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“Palavras de ordem + Palavras de respeito: os cartazes para a Marcha das Vadias”, texto da SlutWalk Belo Horizonte

“A Marcha das Vadias está aí e vai ganhar as ruas de Belo Horizonte no próximo dia 26.

Trata-se de um ato a favor da liberdade, da diversidade e contra a violência contra a mulher. Mas no que consiste essa violência? Como abordá-la nas manifestações?
Em primeiro lugar, devemos lembrar que a violência contra a mulher não é apenas a agressão física, sexual ou psicológica. A violência aparece de forma desavisada, muitas vezes, na linguagem.
Tanto é que esse é um mote importante da Marcha das Vadias: queremos nos apropriar de expressões que comumente são usadas para rotular e agredir as mulheres que não seguem a cartilha dos “bons modos”.
Nesse sentido, é sempre bom lembrar que a batalha da Marcha das Vadias passa também, e muito, pelo campo das palavras, dos seus significados, de se seus pesos e conotações sociais.
Assim, antes de escrever o seu cartaz, sua faixa ou inscrever em seu próprio corpo um lema, lembre-se disso. Lembre-se que a sua palavra pode excluir, machucar, ferir, violentar. Parece exagero?
No ano passado, na primeira edição da Marcha em Belo Horizonte, por exemplo, a tentativa de abarcar a diversidade de comportamentos e escolhas acabou por desencadear um mal entendido para com as prostitutas que, a nosso convite, optaram por aderir à Marcha, na luta por respeito.
Uma frase recorrente nos cartazes e corpos das manifestantes foi a emblemática “Nem Santa Nem Puta”. Uma frase forte, potente, que visa a questionar os extremos por meio dos quais a sociedade insiste em dividir as mulheres, ignorando a multiplicidade de escolhas e de comportamentos a que estamos sujeitas todos os dias.
Em todo caso, uma frase também ambígua, que foi interpretada por algumas prostitutas como uma exclusão, como se o que estivéssemos rechaçando não fosse o rótulo, mas as próprias putas. Como se não quiséssemos nunca ser confundidas com santas, tampouco com putas.
Entendemos que se trata de um grupo que é essencial para o fortalecimento da Marcha e que deve ser incluído, de forma orgânica, tanto na manifestação quanto em sua organização, sobretudo porque é uma luta que diz respeito direto a elas: quando vítimas de abuso, as prostitutas são atendidas com desconfiança e desprezo nas repartições, como se, na profissão delas, sofrer abusos e ser vitimada por crimes fosse algo
natural. Tanto é que grande parte delas já nem pensa mais em notificar a polícia quando sofre violência, pois sabe que sua queixa não merecerá crédito, pois de vítima ela pode passar a ser considerada culpada.
Por isso, ainda que frases como “Nem Santa Nem Puta” possam ser compreendidas como uma crítica ao estigma e ao preconceito, uma vez que identificamos que pode haver certo desconforto por parte daquelas que são putas por profissão, optamos por aconselhar aos participantes da marcha que evitem provocações que possam ter interpretações excludentes.
Afinal de contas, nossa proposta é unir, e nunca segregar!
Todas as santas, todas as putas, todas as vadias, todas as mulheres; todas nós exigimos respeito.”
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“Vá-dia de violência contra a mulher”!

Reproduzimos, abaixo, lindo texto da Marcha das Vadias de Campinas, pra aumentar ainda mais a nossa vontade de marchar!

Até sábado, nos vemos nas ruas!  😉

*

Vá-dia de violência contra a mulher
Vá-dia de estupro
Vá-dia de soco, pontapé, pancada

Vá-dia da palavra mal colocada.

Hoje é dia de não adiar:
Não adiar os milênios
de Pudor
de Medo
de Violação

Se somos iguais, me mostre a diferença:
não sacrifique seu desejo em mim!

Vá-dia, e adia o silêncio:
das mães
das filhas
das santas e das putas

Dessas nós, mulheres

Que de corpo marcado
Trazemos a cara pintada
Pra ter a alma lavada:

Basta!

