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Transgressor é não ser machista – Gerald Thomas e a cultura do estupro

Por Bruna Seixas*

Recentemente, durante o lançamento de um livro seu em uma livraria do Rio de Janeiro, o diretor de teatro Gerald Thomas enfiou a mão entre as pernas de Nicole Bahls, do programa Pânico, e tocou-a insistentemente, enquanto ela tentava tirar a mão dele. A situação foi uma sucessão de absurdos.

Quando um dos entrevistadores perguntou se ele poderia passar um exercício pra ela se soltar, já que era sua primeira entrevista, o diretor a virou de costas, empurrou seu quadril contra o dela e simulou um ato sexual.

Ele fez graça do sotaque de Nicole e a tocou novamente, bagunçando seu cabelo e dizendo: “Ela tá muito confusa, né, coitada? Como ela é confusa!” Por fim, quando perguntaram qual conselho ele daria, de verdade, na primeira matéria dela, ele disse: “Chupe bem um pau”. Após as inúmeras humilhações, tudo, no fim das contas, foi resumido pelo programa a um “teatro de provocação”. Escondido sob o manto do “artista”, Gerald pode tudo.

A divulgação das fotos e do vídeo da matéria promoveram a espetacularização da violência cometida contra Nicole. No mesmo dia do fato, ela disse em seu twitter que ficou muito triste com o que aconteceu. Mas ninguém a ouviu.

Como sempre, muitas pessoas culpam a mulher, e não quem a violentou: “Se ela tivesse se dado ao respeito, isso não teria acontecido”, “Quem manda se vestir assim?”, “Ela se comporta como uma qualquer e ainda quer respeito?”, “Ela simplesmente teve o que gosta de provocar nos homens”, “Essa puta mereceu”.

Esse discurso é bastante difundido e muito comum inclusive em casos de estupro, numa sociedade em que a conduta da mulher está sempre sob julgamento e é frequentemente questionada e atacada pra justificar o ato do agressor. Toda mulher é ensinada, desde criança, a se comportar de forma a evitar um estupro: “Não use roupas curtas”, “não aceite bebidas de estranhos”, “não ande sozinha à noite”. Mas o mais grave é que, enquanto temos nosso comportamento tolhido e censurado frequentemente, nossa sociedade não ensina aos homens que eles não podem estuprar. Toda a responsabilidade é direcionada às vítimas, e as mulheres vivem num clima de insegurança constante. Isso é uma cultura de terror.

Gerald Thomas tentou justificar o abuso que cometeu dizendo o seguinte:

ESTUPRA? Como assim? So levantei a saia de alguem que estava usando trajes ousadamente ‘putos’, sentando no meu colo e …nada mais. Mas ISSO TAMBEM é teatro.

ORA BAHLS!!!

Não, Gerald Thomas, teatro seria se ela tivesse sido previamente informada da sua intenção de meter a mão na buceta dela e tivesse concordado com isso. Mas não foi, você agiu contra a vontade dela. Portanto, foi uma violência.

Ao contrário do que disse dela, ele não se considera “ousadamente puto” ao expor sua nudez quando lhe dá na telha, como numa entrevista que concedeu nu à revista TPM, ou quando mostrou seu pau à imprensa no mesmo dia em que violentou Nicole. Por que a nudez só é “ousadamente puta” quando é da mulher?

Ele ainda completou:

Vem uma menina, de (praticamente) bunda de fora, salto alto de “fuck me”, seios a mostra, dentro de um contexto chamado PANICO e eu (que não deixo me intimidar e gosto desse pessoal) entro no jogo e viro as cartas – e os intimido ! (que nada! Brincadeira também!) 

Segundo sua lógica perversa, já que o humor do programa é agressivo e invasivo, ele pode revidar enfiando a mão dentro do vestido da menina que trabalha lá e está cumprindo ordens. De acordo com essa lógica, ele também deveria ter sido violentado em todas as vezes que apareceu nu em público. Mas é mais cômodo descontar no corpo de uma mulher.

A questão é que, mesmo que ela estivesse nua, isso não quer dizer de forma alguma que estivesse pedindo pra ser tocada, e NINGUÉM, em nenhuma hipótese, tem o direito de tocar uma mulher sem o seu consentimento. Isso não é brincadeira, isso é violência. Dizer que a mulher “provocou” o estupro pela roupa que estava vestindo é, além de tudo, uma ofensa aos homens: pressupõe que são todos animais irracionais, incapazes de dominar um suposto “instinto” sexual violento. Mas sabemos que vocês são capazes de pensar e refletir antes de agir. Vocês são capazes de respeitar uma mulher.

Nessa situação, Nicole é vítima duas vezes: por ter tido a violência que sofreu exposta e desconsiderada no programa machista para o qual trabalha, em que o assédio e a humilhação são cometidos contra ela e as outras integrantes o tempo todo, e por ter sido violentada pelo homem que foi entrevistar.  É evidente o lugar subalterno reservado a ela nessas relações de poder, ao ser agredida na frente de muitas pessoas, sendo filmada por várias câmeras, numa livraria lotada, no exercício do próprio trabalho, sem que ninguém que assistia à cena fizesse nada em sua defesa. Se reagisse, ela poderia perder o emprego, já que seus patrões saíram em defesa do agressor.

Depois da repercussão do fato, ela disse: “Me desacostumei com esse tipo de humor. Cheguei em casa e fiquei abalada, constrangida. Mas depois, pensei um pouco e acho que faz parte do personagem. É uma oportunidade que estou tendo de voltar e isso faz parte do programa. Tenho que começar a separar o personagem da vida real”. Não é de se surpreender que, diante da naturalização da violência que sofreu por parte de todos que presenciaram a cena, ela tenha se convencido de que foi mesmo uma brincadeira. Nessa cultura de culpabilização da vítima, muitas mulheres silenciam as violências que sofrem.

Apesar disso, ele ainda teve coragem de dizer:

Eu, Gerald Thomas, faço a olho nu, na frente dos fotógrafos, das câmeras, das luzes, o que esse bando de carecas e pseudo moralistas gostaria de estar fazendo atrás de portas fechadas, com as luzes apagadas! EYES WIDE SHUT

Sim, muitos homens gostariam de fazer o que você fez, e é exatamente esse o problema. Muitos homens, assim como você, veem as mulheres como objetos à disposição para serem tocadas sem consentimento e acreditam que existimos para servir a eles e aos seus desejos. Nosso país oferece lições básicas de misoginia e desrespeito às mulheres a todo momento, ao explorar nossa nudez e a erotização dos nossos corpos na TV, nas revistas, no Carnaval – todas indústrias comandadas majoritariamente por homens -, ao usar nossos corpos pra vender cerveja ou qualquer outro produto como se fôssemos também mercadoria. É por isso que tantos homens acreditam que nossos corpos são públicos, disponíveis, e é por isso que toda mulher tem pelo menos uma história de assédio e horror pra contar: seja numa balada, na fila do banco, no médico, dentro de casa, no meio da rua ou até no próprio trabalho, como aconteceu com Nicole. Nós somos desrespeitadas cotidianamente e em qualquer lugar.

