Carta Aberta à Sociedade e à Justiça Baiana – Sobre os estupros cometidos por integrantes da Banda New Hit

É com profunda surpresa, indignação e tristeza que estamos acompanhando os fatos referentes à acusação de estupro de duas adolescentes, cometidos por integrantes da banda New Hit, Alan Aragão Trigueiro, Edson Bonfim Berhends Santos, Eduardo Martins Daltro de Castro Sobrinho, Guilherme Augusto Campos Silva, Jefferson Pinto dos Santos, John Ghendow de Souza Silva, Michel Melo de Almeida, Weslen Danilo Borges Lopes e William Ricardo de Farias, com a conivência do policial militar Carlos Frederico Santos de Aragão, que fazia a segurança do grupo e nada fez para impedir o crime. Os laudos periciais produzidos no inquérito evidenciam a prática do estupro e de atos libidinosos, bem como a presença de grande quantidade e variedade de sêmen, o que não deixa dúvidas sobre a participação de vários violentadores e alto grau de brutalidade nos atos de estupro das jovens.

Ao conceder Habeas Corpus em favor dos estupradores, a Justiça Baiana desconsiderou requisitos que normalmente ensejariam a prisão preventiva, a exemplo da garantia da ordem pública e da conveniência da instrução criminal, além de tratar-se de crime hediondo cometido coletivamente praticado contra vulneráveis que, por terem sido ameaçadas de morte, bem como suas famílias, se encontram sob proteção de Programa Federal, enquanto os estupradores, os nove integrantes da banda New Hit, com menos de 24 horas que deixaram o presídio de Feira de Santana apareceram confirmados com patrocínio para compor a grade do Festival de Pagode, no dia 21 de outubro, no parque aquático Wet’n Wild de Salvador (BA), tendo espaço em vários programas de Tv local.

Apelamos à JUSTIÇA BAIANA que intime a Procuradoria de Justiça, a quem cabe a interposição do recurso capaz de reverter e de modificar esta decisão.

As adolescentes, certas de lidar com artistas que admiravam, aproximaram-se e pediram uma foto. Ir atrás de artistas, e posar com eles para fotografia ou pedir autógrafo sempre foi uma prática corriqueira entre adolescentes, jovens e crianças em qualquer lugar do mundo. A demonstração de admiração expressa na tietagem das fãs não significa convite nem permissão para o ato sexual. A vestimenta usada por meninas e mulheres não pode ser interpretada como manifestação de provocação sexual, como um convite ao ato, ou justificar qualquer agressão e muito menos o estupro. São perigosas ao convívio social as pessoas que assim se comportam. Mesmo que elas estivessem com interesse sexual em relação a estes rapazes, isso também não significa a permissão para o estupro.

É inadmissível que os familiares e as vítimas do estupro sejam obrigadas a se esconder, privadas do convívio social, inseridas em Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes por terem recebido ameaças de agressão e morte, enquanto seus agressores são beneficiados com Habeas Corpus e estão livres, e prometendo realizar shows que são frequentados por crianças e adolescentes que podem ser novas vítimas. Chega de inverter papéis entre vítimas e réus principalmente quando as vítimas são mulheres e meninas!

Que empresários e produtores culturais são esses, capazes de financiar, promover, difundir e incentivar o culto a esses personagens?

Que arte é esta que desqualifica, agride, vulnerabiliza e vulgariza as mulheres/meninas e apela para a baixaria sexual/erótica como forma de promoção e entretenimento?

Que sociedade é essa que valoriza pessoas que cometem tais crimes, permitindo que numa situação como esta continuem programando seus shows, que tenham público interessado em assisti-los, como se nada houvesse acontecido?

Felizmente, neste caso, a rápida mobilização das redes sociais, decorrente da revolta e indignação com a decisão da justiça baiana de liberar os estupradores enquanto as vítimas estão sendo perseguidas e punidas, aliadas à promoção inescrupulosa de show do bando de violadores, já conseguiu a suspensão do patrocínio da Skol ao evento e pressão suficiente para a retirada da New Hit do Festival de Pagode Salvador. Os integrantes da banda alegaram “não estarem em condições psicológicas para a realização do show”, mais uma vez invertendo o papel de vítima e agressor.

 Não vamos deixar mais esse crime dormir nas gavetas da Justiça Baiana e cair no esquecimento. Vamos continuar ativas, mobilizando toda a sociedade, exigindo que o sistema de justiça funcione, punindo todos os agressores de crimes praticados contra a dignidade sexual das mulheres e meninas da Bahia.

SEXO SEM CONSENTIMENTO É ESTUPRO!

ESTUPRO É CRIME! QUE SE FAÇA JUSTIÇA!

 

GT da Rede de Atenção às Mulheres em Situação de Violência de Salvador e Região Metropolitana

Rede Nacional Feminista de Saúde, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos – Bahia

Articulação de Mulheres Brasileiras – Bahia

MUSA – Programa de Pesquisa e Cooperação em Gênero e Saúde – ISC/UFBA

NEIM – Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher /UFBA

CEAFRO – Projeto Encruzilhada de Direitos/UFBA

OBSERVE – Observatório de Monitoramento da Lei Maria da Penha

Conselho Regional de Serviço Social – 5ª. Região

Conselho de Desenvolvimento da Comunidade Negra – CDCN – Salvador

Conselho Municipal da Mulher de Lauro de Freitas

União Brasileira de Mulheres – Bahia

Marcha Mundial de Mulheres – Bahia

Coletivo Poder e Ação Feminista – Marcha das Vadias – Salvador

ODARA – Instituto da Mulher Negra

Fórum de Mulheres de Lauro de Freitas

Grupo Dinamizador do Fórum Comunitário de Combate à Violência

CEDECA – Centro de Defesa da Criança e do Adolescente

Centro de Referência Loreta Valadares – SPM/Salvador

Centro de Referência Especializado de Assistência Social – CREAS – Itaparica

Rede de Mulheres do Fortalecimento do Controle Social

Liga de Mulheres de Salvador

Coletivo de Mulheres do Calafate

IMAIS – Feministas por Equidade

AMMIGA – Associação de Mulheres e Amigos de Itinga

Coletivo Marcha das Vadias – DF

FEMINISTAS CONTRA O ASSÉDIO MORAL

Ser feminista também é combater a opressão e a violência no trabalho. É NÃO se utilizar do abuso de poder para constranger, pressionar, humilhar ou assediar quem é subordinad@ a você; é combater, e não perpetuar, práticas de assédio moral. É preciso, antes de tudo, ajustar o discurso à prática. Na Secretaria de Políticas para as Mulheres e em outros espaços de promoção de políticas públicas voltadas à igualdade de gênero e aos direitos das mulheres, é inaceitável que se reproduzam padrões de comportamento usados historicamente pelo patriarcado para oprimir e subjugar. É contra essas práticas, perpetuadas atualmente em uma Secretaria que deve lutar contra todo tipo de opressão, que protestamos em frente à SPM. Não nos calaremos diante de assédio moral!

MEXEU COM UMA, MEXEU COM TODAS!!!

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No Dia Latino-Americano e Caribenho pela Descriminalização e Legalização do Aborto, um relato sobre uma experiência pessoal:

Há exatos dois anos atrás fiz um aborto. É simplesmente assim, sem eufemismos, sem rodeios, sem culpa e sem remorso que eu digo essa frase: eu fiz um aborto. É por solidariedade a todas as mulheres (próximas a mim, ou distantes, mulheres que simplesmente dividem comigo os espaços da cidade onde eu moro, ou que vivem em tantos outros lugares do Brasil, da América Latina, do mundo, de diferentes níveis sociais, com outros credos, de peles de diferentes cores, inúmeras outras personalidades), é por solidariedade a todas essas mulheres-mundo que um dia sentiram a dor de não serem donas de seus próprios corpos, que eu decidi contar uma entre as infinitas histórias desconhecidas de abortamentos clandestinos: a minha.