(Coletivo Marcha das Vadias Campinas: http://marchavadiascampinas.wordpress.com/2011/08/12/marcha-das-vadias-11-08-2011/)

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Publicada a Carta Manifesto da Marcha das Vadias/DF 2012!

Após um ano intenso de lutas, reflexões, debates e (re)construções, atualizamos a nossa Carta Manifesto, em um esforço conjunto para contemplar as várias diversidades de mulheres. Esperamos que vocês também se sintam parte disso. A luta é nossa!

Leia e entenda por que marcharemos mais uma vez:

Carta Manifesto da Marcha das Vadias/DF 2012 – Por que marchamos?

“MEXEU COM UMA, MEXEU COM TODAS!”

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“O movimento na rua: política e identidade nas dimensões de gênero, orientação sexual e raça/etnia”, de Jaqueline Gomes de Jesus

Pessoal,

Segue abaixo mais um texto muito interessante que tem relação com a Marcha das Vadias. É de autoria da Jaqueline Gomes de Jesus, Doutora em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações pela Universidade de Brasília, professora do Centro Universitário Planalto do Distrito Federal, integrante da Associação Brasileira de Psicologia Social e da Rede de Antropologia Dos e Desde os Corpos. Clique no título abaixo para acessá-lo!

“O movimento na rua: política e identidade nas dimensões de gênero, orientação sexual e raça/etnia”

“Viva la vulva livre!”, relato de Maria* sobre a Marcha das Vadias e outras vivências

Nós estamos muito felizes com a quantidade de pessoas que estão nos procurando para colaborar de alguma forma com a Marcha, inclusive enviando seus relatos pessoais. Segue, abaixo, mais um desses lindos relatos que nos emocionam e nos motivam a seguir em frente. Obrigada, Maria*! Quem também quiser compartilhar seu relato, sinta-se à vontade para nos enviar por e-mail que publicaremos aqui: marchadasvadiasdf@gmail.com

Os relatos podem ser assinados, anônimos ou com nomes fictícios, o que você preferir. 🙂

Estamos juntas!

*

Quando cheguei na frente do Conjunto Nacional deviam ter umas 30 pessoas meio em roda ainda terminando alguns cartazes e começando a fazer alguns gritos. Fiquei tensa. Não fazia muito tempo havia ocorrido uma manifestação na UnB, onde estudo, contra a homofobia onde haviam aparecido alguns caras a lá skin heads que ameaçaram algumas de nós. Parece tão rídiculo protestar por coisas básicas. Mas aí a gente protesta por respeito e vê o quanto falta para que ele aconteça de fato. Então estava em mais um protesto, fora da universidade, com repórteres por perto e curiosos olhando. Mas aí, caminhei entre as pessoas, na maioria mulheres, com cartazes e corpos pintados e me reconheci nelas. Abri o cartaz que levava onde se dizia “Viva la vulva livre!”, e aproveitei o verso para colocar mais uma frase que vi em fotos de outras marchas das vadias: “respeito é sexy”. Com o início dos cantos e do movimento aquela apreenção inicial some. O número de pessoas cresce bastante e nós ganhamos força. Quando olho somos muitas! tantas! Me emocionei vendo tantas mulheres tão diferentes e homens também reunidas/os para exigir respeto. 
Me lembrei das mulheres da minha família de várias gerações que já sofreram abuso sexual e agressões de homens. São várias. É tão próximo… Me lembrei também das pequenas coisas, pequenas e constantes invasões a nossos corpos. Me lembrei de como vários homens me veem com minha namorada e resolvem que isso tem a ver com eles. Mesmo que lhes diga bem clamente “velho, sai daqui”. Incrivel como esses artifícios perversos de dominacão são normalizados. Já ouvi várias vezes quando era nova que ‘quando uma mulher diz não na verdade quer dizer sim’. Pronto. Se o cara internaliza isso não consegue conceber os “nãos” que recebe de mulheres e aí já tem tudo pronto pra ser um agressor, principalmente porque não se percebe agredindo. 
Acredito que por vivermos cotidianamente as agressões desse modelo masculinista e machista que é tão incrível ver tantas mulheres se fazendo ouvir e exigindo respeito. Por isso nos é tão evidente que a questão deva ser lidada a partir da educação. Outro dia vi um primo de 6 anos falar que uma música era coisa de “mulherzinha”, assim no diminutivo (alguém já ouviu que uma coisa é menor por ser de “homenzinho”?), e que ele aprendeu isso com um tio dele. Taí: uma semente de machismo. Ao completar 10 anos quantas ele já não vai ter recebido? Será que meu primo também vai ouvir que não de mulher quer dizer sim? Para o bem do meu primo e de todxs, que as relações de gênero comecem a ser trabalhadas de forma não hegemonica dentro das salas de aula e das casas. 

