“Marcha pra que te quero”, texto de Andréa Cerqueira

 Segue, abaixo, ótimo texto de Andréa Cerqueira, reproduzido do blog: http://www.conversasdeandrea.blogspot.com.br/2012/05/marcha-pra-que-te-quero.html

MARCHA PRA QUE TE QUERO

                       “José, José, prepara teu café,

                               João, João, cozinha teu feijão,

                               Zeca, Ô Zeca, lava tua cueca!”

Toré feminista (Loucas de Pedra Lilás)

Nossa história começa lá atrás. Nos estágios mais remotos da vida humana.

Segundo o psicólogo alemão Erich Neumann, no período primordial, “não existe uma pré-disposição nem uma incapacidade, condicionadas pelo sexo, no que diz respeito a qualquer tipo de ocupação importante para o grupo. Encontramos homens ociosos e mulheres guerreiras, da mesma forma que há mulheres ociosas e homens ativos. Algumas vezes a relação com o poder é prerrogativa dos homens e, em outras circunstâncias, das mulheres.”

Já no auge da época matriarcal, a individualidade era pouco desenvolvida, assim como as relações individuais entre homens e mulheres. A existência coletiva do grupo estava em primeiro plano. Os rituais universais de fecundidade eram orientados para a comunidade como um todo.

Na religião e mitologia do Egito, segundo Neumann, “a reelaboração patriarcal do simbolismo matriarcal anterior já pode ser claramente constatada.” E, na Índia antiga, numa passagem das “lendas do Padmasambhava”, as mulheres serão tratadas como as ‘ogras’ do ser humano, e o seu corpo será o “caldeirão de cobre das bruxas, no qual têm lugar todos os sofrimentos…” Alguns historiadores creditam a origem do poder paterno, que sempre acompanha a autoridade marital, à remota Índia. Nos textos sagrados, a família era um grupo religioso do qual o pai era o chefe.

Com Jesus Cristo a coisa muda de figura, senão na prática, pelo menos teoricamente. Jesus proclama que a autoridade paterna não seria mais exercida no interesse do pai, mas do filho, e que a mãe não seria a esposa-escrava, mas a companheira. Sabemos que esta mensagem foi reinterpretada de diversas maneiras posteriormente por teólogos e apóstolos e deu no que deu!

Santo Agostinho vai afirmar que a mulher é “um animal que não é firme, nem estável, odioso, que alimenta a maldade… ela é fonte de todas as discussões, querelas e injustiças.” Ou seja, é sempre Eva, coitada, a responsável pelos pecados de Adão! E São Paulo, em a Epístola aos Efésios, vai afirmar que o homem deve ser o chefe do casal, pois foi criado primeiro: “…assim como a Igreja está sujeita à Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos.” Santa interpretação!

Como se não bastassem esses defeitos de ‘origem’, a filosofia vai tentar reafirmar, com Aristóteles, a autoridade do marido e do pai. Segundo o filósofo, haveria uma desigualdade ‘natural’ entre os seres humanos. Dotada de frágil capacidade de deliberação, a opinião de uma mulher não era digna de consideração, e sua única virtude moral seria “vencer a dificuldade de obedecer”.

Saltemos alguns séculos, para chegarmos à França de Rousseau, o pai do contrato social.  Para ele, a mulher era uma criatura essencialmente ‘relativa’, um ‘complemento’ do homem. Mas na França também se fizeram ouvir outras vozes. Montesquieu, considerado um dos precursores da antropologia, denunciou diversas vezes as desigualdades entre homens e mulheres. Afirmava que não era natural a submissão das mulheres aos homens, e que este ‘império’ masculino era uma verdadeira tirania. “…se as mulheres são efetivamente inferiores aos homens deste século, a causa não reside na sua natureza, mas na educação que lhes é dada, ou melhor, na educação que lhes é recusada.”

Mas foi a partir do século XIX, que as coisas começaram a ficar mais nítidas, porque os cientistas sociais começaram a desvendar o que antes era tido como ‘natural’. Em A origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, Engels vai afirmar que o primeiro antagonismo de classe que aparece na história coincide com o antagonismo entre o homem e a mulher, na monogamia, e que a primeira divisão do trabalho acontece entre o homem e a mulher para a procriação dos filhos. Diz ele: “a reversão do direito materno foi a grande derrota histórica do sexo feminino. O homem passou a governar também a casa, a mulher foi degradada, escravizada, tornou-se escrava do prazer do homem, e um simples instrumento de reprodução…”

A expansão do capitalismo, segundo a socióloga britânica, Sylvia Walby, foi um fator importante para a criação das circunstâncias materiais que levaram ao movimento das mulheres na esfera pública e ao feminismo.

A feminista norteamericana Heidi Hartmann buscou explicar a parceria entre patriarcado e capitalismo e a incapacidade dos movimentos trabalhistas socialistas, dominados por homens, em priorizar o sexismo. A filósofa e cientista política Iris Young, sua conterrânea, argumentava que as relações patriarcais estavam internamente relacionadas às relações de produção como um todo. E afirmava que a organização autônoma das mulheres permanecia como uma necessidade prática. Já a feminista francesa Christine Delphy descreveu o matrimônio como uma relação de classe em que o trabalho da mulher beneficia o homem, sem que haja uma remuneração compatível.

Segundo o sociólogo Avtar Brah, até recentemente, as perspectivas feministas ocidentais davam pouca ou nenhuma atenção aos processos de racialização do gênero, classe e sexualidade. Segundo o autor, estruturas de classe, racismo, gênero e sexualidade não podem ser tratados como “variáveis independentes”, porque a opressão de cada uma está inscrita dentro da outra – é constituída pela outra e é constitutiva dela.

E falar em feminismo no Brasil e na América Latina sem falar em gênero e raça, não faz sentido. Em todos os períodos de crise, houve a feminização da pobreza. Mulheres e negras foram as mais atingidas pela violência e pelas desigualdades. Segundo a feminista negra brasileira Luiza Bairros, o patriarcado repousa em bases ideológicas semelhantes às que permeiam o racismo: a crença na dominação constituída com base em noções de inferioridade e superioridade.

Se, a violência atinge uma em cada três mulheres na América Latina; quatro em cada dez mulheres brasileiras já foram vítimas de violência doméstica; uma mulher é agredida a cada cinco minutos no Brasil; e 70% das vítimas de violência sexual doméstica no DF têm até 14 anos, eu pergunto: COMO NÃO MARCHAR?

Segundo a infopedia, a marcha descende da tradição medieval inglesa que levava um servo a acompanhar a pé o seu amo que viajava em carruagens puxadas por cavalos.

Contra tradições e preconceitos que queremos superar, marchamos sem oprimir ninguém, lado a lado.

Contra o MACHISMO, O RACISMO, A HOMOFOBIA E TODAS AS FORMAS DE OPRESSÃO E DESIGUALDADE.

VIVA A MARCHA DAS VADIAS!

Andréa Cerqueira, mãe da Bruna, do Coletivo da Marcha, mestranda em Sociologia pela Universidade de Brasília e Multiplicadora da Técnica do Teatro do Oprimido.

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Um pensamento sobre ““Marcha pra que te quero”, texto de Andréa Cerqueira

  1. Sueli Raquel (SP) disse:

    Esse texto maravilhoso e triste me fez ficar em silencio, sentindo…e me fez entender
    o porque de tantas mulheres optarem pelo relacionamento unicamente com mulheres.

    A presunção que os homens tem em relaçao à seus míseros e idênticos falos, é digna de pena.

    É uma honra estar aqui. Tomara eu consiga acompanhar. Abrçs!!

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