E o mais impressionante é que você, Gerald Thomas, se orgulha de cometer essa violência na frente das câmeras. Mas isso é resultado do lugar de conforto reservado aos homens na nossa sociedade, é resultado dessa cultura que nos ensina que quando a mulher diz “não” você tem que insistir até que ela diga “sim”, porque dizer “não” é desafiar o poder inquestionável do macho.

A masculinidade é social e historicamente construída, e o domínio dos homens sobre as mulheres está associado à sua especialização cultural no exercício da força bruta. A violência não é inerente à natureza masculina, é um dispositivo de controle de uma sociedade que ainda trata as mulheres como cidadãs de segunda categoria, como objetos de prazer e consumo dos homens. Mas é chocante como, ainda hoje, mesmo depois de tantas lutas vencidas rumo à igualdade entre os gêneros, nossa sociedade é tão machista e patriarcal a ponto de muitos homens se sentirem autorizados a se apropriarem à força do corpo de uma mulher. Vários homens entrevistados pelo programa afirmaram rindo que, se estivessem na mesma situação de Gerald Thomas, fariam o mesmo com Nicole. O psicólogo convocado pelo Pânico pra tentar nos fazer acreditar que não houve nada de errado na cena, referendou, mais uma vez, a violência cometida contra ela: “Cumpre registrar que a Nicole é irresistível”. Portanto, segundo ele, não há nenhum problema se qualquer homem resolver tocar uma mulher contra sua vontade, caso a considere irresistível. Isso é uma cultura do estupro.

Por isso, Gerald Thomas, homens como você não se veem como agressores, mesmo ignorando a resistência verbal e/ou física da mulher – como você ignorou as mãos de Nicole Bahls tentando te afastar de seu corpo -, porque muita gente encara esses comportamentos como a coisa mais normal do mundo. Realmente, não há nada de absurdo em ser opressor, porque esse é o padrão de comportamento masculino com o qual somos obrigadas a conviver diariamente. Transgressor é não ser machista.

Como se não bastasse, ele se achou o máximo por supostamente nos alertar sobre as falhas da nossa sociedade:

Somos todos da classe teatral e nossa função é apontar as VOSSAS falhas. E se VOCES se revoltam TANTO, então, já fico contente porque os alertei pra alguma coisa. O que? SIM:

1-        A mulher não é um objeto. Mas não deveria se apresentar como tal

2-        E os homens jamais deveriam se utilizar desse objeto de forma alguma

Seja como for: a única coisa que REALMENTE FIZ foi; tentar levantar a saia de Nicole Bahls e, pela expressão da cara dela nas fotos, she must have had a bahls!

Gerald Thomas, quem falhou foi você. Não há nada de transgressor em compactuar com a violência sexual e psicológica contra uma mulher, e não é você nem homem nenhum que pode dizer como devemos nos apresentar. Somos livres pra escolher como queremos nos vestir e nos comportar sem que isso justifique nenhum tipo de violência cometida contra nós. Você pressupõe que é permitido fazer o que quiser com as mulheres se, do seu ponto de vista, elas te parecem objeto. Mas você não tem esse direito. Ah, um lembrete: artistas também cometem crimes. E não há licença poética para a opressão.

Uma agressão a uma mulher é uma agressão a todas nós. Se ainda precisamos explicar por quê é inaceitável que alguém enfie a mão em qualquer parte do nosso corpo sem o nosso consentimento, existe algo muito errado com nossa sociedade. Cada vez que esse tipo de cena acontece e é amplamente divulgada e tratada com naturalidade, todas nós ficamos mais vulneráveis diante da violência sexual, do olhar de desconfiança da polícia e da sociedade quando denunciamos uma violência, da impunidade que faz homens se sentirem à vontade para estuprarem mulheres numa festa, no assento de um ônibus, numa escada de incêndio, num elevador, numa van, no meio da rua, em plena luz do dia. Assistir a essas violências sendo retratadas como piada contribui para a naturalização desse estado de alerta constante que nos é imposto. Toda mulher tem medo de ser estuprada. Mas nós não deveríamos viver com medo.

Gerald Thomas, nenhuma mulher pede para ser violentada, e reproduzir esse discurso é ser conivente com as violências que mulheres anônimas sofrem todos os dias, a todo momento, no Brasil e no mundo. Você, o Pânico e todas as outras pessoas e programas que contribuem para perpetuar a naturalização da violência contra as mulheres são responsáveis pela manutenção da cultura do estupro na nossa sociedade.

É por isso que a nossa luta ainda é tão extremamente necessária. É por isso que continuaremos questionando, denunciando, marchando e seguindo em frente, cada vez que uma violência for cometida contra uma de nós, até o dia em que conseguiremos destruir o patriarcado, até o dia em que a violência de gênero acabe, até que todas sejamos livres. Enquanto vocês…

Vocês são o retrato patético de uma masculinidade retrógrada que agoniza na tentativa de manter seus privilégios. E vocês vão ficar pra trás.

 

*Bruna Seixas, feminista, cientista social e integrante do coletivo da Marcha das Vadias/DF - http://marchadasvadiasdf.wordpress.com

 

 

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Desafios e possibilidades de uma ampla luta anti-racista no Coletivo da Marcha das Vadias/DF

TEMA: Desafios e possibilidades de uma ampla luta anti-racista no coletivo da Marcha das Vadias.

Este texto foi produzido por ocasião de debate no IV Painel – Racismos e Feminismos da III Semana Gênero e Direito da Universidade de Brasília (25 a 30 de junho de 2012), cuja comunicação se deu no dia 27 desse mês.

Hoje eu estou aqui como Líbia historiadora, Promotora Legal Popular e também como integrante da Marcha das Vadias. Gostaria de frisar bastante esse aspecto (integrante) porque meu nome está na programação como “representante” do coletivo, o que não é o caso, devido ao fato de o movimento ser horizontal, embora isso não exclua assimetrias de ordem etnicorracial, de classe etc. É preciso rejeitar a ideia de representação porque eu não posso dar conta da expectativa de reportar com mais propriedade/autoridade que qualquer outra companheira as discussões realizadas e as estratégias assumidas. Ainda assim, é preciso explicitar que o meu lugar, assim como o de qualquer outra companheira, é um lugar específico, por isso eu entendo que o convite para minha comunicação hoje deva-se ao compromisso que assumi abertamente durante a minha militância quanto à construção de relações pautadas pela equidade de gênero e também etnicorracial.