mexeu com uma, mexeu com todas!

boa marcha para todas! 😉

“Por que ir à marcha das vadias (uma resposta pessoal)”, texto de uma garota transgênera

Segue, abaixo, um lindo e emocionante texto da Vivi, uma garota transgênera, que achamos importante compartilhar. Reproduzido do blog dela: http://porcausadamulher.wordpress.com/2012/05/14/por-que-ir-a-marcha-das-vadias-uma-resposta-pessoal/

A luta feminista é por todas as mulheres que se sentem mulheres, independente da nossa condição biológica. Estamos todas juntas! o/

*

Por que ir à marcha das vadias (uma resposta pessoal)

Espero que você tenha amigxs interessantes o suficiente para ter ao menos escutado algo (bom, mesmo que crítico) sobre a(s) marcha(s) das vadias mundo afora. Caso não tenha — e não evito estranhar as razões pelas quais você estaria lendo este post –, duas sugestões: (1, que listas parecem ser o mote desses nossos tempos produtivos) leia um pouco, informe-se sobre as lutas políticas contemporâneas, discuta com a intenção de aprender, e  (2) item que é potencialmente consequência direta de (1), reavalie suas companhias.

En passant, a marcha das vadias, originalmente denominada slutwalk, consiste em um protesto por direitos humanos. Uma daquelas marchas aludidas porPaulo Freire, cujas energias estão entre nós:

“Eu morreria feliz se eu visse um Brasil cheio, em seu tempo histórico, de marchas. De marcha dxs que não têm escola, marcha dxs reprovadxs, marcha dxs que querem amar e não podem, marcha dxs que se recusam a uma obediência servil, marcha dxs que se rebelam, marcha dxs que querem ser e estão proibidxs de ser. Eu acho que, afinal de contas, as marchas são andarilhagens históricas pelo mundo.” [vídeo aqui, a partir de 1:15]

Mais especificamente, a marcha das vadias é uma marcha pelo respeito incondicional às mulheres [1], pelo direito de exercerem suas sexualidades, suas liberdades sociais, e de não serem vítimas de violências impunes-ignoradas. O episódio que se constituiu em fagulha pra marcha foi uma infeliz  recomendação feita por um policial em uma palestra sobre segurança no campus da York University, Mulheres devem evitar se vestir como vadias para não serem vitimizadas. Aspectos mais específicos da marcha podem ser encontrados aqui.

Caso essas razões não x convençam a participar da marcha — e você tem toda a legitimidade para não se convencer –, e caso você se convença também, gostaria de trazer um pequeno relato pessoal. Por essas coincidências do mundo, estive morando na cidade de Toronto durante o primeiro semestre do ano passado, quando se realizou a primeira marcha das vadias, a slutwalk toronto.  E, embora tivesse sabido da marcha um tanto em cima da hora, ainda pude participar da última reunião de organização e da marcha em si.

Pois então. Talvez seja relevante mencionar, neste momento, o fato de que sou uma pessoa transgênera, ao menos parcialmente identificada com a categoria mulher. E muitas de minhas experiências de gênero estão relacionadas com os monitoramentos e controles sobre a quem, como, e onde se autoriza a expressão do ‘feminino’ [2]. Foi a partir da consciência destas opressões que se gerou a indignação associativa entre minhas experiências pessoais, o episódio do policial infeliz e as violências diárias contra mulheres pelo mundo, indignação que me impeliu a participar do slutwalk.

