Sobre a Marcha das Vadias DF

Como quer que eu me vista, onde quer que eu vá: sim significa sim e não significa não.

A Marcha das Vadias é um movimento internacional de mulheres criado em abril de 2011 na cidade de Toronto, no Canadá, em resposta ao comentário de um policial que disse que, para evitar estupros em uma universidade, as mulheres deveriam parar de se vestir como “sluts” (vadias, em português). Assim, teve início a SlutWalk, em que mais de 3 mil mulheres canadenses foram às ruas para protestar contra o discurso de culpabilização das vítimas de violência sexual e de qualquer outro tipo de violência contra as mulheres. A partir daí, diversas manifestações semelhantes (SlutWalk, Marcha de las Putas, Marcha das Vadias) ocorreram em mais de 30 cidades, em diversos países – como Costa Rica, Honduras, México, Nicarágua, Suécia, Nova Zelândia, Inglaterra, Israel, Estados Unidos, Argentina e Brasil.

Todas essas mulheres marcham por seu direito de ir e vir, seu direito de se relacionar com quem e da forma que desejarem e seu direito de se vestir da maneira que lhes convier sem a ameaça do estupro, sem a responsabilização da vítima e sem sofrer nenhum tipo de humilhação, repressão ou violência. A motivação principal da Marcha das Vadias é a situação, compartilhada por mulheres de todo o mundo, de cerceamento da liberdade e da autonomia, de medo de sofrer violência e da objetificação sexual.

A Marcha das Vadias/DF discute esse tema universal com debates aprofundados sobre a situação específica das mulheres no Distrito Federal. Organizada por mulheres reunidas em um Coletivo, a 3ª Marcha das Vadias/DF acontecerá no dia 22 de junho de 2013, às 14h, com concentração em frente ao Conjunto Nacional. Marchemos!

Mexeu com uma, mexeu com todas!

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Entrevista com o Coletivo da Marcha das Vadias DF:

A Marcha surgiu no Canadá. Como surgiu a ideia de trazer para o Brasil?

A Marcha do Canadá repercutiu bastante na mídia e, espontaneamente, várias outras Marchas foram se constituindo ao redor do mundo, porque a fala do policial canadense, infelizmente, encontra eco em vários outros países, como no Brasil. De qualquer forma, existem especificidades locais que têm origem no cotidiano e nas experiências diferenciadas das mulheres nas diversas localidades. Por isso, acreditamos que a ideia da Marcha das Vadias não foi importada e sim apropriada, criada e recriada a partir das diversas vivências locais das mulheres nas cidades onde as Marchas são realizadas.

Como foi a organização do coletivo? Quem faz parte atualmente? Em quantas pessoas em média vocês são?

A organização da primeira Marcha começou no Facebook, a partir do contato de algumas meninas feministas que se conheciam, mas que ainda não formavam um coletivo. Fomos chamando outras amigas, criamos um evento de divulgação da primeira reunião de construção da Marcha no Facebook e, para nossa surpresa, cerca de 60 meninas compareceram à reunião. Criamos uma lista de e-mails que contava com aproximadamente 80 meninas, envolvidas de diversas formas na organização da Marcha. Hoje, desde a divulgação da nossa campanha “Feminista por quê?”, o número de meninas interessadas em ajudar na construção da Marcha cresce a cada dia e somos mais de 150 meninas organizadas na lista.

Como está funcionando a organização do evento? Vocês estão tendo apoio de outros órgãos?

A organização da Marcha é totalmente construída por mulheres integrantes do Coletivo Marcha das Vadias/DF, sem apoio de nenhum órgão ou instituição. Dentro da Marcha, há meninas que militam em diversas esferas, institucionais ou não, mas, enquanto coletivo, nossa organização é horizontal e autônoma.

A marcha já aconteceu no ano passado e reuniu quase 2 mil pessoas, mas esse ano a repercussão está sendo maior, não é? Vocês acham que é por causa da Campanha fotográfica, das redes sociais? Vocês sentem que o movimento está mais consolidado?

É difícil estimar se a repercussão está sendo maior ou menor, pois, no ano passado, a Marcha era novidade e trouxe muita polêmica, além de ter acontecido em vários lugares ao redor do mundo. No caso específico do Distrito Federal, acreditamos que a nossa campanha fotográfica atingiu uma repercussão enorme inclusive nacionalmente, além de trazer uma atenção muito maior para o feminismo e as lutas que ele abrange. Com certeza, as redes sociais tiveram um papel fundamental na construção e na divulgação da Marcha desde o início, mas, com isso, também enfrentamos o desafio de expandir nossa atuação para além da internet, que ainda é um espaço elitizado ao qual nem toda a população tem acesso ou familiaridade.

E falando da divulgação, a ideia da Campanha fotográfica surgiu no México, não foi? Como foi a adaptação aqui para o Brasil? Quem são os responsáveis? Quem são aquelas mulheres?