Como integrante da Marcha das Vadias, entre outras dimensões da atuação política, eu venho apresentar reflexão inspirada em um dos principais desafios que estão colocados hoje dentro do coletivo, por proposições tanto internas quanto externas, pois o coletivo não é hermético ou auto-centrado, está voltado para uma realidade mais ampla e tem construído formas de intervenção nessa realidade complexa, paradoxal etc. Qual é esse desafio? A viabilidade de o coletivo empreender uma luta anti-racista, sendo que a composição de seus quadros é majoritariamente branca, universitária, “motorizada”.

A reflexão que proponho é sobre os desafios e as possibilidades de uma luta anti-racista ser assumida amplamente por um movimento como a Marcha das Vadias. Com isso, pretendo contribuir para o debate sobre a importância das subjetividades dentro dos feminismos em âmbito teórico e em âmbito deliberativo, assumindo a responsabilidade por ser mais provocativa e crítica que conclusiva. Pergunto: como as experiências pessoais e compartilhadas qualificam a atuação política por direitos? Quais condições e limites as experiências impõem aos feminismos?

Essas questões têm seu fundamento na ênfase que os feminismos foram dando às vivências individuais. Principalmente a partir da década de 1960, os processos de formação de uma consciência feminista foram operando a tradução de experiências individuais como efeitos de uma produção social, ou seja, como efeitos de tecnologias de poder. Assim, compuseram-se os termos da proposição que bem conhecemos como: “o pessoal é político”. Grande parte da capilaridade histórica dos feminismos, com grupos demarcando uma atuação em prol do que elaboravam e queriam ver reconhecido como direitos, deve-se ao apelo totalizante da categoria mulher. O processo ocorreu de maneira tão eficaz que ainda hoje os feminismos têm dificuldade em pontuar as especificidades e fazer interlocução com outras categorias como raça/etnia, classe e orientação sexual, idade etc. Mas nem por isso, o uso da categoria mulher é sem sentido, na medida em que lida com aparatos que criam a eficácia dos significados que a própria categoria comporta, entre elas, a apropriação, o auto-reconhecimento como mulher.

Essa dificuldade foi apontada nas discussões de organização da primeira Marcha das Vadias, em junho de 2011. Entre tantas diferenças percebidas e expostas, o dissenso mais demorado foi de caráter etnicorracial. Colocou-se a questão de que muitas mulheres negras não participariam porque não se sentiam contempladas pelo próprio nome do movimento e nem mesmo pela apropriação de uma série de protestos que tiveram origem no Canadá, uma realidade muito distante em vários sentidos. A recusa dessas mulheres negras foi mal recebida. Como recusavam, se somos todas mulheres vulneráveis a estupros? Como recusavam, se temos tão boas intenções? Será que elas não entenderam a ironia do nome “Marcha das Vadias”? Mas porque elas não vieram pra gente explicar o que a gente quer dizer? Será que elas não curtem o lance do “vamos construir juntas”?

Lembrando que essas perguntas são uma interpretação minha do clima naquele momento, aquela discussão fazia lembrar as cisões nos movimentos feministas de mulheres negras e latino-americanas em geral quando expuseram o caráter elitista do feminismo. Fez lembrar como essas divergências foram interpretadas como “criação de caso”, falta de vontade para a união revolucionária que o feminismo possibilitava. Dessa forma, um dos procedimentos mais bem sucedidos do pensamento tradicional/patriarcal continuava atuando: a homogeneização em termos universalistas. E qual o efeito disso? O potencial transformador do feminismo ficava contido nos termos do opressor. Assim, as lutas das mulheres afro-descendentes, pretas ou não, e indígenas só podiam fazer sentido em espaços autônomos, onde a opressão de feministas brancas não invisibilizasse suas demandas. Destacadamente, os feminismos negros foram críticos às formas como se atuava e como se fazia teoria feminista. Os feminismos negros provocaram uma mudança fundamental para a consciência feminista, no sentido de explicitar as relações entre feminismo e outras ideologias como o racismo, o liberalismo, o socialismo, o individualismo etc. No caso de movimentos feministas, o racismo continua tão velado em nossas representações que ficava difícil para as discussões iniciais da Marcha das Vadias perceberem sua extensão a uma recusa veemente de mulheres negras se auto-intitularem “vadias”. Estava difícil perceber que para mulheres afro-descendentes, pretas ou as vistas como “mulatas”, desconstruir esse termo e fazer uso com todo orgulho daquela ironia era bem mais difícil e que talvez não fosse a melhor estratégia.

Até então, a Marcha das Vadias não era um coletivo. Tornou-se um após a realização da primeira Marcha e a vontade das integrantes de continuar as conversar e planejar ações futuras. Quase um ano depois, quando se decidiu organizar a segunda Marcha, em maio de 2012, as discussões etnicorraciais foram reacendidas a partir de insatisfações de mulheres negras com imagens que divulgavam essa segunda Marcha por acontecer. Foram colocadas questões sobre os significados das imagens de mulheres negras e a forma como foram divulgadas. Qual o significado do corpo seminu de uma mulher negra quando em contraste com o corpo vestido de uma mulher branca? Como a cultura machista/racista/elitista brasileira tem sublinhado as características dos corpos de mulheres negras, pretas e “mulatas”? Quais os corpos vistos como ícones nacionais que, dispostos ao lado da palavra “vadia”, confirmam a história de luxúria, lascívia e do frevo racial no Brasil? Nesse segundo momento, não foi possível deixar de pensar as violências machistas sem considerar o histórico de violências que as mulheres negras vivenciaram e são hoje contadas como um romance de formação da cultura nacional.

Fizemos reuniões para discutir essas questões e nos demos conta de que muitos esforços ainda precisariam ser feitos pós-marcha, quando teríamos um calendário mais largo para nos dedicarmos a essas questões, assim como o machismo, estruturantes de nossa realidade sócio-cultural. Entre as possibilidades aventadas para abordarmos as relações raciais, foi colocada a de formarmos grupos de mulheres negras, brancas e também indígenas, pois tivemos enriquecedores apontamentos de uma companheira indígena que expôs a necessidade de pensarmos sobre essas mulheres também perversamente invisibilizadas.

Junto com essa possibilidade de um amplo debate etnicorracial, vieram diversas perguntas: formamos um grupo apenas ou dividimos em grupos segundo o pertencimento etnicorracial? Será que as nossas identidades étnicas são óbvias a ponto de podermos nos dividir eficazmente? Mulheres brancas são capazes de saírem de suas zonas de conforto para discutirem racismo, uma tecnologia de poder que as privilegia em relação a outras?

Entre os aspectos ainda indefinidos quanto ao sentido de nossa atuação e as estratégias de intervenção, acredito que devemos ter em mente que as mulheres brancas também são racializadas, pois o status de mulheres brancas também é demarcado. Precisamos colocar nossas experiências de sermos mulheres negras, indígenas, brancas, pardas, lésbicas, bissexuais, com filhos, cristãs, ateias, taurinas, escorpianas, aquarianas etc… precisamos colocar essas experiências no cerne de nossas preocupações, interrogando os processos pelos quais somos constituídas como pessoas com todas as nossas especificidades. Isso abre caminhos para a percepção das diferenças e para vias de construção conjunta das transformações, pontuando nossos lugares, mas não absolutizando esses lugares. Não podemos pensar e nem mesmo agir como se nossos lugares fossem óbvios. Além disso, agora falando como feminista historiadora, sem querer ser doutrinária: precisamos reagir à política de esquecimento que o machismo, o mito da democracia racial, a heterossexualidade normativa nos colocam como dados e nos empoderar contra a inércia do dia a dia.

