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Hoje o grito não é de carnaval!

Ontem quatro mulheres foram brutalmente agredidas no Balaio Café pelo simples fato de serem lésbicas. Uma agressão que, certamente, foi mais sentida pelas vítimas, mas que é contra tod@s nós lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e trangêneros. Um ato violento, indiscutivelmente machista, racista e lesbo-trans-homofóbico.

Antes de ontem foram duas mulheres! Hoje são mais quatro que vieram a público! Não podemos tolerar violências diárias contra nossos corpos, nossa orientação sexual, nossa condição de gênero e nossa raça/etnia. O machismo, o racismo e a lesbofobia precisam ser denunciados, os agressores punidos, e as pessoas vitimizadas protegidas.

Exigimos  uma resposta imediata do Governo, dos orgãos de segurança pública e de Direitos Humanos a respeito dessas violências. A insuficiência das políticas do governo não consegue responder de forma eficaz ao enfrentamento da homofobia, e à violência institucional cometida contra tod@s nós lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais  e transgênero.

O descaso do Governo do Distrito Federal, que sequer se pronuncia sobre muitos dos casos de violência discriminatória no DF, se configura como um desrespeito às pautas de Direitos Humanos e à luta dos movimentos sociais. No ano passado, o Governador revogou, horas depois de sua publicação, a regulamentação da lei que punia administrativamente a homofobia.

O Distrito Federal é uma das unidades da federação em que mais se registra agressões físicas à população LGBT. Além disso, o GDF possui uma Coordenadoria da “Diversidade Sexual” instituída à Secretaria de Justiça Direitos Humanos e Cidadania (SEJUS/DF), que pouco faz pela comunidade LGBT. Estes organismos precisam apresentar com urgência uma proposta de ação e medidas cabíveis para enfrentar esta violência.

Só esse ano no Brasil foram mais de 60 casos noticiados de assassinatos a pessoas LGBTs. O Brasil segue sendo o país onde mais se mata LGBTs. Apesar da dor, precisamos secar nossas lágrimas e responder de forma contundente ao ocorrido, nesse momento, em que a sociedade brasileira vê crescer discursos autorizativos da intolerância,  violência,   homofobia e racismo que têm sustentado atos hediondos de violência.

Fundamental transformarmos nossa indignação em ação e continuar nossa luta!!

Nesse carnaval sairemos em bloco na luta contra as lesbo-homo-transfobias, o racismo e o machismo!

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Assinam esta nota:

Associação Lésbica Feminista de Brasília – Coturno de Vênus

ANEL

Balaio Café

Bloco das Poderosas

CACoS – UniCeuB

CADir – UnB

CFEMEA

Cia Revolucionária Triângulo Rosa

Coletiva Baderna

Coletivo Babilônia LGBT

Coturno de Vênus

Famílias Fora do Armário

Fiu Fiu – UnB

Fórum de Mulheres do DF

Fórum de Promotoras Legais Populares do DF

Juntas/Juntos

MML – DF

Movimento Honestinas

Marcha da Maconha DF

Marcha das Vadias DF

PaguFunk

RUA – Juventude Anticapitalista

Sapabonde

Tambores de Safo

 nossa missão vai ser cumprida!

Violência doméstica contra mulheres jovens: Por que omissão não é neutralidade? ou Por que a solidariedade feminina é urgente?

Não é difícil deduzir, você com certeza conhece um caso parecido com esse:

Uma mina denuncia o namorado/companheiro por agressão e o cara conta a própria versão pros amigos: “não foi bem assim, o relacionamento tava conflituoso, a gente já tinha passado dos limites”, “foi só um tapa… foi no calor do momento, ela que é histérica, tá exagerando” ou “vocês conhecem a garota, ela é louca, tira qualquer um do sério, bem que tava merecendo umas palmadas de leve, né?”. Em pouco tempo essa versão se espalha. A mina também publiciza a versão dela: “a gente tava discutindo feio, gritando um com o outro, daí ele veio e me deu um tapa” ou “no meio da discussão ele começou a me bater, eu revidei”, “ele me viu conversando com um cara, chegou em casa me empurrando e me dando soco”. A versão dela também se espalha, mas o que a gente escuta nas rodas de amigos em comum é “a gente nem sabe o que aconteceu direito, não dá pra ficar julgando o cara, chamando ele de agressor sem saber de fato o que rolou”. O cara, então, continua a frequentar normalmente os espaços comuns entre os dois – shows, bares, casa da galera, faculdade, grupo de militância etc.

A pretensa neutralidade esconde um fato: um lado dessa história foi escolhido e não foi o lado dela. Instantaneamente uma rede se solidariedade se forma pra dar o apoio ao cara. É uma rede de solidariedade que parece invisível, por isso, é tão difícil de ser apontada. É uma rede de solidariedade perfeitamente naturalizada e, por isso, qualquer crítica feita a ela soa como um ataque sem sentindo de feminazis histéricas. Não quero dizer aqui que o cara tem que ser retirado de qualquer convívio social, tem que parar de frequentar todos os espaços públicos, tem que se trancar em casa para todo o sempre (como fazem crer que é o que as feministas querem que aconteça). O que quero dizer é que, nos ciclos de amizade comuns, o que geralmente se encontra são grupos que não cogitam sequer MINIMAMENTE, pensar em criar também zonas de conforto pra mulher que fez a denúncia. Porque parece que criar uma zona de conforto pra ela significaria assumir uma postura: a de que o cara é um agressor. Mas você não pode fazer isso porque não é um juiz né, cara? Nem é deus pra ficar julgando o que você não conhece, nem viu. Então você continua carregando seu brother pra todas as baladas, pra todos os botecos, pra todos os rolês na casa da galera – mesmo quando você sabe que a mina vai estar presente – afinal, quem é você pra julgar o certo é o errado, não é mesmo? Mas aqui vai uma novidade pra você, meu brother: VOCÊ ESCOLHEU UM LADO SIM E NÃO FOI O LADO DA MINA.

