Arquivo da categoria: Depoimentos

Pastor racista e homofóbico é eleito presidente da CDHM – É tempo de LUTA! (Relato)

Não sei nem o que dizer depois do que presenciei esta manhã na sessão da comissão de Direitos Humanos da Câmara. Por um lado, ouvi discursos fortes, e muitas vezes emocionados, de parlamentares como o deputado Domingos Dutra (PT), que renunciou à presidência da comissão, dizendo que não ficaria numa comissão em que o povo brasileiro foi excluído! Sem contar falas como as de Jean Wyllys (PSOL), Erika Kokay (PT) e Chico Alencar (PSOL), que lembraram do importante papel daquela comissão, da necessidade de diálogo com a sociedade, de não retrocedermos nas conquistas de direitos, correndo o risco de rememorarmos outros períodos sombrios da história brasileira.

Por outro lado, não consigo descrever o que senti ouvindo e vendo as atitudes e falas de parlamentares como o deputado Jair Bolsonaro. Ouvi-lo sendo sarcástico com a tortura por que passaram diversas pessoas na época da ditadura, fazendo piadinhas em relação a “baitolas”, provocando e sendo irônico o tempo todo, mostra como tudo o que ele busca é holofote. O deputado Takayama (PSC) comparou o relacionamento homossexual ao relacionamento de um homem e uma vaca, no melhor estilo cabra da Veja. O deputado Eurico (PSB) não ficou para trás, enaltecendo um discurso homofóbico e preconceituoso e desrespeitando colegas deputados.

Triste também é pensar que o presidente da Câmara dos Deputados, o deputado Henrique Alves (PMDB), foi quem determinou que a sessão ocorresse a portas fechadas, sem sequer ouvir a própria presidência da Comissão. Como bem lembrou o deputado Domingos Dutra, a comissão de Direitos Humanos e Minorias surgiu para ser ponto de diálogo com os movimentos sociais e com toda a sociedade, surgiu como reinvidicação desses movimentos. Fazer a opção de reforçar a segurança e impedir a entrada na sala e até no corredor revela um posicionamento bem definido, diz a que veio.

Agora, mais que nunca, a nossa pressão popular precisa estar presente! A eleição do pastor Feliciano, que tem em seu histórico processo disciplinar por homofobia na Câmara, é sintomática e clama pela participação cada vez mais forte do povo na política do nosso Brasil. Não passarão!

Érika Medeiros

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No Dia Latino-Americano e Caribenho pela Descriminalização e Legalização do Aborto, um relato sobre uma experiência pessoal:

Há exatos dois anos atrás fiz um aborto. É simplesmente assim, sem eufemismos, sem rodeios, sem culpa e sem remorso que eu digo essa frase: eu fiz um aborto. É por solidariedade a todas as mulheres (próximas a mim, ou distantes, mulheres que simplesmente dividem comigo os espaços da cidade onde eu moro, ou que vivem em tantos outros lugares do Brasil, da América Latina, do mundo, de diferentes níveis sociais, com outros credos, de peles de diferentes cores, inúmeras outras personalidades), é por solidariedade a todas essas mulheres-mundo que um dia sentiram a dor de não serem donas de seus próprios corpos, que eu decidi contar uma entre as infinitas histórias desconhecidas de abortamentos clandestinos: a minha.

Há dois anos atrás me descuidei. A gente sempre acha que essas coisas só acontecem com as “outras”. Com as mulheres sem rosto dos documentários sobre aborto, aquelas dos dados estatísticos, ou com aquela amiga da amiga cujo nome você desconhece. Nunca me dei bem com pílula, elas provocam efeitos colaterais insuportáveis em mim (sim homens que adoram bradar a frase “por que não tomou pílula antes de abrir as pernas?”, essa pílula que as companheiras de vocês engolem todos os dias podem causar inúmeros efeitos colaterais, uns inclusive muito sérios como trombose e formação de coágulos, por exemplo), assim como a pílula do dia seguinte que também me deixa péssima. Diante da máxima “isso nunca aconteceria comigo” acabou que o sexo rolou sem preservativo.

Algumas semanas depois minha menstruação atrasou. A primeira coisa que eu fiz foi dividir a preocupação com meu namorado (sempre achei bizarro quem acha que até se ter certeza as mulheres devem carregar o peso da dúvida sozinhas), já tínhamos dado mole antes e nada tinha rolado, então ele não levou muito à sério, me disse que tudo ia ficar bem. Falei com algumas amigas e ouvi a mesma coisa. Mas eu tinha certeza. Não sei explicar, é como se eu conhecesse tão bem o meu corpo que tivesse notado uma mudança, por menor que ela fosse. Passei a noite toda chorando, pensando no que fazer. No outro dia levantei cedo, fui ao médico e fiz um exame de sangue.

Olhei o resultado na Internet enquanto conversava com meu namorado que estava no trabalho. Positivo. Mas eu estava calma, tinha passado a noite toda pensando, sabia exatamente o caminho que queria seguir. Desde onde posso me lembrar sempre fui “pró-escolha”, como hoje, penso que nós, mulheres, como seres autônomos que somos, temos o total direito de decidir sobre o nosso próprio corpo. Nunca acreditei nessa baboseira de que aborto é assassinato, pra mim sempre pareceu uma condenação antes que o crime tenha sido cometido, visto que o feto, até as 12/14 semanas de formação, não tem ainda sistema nervoso. Ou seja, a mulher que decide pelo aborto está eliminando apenas a possibilidade de gerar um ser humano e não o ser humano em si, como se pode matar uma pessoa antes mesmo dela existir? Mesmo pensando tudo isso, dizia que eu jamais faria um aborto, por uma escolha pessoal minha, não por condenar o ato. Mas como é fácil fazer suposições quando não é a gente que está precisando decidir, né? Quando fui eu quem precisei optar entre esses dois caminhos não tive dúvidas: vou fazer um aborto.