As pessoas que me conhecem saberão que não me sinto muito à vontade em manifestações públicas, estes atos que explicitam posições políticas muitas vezes sob olhares de estranhamento e-ou discordância. Talvez minha participação nestes atos me faça sentir vulnerável a estes olhares — algo que deve se relacionar em algum nível com minha identidade de gênero deslegitimada. Sei lá. Mas após algumas horas de indecisão, decidi sair de casa como a mulher que era. Ou a mulher que circunstancialmente existia naquele momento, e que proclamava sua legitimidade — mesmo que tardia.

[Mas não saímos todxs, todos os dias, de maneira circunstancial? Ou isso seria específico às transgeneridades? Enfim.]

O dia estava nublado, e ventava frio. A caminhada de minha casa talvez durasse em torno de dez minutos, quinze em saltos. À usual insegurança das caminhadas gênero-transgressoras se somava à vulnerabilidade que os protestos costumavam me trazer, e a claridade cinza do céu, um tempo-espaço mais complicado para quem tentasse ‘se passar’ pela feminilidade cisgênera (ou seja: para parecer uma mulher “””biológica”””, como parecem preferir).

Mas algo foi mudando conforme me aproximava do ponto de partida da marcha.

Pequenos grupos já rodeavam as pessoas da organização, com seus dois megafones, alguns equipamentos de som e cartazes. Aproximei-me para ter uma das primeiras interações sociais como uma mulher transgênera, e não, não morri — suei e tremi, é verdade. Pediram-nos que caminhássemos até um parque próximo para convidar xs passantes a participar da marcha.

Éramos um grupo de seis pessoas, que se dividiu em três duplas. Eu e uma garota. Como não houvesse muitxs passantes, começamos a conversar, compartilhar nossas histórias. E a chamar gente pra marcha, um esforço tranquilo tomando-se em conta que boa parte das pessoas andando pelo parque já se dirigiam a ela.

Então, a interação era mais de boas-vindas que de convencimento. O que me facilitava muito a vida: sendo o convencimento maneira de ‘vender’ determinada(s) ideia(s) a outrem, não poderia me sentir segura a partir de minha posição de gênero usualmente deslegitimada. Em realidade, aos poucos pude notar uma espécie de auto-confiança emergindo.

Bem. aos. poucos. Até hoje.

A garota e eu nos sentimos com confianças suficientes para falar de aspectos bastante pessoais de nossas vivências. Havia uma certa energia que nos permitia isso: o fato de estarmos naquela marcha e de estarmos ajudando (ainda que de forma muito pequena) na sua organização nos inspiravam fortemente. E então procuramos episódios longínquos de nossas existências, fagulhas de uma sexualidade ou gênero inconformes, ou de opressões a elxs.

E, neste contexto, ela menciona ser sobrevivente de abuso sexual.

E de como o responsável pelo crime era um conhecido seu.

E de como ela estava vestida na ocasião — nada ‘vadia’, para desconcerto do policial.

Havia uma dor imensurável na voz da garota. Era a dor dos momentos irreversíveis nas nossas vidas, a dor da impunidade dos crimes contra nós. Não me lembro do que lhe falei — e o que se pode dizer, afinal –, mas a dor que senti era terrível.

E terrível, não porque perfurasse, jorrasse sangue, ou latejasse, mas porque aturdia através do silêncio que habitava os olhos detrás dos óculos de grau.

Silêncio que expressava, jamais se questione, perfurações, jorros de sangue, latejos. Silêncio que se iria despertando a cada conversa com as gentes do parque, e que se passava a levantar nos coros e bordões a se iniciar; silêncios que, de tanto ocuparem mentes, puderam ocupar umas tantas ruas na cidade, atrapalhando-lhes o trânsito.

Silêncios, afinal, que de tanto se acostumarem à casa mental, somente sairiam em gritos, em passadas firmes, em sorrisos, em lágrimas.

Lágrimas que choramos em diversos momentos, saindo-nos de nossos silêncios, ainda que caladas. E presenciar o choro da garota, a algumas pessoas de distância, foi possivelmente um dos presentes mais bonitos que já recebi do universo.

É por isso que acredito na marcha das vadias.

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Notas.