Por que você não falou pro seu amigo que estava sendo acusado de agressor coisas do tipo: “cara, você tava estressado pra caralho, mas mesmo assim NÃO É DE BOA dar um tapa em ninguém”, “sei que é foda no momento da discussão, MAS O QUE VOCÊ FEZ FOI ERRADO, NADA JUSTIFICA a violência física”, “tá rolando todo esse processo, que tal a gente ir pra outro bar hoje pra evitar encontrar a mina, ou quem sabe ficar aqui em casa tomando umas?”ou “vou perguntar pra fulano se ela vai nessa festa, se ela for, a gente faz outra coisa, NÃO É MASSA FREQUENTAR OS MESMOS ESPAÇOS AGORA”.  Essas sim são posturas de quem tá dando o apoio pro brother, mas também tá se solidarizando com a posição da mina. ACORDA, CARA, A OMISSÃO É SIM UMA ESCOLHA!

E por que a solidariedade feminina é urgente? Ela é urgente pelo simples fato de que se não formos nós, mulheres, a criarmos redes de solidariedade que tragam ao menos um pouco de conforto para as minas que sofrem violência doméstica, não vão ser os caras que vão fazer. [sei bem que toda a generalização é falha, existem vários caras que percebem a escrotidão dessa sociedade machista e buscam dar conforto também pra mina. Mas também sei que esses vários caras, infelizmente, são a exceção, inclusive nos meios politizados mais libertários]. Um das grandes crueldades da violência doméstica está no fato dela ser invisível. É uma violência considerada da ordem do privado. Quando o que está em jogo é a violência praticada e sofrida entre pessoas da mesma galera, o privado é a maior justificativa pra omissão. Se a mesma garota vier no mesmo grupo pra falar que foi estuprada, agredida, assaltada por um desconhecido na rua, NINGUÉM PÕE EM DÚVIDA SEU RELATO. Mas quando o agressor é da galera, aí não tem como saber. É mais fácil chamar a garota de histérica, louca, descontrolada ou dizer que não existe como saber de nada, que é melhor não tomar posição nenhuma na confusão. E a vida segue o fluxo, inalterada pra ele, forçosamente diferente pra ela.

Se nós, as minas, não formamos esses laços de solidariedade, mulheres vítimas de violência doméstica vão continuar sendo naturalmente excluídas de seus espaços de socialização e dos espaços públicos da cidade. Não vamos comprar o falso discurso da omissão e da neutralidade. Nem vamos acreditar naqueles que falam que a nossa união resulta em um tribunal sem provas. Solidariedade tem muito menos a ver com julgamento do que com conforto e apoio. Nossas redes de solidariedade não são naturalizadas, por isso elas são tão apontadas, criticadas, ridicularizadas e minimizadas. Mas não vamos nos abater, juntas somos mais fortes na busca por uma sociedade mais igualitária, menos machista, menos violenta, menos escrota.

aguas

Nota de repúdio às/aos organizadorxs da Marcha do Vinagre

Nós, da Marcha das Vadias DF, manifestamos através desta nota o nosso descontentamento com as atitudes daquelxs que se consideram organizadorxs da chamada Marcha do Vinagre de Brasília. Recebemos uma notificação de que na reunião da Marcha dos Vinagre de ontem (19 de junho), onde aproximadamente 15 pessoas estiveram presentes, foi unânime a decisão de não fazer nenhum ato no sábado, dia 22 de junho, data em que a Marcha das Vadias sairá às ruas. Entre os motivos colocados estava o fato de que as duas marchas têm pautas muito específicas e, ao juntar as duas, poderia ocorrer a invizibilização de algumas dessas pautas. Outro motivo: muita gente da Marcha do Vinagre não se sente contemplada pela Marcha das Vadias e vice-e-versa.

A nossa surpresa foi que xs 5 organizadorxs da Marcha do Vinagre, que detêm a administração da página do evento no Facebook, passaram por cima da decisão tirada em reunião e de maneira vertical, hierárquica e unilateral, optaram por manter a manifestação no dia 22, alterando apenas o horário de início. O problema é que a concentração da Marcha do Vinagre está marcada para o mesmo local e o mesmo horário de chegada da Marcha das Vadias, o Museu da República, onde faremos alguns atos e performances antes de encerrar nosso protesto. Interpretamos essa decisão como um desrespeito à nossa luta que entra agora em seu terceiro ano de existência. Sabemos que na maior parte das manifestações políticas, principalmente nas que estão ocorrendo agora pelo Brasil, as pautas feministas são constantemente invisibilizadas e secundarizadas, e essa atitude dxs organizadorxs da Marcha do Vinagre deixa esse silenciamento evidente. A pauta de combate à corrupção parece se sobrepor, nos discursos gerais, às pautas pelas quais grupos historicamente orpimidos há anos têm se colocado nas ruas. O discurso padrão é de que esta – a luta contra a corrupção – é a grande prioridade do povo brasileiro no momento. É fácil falar que a prioridade é outra quando não é você que vai ser acusado pelo Estado caso sofra um aborto espontâneo. Ou que vai se enfiar numa clínica clandestina por não ter condições de ter um filhx naquele momento. Ou quando não é você que anda nas ruas com medo de ser estupradx. É óbvio que nossas pautas são secundárias para muitos desses movimentos, POR QUE AS PAUTAS DE GRUPOS HISTORICAMENTE ORPIMIDOS SÃO SEMPRE SECUNDARIZADAS!!!!