Há dois anos atrás me descuidei. A gente sempre acha que essas coisas só acontecem com as “outras”. Com as mulheres sem rosto dos documentários sobre aborto, aquelas dos dados estatísticos, ou com aquela amiga da amiga cujo nome você desconhece. Nunca me dei bem com pílula, elas provocam efeitos colaterais insuportáveis em mim (sim homens que adoram bradar a frase “por que não tomou pílula antes de abrir as pernas?”, essa pílula que as companheiras de vocês engolem todos os dias podem causar inúmeros efeitos colaterais, uns inclusive muito sérios como trombose e formação de coágulos, por exemplo), assim como a pílula do dia seguinte que também me deixa péssima. Diante da máxima “isso nunca aconteceria comigo” acabou que o sexo rolou sem preservativo.

Algumas semanas depois minha menstruação atrasou. A primeira coisa que eu fiz foi dividir a preocupação com meu namorado (sempre achei bizarro quem acha que até se ter certeza as mulheres devem carregar o peso da dúvida sozinhas), já tínhamos dado mole antes e nada tinha rolado, então ele não levou muito à sério, me disse que tudo ia ficar bem. Falei com algumas amigas e ouvi a mesma coisa. Mas eu tinha certeza. Não sei explicar, é como se eu conhecesse tão bem o meu corpo que tivesse notado uma mudança, por menor que ela fosse. Passei a noite toda chorando, pensando no que fazer. No outro dia levantei cedo, fui ao médico e fiz um exame de sangue.

Olhei o resultado na Internet enquanto conversava com meu namorado que estava no trabalho. Positivo. Mas eu estava calma, tinha passado a noite toda pensando, sabia exatamente o caminho que queria seguir. Desde onde posso me lembrar sempre fui “pró-escolha”, como hoje, penso que nós, mulheres, como seres autônomos que somos, temos o total direito de decidir sobre o nosso próprio corpo. Nunca acreditei nessa baboseira de que aborto é assassinato, pra mim sempre pareceu uma condenação antes que o crime tenha sido cometido, visto que o feto, até as 12/14 semanas de formação, não tem ainda sistema nervoso. Ou seja, a mulher que decide pelo aborto está eliminando apenas a possibilidade de gerar um ser humano e não o ser humano em si, como se pode matar uma pessoa antes mesmo dela existir? Mesmo pensando tudo isso, dizia que eu jamais faria um aborto, por uma escolha pessoal minha, não por condenar o ato. Mas como é fácil fazer suposições quando não é a gente que está precisando decidir, né? Quando fui eu quem precisei optar entre esses dois caminhos não tive dúvidas: vou fazer um aborto.

Meu namorado foi o melhor companheiro que eu poderia ter tido nessa hora. Quando perguntei o que ele queria, a primeira coisa que ele me disse foi “o corpo é seu, é você quem vai sofrer as conseqüências de uma gravidez ou um aborto, independentemente da decisão que você tomar, vou te apoiar”. Depois de decidido o caminho a tomar, era preciso decidir qual o método, não tínhamos dinheiro, então optamos por um método relativamente seguro e mais barato que uma clínica: remédio. Depois de muito procurar, olhar sites, ouvir histórias de “fulano que tem um amigo que tem uma namorada que já tomou”, conseguimos o remédio por R$500, emprestados por uma amiga. Nessa semana de correria, descobrimos nada menos do que sete mulheres próximas que já tinham abortado e precisavam esconder, camuflar essa vivência! Curioso é que poucas semanas antes a PNA (Pesquisa Nacional do Aborto) tinha sido lançada, dizendo que uma em cada sete mulheres no Brasil já fez um aborto.

Fui a um médico, pedi pra fazer uma ecografia e ele me disse “nem vale a pena, é menor do que a cabeça de um alfinete a essa altura, nem vai dar pra ver”. Fiquei indignada de ter que passar por toda essa tensão por ter gente que ainda pensa que é um fato que um amontoado de células já seja uma criança! Pouco depois fui para a casa de uma amiga. Algumas pessoas próximas me acompanharam. Não posso descrever a importância  que teve essa rede de solidariedade no momento que eu estava passando, foi ela que me manteve em pé, sem dúvidas. Quando eu engravidei estava passando por uma depressão há meses. Fazia análise, acumpuntura, tomava remédios homeopáticos, mas nada estava resolvendo o problema. Levantar da cama era difícil pra mim, imagina só ter um filho ou uma filha? Eu não tinha a menor condição de levar a gravidez adiante, tanto pelo meu estado psicológico quanto pelo fato de que uma criança não cabia na minha vida naquele momento. Eu tinha que me formar, queria viajar, precisava de um emprego, tinha planos de uma pós-graduação, assim como o meu namorado. Não havia espaço para uma criança nas nossas vidas, não naquela época.

Pedi para ficar sozinha na hora de colocar o remédio. Lembro que fiquei um tempão parada, olhando pros comprimidos, olhando pra mim, com medo de colocá-los dentro do meu corpo. Reuni coragem e coloquei. Lembro de ter pensando “é isso, agora eu tô sozinha, não existe Estado, não existe hospital, não existe médica/o que faça nada por mim se der merda”. Eu acho que é essa a sensação, de fragilidade, de solidão, de vulnerabilidade, não importa quantas amigas você tenha do seu lado, não importa se seu namorado for um cara incrível e te acompanhar em todos os momentos, o fato é, se der merda é o seu corpo e, a não ser que todo mundo do seu lado te apoiando seja médica/o, não há nada que possam fazer para te ajudar caso algo dê errado.

Passaram-se duas, três, quatro horas. Eu estava sob uma ansiedade horrível, medo, medo de acabar com meu corpo, medo de sentir dor. Fiquei horas esperando as cólicas virem, horas esperando essa dor que todo mundo me disse que eu ia sentir… Estava fraca, em jejum de mais de 14 horas, enjoada, sem poder vomitar com medo do remédio não fazer efeito. O fato é que não rolou nada. Imagine a frustração que eu senti, o desespero. Não sei se o remédio era falso, ou se foi meu corpo que não respondeu aos comprimidos. Eu achava que estaria tudo resolvido à noite, mas voltei pra casa com o peso que não queria mais carregar.

Na minha casa era um desconforto. Vomitava toda a hora, meus seios estavam enormes. Tinha que disfarçar ao máximo os enjôos, usava top pra esconder os seios. Tinha que ouvir as pessoas na minha casa comentando sobre a “fulaninha que tinha tomado um remédio pra abortar e a filha nasceu toda defeituosa e agora tava lá, na casa dos pais, chorando com a criança no berço”.  Pouco tempo depois essa criança morreu. Queria dormir toda a hora,e  ainda tinha o semestre da faculdade pra terminar, tinha que ir pro estágio, tinha que sorrir nas reuniões familiares. E quando deitava na minha cama, sozinha, era como se sentisse crescer algo horrível dentro de mim, é como se eu estivesse sendo obrigada a mudar minha identidade, obrigada a assumir um papel social que eu não queria de forma nenhuma pra mim.