[1]- o foco me parece em mulheres cis, no geral — ainda que as trans estejam explicitamente incluídas também na marcha original.

[2]- muitas outras se referem às opressões derivadas de ser vista socialmente como mulher, em especial uma mulher transgênera; neste caso, reconheço a limitação que tenho em oferecer um testemunho mais apurado, afinal isto não ocorre com muita frequência.

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“Marcha pra que te quero”, texto de Andréa Cerqueira

 Segue, abaixo, ótimo texto de Andréa Cerqueira, reproduzido do blog: http://www.conversasdeandrea.blogspot.com.br/2012/05/marcha-pra-que-te-quero.html

MARCHA PRA QUE TE QUERO

                       “José, José, prepara teu café,

                               João, João, cozinha teu feijão,

                               Zeca, Ô Zeca, lava tua cueca!”

Toré feminista (Loucas de Pedra Lilás)

Nossa história começa lá atrás. Nos estágios mais remotos da vida humana.

Segundo o psicólogo alemão Erich Neumann, no período primordial, “não existe uma pré-disposição nem uma incapacidade, condicionadas pelo sexo, no que diz respeito a qualquer tipo de ocupação importante para o grupo. Encontramos homens ociosos e mulheres guerreiras, da mesma forma que há mulheres ociosas e homens ativos. Algumas vezes a relação com o poder é prerrogativa dos homens e, em outras circunstâncias, das mulheres.”

Já no auge da época matriarcal, a individualidade era pouco desenvolvida, assim como as relações individuais entre homens e mulheres. A existência coletiva do grupo estava em primeiro plano. Os rituais universais de fecundidade eram orientados para a comunidade como um todo.

Na religião e mitologia do Egito, segundo Neumann, “a reelaboração patriarcal do simbolismo matriarcal anterior já pode ser claramente constatada.” E, na Índia antiga, numa passagem das “lendas do Padmasambhava”, as mulheres serão tratadas como as ‘ogras’ do ser humano, e o seu corpo será o “caldeirão de cobre das bruxas, no qual têm lugar todos os sofrimentos…” Alguns historiadores creditam a origem do poder paterno, que sempre acompanha a autoridade marital, à remota Índia. Nos textos sagrados, a família era um grupo religioso do qual o pai era o chefe.

Com Jesus Cristo a coisa muda de figura, senão na prática, pelo menos teoricamente. Jesus proclama que a autoridade paterna não seria mais exercida no interesse do pai, mas do filho, e que a mãe não seria a esposa-escrava, mas a companheira. Sabemos que esta mensagem foi reinterpretada de diversas maneiras posteriormente por teólogos e apóstolos e deu no que deu!

Santo Agostinho vai afirmar que a mulher é “um animal que não é firme, nem estável, odioso, que alimenta a maldade… ela é fonte de todas as discussões, querelas e injustiças.” Ou seja, é sempre Eva, coitada, a responsável pelos pecados de Adão! E São Paulo, em a Epístola aos Efésios, vai afirmar que o homem deve ser o chefe do casal, pois foi criado primeiro: “…assim como a Igreja está sujeita à Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos.” Santa interpretação!

Como se não bastassem esses defeitos de ‘origem’, a filosofia vai tentar reafirmar, com Aristóteles, a autoridade do marido e do pai. Segundo o filósofo, haveria uma desigualdade ‘natural’ entre os seres humanos. Dotada de frágil capacidade de deliberação, a opinião de uma mulher não era digna de consideração, e sua única virtude moral seria “vencer a dificuldade de obedecer”.

Saltemos alguns séculos, para chegarmos à França de Rousseau, o pai do contrato social.  Para ele, a mulher era uma criatura essencialmente ‘relativa’, um ‘complemento’ do homem. Mas na França também se fizeram ouvir outras vozes. Montesquieu, considerado um dos precursores da antropologia, denunciou diversas vezes as desigualdades entre homens e mulheres. Afirmava que não era natural a submissão das mulheres aos homens, e que este ‘império’ masculino era uma verdadeira tirania. “…se as mulheres são efetivamente inferiores aos homens deste século, a causa não reside na sua natureza, mas na educação que lhes é dada, ou melhor, na educação que lhes é recusada.”