Para finalizar, apoio-me nas palavras da historiadora Sandra Azeredo: “é preciso considerar gênero tanto como categoria de análise quanto como uma das formas que relações de opressão assumem numa sociedade capitalista, racista e colonialista.” De acordo como a leitura que faço, uma das condições para que assumamos uma ampla luta anti-racista é percebermos que se esses são os aspectos constituintes da realidade sócio-cultural que os feminismos visam a transformar, portanto, dizem respeito a todas e todos que visualizamos as assimetrias desse quadro.

 

Líbia Rany Oliveira Nascimento, historiadora e integrante do Coletivo Marcha das Vadias/DF

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Marcha do Parto em Casa, esse domingo, 17/06, em Brasília e outras cidades!

“A história da obstetrícia é a história de uma luta em busca de poder. A história da obstetrícia é a história da exclusão da mulher, da depreciação do universo feminino, da transformação de uma atividade inerentemente feminina, natural e fisiológica em um procedimento médico, androcêntrico, tecnocrático e cheio de riscos imanentes” (Marcos Leite dos Santos, em tese pela Universidade Federal de Santa Catarina:  http://www.tempusactas.unb.br/index.php/tempus/article/view/829/792)

A Marcha do Parto em Casa de Brasília acontecerá no domingo, dia 17/06, às 9:30 da manhã, no Parque da Cidade (próximo ao Quiosque do Atleta). Abaixo, segue um ótimo texto sobre a importância dessa manifestação:

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O domingo do dia 17 de junho promete amanhecer rosa choque em várias capitais do Brasil com a Marcha do Parto em Casa. Porto Alegre, Florianópolis, Salvador, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Fortaleza, Brasília, Natal e mais algumas cidades do interior serão palco de manifestações das mulheres pelo direito de escolher o local em que querem parir, incluindo aí não apenas a recusa imediata de submeterem-se à posição em decúbito dorsal e terem as pernas amarradas em maternidades públicas e privadas do Brasil, mas principalmente o direito, garantido por lei, de parir em casa, como quiserem e na posição que acharem mais confortável no momento da expulsão.

As coisas pareciam calmas na área e, ainda que os partos domiciliares mal batam em 2% no país, o interesse por essa opção tem crescido no Brasil. As mulheres mais antenadas estão começando a se dar conta que parir em casa pode, entre outras vantagens, ser uma forma segura de não passar pela violência obstétrica http://www.partocomprazer.com.br/?p=2333

Mais do que isso, pode ser uma maneira seguramente amorosa de não sofrer e não permitir que o filho recém-nascido sofra intervenções que podem vir a ser prejudiciais à saúde física e emocional da dupla mãe-bebê, afinal o bebê saudável está, segundo as evidências, http://www.scielosp.org/pdf/rsp/v45n1/1717.pdf mais seguro no colo da mãe e mamando na primeira hora de vida imediata e não sendo medido, pesado e vacinado antes mesmo de mamar.
Mas então, afinal, se são só 2% e se podem escolher parir em casa com os poucos obstetras e parteiras disponíveis, para que manifestação em tantas praças públicas?

É que essa pequena parcela da população está sendo ameaçada de perder a assistência que quer e acredita merecer por represálias cada vez mais insistentes dos conselhos regionais e federal de medicina do país.

Um dia após uma matéria sobre a segurança e legitimidade do parto domiciliar, feita pelo Fantástico, programa da Rede Globo de televisão, o Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro-CREMERJ- enviou denúnciahttp://www.jb.com.br/rio/noticias/2012/06/11/cremerj-abrira-denuncia-contra-medico-que-defende-parto-domiciliar/
ao Conselho Regional de Medicina de São Paulo-CREMESP- contra o obstetra Jorge Kuhn, que concedeu entrevista ao programa dominical. http://globotv.globo.com/rede-globo/fantastico/t/edicoes/v/parto-humanizado-domiciliar-causa-polemica-entre-profissionais-da-area-de-saude/1986583/

Muito amena, rápida e de pouca profundidade, como é praxe do estilo Rede Globo, a matéria sequer falou das evidências que comprovam ser o parto domiciliar tão seguro quanto o hospitalar para as gestantes de baixo risco. O obstetra Jorge Kuhn afirmou com veemência que apenas gestantes de baixo risco devem optar pelo parto domiciliar. E mais nada, a entrevista com ele foi editada em cima dessa fala que reporta os espectadores exclusivamente para a questão da segurança, sem abordar as muitas vantagens dos partos domiciliares já comprovadas por estudos da Medicina Baseada em Evidências.
Rapidamente alguns obstetras simpatizantes e praticantes da humanização do parto e do nascimento se uniram às redes de mulheres que exigem que se cumpra a lei da liberdade de escolha pela posição e local do parto; criaram uma carta aberta e uma petição pública http://partodoprincipio.blogspot.com.br/2012/06/carta-aberta-em-repudio-ao-cremerj.html
Mais do que defender um colega, a carta e a petição exigem publicamente que os conselhos regionais e federal de medicina respondam com base em evidências às ameaças e atitudes arbitrárias baseadas em crenças médicas derrubadas por sucessivos estudos científicos nos últimos anos.

“Não é possível admitir o arbítrio e calar-se diante de tamanha ofensa ao direito individual. Não é admissível que uma corporação persiga profissionais por se manifestarem abertamente sobre um procedimento que é realizado no mundo inteiro e com resultados excelentes. A sociedade civil precisa reagir contra os interesses obscuros que motivam tais iniciativas. Calar a boca das mulheres, impedindo que elas escolham o lugar onde terão seus filhos é uma atitude inaceitável e fere os princípios básicos de autonomia.



Neste momento em que o Brasil ultrapassa inaceitáveis 50% de cesarianas, sendo mais de 80% no setor privado, em que a violência institucional leva à agressão de mais de 25% das mulheres durante o parto, em vez de se posicionar veementemente contrários a essas taxas absurdas, conselhos e sociedades continuam fingindo que as ignoram, ou pior, as acobertam e defendem esse modelo violento e autoritário que resulta no chamado “Paradoxo Perinatal Brasileiro”. O uso abusivo da tecnologia contrasta com taxas gritantemente elevadas de mortalidade materna e perinatal, isso em um País onde 98% dos partos são hospitalares!

