Violência doméstica contra mulheres jovens: Por que omissão não é neutralidade? ou Por que a solidariedade feminina é urgente?

Não é difícil deduzir, você com certeza conhece um caso parecido com esse:

Uma mina denuncia o namorado/companheiro por agressão e o cara conta a própria versão pros amigos: “não foi bem assim, o relacionamento tava conflituoso, a gente já tinha passado dos limites”, “foi só um tapa… foi no calor do momento, ela que é histérica, tá exagerando” ou “vocês conhecem a garota, ela é louca, tira qualquer um do sério, bem que tava merecendo umas palmadas de leve, né?”. Em pouco tempo essa versão se espalha. A mina também publiciza a versão dela: “a gente tava discutindo feio, gritando um com o outro, daí ele veio e me deu um tapa” ou “no meio da discussão ele começou a me bater, eu revidei”, “ele me viu conversando com um cara, chegou em casa me empurrando e me dando soco”. A versão dela também se espalha, mas o que a gente escuta nas rodas de amigos em comum é “a gente nem sabe o que aconteceu direito, não dá pra ficar julgando o cara, chamando ele de agressor sem saber de fato o que rolou”. O cara, então, continua a frequentar normalmente os espaços comuns entre os dois – shows, bares, casa da galera, faculdade, grupo de militância etc.

A pretensa neutralidade esconde um fato: um lado dessa história foi escolhido e não foi o lado dela. Instantaneamente uma rede se solidariedade se forma pra dar o apoio ao cara. É uma rede de solidariedade que parece invisível, por isso, é tão difícil de ser apontada. É uma rede de solidariedade perfeitamente naturalizada e, por isso, qualquer crítica feita a ela soa como um ataque sem sentindo de feminazis histéricas. Não quero dizer aqui que o cara tem que ser retirado de qualquer convívio social, tem que parar de frequentar todos os espaços públicos, tem que se trancar em casa para todo o sempre (como fazem crer que é o que as feministas querem que aconteça). O que quero dizer é que, nos ciclos de amizade comuns, o que geralmente se encontra são grupos que não cogitam sequer MINIMAMENTE, pensar em criar também zonas de conforto pra mulher que fez a denúncia. Porque parece que criar uma zona de conforto pra ela significaria assumir uma postura: a de que o cara é um agressor. Mas você não pode fazer isso porque não é um juiz né, cara? Nem é deus pra ficar julgando o que você não conhece, nem viu. Então você continua carregando seu brother pra todas as baladas, pra todos os botecos, pra todos os rolês na casa da galera – mesmo quando você sabe que a mina vai estar presente – afinal, quem é você pra julgar o certo é o errado, não é mesmo? Mas aqui vai uma novidade pra você, meu brother: VOCÊ ESCOLHEU UM LADO SIM E NÃO FOI O LADO DA MINA.

Por que você não falou pro seu amigo que estava sendo acusado de agressor coisas do tipo: “cara, você tava estressado pra caralho, mas mesmo assim NÃO É DE BOA dar um tapa em ninguém”, “sei que é foda no momento da discussão, MAS O QUE VOCÊ FEZ FOI ERRADO, NADA JUSTIFICA a violência física”, “tá rolando todo esse processo, que tal a gente ir pra outro bar hoje pra evitar encontrar a mina, ou quem sabe ficar aqui em casa tomando umas?”ou “vou perguntar pra fulano se ela vai nessa festa, se ela for, a gente faz outra coisa, NÃO É MASSA FREQUENTAR OS MESMOS ESPAÇOS AGORA”.  Essas sim são posturas de quem tá dando o apoio pro brother, mas também tá se solidarizando com a posição da mina. ACORDA, CARA, A OMISSÃO É SIM UMA ESCOLHA!

E por que a solidariedade feminina é urgente? Ela é urgente pelo simples fato de que se não formos nós, mulheres, a criarmos redes de solidariedade que tragam ao menos um pouco de conforto para as minas que sofrem violência doméstica, não vão ser os caras que vão fazer. [sei bem que toda a generalização é falha, existem vários caras que percebem a escrotidão dessa sociedade machista e buscam dar conforto também pra mina. Mas também sei que esses vários caras, infelizmente, são a exceção, inclusive nos meios politizados mais libertários]. Um das grandes crueldades da violência doméstica está no fato dela ser invisível. É uma violência considerada da ordem do privado. Quando o que está em jogo é a violência praticada e sofrida entre pessoas da mesma galera, o privado é a maior justificativa pra omissão. Se a mesma garota vier no mesmo grupo pra falar que foi estuprada, agredida, assaltada por um desconhecido na rua, NINGUÉM PÕE EM DÚVIDA SEU RELATO. Mas quando o agressor é da galera, aí não tem como saber. É mais fácil chamar a garota de histérica, louca, descontrolada ou dizer que não existe como saber de nada, que é melhor não tomar posição nenhuma na confusão. E a vida segue o fluxo, inalterada pra ele, forçosamente diferente pra ela.

Se nós, as minas, não formamos esses laços de solidariedade, mulheres vítimas de violência doméstica vão continuar sendo naturalmente excluídas de seus espaços de socialização e dos espaços públicos da cidade. Não vamos comprar o falso discurso da omissão e da neutralidade. Nem vamos acreditar naqueles que falam que a nossa união resulta em um tribunal sem provas. Solidariedade tem muito menos a ver com julgamento do que com conforto e apoio. Nossas redes de solidariedade não são naturalizadas, por isso elas são tão apontadas, criticadas, ridicularizadas e minimizadas. Mas não vamos nos abater, juntas somos mais fortes na busca por uma sociedade mais igualitária, menos machista, menos violenta, menos escrota.

aguas

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