O que nos ensinam os peitos de Amina, a garota da Tunísia

Vamos pensar antes de reproduzir preconceitos. Contra a Islamofobia!

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O que nos ensinam os peitos de Amina, a garota da Tunísia

(24 Março 2013) ~ Por Nasreen Amina

As últimas 48 horas foram ricas em lições de todo tipo. Todas elas provêm da polêmica que surgiu a propósito da suposta fatwa que condenava à morte a jovem tunisiana chamada Amina. O grupo “feminista” Femen espalhou a informação de que um clérigo muçulmano havia emitido uma fatwa contra Amina, condenando ela a uma pena de chicotadas e apedrejamento. A notícia se espalhou como um rastro de pólvora e viralizou como uma gripe.

Hoje, 22 de março muitas inflamadas defensoras dos direitos das mulheres vão marchar nas embaixadas da Tunísia pelo mundo, na ONU, ou onde for para exigir que não se aplique a pena de morte contra Amina por divulgar a foto no qual mostrava seus peitos nus.

Na Tunísia não existe pena de morte já que foi abolida no ano de 2011, sendo o primeiro país africano a abolir. Também esta nação é das poucas que consagrou a igualdade do homem e da mulher a nível constitucional. Não esqueçamos da massiva marcham das mulheres tunisianas exigindo esta mudança na sua Constituição no ano passado. Tampouco a Tunísia está entre os países que aplicam o apedrejamento, mas isto se pode deduzir usando um pouco de lógica: o apedrejamento é um castigo que causa a morte da pessoa. Se na Tunísia não existe pena de morte e isto quer dizer que ninguém é assassinado por decisão judicial, então como poderia existir apedrejamento legal se este causa justamente a morte do(a) acusado(a)?

Outra conclusão fácil de obter com um simples exercício de raciocínio e com a ajuda da Wikipédia, tem a ver com a condenação da mesma. A Tunísia possui tribunais civis, ou seja, não são os representantes das religiões, mas sim o poder público quem julga os cidadãos. Quando Amina foi presa? Qual o tribunal que formulou as acusações? Que juiz a condenou? Ninguém pensou nisso, nem em fazer o mínimo esforço para averiguar mais além. Os preconceitos foram mais fortes.

Em cada página onde a foto da garota com os seios de fora foi postada, os comentários contra os muçulmanos foram de uma virulência, ódio e desumanização que não se diferenciavam muito de qualquer discurso fascista de aniquilação de outros por ser diferentes. O grau de violência das expressões daqueles que alegavam defender a liberdade estavam muito próximos do discurso de ódio e de incitação a violência por razões religiosas. Apesar dos textos e da informação esclarecendo a situação [1] ter sido publicado em várias páginas e colocada na frente dos narizes dos ditos “Defensor@s dos Direitos Humanos”, est@s não o leram porque não confirma suas próprias verdades assumidas sobre os muçulmanos.

Também deixou em evidência que o discurso de integração das mulheres muçulmanas da parte de outras mulheres sejam feministas ou não, ainda tem muito de discurso e pouco de vontade, ao menos no que se refere às redes sociais. Durante as últimas horas vi como as mulheres muçulmanas são castigadas com violência verbal e palavras e termos discriminatórios; em meio a verborragias pela liberdade, nos pedem que respondamos “moralmente” pelo que fazem os governantes e as autoridades religiosas nos países de maioria muçulmana.

Esta violência contra nós nas redes sociais é tão injusta quanto castigar as católicas pelo que fazem os padres pedófilos. É absurdo, mas assim é. É tão ridículo. Um idiota profere frases misóginas e outros, que se creem menos idiotas, em vez de perseguir o idiota que falou primeiro, começam a fazer caça as bruxas contra uma comunidade. A reação de islamofobia do caso de Amina na Tunísia se explica bem com a seguinte analogia: um leão ruge na África e as pessoas, em vez de tentarem pegar o leão, começam a envenenar gatos.

A grande maioria das pessoas não nos escutam. Colocamos a informação a sua disposição mas insistem em negá-la como mentira e propaganda. Só serve a informação que alimenta seus estereótipos. Foi repetido muito que nós muçulmanas fazíamos propaganda e limpeza de imagem do Islã no Facebook. Isto apesar de não sermos donas da CNN, Fox News, Televisa nem controlarmos Facebook ou Twitter.

É curioso que para certo setor do ativismo os meios de comunicação não conspiram e se tornam fontes muito credíveis quando se trata de dar crédito a seus próprios preconceitos. Quando questionamos as verdades assumidas sobre nós como mulheres e sobre o Islã como nossa fé, só recebemos violência e maltrato, somos desautorizadas como possuidoras de um ponto de vista, somos tratadas como menores, ignorantes e incapazes.

Não é o governo da Tunísia, nem seus tribunais, nem a comunidade muçulmana quem quer cometer danos a Amina. É importante fazer esta distinção. Misóginos estão em todos os lados e certamente muitos cidadãos molestam uma mulher que se manifesta desta forma, mas são indivíduos. O que há que pedir através das embaixadas da Tunísia no mundo é que se aplique a lei que garante a segurança da garota contra as reações violentas que, aliás, podem ocorrer de todos os lados, porque machistas violentos sobram no planeta.