Consegui outros comprimidos. Tomei na casa de um amigo. O mesmo enredo, jejum, medo de colocar, expectativa e… frustração. Nada aconteceu de novo. Aí eu me desesperei de vez, fiquei pensando no que ia falar pros meus pais, em como ia levar minha vida, e se a criança nascesse com problemas graves?… Depois de muito pensar, optamos por uma clínica. Conseguimos levantar o dinheiro com pessoas próximas.

Depois de alguns dias cheguei na clínica. Era uma realidade de novela. TVs de LCD em todo o canto, sala confortável, ampla, iluminada. A sala de espera tava LOTADA, lotada mesmo. Pessoas de todas as idades aguardavam para ser atendidas, as/os acompanhantes eram desde avós velhinhas, até maridos engravatados, ou amigas ansiosas. Fui chamada e entrei sozinha, fiquei esperando no corredor com outras mulheres, todas tensas. Depois de 1h mais ou menos, fui levada para um consultório. Uma médica me explicou o procedimento detalhadamente, me examinou, olhou a ecografia que eu tinha levado. Depois disso fui encaminhada para outra sala de espera, onde fiquei trancada com umas dez mulheres esperando atendimento. Da minha idade só tinha mais uma menina. As outras todas eram mulheres mais velhas, muitas casadas,  religiosas, todas já tinham filhos/as e falavam delas/es de forma apaixonada. Mas também diziam que não tinham condições financeiras de ter uma criança agora, ou que estavam crescendo no trabalho e não poderiam parar naquele momento para encarar uma gravidez e cuidar de um recém-nascido. Fiquei olhando para aquela sala, parecia que a PNA estava li na minha frente, escancarada.

Passei umas 3h dentro da sala, conheci um pouco da vida de cada uma daquelas mulheres, dividimos nossos medos, algumas falaram que se consideravam monstros por estar ali. Outras, como eu, só queriam se livrar de um problema, e não se sentiam culpadas de antemão por estarem interrompendo uma gravidez. Entrei no consultório, não me lembro direito dessa parte, todo mundo usava máscara, e havia umas cinco ou seis pessoas na sala. Falei um pouco sobre a minha cidade para o anestesista e logo cai no sono. Acordei em uma maca, com um absorvente, tonta e com uma fome absurda. Pouco depois consegui ficar em pé, comi. Pelo intervalo com o que chegavam as pacientes depois de mim, deduzi que o procedimento durava entre 5 e 10 minutos. Saí da clínica sem sentir dor, passeei pela cidade, e à noite ainda enchi a cara num boteco. Segundo as/os médicas/os eu poda fazer praticamente tudo, era um procedimento simples. Eu estava livre, finalmente, depois de um procedimento de apenas 5min.

Não digo que em alguns momentos nos meses seguintes não tenha batido aquele sentimento de “e se…?”. Mas isso não quer dizer arrependimento. Acredito que na vida sempre temos que escolher entre diversos caminhos, isso acontece diariamente. Quando você escolhe seguir por um lado, abre mão de outro destino possível, são escolhas que a gente faz, prioridades do momento. Mas é claro que vez ou outra a gente acaba pensando o que teria acontecido se tivesse seguido por outro rumo; no que teria rolado se tivesse feito faculdade de economia, ao invés de Reações Internacionais; no que seria da vida se não tivesse terminado com a Maria e ficado com a Joana. Tenho certeza de que fiz a escolha certa, nunca me arrependi dela, em momento algum. Sou muito feliz com a vida que tenho hoje e sei que se tivesse tido uma criança teria sido tudo diferente, estou onde eu queria estar devido ao caminho que eu tomei.

Um dia, mulher nenhuma vai  precisar passar pelo que eu passei. Isso porque tive condições financeiras, um namorado companheiro, amigas/os que me apoiaram em todos os momentos, acesso a métodos seguros. Imagino o que passam as mulheres que todos os dias tomam chás duvidosos, enfiam agulhas de crochês nos seus úteros, confiam suas vidas a açougueiros de fundo de quintal, algumas sozinhas, sem ninguém para dar apoio. Quantas mulheres não sangram até a morte por negligências nos hospitais, quantas não são denunciadas pelas/os próprias/os médicas/os que quebram um princípio básico de suas profissões: o sigilo médica/o paciente.

Se o Brasil se diz o ‘país do futuro’ e quer estar entre ‘os grandes’ do mundo, tem que começar a olhar primeiro para as suas cidadãs e não deixar que argumentos e pressupostos religiosos nos tire o direito sobre nossos próprios corpos. Tem que parar de negar a responsabilidade sobre a vida e a saúde das mulheres que abortam. A autonomia é um direito humano. A laicidade do Estado é garantida por lei. No dia em que o aborto for legalizado aqui, espero que a/o presidenta/e tenha a dignidade de pedir desculpas em nome do Estado para todas as mulheres que têm de enfrentar sozinhas o risco que ainda significa ousar assumir as rédeas de nossas próprias vidas.

M.R.

Recebemos esse relato de uma leitora do blog como contribuição ao dia 28 de setembro, dia de luta pela legalizaçao do aborto!

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Poema sobre aborto legal e seguro

Aborto legal e seguro para não morrer

Não se pode mais esperar para socorrer

O nosso grito é o direito ao nosso corpo

Nossa bandeira é a legalização e descriminalização do aborto!

 

Mulheres ricas saem do país, abortam e abortam quando querem

Não tem essa, mulher que quer abortar, abortará.

Mulheres pobres enfiam agulha de crochê, tomam chá,

E quando por sorte não morremos

Sofremos com a falta de apoio, e não porque queremos.

 

Não me obrigue a vê essa barriga crescendo

Não me obrigue a mudar minha vida devido ao seu desejo

Não me envergonhe, quero ter o meu direito.

Aborto Seguro e Legal já!

 

Nós mulheres estamos morrendo, morrendo a todo tempo.

Não existe intervenção estatal que nos ajude

Só a que nos julgue, nos maltrate, nos machuque

Queremos uma posição,

Estado enxergue nossa precaução.

 

Somos mulheres de todas as cores,

somos mulheres unidas que acreditamos na nossa força

No nosso axé, na nossa luta.

A nossa união mudará essa realidade social,

queremos uma vida mais humana e leal.

 

Estado, preste atenção no machismo, misoginia e racismo

fazem com que nossas mulheres negras sejam as que mais sofram.

Olhe para a sua ignorância e olhe para seu egoísmo.

Não queremos mais sangrar até a morte.

Queremos ter o direito a escolha e a nossa sorte

Vamos levantar, somos fortes.

Nosso corpo não te pertence.

Seu desprezo não me faz mostrar os dentes.

 

Somos mulheres guerreiras, latinas americanas

Caribenhas e Africanas

 

É a nossa necessidade que faz com que gritemos.

Que faz com que lutemos.

 

Quero o direito de escolher,

escolher e não morrer.

 

 

Poema escrito por Rayane Noronha

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Integrantes da banda New Hit estupram duas adolescentes. Do que o machismo é capaz?