Escolher o local de parto é um DIREITO humano reprodutivo e sexual, defendido pelas grandes democracias do planeta. Agredir os médicos que se posicionam a favor da liberdade de escolha é violar os mais sagrados preceitos do estado de direito e da democracia. Ao invés de atacar e agredir, os conselhos de medicina deveriam estar ao lado dos profissionais que defendem essa liberdade, vez que é função da boa Medicina o estímulo a uma “saúde social”, onde a democracia e a liberdade sejam os únicos padrões aceitáveis de bem estar.

Não podemos nos omitir e nos tornar cúmplices dessa situação. É hora de rever conceitos, de reagir contra o cerceamento e a perseguição que vêm sofrendo os profissionais humanistas. Se o CREMERJ insiste em manter essa postura autoritária e persecutória, esperamos que pelo menos o Conselho Regional de Medicina de São Paulo (CREMESP) possa responder com dignidade, resgatando sua função maior, que é o compromisso com a saúde da população.”

O cerco contra as atitudes arbitrárias dos conselhos de medicina está fechando e se os médicos que apoiam as políticas dos conselhos acham que estudaram demais para graduarem-se e que todas as pessoas que criticam os abusos médicos e as iatrogenias são invejosas e gostariam de ser médicas; é bom rever conceitos e ler mais publicações baseadas em evidências porque é isso que as mulheres comuns, leigas de todas as profissões, e mesmo as não graduadas andam fazendo para reivindicar direitos e uma prática baseada em recomendações científicas, não em maus hábitos, crenças pessoais e interesses particulares dos obstretas.

A perseguição às parteiras na década de 1940 praticamente baniu a prática do parto domiciliar no Brasil. O parto, inicialmente um ato fisiológico, feminino, um verbo, uma ação, passou a ser um ato médico e a cesariana, um ato médico de fato, começou a ser usada para desqualificar a potência do corpo feminino, como explica tão bem o osbtetra Marcos Leite dos Santos, em tese pela Universidade Federal de Santa Catarina UFSC:“A história da obstetrícia é a história de uma luta em busca de poder. A história da obstetrícia é a história da exclusão da mulher, da depreciação do universo feminino, da transformação de uma atividade inerentemente feminina, natural e fisiológica em um procedimento médico, androcêntrico, tecnocrático e cheio de riscos imanentes”http://www.tempusactas.unb.br/index.php/tempus/article/view/829/792

O modelo hospitalocêntrico no Brasil é tão arraigado que quando uma mulher não consegue segurar a expulsão do bebê e acaba parindo na segurança do lar, sozinha ou assistida por bombeiros, é removida imediatamente para um hospital em vez de ser atendida em casa por uma equipe multidisciplinar do posto de saúde mais próximo. Fique claro que ao serem removidos, ela e o bebê correm riscos maiores de contrair infecções ou vírus.

Enquanto isso, na Alemanha, as mulheres não somente podem escolher como, onde e com quem querem parir, como também podem optar por um parto considerado como de risco maior mesmo pelos humanistas, como o parto desassistido.

Enfim, é muito retrocesso, em vez de estarmos discutindo o quanto um parto desassistido pode ser mais perigoso do que um parto assistido por profissionais da saúde que estudaram as várias indicações para remoção etc, estamos discutindo se um parto é um ato médico e necessariamente hospitalar, estamos discutindo por que perder 2%, 5%, talvez daqui 20 anos 30% de clientes parturientes, é tão importante para a corporação política e econômica da medicina.
E nessas horas a única coisa que vale é mesmo as mulheres irem para as ruas com os cartazes que gritam: “Não precisamos do seu Conselho para parir”.

 

Cláudia Rodrigues

(Fonte: http://buenaleche-buenaleche.blogspot.com.br/2012/06/nao-precisamos-do-seu-conselho-para.html)

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31 de maio sem MP 557: vitória das mulheres brasileiras

Segue, abaixo, texto de Kauara Rodrigues, do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea), a respeito da vitória de hoje!

31 de maio sem MP 557: vitória das mulheres brasileiras

No mês de combate à mortalidade materna, comemorado em 28 de maio, nós, mulheres brasileiras, devemos celebrar uma importante conquista dos movimentos feministas: a equivocada Medida Provisória nº 557/2011 perde hoje, dia 31 de maio, a sua validade.

A MP, editada pelo Governo Dilma em 26 de dezembro de 2011, visava instituir o cadastro compulsório das gestantes para supostamente garantir a saúde da mulher e do nascituro. Além disso, ela previa o pagamento de um auxílio-transporte ao pré-natal, no valor de R$ 50.

A justificativa era reduzir a mortalidade materna, que possui taxas elevadíssimas no Brasil. Em 2010, foram registradas 68 mortes maternas para cada 100 mil nascidos vivos. Para a Organização Mundial de Saúde (OMS) o máximo deveria ser de 20 casos de morte materna a cada 100 mil nascimentos. Reduzir a mortalidade materna é uma das metas do milênio, que dificilmente será cumprida pelo nosso país até 2015, já que a queda tem sido lenta nos últimos anos.

Desde que a Medida foi editada, sem nenhum diálogo com a sociedade civil comprometida com o tema, os movimentos feministas e de mulheres, assim como setores da saúde coletiva e de direitos humanos, têm se mobilizado e feito duras críticas para impedir sua aprovação. Isso porque, ao contrário do que se propõe, a MP não é capaz de combater a mortalidade materna.

O texto enviado ao Congresso Nacional não dialoga com agenda dos direitos sexuais e direitos reprodutivos, tampouco com as estratégias já construídas coletivamente, como o Plano Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PNAISM), de 2004.

Ademais, entendemos que a vigilância epidemiológica é pertinente e relevante, mas deve se voltar aos serviços de saúde e não às mulheres, o que viola o direito à privacidade e ao sigilo. É importante ressaltar que o problema da mortalidade materna no país está principalmente na falta de qualidade dos serviços e do atendimento prestado às mulheres gestantes e não no acesso ao pré-natal, que tem aumentado significativamente no país. As mulheres estão morrendo dentro dos hospitais e das maternidades!

Entre o conjunto de erros trazidos no bojo da Medida está também o financiamento da bolsa a partir da aplicação de recursos da saúde para uma ação típica de assistência social.

Outro ponto problemático era a figura do nascituro no texto original da legislação, que representava um grave retrocesso aos direitos já conquistados pelas mulheres, ao inviabiliza o atendimento daquelas que tivessem decidido voluntariamente interromper a gravidez, inclusive nos casos permitidos por lei. Em janeiro de 2012, a presidenta Dilma Rousseff reconheceu o erro e reeditou a MP, retirando o artigo do nascituro, após muita pressão. Apesar de a mudança representar uma primeira vitória dos movimentos feministas, ela ainda era insuficiente.

Ao chegar ao Congresso Nacional, conforme havíamos alertado, a Medida recebeu 114 emendas ao seu texto, algumas positivas e outras ainda piores, que traziam inclusive a figura do nascituro novamente. Assim, todas as demais falhas apontadas na Medida se mantiveram presentes, com o risco de serem votadas e tornadas lei por bancadas comprometidas com o conservadorismo religioso e moral, sedentas por cargos no governo federal e sem nenhuma preocupação com a vida e a saúde das mulheres.