Buscamos travar um diálogo com essxs organizadorxs para tentar resolver este impasse. Em um primeiro momento recebemos a resposta de que seria impossível alterar local e data por que “toda a mídia já havia sido avisada sobre a manifestação”. Que tipo de movimento social é esse que pauta seus atos pela mídia, ao invés de pautar a mídia através de seus atos?! Marcamos uma reunião hoje (20 de junho), às 15h, para tentar resolver a questão. Ninguém da “organização” da Marcha do Vinagre apareceu para dialogar. Diante de tamanho descaso, resolvemos expor nossa indignação e alertar as pessoas que inocentemente participam dessa manifestação, para que fiquem atentas para a maneira com que essxs “organizadorxs” têm guiado os protestos, quais são suas intenções e sobre o tamanho do personalismo de suas ações. Se o movimento é horizontal como dizem, por que não criar comissões e fazer debates sobre como e quando as manifestações devem ocorrer, sobre as pautas, buscando tornar o movimento cada vez mais horizontal e politizado?

Nós somos vadias, somos mulheres feministas, que lutamos em marcha contra as discriminações de raça, sexualidade, gênero, credo e classe. Acreditamos que o fim da violência contra as mulheres está diretamente ligado à transformação dos valores conservadores e hegemônicos em nossa sociedade, assim como à superação do patriarcado, de todos os fundamentalismos, da lesbofobia, da bifobia, da transfobia, da homofobia, do machismo, do racismo e do capital. Consideramos que as manifestações e lutas feministas são urgentes, especialmente em um país que acaba de dar um passo significativo rumo à aprovação da cura gay e do Estatuto do Nascituro. Não podemos deixar que pautas genéricas como “o fim da corrupção” e “mais saúde e educação” façam sumir as nossas vozes e invisibilizar a nossa luta. Lutamos por um mundo onde todas as mulheres tenham direito a viver uma vida sem violências, a serem livres para seguirem os caminhos que desejarem e onde tenham pleno direito sobre o seus corpos. Lutamos por um mundo sem estupros, onde o aborto seja legal e as oportunidades sejam as mesmas para as mulheres e homens, negrxs, indígenas e brancxs. E ESSA TRANSFORMAÇÃO É SIM URGENTE!

Por isso chamamos todxs aquelxs que acreditam nessa luta que venham marchar conosco no dias 22 de junho, às 14h, com concentração na praça das fontes, em frente ao Conjunto Nacional. Às/Aos participantes da Marcha do Vinagre, pedimos que respeitem a data da nossa manifestação, que vem sendo organizada há três meses e que foi cuidadosamente pensada para não interferir na agenda de lutas do DF (por isso não fizemos a Marcha no dia da luta antimanicomial, por exemplo). Entendemos que nenhuma marcha, nenhum movimento consegue contemplar todos os grupos, todas as pautas ou todas as lutas. Existem diferenças políticas fundamentais entre as duas marchas aqui em questão, por isso enfatizamos a importância de não colidirmos as datas das manifestações.

Marcha das Vadias DF

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Carta de princípios da Marcha das Vadias do Distrito Federal

Identidade

  • Somos vadias: mulheres feministas, que lutamos em marcha contra as discriminações de raça, sexualidade, gênero, credo e classe. Temos direito a nossas vidas, e a vivê-las como quisermos, e livres de qualquer forma de violência.
  • Acreditamos que o fim da violência contra a mulher está diretamente ligado à transformação dos valores conservadores e hegemônicos em nossa sociedade, assim como à superação do patriarcado, de todos os fundamentalismos, da lesbofobia, da bifobia, da transfobia, da homofobia, do machismo, do racismo e do capital.
  • Defendemos que todas nós temos o direito de escolher sobre nossos corpos.

Organização

  • A Marcha das Vadias DF é auto-organizada por mulheres, de maneira autônoma e horizontal.
  • Incentivamos o “faça você mesma”!
  • Para respeitar a heterogeneidade de posicionamentos políticos e ideológicos das mulheres que constroem a Marcha,coletivos, movimentos, organizações, instituições e partidos não compõem a organização da Marcha das Vadias DF.
  • Nos organizamos em comissões abertas à participação de qualquer mulher interessada em construir a Marcha das Vadias DF.
  • Os espaços de deliberação da Marcha das Vadias DF são a lista de e-mails e as reuniões gerais.
  • As mobilizações do Coletivo não se restringem ao dia da Marcha

Representatividade

  • Qualquer integrante da organização da Marcha das Vadias DF pode representá-la em espaços de construção coletiva, atos, reuniões ou entrevistas. Para isso, no entanto, é necessário conversar anteriormente com as demais vadias nas instâncias de deliberação da Marcha para ver se há acordo e interesse sobre essa representação e quais caminhos seguir.

Dia da Marcha

  • Toda pessoa que defende o fim das violências contra as mulheres é bem-vinda no dia da marcha.
  • A segurança no dia da marcha é organizada de maneira autônoma pelas integrantes da Comissão de Segurança articulada previamente.
  • A estética da Marcha das Vadias é pautada na criatividade em dizer o que queremos, seja em cartazes, no próprio corpo ou canções e gritos de desordem.
  • Cada pessoa pode ir vestida como quiser.
  • Não concordamos com o uso de bandeiras, faixas e carros de som que possam promover outros movimentos/instituições durante a Marcha das Vadias DF.