Mais uma vez nos deparamos com um caso de estupro, em que as mulheres são culpabilizadas pela violência e, por isso, acabam sendo agredidas duplamente. A Marcha das Vadias do DF repudia veementemente a maneira com que estão sendo tratadas as duas meninas que sofreram abuso sexual por todos os integrantes da Banda New Hit, que devem responder judicialmente pelos bárbaros atos! É vergonhosa a organização de uma manifestação para apoiar os músicos criminosos, enquanto as vítimas e seus familiares permanecem encarcerados em casa por medo de retaliações e consumação das ameaças que recebem por telefone. A violência sobre essas meninas ainda não terminou: suas vidas e imagens estão sendo expostas, suas nomeações foram substituídas por xingamentos. Qual é a lógica que continua determinando o modo de pensar, que inverte papéis e condena vítimas? O machismo violentou essas meninas inúmeras vezes: o machismo fez com que estes homens acreditassem que detinham a propriedade dos corpos dessas meninas; o machismo fez com que acreditassem que a vontade delas não existia frente à vontade desses homens; o machismo fez com que duvidassem da denúncia dessas meninas mesmo que estivessem cobertas de sêmen; o machismo fez com que duvidassem delas mesmo com o laudo médico atestando a presença de hematomas e lesões nos órgãos genitais dessas meninas; o machismo fez com divulgassem fotos dessas meninas com xingamentos e dizeres que induzem a pensar que elas desejaram a violência sofrida; o machismo fez com que as pessoas organizassem uma manifestação em defesa de homens que acreditam que os mundo foi feito somente para eles. Pois estamos aqui e não vamos mais nos silenciar diante de tanta violência! Esse mundo também é nosso, somos donas dos nossos corpos e desejos. Não vamos mais deixar que somente o machismo se manifeste por aqui.
O papel de mídias, redes sociais é comunicar, sem dúvidas. No entanto o que ocorre é uma reprodução, em larga escala, de padrões de hierarquização que reificam e essencializam mulheres, por reafirmarem que estas são passivas, vagabundas, “putas” e que, por tudo isso, são também estupráveis. Se o papel das mídias é também construir narrativas culturais, pessoas e instituições que estão despedaçando a imagem dessas meninas vítimas de estupro – por banalizarem este crime – apenas reafirmam que comportamentos machistas e agressivos são aceitos socialmente. O padrão de masculinidade veiculado por mídias e pessoas machistas impede homens de serem mais que apenas brutamontes, agressores, estupradores, assassinos, “machos de verdade” e, assim, cria uma cultura de estupro em nossa sociedade. Mas, novamente, há vozes dissonantes que lutam por e com mulheres, homens, pessoas livres de opressão, de violência, de sexo SEM CONSENTIMENTO. Estupro não é um problema apenas da pessoa que comete o crime, mas sim da nossa sociedade, que não pode ser conivente com uma violação de corpos e integridades físicas e morais. Por isso, a Marcha das Vadias acredita que liberdade de expressão não deve significar liberdade de opressão.

 

#NewHitNaCadeia

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Sobre o Femen Brazil e sobre os múltiplos feminismos contemporâneos

Diante das recentes discussões que envolvem o Femen Brazil (chamaremos de Femen Brasil ao longo do texto) e das associações algumas vezes feitas entre este movimento e a Marcha das Vadias, nós, da Marcha das Vadias-DF, decidimos manifestar publicamente nosso posicionamento acerca desses debates.

Somos um coletivo horizontal, sem lideranças e nos esforçamos para desconstruir qualquer forma de personalismo nas nossas ações. Quando em contato com a mídia, buscamos sempre um revezamento para que todas as mulheres que integram o coletivo e que têm interesse em conceder entrevistas, possam participar. Para nós, é no dia-a-dia, através do diálogo, da solidariedade, da construção coletiva e da troca de experiências que um grupo/movimento/coletivo feminista ganha cor e forma. Acreditamos que o processo perene de construção, reconstrução e auto-avaliação é parte fundamental de qualquer grupo militante. É esse difícil processo de formação e re-formação que nos dá a característica de movimento. A Marcha das Vadias-DF é um coletivo que visa o diálogo constante com outros movimentos sociais, grupos e militantes autônomas no intuito de fazer somar pontos de vista e novas abordagens às nossas próprias reflexões sobre as pautas pelas quais lutamos.

Nós fazemos parte de um coletivo feminista que tem por ideal a luta pelo fim da violência de gênero e a garantia dos direitos das mulheres. Acreditamos que os preconceitos e violências que sofremos diariamente são efeito de desigualdades profundas que têm raízes no racismo, machismo, na heterossexualidade compulsória, no sistema econômico extremamente cruel do qual fazemos parte. Somos um grupo de mulheres organizadas e acreditamos na livre participação de qualquer mulher que tenha intenção de aderir ao movimento. Discordamos de qualquer forma de processo seletivo para a adesão a um movimento social e optamos pela não-verticalização pois acreditamos na igualdade entre xs participantes de um movimento e, principalmente, nos objetivos vários das nossas lutas.

O diálogo é uma das bases da nossa formação enquanto coletivo e entendemos que o feminismo, na verdade, são vários e que nenhum grupo (nem nós, nem qualquer outro coletivo feminista), pode ser nomeado como representante oficial do feminismo. Prezamos pela heterogeneidade de visões, experiências, opiniões inclusive dentro dos próprios grupos. Acreditamos que é a partir das divergências, diferenças e do diálogo que poderemos construir e reconstruir diariamente espaços nos quais mulheres dos mais diversos tipos se sintam à vontade para serem sujeitas dos seus próprios feminismos.

Gostaríamos de enfatizar que não temos ligação com o Femen Brasil. Apesar da Marcha das Vadias também ter acontecido pela primeira vez em outro país nossa articulação no DF foi espontânea e auto-organizada e não guardamos vínculo organizacional nenhum com Canadá. Apesar de discordarmos de certas diretrizes, discursos e ações do Femen Brasil, torcemos para que tenham sucesso nas lutas contra a violência, exploração e a discriminação contra as mulheres no Brasil. Deixamos claro que discordamos do protesto do Femen Brasil contra a pirataria de livros. Acreditamos que a livre circulação de informações – principalmente em um país onde tão poucas pessoas tem acesso aos bens culturais -, é fundamental para a construção de um país mais igualitário, já que ela é uma estratégia que rompe com a hegemonia da indústria cultural.

Não se trata, porém, de questionar a vida pessoal das integrantes do Femen Brasil, e sim de problematizar os posicionamentos políticos-ideológicos do próprio grupo. Precisamos ter clareza e nos apropriar dos debates e reflexões acerca da causa que defendemos. Acreditamos que o Femen Brasil pode dialogar, pesquisar, se informar, discutir com profundidade as propostas e as causas pelas quais luta. Qualquer pessoa pode se somar à luta feminista e é excelente que o faça. Estamos abertas a debates e diálogos com diversos grupos feministas pois acreditamos na construção coletiva. Lutamos para que os feminismos se espalhem pelo mundo e que sejam protagonizados por uma gama infinita de mulheres, sem centralizações, sem hierarquias.

Acreditamos nos feminismos, na construção de um mundo mais justo, mais igual, mais libertário.

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Desafios e possibilidades de uma ampla luta anti-racista no Coletivo da Marcha das Vadias/DF

TEMA: Desafios e possibilidades de uma ampla luta anti-racista no coletivo da Marcha das Vadias.

Este texto foi produzido por ocasião de debate no IV Painel – Racismos e Feminismos da III Semana Gênero e Direito da Universidade de Brasília (25 a 30 de junho de 2012), cuja comunicação se deu no dia 27 desse mês.

Hoje eu estou aqui como Líbia historiadora, Promotora Legal Popular e também como integrante da Marcha das Vadias. Gostaria de frisar bastante esse aspecto (integrante) porque meu nome está na programação como “representante” do coletivo, o que não é o caso, devido ao fato de o movimento ser horizontal, embora isso não exclua assimetrias de ordem etnicorracial, de classe etc. É preciso rejeitar a ideia de representação porque eu não posso dar conta da expectativa de reportar com mais propriedade/autoridade que qualquer outra companheira as discussões realizadas e as estratégias assumidas. Ainda assim, é preciso explicitar que o meu lugar, assim como o de qualquer outra companheira, é um lugar específico, por isso eu entendo que o convite para minha comunicação hoje deva-se ao compromisso que assumi abertamente durante a minha militância quanto à construção de relações pautadas pela equidade de gênero e também etnicorracial.