Meu namorado foi o melhor companheiro que eu poderia ter tido nessa hora. Quando perguntei o que ele queria, a primeira coisa que ele me disse foi “o corpo é seu, é você quem vai sofrer as conseqüências de uma gravidez ou um aborto, independentemente da decisão que você tomar, vou te apoiar”. Depois de decidido o caminho a tomar, era preciso decidir qual o método, não tínhamos dinheiro, então optamos por um método relativamente seguro e mais barato que uma clínica: remédio. Depois de muito procurar, olhar sites, ouvir histórias de “fulano que tem um amigo que tem uma namorada que já tomou”, conseguimos o remédio por R$500, emprestados por uma amiga. Nessa semana de correria, descobrimos nada menos do que sete mulheres próximas que já tinham abortado e precisavam esconder, camuflar essa vivência! Curioso é que poucas semanas antes a PNA (Pesquisa Nacional do Aborto) tinha sido lançada, dizendo que uma em cada sete mulheres no Brasil já fez um aborto.

Fui a um médico, pedi pra fazer uma ecografia e ele me disse “nem vale a pena, é menor do que a cabeça de um alfinete a essa altura, nem vai dar pra ver”. Fiquei indignada de ter que passar por toda essa tensão por ter gente que ainda pensa que é um fato que um amontoado de células já seja uma criança! Pouco depois fui para a casa de uma amiga. Algumas pessoas próximas me acompanharam. Não posso descrever a importância  que teve essa rede de solidariedade no momento que eu estava passando, foi ela que me manteve em pé, sem dúvidas. Quando eu engravidei estava passando por uma depressão há meses. Fazia análise, acumpuntura, tomava remédios homeopáticos, mas nada estava resolvendo o problema. Levantar da cama era difícil pra mim, imagina só ter um filho ou uma filha? Eu não tinha a menor condição de levar a gravidez adiante, tanto pelo meu estado psicológico quanto pelo fato de que uma criança não cabia na minha vida naquele momento. Eu tinha que me formar, queria viajar, precisava de um emprego, tinha planos de uma pós-graduação, assim como o meu namorado. Não havia espaço para uma criança nas nossas vidas, não naquela época.

Pedi para ficar sozinha na hora de colocar o remédio. Lembro que fiquei um tempão parada, olhando pros comprimidos, olhando pra mim, com medo de colocá-los dentro do meu corpo. Reuni coragem e coloquei. Lembro de ter pensando “é isso, agora eu tô sozinha, não existe Estado, não existe hospital, não existe médica/o que faça nada por mim se der merda”. Eu acho que é essa a sensação, de fragilidade, de solidão, de vulnerabilidade, não importa quantas amigas você tenha do seu lado, não importa se seu namorado for um cara incrível e te acompanhar em todos os momentos, o fato é, se der merda é o seu corpo e, a não ser que todo mundo do seu lado te apoiando seja médica/o, não há nada que possam fazer para te ajudar caso algo dê errado.

Passaram-se duas, três, quatro horas. Eu estava sob uma ansiedade horrível, medo, medo de acabar com meu corpo, medo de sentir dor. Fiquei horas esperando as cólicas virem, horas esperando essa dor que todo mundo me disse que eu ia sentir… Estava fraca, em jejum de mais de 14 horas, enjoada, sem poder vomitar com medo do remédio não fazer efeito. O fato é que não rolou nada. Imagine a frustração que eu senti, o desespero. Não sei se o remédio era falso, ou se foi meu corpo que não respondeu aos comprimidos. Eu achava que estaria tudo resolvido à noite, mas voltei pra casa com o peso que não queria mais carregar.

Na minha casa era um desconforto. Vomitava toda a hora, meus seios estavam enormes. Tinha que disfarçar ao máximo os enjôos, usava top pra esconder os seios. Tinha que ouvir as pessoas na minha casa comentando sobre a “fulaninha que tinha tomado um remédio pra abortar e a filha nasceu toda defeituosa e agora tava lá, na casa dos pais, chorando com a criança no berço”.  Pouco tempo depois essa criança morreu. Queria dormir toda a hora,e  ainda tinha o semestre da faculdade pra terminar, tinha que ir pro estágio, tinha que sorrir nas reuniões familiares. E quando deitava na minha cama, sozinha, era como se sentisse crescer algo horrível dentro de mim, é como se eu estivesse sendo obrigada a mudar minha identidade, obrigada a assumir um papel social que eu não queria de forma nenhuma pra mim.

Consegui outros comprimidos. Tomei na casa de um amigo. O mesmo enredo, jejum, medo de colocar, expectativa e… frustração. Nada aconteceu de novo. Aí eu me desesperei de vez, fiquei pensando no que ia falar pros meus pais, em como ia levar minha vida, e se a criança nascesse com problemas graves?… Depois de muito pensar, optamos por uma clínica. Conseguimos levantar o dinheiro com pessoas próximas.