 Apoio

  • O apoio de homens, coletivos, movimentos, organizações, instituições e partidos é bem-vindo à Marcha das Vadias DF.
  • Incentivamos participação na Marcha, como: notas de apoio, participação no dia da marcha, desconstrução do machismo no dia a dia, troca de conhecimentos, com as vadias, realização de doações, entre outras

 

- 2013 -

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“Fiz dois abortos e não me culpo”, afirma a jornalista Marina Caruso

“Fiz dois abortos e não me culpo”, afirma a jornalista Marina Caruso

Redatora-chefe de Marie Claire, grávida de quase sete meses, conta porque decidiu interromper duas gestações anteriormente

MARINA CARUSO, REDATORA-CHEFE DE MARIE CLAIRE, CONTA PORQUE INTERROMPEU DUAS GESTAÇÕES ANTERIORMENTE (Foto: Márcio Scavone)MARINA CARUSO, REDATORA-CHEFE DE MARIE CLAIRE, CONTA PORQUE INTERROMPEU DUAS GESTAÇÕES ANTERIORMENTE (FOTO: MÁRCIO SCAVONE)

“Na semana em que este artigo é publicado, completo seis meses e meio de gestação. Quando o bebê nascer, estarei com 34 anos e 8 meses. Temo horas insones, amamentação e dilemas da educação infantil, mas sei que estou emocional e profissionalmente pronta para ser mãe. O mesmo não aconteceu em 1999 e em 2002, quando, aos 19 e 22 anos, decidi interromper duas gestações.

Nas duas ocasiões, achei que o coito interrompido resolveria minha resistência à pílula e a de meu então namorado à camisinha. Não deu certo e acabamos numa clínica de abortos clandestina em uma maternidade na Zona Sul de São Paulo. Em uma semana, fazia-se a avaliação do caso. Na seguinte, marcava-se o procedimento. Lembro-me com nitidez da sala de cirurgia onde fiz o que o médico disse ser “uma curetagem supernormal em países onde o aborto é legalizado”. Por R$ 1.200 (o equivalente a R$ 3.000 hoje), o problema foi resolvido em apenas três horas. Ao despertar da sedação senti um pouco de cólica e nada mais.

Não quero fazer apologia do aborto. No Brasil, isso é crime, com pena de um a três anos de prisão. Mas seria leviana em dizer que me sinto mal por tê-lo feitoA compreensão dos meus pais e a minha convicção de que aquele não era o momento para engravidar me eximem de culpa. Tive (e tenho!) uma mãe maravilhosa: coerente na ação e no discurso nos momentos mais difíceis da minha criação. E sempre soube que o mínimo que eu teria de fazer era tentar me igualar a ela. Aos 19 e aos 22 anos, quando só pensava em mim mesma, nos gatinhos e em baladas, isso seria impossível. Aos 34, não será fácil. Mas além de uma mãe dedicada, meu filho terá um pai incrível. Orgulhoso não só dele, mas da mulher que escolheu.

 

Fonte: http://revistamarieclaire.globo.com/Comportamento/noticia/2013/05/fiz-dois-abortos-e-nao-me-culpo-afirma-jornalista-marina-caruso.html

LUTA SILENCIADA, CONQUISTA HISTÓRICA

Post maravilhoso da blogueira Juliana Cezar Nunes, do coletivo Pretas Candangas.

Compartilhado de: http://blogueirasnegras.wordpress.com/2013/04/09/luta-silenciada-trabalho-domestico/

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Desde que me tornei mãe, em janeiro, passo horas contemplando meu filho e pensando como ele irá interpretar os acontecimentos de 2013 daqui a 20, 30, 40 anos… Tenho especial curiosidade em saber como Bento contará para os filhos e netos que apenas no ano do seu nascimento as trabalhadoras domésticas tiveram seus direitos reconhecidos no Brasil. Passaram a ter jornada de trabalho, piso salarial, direito a férias remuneradas, INSS, hora extra, adicional noturno… Ao todo, dezessete direitos trabalhistas negados mesmo 125 anos depois da abolição da escravatura e 25 anos após a última Constituição dita cidadã.

O silêncio centenário da sociedade brasileira diante da exploração vivenciada por milhares de mulheres, em sua maioria negras, revela que a espinha dorsal escravocrata teima em ceder. A forma como as classes mais “abastadas” resistem a essa mudança me causa especial repúdio.

Sou filha, neta, bisneta e tataraneta de mulheres que foram empregadas, cuidadoras, cozinheiras, doceiras e enfermeiras comunitárias. Minha tataravó, Antônia Benta, veio traficada da África e trabalhou como escrava, em Minas Gerais. Morreu com mais de 100 anos livre, mas sem saber o que é direito trabalhista.

Minhas avós cuidaram de idosos e cozinharam para outras famílias em busca do sustento de suas próprias casas. Minha mãe, com apenas 12 anos, foi trabalhar em “casa de família” e passou por diversos tipos de humilhação. Tinha o acesso proibido à geladeira e, para matar a fome, se alimentava por meio de furinhos em latas e potes.