Como integrante da Marcha das Vadias, entre outras dimensões da atuação política, eu venho apresentar reflexão inspirada em um dos principais desafios que estão colocados hoje dentro do coletivo, por proposições tanto internas quanto externas, pois o coletivo não é hermético ou auto-centrado, está voltado para uma realidade mais ampla e tem construído formas de intervenção nessa realidade complexa, paradoxal etc. Qual é esse desafio? A viabilidade de o coletivo empreender uma luta anti-racista, sendo que a composição de seus quadros é majoritariamente branca, universitária, “motorizada”.

A reflexão que proponho é sobre os desafios e as possibilidades de uma luta anti-racista ser assumida amplamente por um movimento como a Marcha das Vadias. Com isso, pretendo contribuir para o debate sobre a importância das subjetividades dentro dos feminismos em âmbito teórico e em âmbito deliberativo, assumindo a responsabilidade por ser mais provocativa e crítica que conclusiva. Pergunto: como as experiências pessoais e compartilhadas qualificam a atuação política por direitos? Quais condições e limites as experiências impõem aos feminismos?

Essas questões têm seu fundamento na ênfase que os feminismos foram dando às vivências individuais. Principalmente a partir da década de 1960, os processos de formação de uma consciência feminista foram operando a tradução de experiências individuais como efeitos de uma produção social, ou seja, como efeitos de tecnologias de poder. Assim, compuseram-se os termos da proposição que bem conhecemos como: “o pessoal é político”. Grande parte da capilaridade histórica dos feminismos, com grupos demarcando uma atuação em prol do que elaboravam e queriam ver reconhecido como direitos, deve-se ao apelo totalizante da categoria mulher. O processo ocorreu de maneira tão eficaz que ainda hoje os feminismos têm dificuldade em pontuar as especificidades e fazer interlocução com outras categorias como raça/etnia, classe e orientação sexual, idade etc. Mas nem por isso, o uso da categoria mulher é sem sentido, na medida em que lida com aparatos que criam a eficácia dos significados que a própria categoria comporta, entre elas, a apropriação, o auto-reconhecimento como mulher.

Essa dificuldade foi apontada nas discussões de organização da primeira Marcha das Vadias, em junho de 2011. Entre tantas diferenças percebidas e expostas, o dissenso mais demorado foi de caráter etnicorracial. Colocou-se a questão de que muitas mulheres negras não participariam porque não se sentiam contempladas pelo próprio nome do movimento e nem mesmo pela apropriação de uma série de protestos que tiveram origem no Canadá, uma realidade muito distante em vários sentidos. A recusa dessas mulheres negras foi mal recebida. Como recusavam, se somos todas mulheres vulneráveis a estupros? Como recusavam, se temos tão boas intenções? Será que elas não entenderam a ironia do nome “Marcha das Vadias”? Mas porque elas não vieram pra gente explicar o que a gente quer dizer? Será que elas não curtem o lance do “vamos construir juntas”?

Lembrando que essas perguntas são uma interpretação minha do clima naquele momento, aquela discussão fazia lembrar as cisões nos movimentos feministas de mulheres negras e latino-americanas em geral quando expuseram o caráter elitista do feminismo. Fez lembrar como essas divergências foram interpretadas como “criação de caso”, falta de vontade para a união revolucionária que o feminismo possibilitava. Dessa forma, um dos procedimentos mais bem sucedidos do pensamento tradicional/patriarcal continuava atuando: a homogeneização em termos universalistas. E qual o efeito disso? O potencial transformador do feminismo ficava contido nos termos do opressor. Assim, as lutas das mulheres afro-descendentes, pretas ou não, e indígenas só podiam fazer sentido em espaços autônomos, onde a opressão de feministas brancas não invisibilizasse suas demandas. Destacadamente, os feminismos negros foram críticos às formas como se atuava e como se fazia teoria feminista. Os feminismos negros provocaram uma mudança fundamental para a consciência feminista, no sentido de explicitar as relações entre feminismo e outras ideologias como o racismo, o liberalismo, o socialismo, o individualismo etc. No caso de movimentos feministas, o racismo continua tão velado em nossas representações que ficava difícil para as discussões iniciais da Marcha das Vadias perceberem sua extensão a uma recusa veemente de mulheres negras se auto-intitularem “vadias”. Estava difícil perceber que para mulheres afro-descendentes, pretas ou as vistas como “mulatas”, desconstruir esse termo e fazer uso com todo orgulho daquela ironia era bem mais difícil e que talvez não fosse a melhor estratégia.

Até então, a Marcha das Vadias não era um coletivo. Tornou-se um após a realização da primeira Marcha e a vontade das integrantes de continuar as conversar e planejar ações futuras. Quase um ano depois, quando se decidiu organizar a segunda Marcha, em maio de 2012, as discussões etnicorraciais foram reacendidas a partir de insatisfações de mulheres negras com imagens que divulgavam essa segunda Marcha por acontecer. Foram colocadas questões sobre os significados das imagens de mulheres negras e a forma como foram divulgadas. Qual o significado do corpo seminu de uma mulher negra quando em contraste com o corpo vestido de uma mulher branca? Como a cultura machista/racista/elitista brasileira tem sublinhado as características dos corpos de mulheres negras, pretas e “mulatas”? Quais os corpos vistos como ícones nacionais que, dispostos ao lado da palavra “vadia”, confirmam a história de luxúria, lascívia e do frevo racial no Brasil? Nesse segundo momento, não foi possível deixar de pensar as violências machistas sem considerar o histórico de violências que as mulheres negras vivenciaram e são hoje contadas como um romance de formação da cultura nacional.

Fizemos reuniões para discutir essas questões e nos demos conta de que muitos esforços ainda precisariam ser feitos pós-marcha, quando teríamos um calendário mais largo para nos dedicarmos a essas questões, assim como o machismo, estruturantes de nossa realidade sócio-cultural. Entre as possibilidades aventadas para abordarmos as relações raciais, foi colocada a de formarmos grupos de mulheres negras, brancas e também indígenas, pois tivemos enriquecedores apontamentos de uma companheira indígena que expôs a necessidade de pensarmos sobre essas mulheres também perversamente invisibilizadas.

Junto com essa possibilidade de um amplo debate etnicorracial, vieram diversas perguntas: formamos um grupo apenas ou dividimos em grupos segundo o pertencimento etnicorracial? Será que as nossas identidades étnicas são óbvias a ponto de podermos nos dividir eficazmente? Mulheres brancas são capazes de saírem de suas zonas de conforto para discutirem racismo, uma tecnologia de poder que as privilegia em relação a outras?

Entre os aspectos ainda indefinidos quanto ao sentido de nossa atuação e as estratégias de intervenção, acredito que devemos ter em mente que as mulheres brancas também são racializadas, pois o status de mulheres brancas também é demarcado. Precisamos colocar nossas experiências de sermos mulheres negras, indígenas, brancas, pardas, lésbicas, bissexuais, com filhos, cristãs, ateias, taurinas, escorpianas, aquarianas etc… precisamos colocar essas experiências no cerne de nossas preocupações, interrogando os processos pelos quais somos constituídas como pessoas com todas as nossas especificidades. Isso abre caminhos para a percepção das diferenças e para vias de construção conjunta das transformações, pontuando nossos lugares, mas não absolutizando esses lugares. Não podemos pensar e nem mesmo agir como se nossos lugares fossem óbvios. Além disso, agora falando como feminista historiadora, sem querer ser doutrinária: precisamos reagir à política de esquecimento que o machismo, o mito da democracia racial, a heterossexualidade normativa nos colocam como dados e nos empoderar contra a inércia do dia a dia.