Depois de alguns dias cheguei na clínica. Era uma realidade de novela. TVs de LCD em todo o canto, sala confortável, ampla, iluminada. A sala de espera tava LOTADA, lotada mesmo. Pessoas de todas as idades aguardavam para ser atendidas, as/os acompanhantes eram desde avós velhinhas, até maridos engravatados, ou amigas ansiosas. Fui chamada e entrei sozinha, fiquei esperando no corredor com outras mulheres, todas tensas. Depois de 1h mais ou menos, fui levada para um consultório. Uma médica me explicou o procedimento detalhadamente, me examinou, olhou a ecografia que eu tinha levado. Depois disso fui encaminhada para outra sala de espera, onde fiquei trancada com umas dez mulheres esperando atendimento. Da minha idade só tinha mais uma menina. As outras todas eram mulheres mais velhas, muitas casadas,  religiosas, todas já tinham filhos/as e falavam delas/es de forma apaixonada. Mas também diziam que não tinham condições financeiras de ter uma criança agora, ou que estavam crescendo no trabalho e não poderiam parar naquele momento para encarar uma gravidez e cuidar de um recém-nascido. Fiquei olhando para aquela sala, parecia que a PNA estava li na minha frente, escancarada.

Passei umas 3h dentro da sala, conheci um pouco da vida de cada uma daquelas mulheres, dividimos nossos medos, algumas falaram que se consideravam monstros por estar ali. Outras, como eu, só queriam se livrar de um problema, e não se sentiam culpadas de antemão por estarem interrompendo uma gravidez. Entrei no consultório, não me lembro direito dessa parte, todo mundo usava máscara, e havia umas cinco ou seis pessoas na sala. Falei um pouco sobre a minha cidade para o anestesista e logo cai no sono. Acordei em uma maca, com um absorvente, tonta e com uma fome absurda. Pouco depois consegui ficar em pé, comi. Pelo intervalo com o que chegavam as pacientes depois de mim, deduzi que o procedimento durava entre 5 e 10 minutos. Saí da clínica sem sentir dor, passeei pela cidade, e à noite ainda enchi a cara num boteco. Segundo as/os médicas/os eu poda fazer praticamente tudo, era um procedimento simples. Eu estava livre, finalmente, depois de um procedimento de apenas 5min.

Não digo que em alguns momentos nos meses seguintes não tenha batido aquele sentimento de “e se…?”. Mas isso não quer dizer arrependimento. Acredito que na vida sempre temos que escolher entre diversos caminhos, isso acontece diariamente. Quando você escolhe seguir por um lado, abre mão de outro destino possível, são escolhas que a gente faz, prioridades do momento. Mas é claro que vez ou outra a gente acaba pensando o que teria acontecido se tivesse seguido por outro rumo; no que teria rolado se tivesse feito faculdade de economia, ao invés de Reações Internacionais; no que seria da vida se não tivesse terminado com a Maria e ficado com a Joana. Tenho certeza de que fiz a escolha certa, nunca me arrependi dela, em momento algum. Sou muito feliz com a vida que tenho hoje e sei que se tivesse tido uma criança teria sido tudo diferente, estou onde eu queria estar devido ao caminho que eu tomei.

Um dia, mulher nenhuma vai  precisar passar pelo que eu passei. Isso porque tive condições financeiras, um namorado companheiro, amigas/os que me apoiaram em todos os momentos, acesso a métodos seguros. Imagino o que passam as mulheres que todos os dias tomam chás duvidosos, enfiam agulhas de crochês nos seus úteros, confiam suas vidas a açougueiros de fundo de quintal, algumas sozinhas, sem ninguém para dar apoio. Quantas mulheres não sangram até a morte por negligências nos hospitais, quantas não são denunciadas pelas/os próprias/os médicas/os que quebram um princípio básico de suas profissões: o sigilo médica/o paciente.

Se o Brasil se diz o ‘país do futuro’ e quer estar entre ‘os grandes’ do mundo, tem que começar a olhar primeiro para as suas cidadãs e não deixar que argumentos e pressupostos religiosos nos tire o direito sobre nossos próprios corpos. Tem que parar de negar a responsabilidade sobre a vida e a saúde das mulheres que abortam. A autonomia é um direito humano. A laicidade do Estado é garantida por lei. No dia em que o aborto for legalizado aqui, espero que a/o presidenta/e tenha a dignidade de pedir desculpas em nome do Estado para todas as mulheres que têm de enfrentar sozinhas o risco que ainda significa ousar assumir as rédeas de nossas próprias vidas.

M.R.

Recebemos esse relato de uma leitora do blog como contribuição ao dia 28 de setembro, dia de luta pela legalizaçao do aborto!

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“eu, minha filha e todas as mulheres do mundo”, relato de Regilane Fernandes

Abaixo, segue mais um relato emocionante que nos enviaram por e-mail, sobre mãe e filha, preconceito, violência, luta e sobre a importância “de ser Mulher e de ser COLETIVA”.

*

Prezadas companheiras,

Sou mãe da Bruna, menininha que aparece em destaque nas fotos do facebook da Marcha, no sábado.

Uma foto linda em que aparece tranqüila e bela, com o Espelho de Vênus pintado no rosto.

Símbolo da luta feminina, feminista.

Mais que isso: símbolo da trajetória de algumas das nossas sábias antecessoras.

Símbolo que nos une as nossas ancestrais.