Mas foi a partir do século XIX, que as coisas começaram a ficar mais nítidas, porque os cientistas sociais começaram a desvendar o que antes era tido como ‘natural’. Em A origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, Engels vai afirmar que o primeiro antagonismo de classe que aparece na história coincide com o antagonismo entre o homem e a mulher, na monogamia, e que a primeira divisão do trabalho acontece entre o homem e a mulher para a procriação dos filhos. Diz ele: “a reversão do direito materno foi a grande derrota histórica do sexo feminino. O homem passou a governar também a casa, a mulher foi degradada, escravizada, tornou-se escrava do prazer do homem, e um simples instrumento de reprodução…”

A expansão do capitalismo, segundo a socióloga britânica, Sylvia Walby, foi um fator importante para a criação das circunstâncias materiais que levaram ao movimento das mulheres na esfera pública e ao feminismo.

A feminista norteamericana Heidi Hartmann buscou explicar a parceria entre patriarcado e capitalismo e a incapacidade dos movimentos trabalhistas socialistas, dominados por homens, em priorizar o sexismo. A filósofa e cientista política Iris Young, sua conterrânea, argumentava que as relações patriarcais estavam internamente relacionadas às relações de produção como um todo. E afirmava que a organização autônoma das mulheres permanecia como uma necessidade prática. Já a feminista francesa Christine Delphy descreveu o matrimônio como uma relação de classe em que o trabalho da mulher beneficia o homem, sem que haja uma remuneração compatível.

Segundo o sociólogo Avtar Brah, até recentemente, as perspectivas feministas ocidentais davam pouca ou nenhuma atenção aos processos de racialização do gênero, classe e sexualidade. Segundo o autor, estruturas de classe, racismo, gênero e sexualidade não podem ser tratados como “variáveis independentes”, porque a opressão de cada uma está inscrita dentro da outra – é constituída pela outra e é constitutiva dela.

E falar em feminismo no Brasil e na América Latina sem falar em gênero e raça, não faz sentido. Em todos os períodos de crise, houve a feminização da pobreza. Mulheres e negras foram as mais atingidas pela violência e pelas desigualdades. Segundo a feminista negra brasileira Luiza Bairros, o patriarcado repousa em bases ideológicas semelhantes às que permeiam o racismo: a crença na dominação constituída com base em noções de inferioridade e superioridade.

Se, a violência atinge uma em cada três mulheres na América Latina; quatro em cada dez mulheres brasileiras já foram vítimas de violência doméstica; uma mulher é agredida a cada cinco minutos no Brasil; e 70% das vítimas de violência sexual doméstica no DF têm até 14 anos, eu pergunto: COMO NÃO MARCHAR?

Segundo a infopedia, a marcha descende da tradição medieval inglesa que levava um servo a acompanhar a pé o seu amo que viajava em carruagens puxadas por cavalos.

Contra tradições e preconceitos que queremos superar, marchamos sem oprimir ninguém, lado a lado.

Contra o MACHISMO, O RACISMO, A HOMOFOBIA E TODAS AS FORMAS DE OPRESSÃO E DESIGUALDADE.

VIVA A MARCHA DAS VADIAS!

Andréa Cerqueira, mãe da Bruna, do Coletivo da Marcha, mestranda em Sociologia pela Universidade de Brasília e Multiplicadora da Técnica do Teatro do Oprimido.

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“Morte de duas gestantes mostra erro em foco de MP 557”, por Vanda Albuquerque

Morte de duas gestantes mostra erro em foco de MP 557

SEG, 07 DE MAIO DE 2012
porVanda Regina Albuquerque

No dia 31 de maio, vence o prazo de votação da MP 557/2011 criada para supostamente acelerar os passos da redução da mortalidade materna no país. Ela “institui o Sistema Nacional de Cadastro, Vigilância e Acompanhamento da Gestante e Puérpera para Prevenção da Mortalidade Materna, autoriza a União a conceder benefício financeiro” e levantou inúmeras críticas e notas de repúdio de vários segmentos dos movimentos sociais tais como CUT, AMB, UBM, FEBRASGO, UBM, MMM, AMNB, Rede Feminista de Saúde, etc.