Para finalizar, apoio-me nas palavras da historiadora Sandra Azeredo: “é preciso considerar gênero tanto como categoria de análise quanto como uma das formas que relações de opressão assumem numa sociedade capitalista, racista e colonialista.” De acordo como a leitura que faço, uma das condições para que assumamos uma ampla luta anti-racista é percebermos que se esses são os aspectos constituintes da realidade sócio-cultural que os feminismos visam a transformar, portanto, dizem respeito a todas e todos que visualizamos as assimetrias desse quadro.

 

Líbia Rany Oliveira Nascimento, historiadora e integrante do Coletivo Marcha das Vadias/DF

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Marcha do Parto em Casa, esse domingo, 17/06, em Brasília e outras cidades!

“A história da obstetrícia é a história de uma luta em busca de poder. A história da obstetrícia é a história da exclusão da mulher, da depreciação do universo feminino, da transformação de uma atividade inerentemente feminina, natural e fisiológica em um procedimento médico, androcêntrico, tecnocrático e cheio de riscos imanentes” (Marcos Leite dos Santos, em tese pela Universidade Federal de Santa Catarina:  http://www.tempusactas.unb.br/index.php/tempus/article/view/829/792)

A Marcha do Parto em Casa de Brasília acontecerá no domingo, dia 17/06, às 9:30 da manhã, no Parque da Cidade (próximo ao Quiosque do Atleta). Abaixo, segue um ótimo texto sobre a importância dessa manifestação:

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O domingo do dia 17 de junho promete amanhecer rosa choque em várias capitais do Brasil com a Marcha do Parto em Casa. Porto Alegre, Florianópolis, Salvador, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Fortaleza, Brasília, Natal e mais algumas cidades do interior serão palco de manifestações das mulheres pelo direito de escolher o local em que querem parir, incluindo aí não apenas a recusa imediata de submeterem-se à posição em decúbito dorsal e terem as pernas amarradas em maternidades públicas e privadas do Brasil, mas principalmente o direito, garantido por lei, de parir em casa, como quiserem e na posição que acharem mais confortável no momento da expulsão.

As coisas pareciam calmas na área e, ainda que os partos domiciliares mal batam em 2% no país, o interesse por essa opção tem crescido no Brasil. As mulheres mais antenadas estão começando a se dar conta que parir em casa pode, entre outras vantagens, ser uma forma segura de não passar pela violência obstétrica http://www.partocomprazer.com.br/?p=2333

Mais do que isso, pode ser uma maneira seguramente amorosa de não sofrer e não permitir que o filho recém-nascido sofra intervenções que podem vir a ser prejudiciais à saúde física e emocional da dupla mãe-bebê, afinal o bebê saudável está, segundo as evidências, http://www.scielosp.org/pdf/rsp/v45n1/1717.pdf mais seguro no colo da mãe e mamando na primeira hora de vida imediata e não sendo medido, pesado e vacinado antes mesmo de mamar.
Mas então, afinal, se são só 2% e se podem escolher parir em casa com os poucos obstetras e parteiras disponíveis, para que manifestação em tantas praças públicas?

É que essa pequena parcela da população está sendo ameaçada de perder a assistência que quer e acredita merecer por represálias cada vez mais insistentes dos conselhos regionais e federal de medicina do país.

Um dia após uma matéria sobre a segurança e legitimidade do parto domiciliar, feita pelo Fantástico, programa da Rede Globo de televisão, o Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro-CREMERJ- enviou denúnciahttp://www.jb.com.br/rio/noticias/2012/06/11/cremerj-abrira-denuncia-contra-medico-que-defende-parto-domiciliar/
ao Conselho Regional de Medicina de São Paulo-CREMESP- contra o obstetra Jorge Kuhn, que concedeu entrevista ao programa dominical. http://globotv.globo.com/rede-globo/fantastico/t/edicoes/v/parto-humanizado-domiciliar-causa-polemica-entre-profissionais-da-area-de-saude/1986583/

Muito amena, rápida e de pouca profundidade, como é praxe do estilo Rede Globo, a matéria sequer falou das evidências que comprovam ser o parto domiciliar tão seguro quanto o hospitalar para as gestantes de baixo risco. O obstetra Jorge Kuhn afirmou com veemência que apenas gestantes de baixo risco devem optar pelo parto domiciliar. E mais nada, a entrevista com ele foi editada em cima dessa fala que reporta os espectadores exclusivamente para a questão da segurança, sem abordar as muitas vantagens dos partos domiciliares já comprovadas por estudos da Medicina Baseada em Evidências.
Rapidamente alguns obstetras simpatizantes e praticantes da humanização do parto e do nascimento se uniram às redes de mulheres que exigem que se cumpra a lei da liberdade de escolha pela posição e local do parto; criaram uma carta aberta e uma petição pública http://partodoprincipio.blogspot.com.br/2012/06/carta-aberta-em-repudio-ao-cremerj.html
Mais do que defender um colega, a carta e a petição exigem publicamente que os conselhos regionais e federal de medicina respondam com base em evidências às ameaças e atitudes arbitrárias baseadas em crenças médicas derrubadas por sucessivos estudos científicos nos últimos anos.

“Não é possível admitir o arbítrio e calar-se diante de tamanha ofensa ao direito individual. Não é admissível que uma corporação persiga profissionais por se manifestarem abertamente sobre um procedimento que é realizado no mundo inteiro e com resultados excelentes. A sociedade civil precisa reagir contra os interesses obscuros que motivam tais iniciativas. Calar a boca das mulheres, impedindo que elas escolham o lugar onde terão seus filhos é uma atitude inaceitável e fere os princípios básicos de autonomia.



Neste momento em que o Brasil ultrapassa inaceitáveis 50% de cesarianas, sendo mais de 80% no setor privado, em que a violência institucional leva à agressão de mais de 25% das mulheres durante o parto, em vez de se posicionar veementemente contrários a essas taxas absurdas, conselhos e sociedades continuam fingindo que as ignoram, ou pior, as acobertam e defendem esse modelo violento e autoritário que resulta no chamado “Paradoxo Perinatal Brasileiro”. O uso abusivo da tecnologia contrasta com taxas gritantemente elevadas de mortalidade materna e perinatal, isso em um País onde 98% dos partos são hospitalares!

Escolher o local de parto é um DIREITO humano reprodutivo e sexual, defendido pelas grandes democracias do planeta. Agredir os médicos que se posicionam a favor da liberdade de escolha é violar os mais sagrados preceitos do estado de direito e da democracia. Ao invés de atacar e agredir, os conselhos de medicina deveriam estar ao lado dos profissionais que defendem essa liberdade, vez que é função da boa Medicina o estímulo a uma “saúde social”, onde a democracia e a liberdade sejam os únicos padrões aceitáveis de bem estar.

Não podemos nos omitir e nos tornar cúmplices dessa situação. É hora de rever conceitos, de reagir contra o cerceamento e a perseguição que vêm sofrendo os profissionais humanistas. Se o CREMERJ insiste em manter essa postura autoritária e persecutória, esperamos que pelo menos o Conselho Regional de Medicina de São Paulo (CREMESP) possa responder com dignidade, resgatando sua função maior, que é o compromisso com a saúde da população.”