Símbolo de suas vidas-mortes marcadas pela violência moral, psicológica, física, sexual… mas, também marcada por sua força, resistência, pioneirismo, humanidade, cumplicidade com Gaia, a Grande Mãe.

Foi com essa consciência que levei minha filha Bruna à Marcha.

Como momento de conexão dela com suas ancestrais e com suas contemporâneas… todas mulheres… E, em especial naquele dia, mulheres cercadas por homens que não têm medo de expressar sua metade feminina, feminista, não-machista.

Pois bem, uma amiga muito querida me mostrou a pouco a foto da Bruna no face.

Me emocionei com tudo.

A  foto.

O “tema” alusivo a educação como processo libertário.

Os comentários carinhosos.

Infelizmente, no meio deles, uma moça (não vou chamá-la companheira porque esta AINDA não é) colocou como comentário apenas a palavra “ridículo”.

Vejam, não tenho facebook por opção.

Então, escrevo este email pra dizer de alguma forma a esta moça que eu entendo sinceramente sua atitude.

Parece-me que ela é, como infelizmente muitos e muitas ainda são, um ser alienado e alienante, que não conseguiu passar pelos processos que resignificam nossa visão e nossa forma de ser e estar no mundo.

Se tivesse conseguido isso, saberia que ridícula é a fome.

Ridícula é a guerra.

Ridícula é a quantidade de crianças que sofrem violência doméstica sob o consentimento silencioso de uma sociedade que teima em fechar os olhos para as atrocidades cometidas no ambiente familiar (não vou chamar “seio familiar” porque “seio” é alusivo a peito, colo. E peito é sagrado, é lugar de aconchego, amor, cuidado e não de violência).

Ridículo, moça, é ficar em casa parada enquanto mulheres em todo o mundo morrem mutiladas, estupradas, violadas. Violência que, na grande maioria das vezes, lhes causa estrago mais no espírito que no corpo.

Ridícula é essa sociedade de classes que nos torna muitas vezes sectários/as, egoístas, desumanos/as.

Ridículo é não perceber o significado daquela Marcha…

Ridículo é não perceber que o Brasil mudou e está mudando.

E precisamos acompanhar e fazer juntas essa mudança.

E mudou tanto que é hoje governado por uma MULHER.

Mulher que sofreu muito, por ser cidadã consciente de direitos.

Mulher que foi torturada em tempos de ditadura pra que você usufruisse hoje exatamente disso que está fazendo: o direito da livre expressão.

Mulher que também foi, um dia, tachada de ridícula, terrorista, anarquista e, talvez, até vadia.

Ridículo seria eu, como mãe da Bruna, ficar calada diante do seu comentário infeliz, moça.

E não lhe dizer essas coisas como uma oportunidade de lhe trazer pra lucidez de ser Mulher e de ser COLETIVA!

Ridículo seria eu não acreditar que uma hora dessas essa sua cegueira vai passar e você vai conseguir, assim como eu, rir e indignar-se na medida certa que a vida espera de nós.

(Regilane Fernandes)

Foto: Alexandra Martins / Marcha das Vadias DF 2012

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“littlegirlslut”, lindo texto de Simone de Lima sobre sua experiência na Marcha das Vadias

A Marcha das Vadias, desde o ano passado, é um momento dentro de um processo extremamente empoderador para centenas de mulheres, e no último sábado não foi diferente. Muitas se sentem protegidas e seguras ao lado de tantas mulheres marchando juntas, outras se sentem encorajadas a gritar, pela primeira vez, que não têm culpa pelos estupros ou as agressões que sofreram e que a culpa é sempre do estuprador! São muitas emoções diversas e fortalecedoras! Algumas dessas mulheres fantásticas resolveram compartilhar os seus relatos com a gente, e é com muita gratidão que os publicamos aqui, para que sejam lidos por milhares de mulheres que provavelmente se sentirão tão identificadas e fortalecidas quanto nós nos sentimos. Ainda temos de enfrentar diversas agressões todos os dias, mas a Marcha das Vadias é o nosso momento de liberdade, nosso espaço de força e empoderamento, é a nossa voz sendo ouvida por milhares de pessoas! NÃO NOS CALAREMOS!

Continuaremos marchando até que todas sejamos livres!

*

littlegirlslut

Eu só notei ali, na descida da rodoviária. Muitos anos sem andar por lá, depois da condição de motorizada e a vida mais pras bandas norte do que sul. Meio sem voz de tanto gritar, sozinha porque já tinha me desencontrado de tanta gente querida, vi os cartazes que eu já tinha visto, pensei naquilo que já tinha pensado, e, num repente, senti integralmente  o que eu já tinha tentado sentir:

NADA JUSTIFICA.

NÃO SOU CULPADA.

O CORPO É MEU.