A realidade que elas vivenciaram é bem comum às trabalhadoras que são chamadas de integrantes da família, mas não têm hora pra acordar, dormir ou mesmo se aposentar depois de anos e anos de trabalho. Mulheres que muitas vezes começaram a limpar casas e a cuidar de bebês ainda na infância, frequentemente expostas a abusos morais e sexuais. Tudo isso com a cumplicidade do Estado brasileiro, que permaneceu por muitos anos com os olhos confortavelmente vendados para uma negação de direitos que deveria nos levar às cortes internacionais por violação de direitos humanos.

É lamentável constatar que, se meu filho quiser entender como a sociedade reagiu à conquista histórica das mulheres em 2013, certamente vai se deparar com décadas de omissão da chamada intelectualidade brasileira. Formadores de opinião que se mobilizam contra a violência urbana e sobrecarga de impostos, mas mantêm empregadas vivendo em minúsculos quartos e submetidas a inúmeras formas de violência simbólica e física.

Às vésperas da aprovação no Congresso Nacional da proposta de emenda à Constituição que reconhece as domésticas como trabalhadoras, a maior parte dos jornais e revistas seguia dando mais espaço para o temor das patroas de ter um acréscimo de absurdos 10% no salário pagos para suas empregadas.

Em várias publicações, “especialistas” chegaram a classificar as “casas de família” como um ambiente de relaxamento para os patrões e, portanto, impossível de ser caracterizado como um local onde se estabelecem relações de trabalho. Patroas se perguntavam como controlar o horário de trabalho de suas empregadas uma vez que não permaneciam em casa e, aparentemente, acham que o serviço doméstico precisa ser realizado 24 horas por dia.

A verdade é que jornalistas e seus patrões nunca priorizaram em suas coberturas a luta das trabalhadoras domésticas pelos seus direitos. Profissionais e mídias sequer reconheciam que essas mulheres tinham direitos. Após a mudança constitucional, alguns jornais chegaram a mudar de linha de cobertura e a exaltar a conquista das trabalhadoras. No entanto, uma semana antes da PEC ser aprovada, ainda li uma reportagem que começava com a seguinte pergunta: “Demissão em massa ou conquista histórica?”

Custo a acreditar que ainda seja necessária uma resposta. Mas, se a pergunta insiste em ser feita, vale repetir: conquista histórica de gerações de mulheres que agora devem ter mais do que direitos respeitados e pagos. Precisam ser tratadas com dignidade, respeito e, acima de tudo, admiração por terem sobrevivido a tantas violências antes desse complemento tardio à abolição da escravatura no Brasil.


Juliana Cézar Nunes é jornalista e feminista negra. Faz parte do coletivo Pretas Candangas e da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-DF). Mestranda em Comunicação na UnB, integra a diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do DF (SJPDF) e trabalha na Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

Esse texto foi publicado originalmente no blog do coletivo Pretas Candangas.

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O que nos ensinam os peitos de Amina, a garota da Tunísia

Vamos pensar antes de reproduzir preconceitos. Contra a Islamofobia!

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O que nos ensinam os peitos de Amina, a garota da Tunísia

(24 Março 2013) ~ Por Nasreen Amina

As últimas 48 horas foram ricas em lições de todo tipo. Todas elas provêm da polêmica que surgiu a propósito da suposta fatwa que condenava à morte a jovem tunisiana chamada Amina. O grupo “feminista” Femen espalhou a informação de que um clérigo muçulmano havia emitido uma fatwa contra Amina, condenando ela a uma pena de chicotadas e apedrejamento. A notícia se espalhou como um rastro de pólvora e viralizou como uma gripe.

Hoje, 22 de março muitas inflamadas defensoras dos direitos das mulheres vão marchar nas embaixadas da Tunísia pelo mundo, na ONU, ou onde for para exigir que não se aplique a pena de morte contra Amina por divulgar a foto no qual mostrava seus peitos nus.

Na Tunísia não existe pena de morte já que foi abolida no ano de 2011, sendo o primeiro país africano a abolir. Também esta nação é das poucas que consagrou a igualdade do homem e da mulher a nível constitucional. Não esqueçamos da massiva marcham das mulheres tunisianas exigindo esta mudança na sua Constituição no ano passado. Tampouco a Tunísia está entre os países que aplicam o apedrejamento, mas isto se pode deduzir usando um pouco de lógica: o apedrejamento é um castigo que causa a morte da pessoa. Se na Tunísia não existe pena de morte e isto quer dizer que ninguém é assassinado por decisão judicial, então como poderia existir apedrejamento legal se este causa justamente a morte do(a) acusado(a)?

Outra conclusão fácil de obter com um simples exercício de raciocínio e com a ajuda da Wikipédia, tem a ver com a condenação da mesma. A Tunísia possui tribunais civis, ou seja, não são os representantes das religiões, mas sim o poder público quem julga os cidadãos. Quando Amina foi presa? Qual o tribunal que formulou as acusações? Que juiz a condenou? Ninguém pensou nisso, nem em fazer o mínimo esforço para averiguar mais além. Os preconceitos foram mais fortes.

Em cada página onde a foto da garota com os seios de fora foi postada, os comentários contra os muçulmanos foram de uma virulência, ódio e desumanização que não se diferenciavam muito de qualquer discurso fascista de aniquilação de outros por ser diferentes. O grau de violência das expressões daqueles que alegavam defender a liberdade estavam muito próximos do discurso de ódio e de incitação a violência por razões religiosas. Apesar dos textos e da informação esclarecendo a situação [1] ter sido publicado em várias páginas e colocada na frente dos narizes dos ditos “Defensor@s dos Direitos Humanos”, est@s não o leram porque não confirma suas próprias verdades assumidas sobre os muçulmanos.

