulheres que abortam. A autonomia é um direito humano. A laicidade do Estado é garantida por lei. No dia em que o aborto for legalizado aqui, espero que a/o presidenta/e tenha a dignidade de pedir desculpas em nome do Estado para todas as mulheres que têm de enfrentar sozinhas o risco que ainda significa ousar assumir as rédeas de nossas próprias vidas.

M.R.

Recebemos esse relato de uma leitora do blog como contribuição ao dia 28 de setembro, dia de luta pela legalizaçao do aborto!

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