 , uma coisa súbita e forte, aquela multidão de mulheres de todas as idades e de homens-que-respeitam-mulheres gritando juntos, tomando aquele lugar que sempre foi inóspito para a  adolescente,  por conta dos homens que vinham mexer, falar, tentar passar a mão,  irritantemente confirmando a profecia do meu pai, “Tá achando que vai sair assim? Vilneyde, manda a sua filha trocar de roupa! “. O mesmo pai que me disse, no dia em que comprei, feliz, minha primeira camiseta feminista, Corpoéparaamar escrito no peito:  ” vai provocar um estupro” Entendi então, ali, na rodô:   quem teve vergonha fui eu,  mas essa vergonha-culpa que eu carrego  não me pertence. Uma culpada de  4 anos de idade, pelos abusos  que sofreu? Porque a coisa falante me dizia, se você disser pros seus pais, eles não vão acreditar. E vão falar que você é feia. Que poder, me convencer, fundar em mim essa identidade:  Não acreditam em mim, e ainda por cima, sou feia por que deixei que fizesse aquilo comigo. Quando, aos 11 anos, me deparei com a memória  e entendi o que tinha ocorrido, foi com alarme,  pânico , mas principalmente vergonha, que feia, que suja, que nojo, como eu deixei?  Nada justifica, o cartaz que passou ficou reverberando, nada, nada, nada justifica. A vergonha que as meninas e mulheres e senhoras em minha volta, algumas bravamente, outras tentativamente, estavam rasgando, desfazendo, desdenhando, descontruindo, aos gritos,  em estrondos,  na rodoviária. Eu a menina de 4 anos, eu a adolescente, eu a  mulher, eu todas, andando sem medo, o nó da garganta jorrando líquido pelos olhos, eu a menina, sem culpa, sem vergonha, protegida por  multidão solidária, o  exército de  meninas de rostos cobertos, punhos roxos, rápidas no gatilho, articuladas, lindas e altivas, ah, se elas estivessem lá para me defender, ele ia ver só, mas era como se se os tempos se tivessem unido, elas lá e me defendendo, e agora estava  tudo bem, todos os homens maus do mundo fugindo , nós marchando, vadias e santas, mulheres, crianças, adolescentes, livres.

(Simone de Lima)

Foto: Alexandra Martins / Marcha das Vadias DF 2012

SOBRE VIOLÊNCIAS, SOBRE RESISTÊNCIAS: casos de agressão e reação na Marcha das Vadias DF 2012

Foram muitos gritos e cartazes, sorrisos e abraços, batuques e alegrias no centro de Brasília nesse sábado, dia 26/05/2012. Mais de 5 mil vozes unidas ecoaram pelo fim da violência contra as mulheres, vozes de mulheres e homens lutando pelo nosso direito de sermos donas de nossos corpos e vidas sem que essa autonomia seja percebida como um convite à agressão.

A Marcha das Vadias do DF foi linda! Senti que saímos de lá empoderadas, unidas, com uma força a mais para lutar contra as agressões diárias que muitas de nós sofremos. Senti que saímos de lá mais leves, com a esperança de que sim, uma outra sociedade é possível; e de que, aos poucos, esse movimento da Marcha e os outros vários movimentos feministas e de mulheres que existem no DF, estão colocando em pauta nossos incômodos e nossas demandas – obviamente que dentro das especificidades de cada grupo de mulheres, já que não somos todas iguais – e causando uma mudança social e cultural, ainda que lenta, gradual e muitas vezes localizada. E senti que grande parte dos homens que marcharam conosco saiu de lá com muitas reflexões sobre seu próprio papel no mundo em que vivemos.

Mas toda a ação provoca uma reação. Depois da Marcha os mascus, machistas e/ou defensores da família e dos bons costumes (bons principalmente para eles, diga-se de passagem) de plantão, como era de se esperar, já colocaram as manguinhas de fora nos argumentos contra a Marcha. E adicionaram a estes argumentos um novo ingrediente: a defesa dos agressores que foram expulsos da manifestação, especialmente de um deles,  que estava vestido de militar.

Colhi na nossa página da Marcha do DF no Facebook algumas opiniões sobre esse caso específico para ilustrar este texto. Esses depoimentos são, por si só, exemplos óbvios de tudo aquilo que o coletivo da Marcha das Vadias DF luta publicamente contra: eles culpabilizam as vítimas; tratam com descrédito as reações das vítimas, sem  questionar de fato o que ocorreu para que as atitudes tomadas fossem aquelas; eles tratam como exagero, histeria e violência as formas de resistência das vítimas; eles colocam claramente o agressor na posição de vítima e as vítimas na posição de agressoras – estratégia de inversão utilizada muito comumente para deslegitimar formas de resistência de grupos e indivíduos.

Não acredito que seja uma mera coincidência que todos os depoimentos que mais me incomodaram (e alguns, por isso, foram escolhidos aqui a título de exemplo) foram escritos por homens, já que eles (estes homens específicos)  me pareceram extremamente confortáveis na posição que ocupam. Posição esta de quem não sofre violência verbal, simbólica e/ou física diariamente pelo simples fato de ser homem (como nós sofremos, em maior ou menor grau, por sermos mulheres). São comentários de homens que estão tão confortáveis nessa posição de poder a ponto de não questionarem as atitudes do agressor, e sim, como acontece em alguns exemplos aqui, se identificarem explicitamente com o cara colocando em descrédito as atitudes das mulheres que reagiram à agressão. 