Também deixou em evidência que o discurso de integração das mulheres muçulmanas da parte de outras mulheres sejam feministas ou não, ainda tem muito de discurso e pouco de vontade, ao menos no que se refere às redes sociais. Durante as últimas horas vi como as mulheres muçulmanas são castigadas com violência verbal e palavras e termos discriminatórios; em meio a verborragias pela liberdade, nos pedem que respondamos “moralmente” pelo que fazem os governantes e as autoridades religiosas nos países de maioria muçulmana.

Esta violência contra nós nas redes sociais é tão injusta quanto castigar as católicas pelo que fazem os padres pedófilos. É absurdo, mas assim é. É tão ridículo. Um idiota profere frases misóginas e outros, que se creem menos idiotas, em vez de perseguir o idiota que falou primeiro, começam a fazer caça as bruxas contra uma comunidade. A reação de islamofobia do caso de Amina na Tunísia se explica bem com a seguinte analogia: um leão ruge na África e as pessoas, em vez de tentarem pegar o leão, começam a envenenar gatos.

A grande maioria das pessoas não nos escutam. Colocamos a informação a sua disposição mas insistem em negá-la como mentira e propaganda. Só serve a informação que alimenta seus estereótipos. Foi repetido muito que nós muçulmanas fazíamos propaganda e limpeza de imagem do Islã no Facebook. Isto apesar de não sermos donas da CNN, Fox News, Televisa nem controlarmos Facebook ou Twitter.

É curioso que para certo setor do ativismo os meios de comunicação não conspiram e se tornam fontes muito credíveis quando se trata de dar crédito a seus próprios preconceitos. Quando questionamos as verdades assumidas sobre nós como mulheres e sobre o Islã como nossa fé, só recebemos violência e maltrato, somos desautorizadas como possuidoras de um ponto de vista, somos tratadas como menores, ignorantes e incapazes.

Não é o governo da Tunísia, nem seus tribunais, nem a comunidade muçulmana quem quer cometer danos a Amina. É importante fazer esta distinção. Misóginos estão em todos os lados e certamente muitos cidadãos molestam uma mulher que se manifesta desta forma, mas são indivíduos. O que há que pedir através das embaixadas da Tunísia no mundo é que se aplique a lei que garante a segurança da garota contra as reações violentas que, aliás, podem ocorrer de todos os lados, porque machistas violentos sobram no planeta.

A propósito não posso deixar de mencionar meu profundo questionamento aos objetivos reais do grupo autodenominado feminista “Femen”, o qual foi denunciado por muitas de seus ex-membros, assim como por distintas pessoas, como promotor da islamofobia, do neo-colonialismo, relação com grupos neonazistas e de ser financiado pela Cia. Se tanto lhes preocupa a segurança de Amina já contataram um advogado para interpor um Habeas Corpus?

Hoje vou ver como minhas “colegas” feministas marcham para reclamar pela não-aplicação de uma pena de morte que nunca existiu, apesar de que nós, as mulheres muçulmanas, termos entregado a informação correta sobre as reais dimensões do caso. Na próxima vez que escutarmos dizer a “@s libertári@s” que nós, as mulheres muçulmanas, não temos voz, saberemos que na realidade o que querem dizer é que não querem nos escutar. O preconceito justifica o duplo padrão. Um par de seios pode ser muito distrativo e um apedrejamento que nunca existirá vende mais que a verdade e a garantia de alguns minutos na Televisão Nacional. Um detalhe nada menor. No Chile é ano eleitoral.

O ocorrido com a notícia da suposta execução de Amina deixou em evidência o quão comprometidas estão as pessoas que se declaram “informadas” “libertárias” e “respeitosas” ao seguir seus próprios preconceitos, estereótipos e medos sobre o Islã.

[1] http://perderelnorte.com/al-islam/pechos-y-fatuas-comunicado-de-red-musulmanas/

Publicado em português em:
http://www.feminismo.org.br/livre/index.php?option=com_content&view=article&id=99995447%3Ao-que-nos-ensina-os-peitos-de-amina-a-garota-da-tunisia&catid=99%3Aopiniao-e-analise&Itemid=620

Traduzido de: http://nasreenvrblog.wordpress.com/2013/03/22/lo-que-ensenan-los-pechos-de-amina-la-chica-de-tunez

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Mulheres no samba

Escrito por Jaqueline Ogliari

(disponível em: http://www.almanaquebrasil.com.br/especial/10542-mulheres-do-samba.html)

O samba começou como um gênero predominantemente masculino. Lembramos de nomes como Cartola, Ataulfo Alves, Noel Rosa, Adoniran Barbosa, Candeia, Wilson Batista, Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola e muitos outros homens que, com suas canções, consolidaram o samba como símbolo de identidade nacional.

Mas grande parte do sucesso desses sambistas coube às vozes inabaláveis de mulheres, intérpretes que revitalizaram o samba com muita suavidade e emoção. Nas casas das tias baianas, nasceu o samba carioca, marcado pelo pandeiro e a batida da faca no prato – foi no quintal de Tia Ciata que nasceu o primeiro samba gravado, Pelo Telephone.

Clementina, Jovelina e Dona Ivone Lara formaram a tríade do samba carioca, vozes legítimas da raiz africana no Brasil. Da melancolia do samba-canção, surgiram as célebres Dalva de Oliveira e Dolores Duran, marcadas pela intensidade ao cantar e viver. Com Nara Leão, Aracy de Almeida e Clara Nunes, o samba arrebatou-se com a força da mulher.