Mas por que persistem tantas reações contrárias?

Primeiro, porque ela foi criada sem nenhuma participação dos movimentos feministas, de mulheres ou de saúde, segmentos que nas últimas três décadas, vêm participando da construção democrática de políticas na área da saúde integral das mulheres.

Segundo, porque não dialoga sequer com o Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PAISM), que existe desde 1984.

E terceiro, porque todo empenho em reduzir a estatística de 68 mortes para cada 100 mil gestantes se resume em ampliar o sistema de dados das gestantes e criar benefício de R$ 50 reais, pagos em duas parcelas para garantir transporte durante pré-natal, e, em nome de uma transparência, terão o cadastro disponibilizado na transparência para controle público.

Para ilustrar a falácia dessa MP, lembramos a morte de duas jovens gestantes no último dia 9 de abril, uma carioca de 21 anos e outra cearense de 22 anos, ao que tudo indica, ambas vítimas de mau atendimento nas unidades de saúde.

Os laudos revelaram que a primeira morreu em decorrência de parada cardiorrespiratória e a segunda por hemorragia digestiva. As famílias denunciam, respectivamente: “apenas deram remédio para dor”, “ela aguardou nove horas até ser atendida”.

O que denuncia que as mulheres estão morrendo dentro dos hospitais por sofrerem maus tratos, racismo e outras formas de violência institucional nas unidades/serviços de saúde.  E, assim, fica fácil constatar porque o Brasil está longe de atingir a 5ª meta das Nações Unidas, que prevê até 35 mortes para cada 100 mil até 2015.

Diante das gritantes desigualdades sociais do país, qualquer iniciativa de transferência de renda parece bem-vinda. Mas neste caso, os índices da mortalidade materna não se justificam em grande medida pela falta de transporte das gestantes, a ponto de exigir do Executivo uma MP e, sim, pela má qualidade no atendimento ao pré-natal e parto.

Isso se complica ainda mais quando esse auxílio-transporte duplica ação já existente no programa Bolsa Família, que prevê aumento da bolsa para famílias com gestantes, demonstrando a não continuidade de programas já existentes e a utilização de recursos destinados à saúde em ação típica de assistência social.

Nesse sentido, a marcha da redução da mortalidade materna no Brasil continuará lenta, caso as ações do governo não considerem as diretrizes do PAISM como caminho possível. Para além da atenção ao parto, ele prevê o planejamento familiar, a utilização de parteiras tradicionais em determinados contextos, orientação ao pós-abortamento e aborto legal, o uso de tecnologias apropriadas, o atendimento profissional capacitado e a atenção institucional ao parto, prevenção e cuidado ao câncer, atendimento às mulheres com HIV/AIDS, enfim, estratégias que ultrapassam a visão momentânea materna infantil e garantem a redução da morte materna, considerando a integralidade da saúde da mulher.

Vanda Regina Albuquerque é assessora do Coletivo Leila Diniz/RN e colaboradora do CFEMEA/DF.

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Marcha das Vadias/DF pensasentindo e conversando: questão étnico-racial!

Para nós mulheres negras e todas nósotras mulheres!!!!

** Amanhã, 09-05-2012 às 19h no Centro de Convivência Negra (Universidade de Brasília, Asa Norte, Campus Darcy Ribeiro Gleba A, ao lado da prefeitura do campus e logo abaixo do postinho!)

=> Marcha das Vadias DF pensasentindo e conversando: atenções universo mulheres negras/indígenas e a questão étnico-racial! 

(negritudes, branquitudes, privilégios, estigmas, representatividade, 
vozes, discussões, afirmação, reparação, cuidado, reconhecimento, gentileza, emancipações…)

Com merecida e especial convocação honrosa de mulheres negras e indígenas como indispensável postura afirmativa e reparatória! Chamamo-nos mulheres amarelas, brancas, amendoadas, púrpuras…! todas somos singularmente responsáveis, todas fazemos parte dessas questões e somos mais que fundamentais, bem vindas e desejadas nesses processos! Construindo equanimidade pelo direito à diferença, juntas sem pavor!