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Esses comentários são reducionismos claros das razões que levaram praticamente uma marcha inteira a se colocar contra um cara. Um pinto sozinho não ofende a ninguém, o que ofendeu, no caso, foram as atitudes machistas, as violências, as hierarquizações que se respaldam no fato de uma pessoa ter ou não um pênis. Esse cara já tinha coagido várias mulheres da Marcha, tocado em algumas delas,  chamando-as de ‘gostosas’, em uma atitude tipicamente machista, misógina e também homofóbica – ele fez vários comentários agressivos nesse sentido. Quando as mulheres reclamaram e exigiram que ele se retirasse da Marcha, ele começou a xingá-las, ofendê-las e ameaçá-las. O fato dele ter mostrado, ou ameaçado mostrar o pinto, e a reação que as mulheres tiveram, se inserem dentro desse contexto misógino de violência e agressão, e não podem ser vistos como fatos isolados. O último comentário apresentado logo acima é mais explicitamente misógino. Esse tipo de visão de mundo é muito comum entre caras que acham que os homens, brancos e heterossexuais são a nova minoria oprimida pela sociedade, uma óbvia contra-reação à sua gradual perda do ‘domínio inquestionável’. Me incomodaram muito algumas defesas tão enfáticas desse homem que agrediu a várias mulheres na Marcha deste ano. Me incomodaram porque não pude deixar de pensar no que um cara que se sente confortável em fazer tudo isso na frente de milhares de pessoas é capaz de fazer quando vê uma mulher andando sozinha na rua.

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Já foi dito aqui que o cara não agiu como “um mero discordante”. E se ele estava quieto é algo a se discutir, pois os vídeos mostram o agressor sendo provocativo durante todo o tempo. Seria realmente plausível que uma marcha de milhares de pessoas se colocasse contra um cara que estivesse simplesmente quieto? Imagino que ele tenha permanecido parado no meio do paredão por pensar que ali não seria alcançado. Então continuou a ofender as manifestantes e só parou, se levantou e foi embora na hora em que as mulheres começaram a escalar o paredão. Comentários como estes acima tentam deslegitimar uma reação coletiva contra um agressor, colocando as integrantes da Marcha como violentas e não o cara que gerou o tumulto. É impressionante como incomoda o fato de mulheres resistirem e reagirem diante da violência que as atinge. Incomoda porque homens assim não estão acostumados a verem mulheres se colocando contra a violência que sofrem, resistindo e se unindo contra qualquer tipo de agressão que recaia sobre uma de nós. Incomoda porque não faz sequer parte do universo simbólico desses homens qualquer possibilidade das mulheres perceberem como violência abordagens constrangedoras e atitudes masculinas agressivas muitas vezes consideradas naturais pela nossa sociedade. Incomoda porque as nossas demandas e aquilo que nos agride são coisas vistas, por esses caras, sempre como secundárias, menos importantes ou até irrelevantes. Incomoda porque o apoio de muitos desses caras às nossas lutas vem sempre acompanhado da expressão “desde que se lute do jeito certo”; ou seja, “não questione demais, não lute demais, não ameace o status quo“. Incomoda porque esses homens não respeitam o fato de sermos nós mesmas as pessoas mais indicadas para saber o jeito certo de exigir respeito. Incomoda muito e, por isso, esses caras dizem que nossa resistência não é adequada e são os primeiros a pular para defender os agressores e culpabilizar as vítimas.

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Existem tantas formas de reagir a uma violência quanto existem formas de ser violentx. No caso, o cara em questão saiu praticamente ileso fisicamente. A proposta do coletivo da Marcha das Vadias DF é não utilizar a violência física a não ser que essa seja o último recurso de reação, já que não desejamos entrar na espiral da violência na qual se encontra a nossa sociedade e sim fazer parte da construção de um mundo menos violento e mais igualitário. Mas ignorar uma violência é também justamente o que a Marcha das Vadias não se propõe a fazer. E a ideia não é fortalecer uma mentalidade individualista que acredita que a única pessoa legitimada a agir contra uma violência é a própria vítima. A intenção da Marcha é a de que nós mulheres nos empoderemos não apenas para lutarmos por nós mesmas, mas, também, para nos solidarizarmos quando alguma de nós estiver em situação de violência e se sentir fragilizada. Quantas de nós, diariamente, não temos que ignorar quando homens gritam confortavelmente “gostosa” por onde passamos? Quantas de nós não desviamos com medo nossos caminhos para evitar uma roda de homens que nos olham como se fôssemos carne? Quantas vezes nós já ignoramos um, dois, dez caras que tenham passado a mão na gente em uma festa, em um ônibus, na rua, em casa, para não causar confusão, ou por sentir que ninguém se solidarizaria com nossa angústia e nosso incômodo? Quantas vezes nós nos sentimos agredidas e gritamos e reagimos contra essa agressão enquanto as pessoas ao redor simplesmente ignoravam nossos gritos? Quantas vezes nós não nos sentimos constrangidas e culpadas pela violência que sofremos? Chega de ignorar essas agressões! Chega de termos nossos incômodos silenciados e ignorados! Chega de nos sentirmos sozinhas em nossas inseguranças! Chega de nos sentirmos culpadas por termos sofrido alguma violência! Chega de sentirmos vergonha quando reagimos contra alguma agressão! Estamos juntas, e a solidariedade feminina/feminista incomoda os machistas, porque é uma arma contra as suas violências sexistas, racistas, lesbofóbicas, bifóbicas, gordofóbicas diárias! Não nos calemos!

MEXEU COM UMA MEXEU COM TODAS!

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Foto: Bárbara Mangueira

Texto: Leila Saads

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Publicada a Carta Manifesto da Marcha das Vadias/DF 2012!

Após um ano intenso de lutas, reflexões, debates e (re)construções, atualizamos a nossa Carta Manifesto, em um esforço conjunto para contemplar as várias diversidades de mulheres. Esperamos que vocês também se sintam parte disso. A luta é nossa!