Hoje o samba se faz universal na voz de novas cantoras, que refrescam o nosso gênero mais brasileiro. Para celebrar o Dia Internacional da Mulher, vamos saudar as divas do samba, que o deixam cada vez mais vivo e feminino.


Com Tia Ciata, nasce o samba carioca

Estudiosos são unânimes ao apontar a casa da Tia Ciata como o berço do samba carioca, ainda no início do século 20. Na célebre Praça Onze, zona portuária do Rio, negros recém-chegados da Bahia batucavam no quintal da mais famosa das tias baianas. A hospitalidade dessa mulher foi a base para que grandes compositores pudessem desenvolver o ritmo carioca.

Com comida boa e rodas regadas a muita música, a casa de Tia Ciata logo se tornou tradicional ponto de encontro, onde se reuniam grandes nomes, como Donga, Pixinguinha, João da Baiana, Sinhô e Heitor dos Prazeres. Numa dessas rodas, Donga e Mauro de Almeida compuseram Pelo Telephone, o primeiro samba gravado na história da música brasileira.

Naquela época, os encontros de samba eram proibidos pela polícia. Mas, para as batucadas na casa de Tia Ciata, os homens da lei faziam vista grossa pela sua fama de curandeira. Segundo registros, Ciata curou uma ferida da perna do presidente Venceslau Brás, que em troca lhe atendeu ao pedido de arrumar um trabalho para o marido: um lugar no gabinete do chefe de polícia.

Raízes do samba brasileiro
Tempos depois, nos idos de 1963, Hermínio Bello de Carvalho descobriu por acaso uma das vozes mais imponentes do samba brasileiro: Clementina de Jesus, com 62 anos de idade. “Me vi diante de algo insólito, único”, descreveu o compositor num papo com o Almanaque em 2007.

Hermínio levou Clementina para participar do espetáculoRosas de Ouro, e por ele ficou conhecida no Brasil todo. Gravou com Pixinguinha e João da Baiana, e em 1983 foi homenageada com um grande show no Teatro Municipal do Rio. O respeito pela sua voz, raiz da África na música brasileira, lhe rendeu um apelido digno de majestade: Rainha Quelé. 

Descoberta tardiamente, assim como Clementina, Jovelina Pérola Negra ajudou a consolidar o pagode, originado a partir do samba tocado nos fundos de quintais. Herdou de Quelé o jeito amarfanhado de cantar, e gravou seu primeiro disco em 1985, Raça Brasileira, conquistando muitos fãs do mundo artístico, como Maria Bethânia e Alcione.

Jovelina integrou o grupo de sambistas anônimos da Império Serrano, assim como Dona Ivone Lara, que na época ainda trabalhava como assistente social. Ambas compartilharam a mesma musicalidade e são consideradas as grandes damas do samba carioca.

Apesar de ter se consagrado só depois de 1965, quando se tornou a primeira mulher a fazer parte da ala dos compositores de uma escola de samba, Dona Ivone já fazia sucesso nas rodas informais. A partir de 1977, dedicou-se por completo à carreira artística. 

Em 1980, cantou no palco do Teatro Vila Velha, em Salvador, com Clementina de Jesus. As duas eram tão amigas que chamavam uma a outra de “mana”. Nesse show, cantaram o clássico de Dona Ivone, que Quelé tanto adorava: Sonho meu, sonho meu / Vai buscar quem mora longe…


Divas do samba-canção

O gênero é um tipo de samba, influenciado pelo bolero mexicano e a onda de romantismo que tomava conta das rádios no fim da década de 1930. Expressava principalmente a melancolia por um amor perdido, e foi Lupicínio Rodrigues, um dos grandes compositores do estilo, que inventou o termo que o definiu: dor-de-cotovelo.

O samba-canção também teve suas intérpretes na época de ouro, marcadas pelo canto intenso e arrebatador. Tamanha intensidade deu à Adiléia Silva da Rocha o nome artístico de Dolores Duran, que significa dor sem fim.

Dolores compôs junto com Tom Jobim o samba O Negócio é Amar, que foi interpretada por Nara Leão. Morreu muito jovem, aos 29 anos, vítima de um infarto causado pelas doses excessivas de álcool e cigarro. 

Em 1935, Dalva de Oliveira integrou o Trio de Ouro, do qual fazia parte seu marido, Herivelto Martins. Consagrou-se Rainha da Voz pelo canto afinado e belo. Com o fim do casamento com Herivelto, depois de tantas brigas e traições, Dalva assumiu carreira solo.

Do samba pra bossa, da bossa pro samba
A amizade de Noel Rosa e Aracy de Almeida começou entre cervejinhas da Taberna da Glória, em 1933. Lançou-se como intérprete de suas canções e cantava nas rádios cariocas. Em maio de 1937, Noel Rosa morreu aos 26 anos. Aracy gravou em dois álbuns seus sambas inéditos, como Conversa de Botequim e O X do Problema, salvando-os do esquecimento.

Na década de 1950, mudou-se para São Paulo e foi contratada pela Rádio Record, famosa por consagrar grandes vozes brasileiras. Mas, Aracy foi perdendo espaço para a bossa nova, gênero que arrebatava o público com seu novo jeito de cantar samba.

Revelada pelas rádios cariocas, Elizeth Cardoso também se destacou no samba-canção. Cantou com Vicente Celestino, Aracy de Almeida, Noel Rosa, entre outros. Mas fez-se Divina ao ser a primeira cantora da bossa nova, interpretando canções de Vinicius de Moraes, João Gilberto e Tom Jobim.