Sim, nossa inspiração foi uma campanha Mexicana intitulada “Os mandamentos das mulheres”, mas nós optamos por não utilizar a expressão “mandamentos” por não concordamos com o imperativo religioso implicado aí. Além disso, apesar de a campanha mexicana trazer algumas frases interessantes, ela foi produzida por uma empresa de lingerie, e não tinha nenhum caráter feminista. Na verdade, a empresa inclusive já sofreu processos no México por veicular propagandas extremamente sexistas e misóginas e fez essa campanha no intuito claro de melhorar sua imagem perante o público feminino, utilizando o feminismo como mercadoria. A campanha ainda era racista, pois só apresentava mulheres brancas (o que é mais absurdo ainda se pensarmos que a maior parte da população mexicana é de origem indígena).

Nós procuramos debater e politizar essas questões e incluir nossas especificidades enquanto mulheres brasileiras, negras, brancas, pardas, indígenas. Todas as fotógrafas da nossa campanha são mulheres, integrantes do coletivo ou nossas amigas e as edições também foram feitas por nós. Algumas mulheres fotografadas são integrantes do coletivo e outras são amigas que convidamos para participar, assim como os homens que chamamos para manifestar seu apoio ao feminismo.

O nome da Marcha com certeza chama a atenção, rola bastante preconceito em um primeiro momento, antes de as pessoas entenderem o contexto?

Sempre aparecem algumas pessoas questionando o nome do movimento, algumas de forma construtiva e outros para fazer piadinhas, mas estamos muito felizes com a quantidade de pessoas que estão defendendo a Marcha e argumentando sobre a necessidade dela de forma belíssima na nossa página do Facebook. A proposta da Marcha das Vadias é lutar contra todas as formas de violência contra a mulher, seja ela física, simbólica, psicológica, sexual. E ao mesmo tempo temos a intenção de usar o termo “vadias” para ressignificá-lo e chamar atenção de que somos chamadas de vadias pelos motivos mais absurdos, às vezes até pelo simples fato de sermos mulheres. Todas as mulheres já foram chamadas de vadias. O que é, então, ser vadia? Se ser livre é ser vadia, somos todas vadias.

Um dos objetivos do coletivo é esclarecer a questão do feminismo e de certa forma desmistificar, certo? Como diriam que é o feminismo que defendem?

O mais legal da Marcha das Vadias é que ela agrega mulheres que nunca se entenderam feministas ou nunca tiveram contato com militância, discussões sobre gênero e machismo, mas que têm atitudes feministas na vida mesmo sem saber. Por isso, várias meninas que integram o coletivo passaram a se considerar feministas a partir da experiência na Marcha. Nós acreditamos que o feminismo na verdade são vários e múltiplos. Não abarcamos com a Marcha todos os feminismos que existem no Brasil e mundo, nem todas as pautas feministas. Entendemos que nossa ação feminista, através do coletivo heterogêneo que formamos, reside principalmente na luta por uma vida livre e digna para todas as mulheres em suas especificidades, com plena autonomia sobre nossos corpos. A nossa luta é por respeito, por um mundo mais igualitário entre homens e mulheres, entre negras/os, indígenas e brancas/os; por um mundo sem machismo, racismo e sem opressão de algumas pessoas sobre outras.

 Fonte:  http://www.revistatag.com.br/web/index.php?option=com_content&view=article&id=729:entrevista-coletivo-marcha-das-vadias&catid=77:entrevista

 

3 comentários sobre “Sobre a Marcha das Vadias DF

  1. [...] Mais especificamente, a marcha das vadias é uma marcha pelo respeito incondicional às mulheres [1], pelo direito de exercerem suas sexualidades, suas liberdades sociais, e de não serem vítimas de violências impunes-ignoradas. O episódio que se constituiu em fagulha pra marcha foi uma infeliz  recomendação feita por um policial em uma palestra sobre segurança no campus da York University, Mulheres devem evitar se vestir como vadias para não serem vitimizadas. Aspectos mais específicos da marcha podem ser encontrados aqui. [...]

  2. Aurore disse:

    Olá, amigas,

    Peço perdão pela pergunta, mas realmente gostaria de ouvir de vocês essa resposta: Por que a nudez na Marcha das Vadias?

    Apenas elucido, antes de qualquer coisa, ou mesmo antes de uma apreciação pejorativa, que não sou efetivamente contra. De igual forma, não sou ignorante e acredito ter uma noção do que vocês querem passar. Unicamente questiono porque gostaria de ouvir diretamente das mulheres que a endossam em seus manifestos, saber se estou observado sob a perspectiva que mais condiz àquela a que vocês se propõem e, devidamente, talvez, debater o assunto. :)
    Obrigada. Abraços,

    Aurore

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