Leia e entenda por que marcharemos mais uma vez:

Carta Manifesto da Marcha das Vadias/DF 2012 – Por que marchamos?

“MEXEU COM UMA, MEXEU COM TODAS!”

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“Por que ir à marcha das vadias (uma resposta pessoal)”, texto de uma garota transgênera

Segue, abaixo, um lindo e emocionante texto da Vivi, uma garota transgênera, que achamos importante compartilhar. Reproduzido do blog dela: http://porcausadamulher.wordpress.com/2012/05/14/por-que-ir-a-marcha-das-vadias-uma-resposta-pessoal/

A luta feminista é por todas as mulheres que se sentem mulheres, independente da nossa condição biológica. Estamos todas juntas! o/

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Por que ir à marcha das vadias (uma resposta pessoal)

Espero que você tenha amigxs interessantes o suficiente para ter ao menos escutado algo (bom, mesmo que crítico) sobre a(s) marcha(s) das vadias mundo afora. Caso não tenha — e não evito estranhar as razões pelas quais você estaria lendo este post –, duas sugestões: (1, que listas parecem ser o mote desses nossos tempos produtivos) leia um pouco, informe-se sobre as lutas políticas contemporâneas, discuta com a intenção de aprender, e  (2) item que é potencialmente consequência direta de (1), reavalie suas companhias.

En passant, a marcha das vadias, originalmente denominada slutwalk, consiste em um protesto por direitos humanos. Uma daquelas marchas aludidas porPaulo Freire, cujas energias estão entre nós:

“Eu morreria feliz se eu visse um Brasil cheio, em seu tempo histórico, de marchas. De marcha dxs que não têm escola, marcha dxs reprovadxs, marcha dxs que querem amar e não podem, marcha dxs que se recusam a uma obediência servil, marcha dxs que se rebelam, marcha dxs que querem ser e estão proibidxs de ser. Eu acho que, afinal de contas, as marchas são andarilhagens históricas pelo mundo.” [vídeo aqui, a partir de 1:15]

Mais especificamente, a marcha das vadias é uma marcha pelo respeito incondicional às mulheres [1], pelo direito de exercerem suas sexualidades, suas liberdades sociais, e de não serem vítimas de violências impunes-ignoradas. O episódio que se constituiu em fagulha pra marcha foi uma infeliz  recomendação feita por um policial em uma palestra sobre segurança no campus da York University, Mulheres devem evitar se vestir como vadias para não serem vitimizadas. Aspectos mais específicos da marcha podem ser encontrados aqui.

Caso essas razões não x convençam a participar da marcha — e você tem toda a legitimidade para não se convencer –, e caso você se convença também, gostaria de trazer um pequeno relato pessoal. Por essas coincidências do mundo, estive morando na cidade de Toronto durante o primeiro semestre do ano passado, quando se realizou a primeira marcha das vadias, a slutwalk toronto.  E, embora tivesse sabido da marcha um tanto em cima da hora, ainda pude participar da última reunião de organização e da marcha em si.

Pois então. Talvez seja relevante mencionar, neste momento, o fato de que sou uma pessoa transgênera, ao menos parcialmente identificada com a categoria mulher. E muitas de minhas experiências de gênero estão relacionadas com os monitoramentos e controles sobre a quem, como, e onde se autoriza a expressão do ‘feminino’ [2]. Foi a partir da consciência destas opressões que se gerou a indignação associativa entre minhas experiências pessoais, o episódio do policial infeliz e as violências diárias contra mulheres pelo mundo, indignação que me impeliu a participar do slutwalk.

As pessoas que me conhecem saberão que não me sinto muito à vontade em manifestações públicas, estes atos que explicitam posições políticas muitas vezes sob olhares de estranhamento e-ou discordância. Talvez minha participação nestes atos me faça sentir vulnerável a estes olhares — algo que deve se relacionar em algum nível com minha identidade de gênero deslegitimada. Sei lá. Mas após algumas horas de indecisão, decidi sair de casa como a mulher que era. Ou a mulher que circunstancialmente existia naquele momento, e que proclamava sua legitimidade — mesmo que tardia.

[Mas não saímos todxs, todos os dias, de maneira circunstancial? Ou isso seria específico às transgeneridades? Enfim.]

O dia estava nublado, e ventava frio. A caminhada de minha casa talvez durasse em torno de dez minutos, quinze em saltos. À usual insegurança das caminhadas gênero-transgressoras se somava à vulnerabilidade que os protestos costumavam me trazer, e a claridade cinza do céu, um tempo-espaço mais complicado para quem tentasse ‘se passar’ pela feminilidade cisgênera (ou seja: para parecer uma mulher “””biológica”””, como parecem preferir).

Mas algo foi mudando conforme me aproximava do ponto de partida da marcha.

Pequenos grupos já rodeavam as pessoas da organização, com seus dois megafones, alguns equipamentos de som e cartazes. Aproximei-me para ter uma das primeiras interações sociais como uma mulher transgênera, e não, não morri — suei e tremi, é verdade. Pediram-nos que caminhássemos até um parque próximo para convidar xs passantes a participar da marcha.

Éramos um grupo de seis pessoas, que se dividiu em três duplas. Eu e uma garota. Como não houvesse muitxs passantes, começamos a conversar, compartilhar nossas histórias. E a chamar gente pra marcha, um esforço tranquilo tomando-se em conta que boa parte das pessoas andando pelo parque já se dirigiam a ela.