Diante disso, os movimentos feministas intensificaram uma verdadeira jornada contra a MP 557, por meio de inúmeras manifestações públicas, notas de repúdio, mobilizações nas redes sociais, reuniões com membros do governo federal e parlamentares, com o Conselho Nacional de Saúde e em especial com a Comissão Intersetorial de Saúde da Mulher.

Por isso, hoje, sem a votação da Medida Provisória 557/2011 e com a consequente perda de sua eficácia, parabenizamos todas e todos que lutaram para esse resultado, e aproveitamos para celebrar a força dos movimentos feministas lembrando que não aceitamos quaisquer medidas que ameacem e retrocedam nossos direitos reprodutivos. Lutamos por políticas públicas de saúde que respeitem nossa autonomia, com ênfase na saúde integral das mulheres!

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“eu, minha filha e todas as mulheres do mundo”, relato de Regilane Fernandes

Abaixo, segue mais um relato emocionante que nos enviaram por e-mail, sobre mãe e filha, preconceito, violência, luta e sobre a importância “de ser Mulher e de ser COLETIVA”.

*

Prezadas companheiras,

Sou mãe da Bruna, menininha que aparece em destaque nas fotos do facebook da Marcha, no sábado.

Uma foto linda em que aparece tranqüila e bela, com o Espelho de Vênus pintado no rosto.

Símbolo da luta feminina, feminista.

Mais que isso: símbolo da trajetória de algumas das nossas sábias antecessoras.

Símbolo que nos une as nossas ancestrais.

Símbolo de suas vidas-mortes marcadas pela violência moral, psicológica, física, sexual… mas, também marcada por sua força, resistência, pioneirismo, humanidade, cumplicidade com Gaia, a Grande Mãe.

Foi com essa consciência que levei minha filha Bruna à Marcha.

Como momento de conexão dela com suas ancestrais e com suas contemporâneas… todas mulheres… E, em especial naquele dia, mulheres cercadas por homens que não têm medo de expressar sua metade feminina, feminista, não-machista.

Pois bem, uma amiga muito querida me mostrou a pouco a foto da Bruna no face.

Me emocionei com tudo.

A  foto.

O “tema” alusivo a educação como processo libertário.

Os comentários carinhosos.

Infelizmente, no meio deles, uma moça (não vou chamá-la companheira porque esta AINDA não é) colocou como comentário apenas a palavra “ridículo”.

Vejam, não tenho facebook por opção.

Então, escrevo este email pra dizer de alguma forma a esta moça que eu entendo sinceramente sua atitude.

Parece-me que ela é, como infelizmente muitos e muitas ainda são, um ser alienado e alienante, que não conseguiu passar pelos processos que resignificam nossa visão e nossa forma de ser e estar no mundo.

Se tivesse conseguido isso, saberia que ridícula é a fome.

Ridícula é a guerra.

Ridícula é a quantidade de crianças que sofrem violência doméstica sob o consentimento silencioso de uma sociedade que teima em fechar os olhos para as atrocidades cometidas no ambiente familiar (não vou chamar “seio familiar” porque “seio” é alusivo a peito, colo. E peito é sagrado, é lugar de aconchego, amor, cuidado e não de violência).

Ridículo, moça, é ficar em casa parada enquanto mulheres em todo o mundo morrem mutiladas, estupradas, violadas. Violência que, na grande maioria das vezes, lhes causa estrago mais no espírito que no corpo.

Ridícula é essa sociedade de classes que nos torna muitas vezes sectários/as, egoístas, desumanos/as.

Ridículo é não perceber o significado daquela Marcha…

Ridículo é não perceber que o Brasil mudou e está mudando.

E precisamos acompanhar e fazer juntas essa mudança.

E mudou tanto que é hoje governado por uma MULHER.

Mulher que sofreu muito, por ser cidadã consciente de direitos.

Mulher que foi torturada em tempos de ditadura pra que você usufruisse hoje exatamente disso que está fazendo: o direito da livre expressão.

Mulher que também foi, um dia, tachada de ridícula, terrorista, anarquista e, talvez, até vadia.

Ridículo seria eu, como mãe da Bruna, ficar calada diante do seu comentário infeliz, moça.

E não lhe dizer essas coisas como uma oportunidade de lhe trazer pra lucidez de ser Mulher e de ser COLETIVA!

Ridículo seria eu não acreditar que uma hora dessas essa sua cegueira vai passar e você vai conseguir, assim como eu, rir e indignar-se na medida certa que a vida espera de nós.

(Regilane Fernandes)

Foto: Alexandra Martins / Marcha das Vadias DF 2012

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“littlegirlslut”, lindo texto de Simone de Lima sobre sua experiência na Marcha das Vadias

A Marcha das Vadias, desde o ano passado, é um momento dentro de um processo extremamente empoderador para centenas de mulheres, e no último sábado não foi diferente. Muitas se sentem protegidas e seguras ao lado de tantas mulheres marchando juntas, outras se sentem encorajadas a gritar, pela primeira vez, que não têm culpa pelos estupros ou as agressões que sofreram e que a culpa é sempre do estuprador! São muitas emoções diversas e fortalecedoras! Algumas dessas mulheres fantásticas resolveram compartilhar os seus relatos com a gente, e é com muita gratidão que os publicamos aqui, para que sejam lidos por milhares de mulheres que provavelmente se sentirão tão identificadas e fortalecidas quanto nós nos sentimos. Ainda temos de enfrentar diversas agressões todos os dias, mas a Marcha das Vadias é o nosso momento de liberdade, nosso espaço de força e empoderamento, é a nossa voz sendo ouvida por milhares de pessoas! NÃO NOS CALAREMOS!

Continuaremos marchando até que todas sejamos livres!

*

littlegirlslut

Eu só notei ali, na descida da rodoviária. Muitos anos sem andar por lá, depois da condição de motorizada e a vida mais pras bandas norte do que sul. Meio sem voz de tanto gritar, sozinha porque já tinha me desencontrado de tanta gente querida, vi os cartazes que eu já tinha visto, pensei naquilo que já tinha pensado, e, num repente, senti integralmente  o que eu já tinha tentado sentir:

NADA JUSTIFICA.

NÃO SOU CULPADA.

O CORPO É MEU.