***

“cambiar la historia es cuestión de voluntades colectivas vivas 
y no vidas pasivas en pleno romance
con nuestras penas, rompamos las cadenas, bajemos los escudos…”

(Actud Maria Marta)

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Movimento contra a aprovação da MP 557 (cadastro e vigilância das gestantes)

Está para ser votada a Medida Provisória 557 [http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2011/Mpv/557.htm ], que Institui o “Sistema Nacional de Cadastro, Vigilância e Acompanhamento da Gestante e Puérpera para (supostamente) Prevenção da Mortalidade Materna”. A desculpa da proteção à saúde da mulher como pretexto para controlar nossos ventres e corpos é antiga, mas infelizmente ainda convence muita gente até hoje. Por isso, resolvemos nos posicionar:

“A redução da mortalidade materna é uma meta do milênio que não será atingida pelo governo brasileiro, pois, enquanto os Direitos Sexuais e Reprodutivos das mulheres forem tabus na sociedade, continuaremos sem avançar. O número de mortes de mulheres grávidas só será reduzido no dia em que formos livres para escolher, podendo contar com o Estado para apoiar e proteger a nossa escolha. A MP 557 não quer garantir direitos, mas controlar nossos passos. Os nossos úteros não precisam de vigilância, precisam de autonomia!

Marcha das Vadias/DF”

 

Para ajudar a entender a MP 557, publicamos abaixo um texto do Brasil & Desenvolvimento: http://brasiledesenvolvimento.wordpress.com/2012/01/30/mobilize-se-contra-a-mp-557/

“1) A maior polêmica da MP era o acréscimo do art. 19-J à lei 8.080/1990, que regula as ações e serviços de saúde. Segundo o dispositivo, o nascituro teria direito ao nascimento, o que representava enorme retrocesso na luta pela autonomia reprodutiva da mulher. Depois de forte pressão dos movimentos feministas, a presidenta reconheceu o erro deste dispositivo e retificou a MP, retirando estre trecho. Certamente, trata-se de uma importante vitória da sociedade, mas o Estatuto do Nascituro permanece bastante ameaçador às mulheres no Congresso. Por iniciativa dos parlamentares da bancada evangélica/católica, várias alterações reacionárias podem ser incluídas no texto e levadas a Plenário para votação. É preciso a mobilização total das forças feministas e progressistas da sociedade. precisamos estar presente no Congresso e no Governo, mostrando que não toleraremos recuo nos direitos das Mulheres. E ainda além, queremos conquistar mais direitos. Precisamos marcar posição, resistir à ofensiva religiosa reacionária. Essa estratégia de atuação precisa ser construída coletivamente.

2) Uma crítica geral à MP é a sua construção sem diálogo com a sociedade, em especial, sem diálogo com as Mulheres. Nem mesmo o Ministério encarregado de pautar os direitos da Mulher no governo (SPM) foi ouvido no processo de elaboração do texto. Certamente, esse isolamento não foi por acaso, uma vez que seria muito difícil, caso as Mulheres fossem ouvidas, editar uma MP sobre mortalidade de gestante sem tocar no tema dos direitos reprodutivos. Isso flerta com o cinismo.

3) Cadastro universal: o escopo da MP é a criação de políticas públicas voltadas às gestações de alto risco. Por que, então, todas as gestantes devem ser cadastradas? Importante lembrar, ainda, que este cadastro – o SISPrenatal – já existe, por meio de portaria. O Ministro Padilha afirmou que a MP foi necessária por ter maior força vinculativa que uma portaria. Além disso, a MP traz a novidade do auxílio-transporte (R$ 50,00) para as gestantes cadastradas que necessitarem.

4) Finalidade do cadastro: está claro na MP que a finalidade do cadastro é a elaboração de políticas públicas voltadas à proteção da gestante e parece evidente tratar-se de informação sigilosa (sigilo médico-paciente). No texto, contudo, não há previsão expressa nesse sentido, sendo possível, em tese, que uma autoridade policial consiga autorização judicial para ter acesso ao cadastro.

Vamos à luta!”

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