O cerco contra as atitudes arbitrárias dos conselhos de medicina está fechando e se os médicos que apoiam as políticas dos conselhos acham que estudaram demais para graduarem-se e que todas as pessoas que criticam os abusos médicos e as iatrogenias são invejosas e gostariam de ser médicas; é bom rever conceitos e ler mais publicações baseadas em evidências porque é isso que as mulheres comuns, leigas de todas as profissões, e mesmo as não graduadas andam fazendo para reivindicar direitos e uma prática baseada em recomendações científicas, não em maus hábitos, crenças pessoais e interesses particulares dos obstretas.

A perseguição às parteiras na década de 1940 praticamente baniu a prática do parto domiciliar no Brasil. O parto, inicialmente um ato fisiológico, feminino, um verbo, uma ação, passou a ser um ato médico e a cesariana, um ato médico de fato, começou a ser usada para desqualificar a potência do corpo feminino, como explica tão bem o osbtetra Marcos Leite dos Santos, em tese pela Universidade Federal de Santa Catarina UFSC:“A história da obstetrícia é a história de uma luta em busca de poder. A história da obstetrícia é a história da exclusão da mulher, da depreciação do universo feminino, da transformação de uma atividade inerentemente feminina, natural e fisiológica em um procedimento médico, androcêntrico, tecnocrático e cheio de riscos imanentes”http://www.tempusactas.unb.br/index.php/tempus/article/view/829/792

O modelo hospitalocêntrico no Brasil é tão arraigado que quando uma mulher não consegue segurar a expulsão do bebê e acaba parindo na segurança do lar, sozinha ou assistida por bombeiros, é removida imediatamente para um hospital em vez de ser atendida em casa por uma equipe multidisciplinar do posto de saúde mais próximo. Fique claro que ao serem removidos, ela e o bebê correm riscos maiores de contrair infecções ou vírus.

Enquanto isso, na Alemanha, as mulheres não somente podem escolher como, onde e com quem querem parir, como também podem optar por um parto considerado como de risco maior mesmo pelos humanistas, como o parto desassistido.

Enfim, é muito retrocesso, em vez de estarmos discutindo o quanto um parto desassistido pode ser mais perigoso do que um parto assistido por profissionais da saúde que estudaram as várias indicações para remoção etc, estamos discutindo se um parto é um ato médico e necessariamente hospitalar, estamos discutindo por que perder 2%, 5%, talvez daqui 20 anos 30% de clientes parturientes, é tão importante para a corporação política e econômica da medicina.
E nessas horas a única coisa que vale é mesmo as mulheres irem para as ruas com os cartazes que gritam: “Não precisamos do seu Conselho para parir”.

 

Cláudia Rodrigues

(Fonte: http://buenaleche-buenaleche.blogspot.com.br/2012/06/nao-precisamos-do-seu-conselho-para.html)

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Por que reivindicar o direito ao corpo na Marcha das Vadias?

As imagens dizem muito. Corpos expostos, pernas, barrigas e peitos de fora. Dizeres que reivindicam o direito ao próprio corpo. O uso dos nossos corpos para o nosso prazer, o direito à sexualidade, o direito a ser tocada por outr@ apenas com consentimento, o direito de não ter meu corpo violentado, machucado, invadido. O corpo não é um pedaço de carne, nem um pedaço de gente, não é uma parte, mas o todo. Não queremos discursos e imposições sobre nossos corpos.  Estes, portanto, não devem ser moldados, regrados, estereotipados, objetificados. Então, nos despimos para nos apropriarmos dos nossos corpos. Somos contra a nudez mercantilizada, a venda dos corpos. Mas, lutamos pelo direito a nos desnudarmos sem que isso justifique qualquer forma de violência a nossos corpos.

Foto: Rayane Noronha               Foto: Lívia Mota                    Foto: Rayane Noronha                  Foto: Lorena Bruschi

Nas imagens da marcha das vadias, vemos, então, os corpos expostos, e a eles associadas frases de impacto sobre o próprio corpo. Quase como uma metalinguagem. O uso do corpo como um meio de comunicação, é pelo corpo, para o corpo e por meio do corpo que afirmamos nossas reivindicações. Seja com estapados dizeres, seja pela simples exposição de nossos corpos.

“Mas então, qual é a diferença entre uma fotografia da playboy e as fotografias da campanha da marcha? Se vocês são contra as objetificações do corpo da mulher, porque tiraram a roupa?”

Somente ao olhar a imagem é possível perceber a diferença.

Essa imagem foi produzida pela revista playboy, que é uma empresa que lucra com a venda de revistas de mulheres nuas. Sem moralismos, a playboy expõe corpos fictícios (em geral corpos montados no photoshop – peito de uma com barriga de outra) dentro do padrão do que se considera um corpo sexy, erótico, fantasiado pelo público masculino, ou seja, um corpo que está ali servindo ao prazer do homem, mulheres posam nuas em posições sexualizadas, e a imagem está exposta ao deleite dos olhares masculinos.

Já a outra imagem foi produzida pelo Coletivo feminista Marcha das Vadias DF. Foi construída no intuito de romper estereótipos do feminismo e mostrar pelo que estamos lutando. Nada esta sendo vendido, a proposta é passar uma idéia. O “tirar o sutiã” simboliza a liberdade da mulher, o direito a mostrar sim o corpo, mas, desta vez, não para o prazer masculino. Às vezes para o nosso próprio prazer. Às vezes para reivindicar uma situação e um espaço que nos é negado. Às vezes para dizer que não nos enquadramos nos padrões ditados de beleza. Às vezes para dizer que não queremos ter pudor e podemos mostrar nossos peitos. O que está em jogo não é o prazer e o desejo do homem, mas a liberdade da mulher.
Afinal, o sutiã simboliza o que não pode ser mostrado, o que é proibido, o que é fetichizado. O “não mostrar” já evidencia uma cena erotizada. O que está oculto e queremos ver. O que não podemos, mas queremos.
Assim são as capas das playboys. Você compra a revista e ao folhear você vai despindo a mulher. A construção do desejo se dá na capa, quando os olhos querem ver além do que é mostrado, a vontade de saber, de despir, de olhar o que está, até então, proibido.
E o sutiã as vezes serve como elemento de fetiche, para ocultar os seios, mas evidenciar suas curvas. Serve também para moldar, levantar, aumentar, e padronizar os peitos. Deixando-os nos mesmos moldes e formatos impostos pelo sutiã. Tudo bem, podemos querer isso. Pois queremos também nos sentir sensuais. Mas sabemos que essa sensualidade vem acompanhada de padrões impostos.

Ao mesmo tempo em que o sutiã representa uma repressão e imposição de valores a nossos peitos, mostrá-los na marcha das vadias pode significar “despir-se”, “despudorar-se”. Sim, é um elemento de fetiche, mas podemos fetichizar, sensualizar e erotizar nossos próprios corpos, não? E, mais uma vez, vamos a marcha cheias de elementos de fetiches: meia arrastão, cinta-liga, sutiã, rendas, saltos, batom vermelho, mini saia. E os usamos para dizer que podemos ser sensuais, podemos ter prazer, podemos ser vadias, podemos ser tudo que quisermos. E o uso desses elementos não justifica qualquer atitude desrespeitosa a nós e a nossos corpos.