 , uma coisa súbita e forte, aquela multidão de mulheres de todas as idades e de homens-que-respeitam-mulheres gritando juntos, tomando aquele lugar que sempre foi inóspito para a  adolescente,  por conta dos homens que vinham mexer, falar, tentar passar a mão,  irritantemente confirmando a profecia do meu pai, “Tá achando que vai sair assim? Vilneyde, manda a sua filha trocar de roupa! “. O mesmo pai que me disse, no dia em que comprei, feliz, minha primeira camiseta feminista, Corpoéparaamar escrito no peito:  ” vai provocar um estupro” Entendi então, ali, na rodô:   quem teve vergonha fui eu,  mas essa vergonha-culpa que eu carrego  não me pertence. Uma culpada de  4 anos de idade, pelos abusos  que sofreu? Porque a coisa falante me dizia, se você disser pros seus pais, eles não vão acreditar. E vão falar que você é feia. Que poder, me convencer, fundar em mim essa identidade:  Não acreditam em mim, e ainda por cima, sou feia por que deixei que fizesse aquilo comigo. Quando, aos 11 anos, me deparei com a memória  e entendi o que tinha ocorrido, foi com alarme,  pânico , mas principalmente vergonha, que feia, que suja, que nojo, como eu deixei?  Nada justifica, o cartaz que passou ficou reverberando, nada, nada, nada justifica. A vergonha que as meninas e mulheres e senhoras em minha volta, algumas bravamente, outras tentativamente, estavam rasgando, desfazendo, desdenhando, descontruindo, aos gritos,  em estrondos,  na rodoviária. Eu a menina de 4 anos, eu a adolescente, eu a  mulher, eu todas, andando sem medo, o nó da garganta jorrando líquido pelos olhos, eu a menina, sem culpa, sem vergonha, protegida por  multidão solidária, o  exército de  meninas de rostos cobertos, punhos roxos, rápidas no gatilho, articuladas, lindas e altivas, ah, se elas estivessem lá para me defender, ele ia ver só, mas era como se se os tempos se tivessem unido, elas lá e me defendendo, e agora estava  tudo bem, todos os homens maus do mundo fugindo , nós marchando, vadias e santas, mulheres, crianças, adolescentes, livres.

(Simone de Lima)

Foto: Alexandra Martins / Marcha das Vadias DF 2012

“Ai, que vadia!” – Vídeo-convite pra Marcha das Vadias/DF

A violência física contra a mulher é só o último estágio de uma série de violências verbais, simbólicas, psicológicas e morais que atingem as mulheres todos os dias. Homens que estupram e agridem mulheres não são doentes: são fruto de uma sociedade profundamente machista que a todo momento estimula comentários que menosprezam, depreciam e agridem as mulheres, de forma tão naturalizada que muitas vezes nem percebemos. Para acabar com o machismo na sociedade é preciso, antes de tudo, encarar o machismo em nós mesmas/os. É por isso que dizemos, sem medo ou constrangimento:

Se ser livre é ser vadia, somos todas vadias!

Marcha das Vadias/DF 2012, 26 de maio, 13h, concentração em frente ao CONIC

“Por que ser vadia?”, texto de Gil Piauilino

Por que ser vadia?

Em janeiro de 2011, na Escola de Direito Osgode Hall em Toronto no Canadá, um policial ministrava uma palestra sobre segurança para as/os estudantes. Em determinado momento da palestra disse: “As mulheres devem evitar vestir-se como vadias, para não se tornarem vítimas de ataques”. Logo depois as estudantes dessa mesma Universidade saíram às ruas em protesto contra o discurso de culpabilização das vítimas de violência sexual e de qualquer outra forma de violência contra as mulheres, e dizendo não, minha roupa não é um convite ao estupro. Foi a primeira Slut Walk!

No Brasil, no segundo semestre desse mesmo ano, traduzindo a “Slut Walk”, a Marcha das Vadias ocorreu em diversas cidades brasileiras. Internacionalmente a Marcha atingiu mais de 10 países. Este ano a Marcha das Vadias da Capital Federal segue o calendário da Marcha Nacional da Vadias, 26 de maio. Em 2011 foram mobilizadas mais de 2 mil pessoas e nesse ano a expectativa é ainda maior: 5 mil mulheres, homens e crianças marchando pelo fim da violência contra a mulher, por seu direito de ir e vir sem sofrer nenhum tipo de humilhação, repressão ou violência.

A violência contra a mulher assume as mais variadas formas e justificativas, quantos e quantas não se pegaram dizendo ou pensando “Mas também com aquela roupa…” “Beber que nem homem dá nisso!” O comportamento da mulher sempre foi vigiado pela Igreja, pelo Estado, pelos pais, pelo tio, pelo irmão mais velho, pelo namorado. Esses últimos reproduzem o que a moral vigente colocou, como se a forma mais justa de nos relacionarmos fosse à subjugação de um ser pelo outro. Não importa quem sustente a casa, não importa em que grau na relação de poder a mulher se encontre, a vigilância predomina.

O misto dessa relação que subjuga a mulher, essa concepção de comportamento de que mulher é a frágil, a dócil, a mãe que padece no paraíso, – chegando até a santificar com o termo o “dom de dar a vida”. Qualquer comportamento que vá contra, não seguindo esses padrões, é encarado e respondido com violência, seja ela psicológica, física, moral, sexual ou patrimonial.

Segundo a pesquisa Mulheres Brasileiras nos Espaços Público e Privado da Fundação Perseu Abramo/SESC, uma em cada cinco mulheres consideram já ter sofrido alguma vez “algum tipo de violência de parte de algum homem, conhecido ou desconhecido”. Diante de 20 modalidades de violência citadas, no entanto, duas em cada cinco mulheres (40%) já sofreram alguma, ao menos uma vez na vida, sobretudo algum tipo de controle ou cerceamento (24%), alguma violência psíquica ou verbal (23%), ou alguma ameaça ou violência física propriamente dita (24%).

A nossa sociedade marcada pelo patriarcado exerce em sua relação, não por acaso, uma moral burguesa, que perpassa pelo homem o poder de mando e desmando nas relações familiares e que estende a ele a autoridade sobre a mulher e os/as filhos/as e empregados/as como sua propriedade, o coloca em uma posição superior em relação à mulher, que lhe permitia em âmbito privado, não ter suas atitudes questionadas.

Toda essa lógica ainda é concedida tanto por autoridades religiosas que compactuam com essa dominação, quanto pelo modelo de sociedade conservadora que temos e o seu modo de produção, que acabam por estimular esse tipo de hierarquia que promove a desigualdade entre homens e mulheres.

O que antes era visto apenas como caráter privado, hoje depois de muita luta vem se tornando também de esfera pública. Temos leis específicas que visam proteger as mulheres de seus agressores, tendo a Lei Maria da Penha como a principal delas. Atualmente o Governo Brasileiro por meio da SPM – Secretaria de Políticas para as Mulheres visa atender as essas e outras demandas que perpassam pelo recorte de gênero. O Estado não está dissociado da sociedade e dela compõe, e não fica livre também de visões, percepções conservadoras que incidem diretamente nas políticas. Também o Movimento de Mulheres exerce um papel fundamental de pressionar e por vezes pautar a que lógica essas políticas devem ser concebidas, visando sempre a autonomia da mulher e, com isso, sua emancipação.