No caminho inverso, Nara Leão abandonou a bossa nova e foi ao encontro dos sambistas do morro. “Chega de bossa nova. Chega de cantar para dois ou três intelectuais uma musiquinha de apartamento. Quero o samba puro, que tem muito mais a dizer, que é a expressão do povo”, declarou, numa entrevista à revista Fatos & Fotos, em 1964.

Nara pôs-se contra a ditadura militar. Queria ser a cantora do povo, e para isso se aproximou de Zé Keti e Nelson Cavaquinho, “os artistas populares genuínos”, como definia. Morreu em 1989, mas sua voz marca gerações até hoje.

Filha de Ogum com Iansã
Clara Nunes começou na carreira artística cantando boleros em Minas Gerais, mas abandonou tudo e foi para o Rio tentar a vida com samba. Estreou com Você Passa e Eu Acho Graça, de Ataulfo Alves e Carlos Imperial, grande sucesso radiofônico.

Viajou à África, representando o Brasil, e converteu-se ao candomblé. Casou-se com Paulo César Pinheiro, que a imortalizou com suas canções: Sou a mineira guerreira / Filha de Ogum com Iansã.

Gravou, em 1970, seu quarto LP, no qual interpretou Ilu Ayê, samba-enredo da Portela, uma das paixões de Clara. Foi uma das cantoras que mais gravou composições dos mestres da Portela. Em 1975, lançou pela Odeon o álbumClaridade, que vendeu mais de 400 mil cópias, desmentindo a máxima de que “mulher não vende disco”.

Clara lutava pela emancipação feminina. “Não tenho medo de nada. Eu sou mulher. Eu sou tudo muito. Sou feminista pela emancipação da mulher. Mas – pelo amor de Deus! – a feminilidade vamos manter.”

Morreu jovem, aos 39 anos de idade, em decorrência de uma mal-sucedida cirurgia de varizes. Seu corpo foi velado na quadra da Portela, onde mais de 50 mil pessoas passaram para deixar o último adeus.

Novo samba feminino
Convidada para participar do musical Rainha Quelé, em 2002, Ignez Francisco da Silva volta aos palcos aos 67 anos de idade. Batizada por Hermínio Bello de Carvalho de Dona Inah, a paulista de Araras canta samba desde os 14 anos, mas só com a gravação do primeiro álbum, Divino Samba Meu, conseguiu engrenar a carreira artística.

A partir daí, ganhou reconhecimento como nova revelação do samba. Gravou o segundo álbum com repertório de Eduardo Gudin em 2008, e já prepara o terceiro, como conta em entrevista ao site do Almanaque.

Hoje o samba contemporâneo brilha na voz de novas cantoras, que ganham espaço no cenário musical pelo frescor e muita suavidade. Destaque para Fabiana Cozza, Mariana Aydar, Teresa Cristina, Lucinha Guerra e Roberta Sá, mostrando os muitos matizes desse gênero cada vez mais feminino.


SAIBA MAIS

Tia Ciata e a pequena África no Rio de Janeiro, de Roberto Moura.
Dona Ivone Lara, por Zélia Duncan, da Coleção Álbum de Retratos.
Clara Nunes: Guerreira da Utopia, de Vagner Fernando.
Veja ao lado vídeos com algumas canções das grandes mulheres do samba.

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Poesia feminista no Dia Internacional das Mulheres

Segue abaixo o poema LINDO da atriz, poetisa, e militante da Marcha Laura Moreira:

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DEVOÇÃO

Ao movimento feminista

Pois que é nas mulheres que deposito minha fé

E a elas rezo para merecer essa irmandade,

À mais anonima e à que todas o nome conhecem

Às que habitam esferas passadas

e as que ao meu lado caminham.

À elas eu rezo para merecer essa irmandade,

Pois que é nas mulheres que eu deposito a minha fé.

Às mulheres que teceram, no anonimato ou na infâmia,

os espaços que ocupo, eu oriento as minhas orações:

Que eu possa ser filha, mãe e irmã de todas que encontrar,

Pois que é nas mulheres que deposito minha fé.

Nos ventres redondos, seios fartos,

Braços musculosos ou pernas fortes

Ou nos corpos frágeis recendendo suavidade,

- não importa -

Pois que é nas mulheres que deposito minha fé.

E elas ensinam e me ensinaram:

A nunca recriminar uma mulher livre,

- Nunca mais -

A nunca me reduzir em feminilidades,

- Nunca mais -

A nunca acreditar nas mentiras dos que definem,

A nunca calar diante do desamor.

Pois que é nas mulheres que eu deposito minha fé

E serão elas a me guiar nas trilhas incertas que abrimos juntas.

E que possa perpetuar a dívida eterna

Doando o que recebi a outras mulheres,

Nas quais deposito a minha fé.

As que nasceram e as que se tornaram,

As por dentro, as por fora

E as mil possibilidades da textura.

E que possamos combater

Intrincadas formas de opressão,

As que vivo e as que não.

Que contra todas eu possa lutar,

Pois que é nas mulheres que deposito a minha fé.

Que sejam elas a me dizer como ser mulher;

Ainda que desafie a compreensão,

Que estralhace seguranças mofadas,

Que me mostrem asperezas que não quero ver,

Pois são elas que entendem a necessidade do abraço

E são elas que determinam os meus passos.

Pois que é nas mulheres que deposito a minha fé.

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