Então o peitaço significa também um rompimento aos padrões. Mostramos
nossos peitos como realmente são. Sem photoshop. Pequenos, caídos, com estrias, grandes, duros, moles, aureolas grandes, pequenas. São nossos peitos, parte de nosso corpo. E somos múltiplas, somos diversas. Nossos corpos também o são. Diversidades de peitos e de vaginas! Sem padrões!


Lembro de varias meninas dizendo “o que meu pai vai pensar?”. Sim, nossos peitos ainda nãos nos pertencem. Afinal, mostrá-los passa pelo crivo de nossos pais, namorados, e toda a sociedade, que nos impõe como devemos nos comportar. Nossos corpos ainda não nos pertencem. Mais reivindicamos o direito de mostrá-los, de andar livremente com ou sem blusa, de exercer nossa autonomia e liberdade para exibir o corpo como quisermos. Aos homens não lhes é negado esse direito. Eles podem andar sem blusa e ninguém vai estuprá-los. Não por isso. Como já citei em outro post, nossa sociedade define quais partes do corpo da mulheres podem ou não ser mostradas, define, inclusive, quais partes serão erotizadas. E o peito está dentro dessa definição. Não podemos mostrá-los nos diz a sociedade! Mas nós não precisamos aceitar essa regra! O simbolismo também é esse. Dizer: eu dito as regras do meu corpo e não a sociedade. E, por isso, o peitaço significa um momento de empoderamento, de força, de união, de solidariedade, um momento feminista, um ato político.

Muitas pessoas questionaram a foto da campanha. E se for um peito dentro dos padrões estéticos? Não podemos reivindicar o direito ao corpo e a nossa liberdade de mostrá-los? Ah sim, então, se temos um corpo dentro dos padrões estéticos, devemos objetificá-los ao prazer dos outros, à comercialização?

Ela não tem o direito a reivindicar o corpo dela? Ela não sofre repressões e opressões? Mesmo as mulheres que correspondem aos padrões estéticos sofrem violências simbólicas e opressões de gênero. Não devemos nos dividir, somos mulheres. E todas sofremos de uma forma ou de outra. Reproduzo um trecho do excelentepost sobre isso: “o fato de estarmos sempre sob olhares que nos comparam com outras mulheres, essas nos fazendo sentir melhores ou piores na medida em que se enquadram mais ou menos nos padrões que nos martirizamos por não atingir, cria um incômodo entre as próprias mulheres. comparamo-nos umas às outras, e nos vemos oprimidas diante de nossas próprias companheiras”.

  
Por fim, algumas imagens reivindicam o direito ao corpo e denunciam as opressões que sofrem diariamente nossos corpos, ou seja, que sofremos. Porque corpo e sujeito são um só. Ambas imagens foram inspiradas nas idéias da Marcha das Vadias. A segunda foi, inclusive, uma manifestação artística de chamado para a marcha. Corpos interditados. Corpos estes que foram reprimidos, limitados, proibidos, restritos, calados, domesticados. Interditados para agir, se expressar, se manifestar, se posicionar, ocupar um espaço que historicamente não lhes foi destinado. Corpos estes que vão agora às ruas. Corpos subversivos, que pedem liberdade.
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Texto escrito por Julia Zamboni para o blog Audácia das Chicas. Disponível em: http://www.audaciadaschicas.com/2012/06/por-que-reivindicar-o-direito-ao-corpo.html
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31 de maio sem MP 557: vitória das mulheres brasileiras

Segue, abaixo, texto de Kauara Rodrigues, do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea), a respeito da vitória de hoje!

31 de maio sem MP 557: vitória das mulheres brasileiras

No mês de combate à mortalidade materna, comemorado em 28 de maio, nós, mulheres brasileiras, devemos celebrar uma importante conquista dos movimentos feministas: a equivocada Medida Provisória nº 557/2011 perde hoje, dia 31 de maio, a sua validade.

A MP, editada pelo Governo Dilma em 26 de dezembro de 2011, visava instituir o cadastro compulsório das gestantes para supostamente garantir a saúde da mulher e do nascituro. Além disso, ela previa o pagamento de um auxílio-transporte ao pré-natal, no valor de R$ 50.

A justificativa era reduzir a mortalidade materna, que possui taxas elevadíssimas no Brasil. Em 2010, foram registradas 68 mortes maternas para cada 100 mil nascidos vivos. Para a Organização Mundial de Saúde (OMS) o máximo deveria ser de 20 casos de morte materna a cada 100 mil nascimentos. Reduzir a mortalidade materna é uma das metas do milênio, que dificilmente será cumprida pelo nosso país até 2015, já que a queda tem sido lenta nos últimos anos.

Desde que a Medida foi editada, sem nenhum diálogo com a sociedade civil comprometida com o tema, os movimentos feministas e de mulheres, assim como setores da saúde coletiva e de direitos humanos, têm se mobilizado e feito duras críticas para impedir sua aprovação. Isso porque, ao contrário do que se propõe, a MP não é capaz de combater a mortalidade materna.

O texto enviado ao Congresso Nacional não dialoga com agenda dos direitos sexuais e direitos reprodutivos, tampouco com as estratégias já construídas coletivamente, como o Plano Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PNAISM), de 2004.

Ademais, entendemos que a vigilância epidemiológica é pertinente e relevante, mas deve se voltar aos serviços de saúde e não às mulheres, o que viola o direito à privacidade e ao sigilo. É importante ressaltar que o problema da mortalidade materna no país está principalmente na falta de qualidade dos serviços e do atendimento prestado às mulheres gestantes e não no acesso ao pré-natal, que tem aumentado significativamente no país. As mulheres estão morrendo dentro dos hospitais e das maternidades!

Entre o conjunto de erros trazidos no bojo da Medida está também o financiamento da bolsa a partir da aplicação de recursos da saúde para uma ação típica de assistência social.

Outro ponto problemático era a figura do nascituro no texto original da legislação, que representava um grave retrocesso aos direitos já conquistados pelas mulheres, ao inviabiliza o atendimento daquelas que tivessem decidido voluntariamente interromper a gravidez, inclusive nos casos permitidos por lei. Em janeiro de 2012, a presidenta Dilma Rousseff reconheceu o erro e reeditou a MP, retirando o artigo do nascituro, após muita pressão. Apesar de a mudança representar uma primeira vitória dos movimentos feministas, ela ainda era insuficiente.

Ao chegar ao Congresso Nacional, conforme havíamos alertado, a Medida recebeu 114 emendas ao seu texto, algumas positivas e outras ainda piores, que traziam inclusive a figura do nascituro novamente. Assim, todas as demais falhas apontadas na Medida se mantiveram presentes, com o risco de serem votadas e tornadas lei por bancadas comprometidas com o conservadorismo religioso e moral, sedentas por cargos no governo federal e sem nenhuma preocupação com a vida e a saúde das mulheres.

Diante disso, os movimentos feministas intensificaram uma verdadeira jornada contra a MP 557, por meio de inúmeras manifestações públicas, notas de repúdio, mobilizações nas redes sociais, reuniões com membros do governo federal e parlamentares, com o Conselho Nacional de Saúde e em especial com a Comissão Intersetorial de Saúde da Mulher.

Por isso, hoje, sem a votação da Medida Provisória 557/2011 e com a consequente perda de sua eficácia, parabenizamos todas e todos que lutaram para esse resultado, e aproveitamos para celebrar a força dos movimentos feministas lembrando que não aceitamos quaisquer medidas que ameacem e retrocedam nossos direitos reprodutivos. Lutamos por políticas públicas de saúde que respeitem nossa autonomia, com ênfase na saúde integral das mulheres!

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