A propósito não posso deixar de mencionar meu profundo questionamento aos objetivos reais do grupo autodenominado feminista “Femen”, o qual foi denunciado por muitas de seus ex-membros, assim como por distintas pessoas, como promotor da islamofobia, do neo-colonialismo, relação com grupos neonazistas e de ser financiado pela Cia. Se tanto lhes preocupa a segurança de Amina já contataram um advogado para interpor um Habeas Corpus?

Hoje vou ver como minhas “colegas” feministas marcham para reclamar pela não-aplicação de uma pena de morte que nunca existiu, apesar de que nós, as mulheres muçulmanas, termos entregado a informação correta sobre as reais dimensões do caso. Na próxima vez que escutarmos dizer a “@s libertári@s” que nós, as mulheres muçulmanas, não temos voz, saberemos que na realidade o que querem dizer é que não querem nos escutar. O preconceito justifica o duplo padrão. Um par de seios pode ser muito distrativo e um apedrejamento que nunca existirá vende mais que a verdade e a garantia de alguns minutos na Televisão Nacional. Um detalhe nada menor. No Chile é ano eleitoral.

O ocorrido com a notícia da suposta execução de Amina deixou em evidência o quão comprometidas estão as pessoas que se declaram “informadas” “libertárias” e “respeitosas” ao seguir seus próprios preconceitos, estereótipos e medos sobre o Islã.

[1] http://perderelnorte.com/al-islam/pechos-y-fatuas-comunicado-de-red-musulmanas/

Publicado em português em:
http://www.feminismo.org.br/livre/index.php?option=com_content&view=article&id=99995447%3Ao-que-nos-ensina-os-peitos-de-amina-a-garota-da-tunisia&catid=99%3Aopiniao-e-analise&Itemid=620

Traduzido de: http://nasreenvrblog.wordpress.com/2013/03/22/lo-que-ensenan-los-pechos-de-amina-la-chica-de-tunez

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5 pensamentos sobre “O que nos ensinam os peitos de Amina, a garota da Tunísia

  1. Jemima Murad disse:

    Obrigada!! Me senti feliz em poder dar uma resposta e aliviada, em saber que o que eu imaginava estava certo.

  2. Larissa disse:

    Muito bom Leila!
    Tinha ficado bastante intrigada com isso, me perguntando de onde tinha saido essa “sentença”.
    Uma crítica muito forte das feministas em países de maioria islâmica é a falsa ideia de que elas precisam ser salvas pel@s ocidentais de suas sociedades não laicas e muito machistas. A “solução” é sempre “tirar o véu”, “salvar do apedrejamento”, “ensinar a monogamia” e por ai vai.
    Um tempo atrás escrevi um texto que dialoga um pouco com o seu. Espero comentários =D
    http://www.audaciadaschicas.com/2012/01/as-mulheres-arabes.html

  3. Larissa disse:

    De toda forma, obrigada por compartilhar tanto o texto da Nasreem Amina quanto o da Gisele Marie.
    Ambos merecem ser compartilhados para que mais pessoais saibam o que as muculmanas têm a dizer sobre suas realidades. Um pouco de alteridade é importante para evitar preconceitos e desinformação. O ‘feminismo’ tem falhado nisso, infelizmente.
    E eu sinceramente não havia buscado informação sobre o Femen, sabia da ressalva de muitas companheiras ao movimento, mas para não ser injusta me eximia de opinar.
    O que aconteceu foi que um jornal tunisino perguntou a um senhor Wahabista (ala mais radical de islamistas, que pregam que a sharia – que possui zilhões de interpretações – deva ser aplicada como lei suprema) o que devia ser feito à Amina. Dai a dizer que ela foi condenada pelos tribunais tunisinos é um pulo. E o Femen deitou e rolou.
    A Época tirou do ar a desinformação que vinha veiculando.
    AFF. Vergonha alheia.

  4. Flavia Coelho Ribeiro disse:

    Excelente txt.! Nos faz realmente refletir sobre nossos preconceitos. Digo isso pq percebo q não ser preconceituoso é algo q exige 1 exercício diário de reconhecimento de onde guardamos nossos preconceitos. Somos influenciados pelo meio em q somos criados, pelos valores de quem nos cria, de nossa família, da escola, da mídia etc. Por + q eu me esforce, reconheço q ainda identifico algumas opiniões contaminadas por preconceito em mim. Procuro, no entanto, identificá-los e me livrar deles. Contudo, apesar de concordar em gênero (rs) número e grau c/ td o txt., acho q o q ocorreu possui 1 outro aspecto q merece reflexão tb. Sempre tive vontade de conhecer a Tunísia, q era 1 dos países muçulmanos onde a secularidade era + antiga. Sempre ouvi dizer q era 1 lugar “seguro” p/ viajar, já q os hábitos “ocidentais” seriam bem tolerados. Resumindo: era possível desfrutar de suas paradisíacas praias de biquini s/ problemas. Contudo, c/ a queda do governo ditatorial q havia lá, q impunha a laicidade do estado, retornaram ao país vários religiosos intolerantes q fomentam esse tipo de comportamento e defendem a aplicação da sharia e das fatwas. Ou seja, se, por um lado, realmente houve 1 reação deveras e inaceitavelmente preconceituosa, não se pode negar q, c/ o retorno desses caras ao país, a secularidade está ameaçada na Tunísia. Basta ver o crescimento q eles tiveram nas eleições posteriores à queda da ditadura… Por favor, se eu estiver errada, gostaria q me esclarecessem. Obrigada!

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