Os números revelam que lógica de sociedade vivemos: segundo o Relatório Anual de 2011 do Centro de Atendimento à Mulher – Ligue 180, 93,52% das ligações com relatos de violência eram de violência doméstica e familiar; 72,23% dos casos são acometidos por companheiros e cônjuges das vítimas e 2,23% são namorados das mesmas. Há ainda um elevado número de casos de violência cometidos por ex-maridos (11,82%) e ex-namorados (4,47%). Isso demonstra que em quase 91% das agressões são acometidas por pessoas com que as vítimas tem ou tiveram vínculos afetivo.

Pode-se dizer que o âmbito familiar, sendo a família no molde conservador encarado como uma das instituições que reproduzem a lógica patriarcal, mesmo não ocorrendo violência física, há a reprodução advindas dele, o sexismo, o machismo, a homo-lesbo-bi-transfobia, misoginia, entre tantas outras formas de opressão que são manifestadas nos mais diversos lugares de convivência social.

Finalizando os números, segundo o Relatório Anual de 2011, sabe-se que 59,51% das vítimas não dependem financeiramente do agressor. De posse desses índices problematiza-se que a elaboração das políticas devem construir mecanismos para além da autonomia financeira, mas também emocional e social das mulheres.

Devemos mudar essa nossa cultura conservadora e machista que ditam regras sociais, abrindo espaço para todo e qualquer tipo de violência contra a mulher. Devemos nos espaços privados começar a repensar qual papel você exerce e quais atitudes são reproduzidas. Temos que questionar, desconstruir, não encarar como natural que a figura feminina sempre está numa relação desvantagem, o social é construído e o acaso não tem vez nas relações de poder.

A Marcha das Vadias é um movimento que vai às ruas para questionar o papel que nos é colocado enquanto mulheres. A palavra vadia tanta vezes usada para ofender e machucar, hoje passa por uma ressignificação, estratégia essa usada pelo movimento. Porque somos chamadas de vadias a todo o momento, seja diretamente quando falamos sim e o sexo rola, seja quando dizemos não e o ego masculino fica ferido, ou seja, em qualquer mesa de bar, quando um desses casos é contado para os amigos. Somos chamadas de vadias se exercemos a nossa sexualidade livremente, tal qual o homem exerce e sendo estimulado para isso, se caso quiser. Somos chamadas de vadias se usamos um decote, uma saia, uma roupa justa enquanto essa vigilância sobre os corpos não é voltada em nenhum grau ao homem. Somos chamadas de vadias por transar com quem e quantos quisermos, vestir o que quisermos, nos comportar da maneira que mais nos agrada, somos chamadas de vadias por queremos ser livres.

Se ser livre é ser vadia, somos todas Vadias!

 

(Gil Piauilino, estudante de Serviço Social na UnB, integrante do Coletivo da Marcha das Vadias/DF)

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“Palavras de ordem + Palavras de respeito: os cartazes para a Marcha das Vadias”, texto da SlutWalk Belo Horizonte

“A Marcha das Vadias está aí e vai ganhar as ruas de Belo Horizonte no próximo dia 26.

Trata-se de um ato a favor da liberdade, da diversidade e contra a violência contra a mulher. Mas no que consiste essa violência? Como abordá-la nas manifestações?
Em primeiro lugar, devemos lembrar que a violência contra a mulher não é apenas a agressão física, sexual ou psicológica. A violência aparece de forma desavisada, muitas vezes, na linguagem.
Tanto é que esse é um mote importante da Marcha das Vadias: queremos nos apropriar de expressões que comumente são usadas para rotular e agredir as mulheres que não seguem a cartilha dos “bons modos”.
Nesse sentido, é sempre bom lembrar que a batalha da Marcha das Vadias passa também, e muito, pelo campo das palavras, dos seus significados, de se seus pesos e conotações sociais.
Assim, antes de escrever o seu cartaz, sua faixa ou inscrever em seu próprio corpo um lema, lembre-se disso. Lembre-se que a sua palavra pode excluir, machucar, ferir, violentar. Parece exagero?
No ano passado, na primeira edição da Marcha em Belo Horizonte, por exemplo, a tentativa de abarcar a diversidade de comportamentos e escolhas acabou por desencadear um mal entendido para com as prostitutas que, a nosso convite, optaram por aderir à Marcha, na luta por respeito.
Uma frase recorrente nos cartazes e corpos das manifestantes foi a emblemática “Nem Santa Nem Puta”. Uma frase forte, potente, que visa a questionar os extremos por meio dos quais a sociedade insiste em dividir as mulheres, ignorando a multiplicidade de escolhas e de comportamentos a que estamos sujeitas todos os dias.
Em todo caso, uma frase também ambígua, que foi interpretada por algumas prostitutas como uma exclusão, como se o que estivéssemos rechaçando não fosse o rótulo, mas as próprias putas. Como se não quiséssemos nunca ser confundidas com santas, tampouco com putas.
Entendemos que se trata de um grupo que é essencial para o fortalecimento da Marcha e que deve ser incluído, de forma orgânica, tanto na manifestação quanto em sua organização, sobretudo porque é uma luta que diz respeito direto a elas: quando vítimas de abuso, as prostitutas são atendidas com desconfiança e desprezo nas repartições, como se, na profissão delas, sofrer abusos e ser vitimada por crimes fosse algo
natural. Tanto é que grande parte delas já nem pensa mais em notificar a polícia quando sofre violência, pois sabe que sua queixa não merecerá crédito, pois de vítima ela pode passar a ser considerada culpada.
Por isso, ainda que frases como “Nem Santa Nem Puta” possam ser compreendidas como uma crítica ao estigma e ao preconceito, uma vez que identificamos que pode haver certo desconforto por parte daquelas que são putas por profissão, optamos por aconselhar aos participantes da marcha que evitem provocações que possam ter interpretações excludentes.
Afinal de contas, nossa proposta é unir, e nunca segregar!
Todas as santas, todas as putas, todas as vadias, todas as mulheres; todas nós exigimos respeito.”

“Vá-dia de violência contra a mulher”!

Reproduzimos, abaixo, lindo texto da Marcha das Vadias de Campinas, pra aumentar ainda mais a nossa vontade de marchar!

Até sábado, nos vemos nas ruas!  ;)

*

Vá-dia de violência contra a mulher
Vá-dia de estupro
Vá-dia de soco, pontapé, pancada

Vá-dia da palavra mal colocada.

Hoje é dia de não adiar:
Não adiar os milênios
de Pudor
de Medo
de Violação

Se somos iguais, me mostre a diferença:
não sacrifique seu desejo em mim!

Vá-dia, e adia o silêncio:
das mães
das filhas
das santas e das putas

Dessas nós, mulheres

Que de corpo marcado
Trazemos a cara pintada
Pra ter a alma lavada:

Basta!

(Coletivo Marcha das Vadias Campinas: http://marchavadiascampinas.wordpress.com/2011/08/12/marcha-das-vadias-11-08-2011/)

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