Então, a interação era mais de boas-vindas que de convencimento. O que me facilitava muito a vida: sendo o convencimento maneira de ‘vender’ determinada(s) ideia(s) a outrem, não poderia me sentir segura a partir de minha posição de gênero usualmente deslegitimada. Em realidade, aos poucos pude notar uma espécie de auto-confiança emergindo.

Bem. aos. poucos. Até hoje.

A garota e eu nos sentimos com confianças suficientes para falar de aspectos bastante pessoais de nossas vivências. Havia uma certa energia que nos permitia isso: o fato de estarmos naquela marcha e de estarmos ajudando (ainda que de forma muito pequena) na sua organização nos inspiravam fortemente. E então procuramos episódios longínquos de nossas existências, fagulhas de uma sexualidade ou gênero inconformes, ou de opressões a elxs.

E, neste contexto, ela menciona ser sobrevivente de abuso sexual.

E de como o responsável pelo crime era um conhecido seu.

E de como ela estava vestida na ocasião — nada ‘vadia’, para desconcerto do policial.

Havia uma dor imensurável na voz da garota. Era a dor dos momentos irreversíveis nas nossas vidas, a dor da impunidade dos crimes contra nós. Não me lembro do que lhe falei — e o que se pode dizer, afinal –, mas a dor que senti era terrível.

E terrível, não porque perfurasse, jorrasse sangue, ou latejasse, mas porque aturdia através do silêncio que habitava os olhos detrás dos óculos de grau.

Silêncio que expressava, jamais se questione, perfurações, jorros de sangue, latejos. Silêncio que se iria despertando a cada conversa com as gentes do parque, e que se passava a levantar nos coros e bordões a se iniciar; silêncios que, de tanto ocuparem mentes, puderam ocupar umas tantas ruas na cidade, atrapalhando-lhes o trânsito.

Silêncios, afinal, que de tanto se acostumarem à casa mental, somente sairiam em gritos, em passadas firmes, em sorrisos, em lágrimas.

Lágrimas que choramos em diversos momentos, saindo-nos de nossos silêncios, ainda que caladas. E presenciar o choro da garota, a algumas pessoas de distância, foi possivelmente um dos presentes mais bonitos que já recebi do universo.

É por isso que acredito na marcha das vadias.

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Notas.

[1]- o foco me parece em mulheres cis, no geral — ainda que as trans estejam explicitamente incluídas também na marcha original.

[2]- muitas outras se referem às opressões derivadas de ser vista socialmente como mulher, em especial uma mulher transgênera; neste caso, reconheço a limitação que tenho em oferecer um testemunho mais apurado, afinal isto não ocorre com muita frequência.

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“Marcha pra que te quero”, texto de Andréa Cerqueira

 Segue, abaixo, ótimo texto de Andréa Cerqueira, reproduzido do blog: http://www.conversasdeandrea.blogspot.com.br/2012/05/marcha-pra-que-te-quero.html

MARCHA PRA QUE TE QUERO

                       “José, José, prepara teu café,

                               João, João, cozinha teu feijão,

                               Zeca, Ô Zeca, lava tua cueca!”

Toré feminista (Loucas de Pedra Lilás)

Nossa história começa lá atrás. Nos estágios mais remotos da vida humana.

Segundo o psicólogo alemão Erich Neumann, no período primordial, “não existe uma pré-disposição nem uma incapacidade, condicionadas pelo sexo, no que diz respeito a qualquer tipo de ocupação importante para o grupo. Encontramos homens ociosos e mulheres guerreiras, da mesma forma que há mulheres ociosas e homens ativos. Algumas vezes a relação com o poder é prerrogativa dos homens e, em outras circunstâncias, das mulheres.”

Já no auge da época matriarcal, a individualidade era pouco desenvolvida, assim como as relações individuais entre homens e mulheres. A existência coletiva do grupo estava em primeiro plano. Os rituais universais de fecundidade eram orientados para a comunidade como um todo.

Na religião e mitologia do Egito, segundo Neumann, “a reelaboração patriarcal do simbolismo matriarcal anterior já pode ser claramente constatada.” E, na Índia antiga, numa passagem das “lendas do Padmasambhava”, as mulheres serão tratadas como as ‘ogras’ do ser humano, e o seu corpo será o “caldeirão de cobre das bruxas, no qual têm lugar todos os sofrimentos…” Alguns historiadores creditam a origem do poder paterno, que sempre acompanha a autoridade marital, à remota Índia. Nos textos sagrados, a família era um grupo religioso do qual o pai era o chefe.

Com Jesus Cristo a coisa muda de figura, senão na prática, pelo menos teoricamente. Jesus proclama que a autoridade paterna não seria mais exercida no interesse do pai, mas do filho, e que a mãe não seria a esposa-escrava, mas a companheira. Sabemos que esta mensagem foi reinterpretada de diversas maneiras posteriormente por teólogos e apóstolos e deu no que deu!

Santo Agostinho vai afirmar que a mulher é “um animal que não é firme, nem estável, odioso, que alimenta a maldade… ela é fonte de todas as discussões, querelas e injustiças.” Ou seja, é sempre Eva, coitada, a responsável pelos pecados de Adão! E São Paulo, em a Epístola aos Efésios, vai afirmar que o homem deve ser o chefe do casal, pois foi criado primeiro: “…assim como a Igreja está sujeita à Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos.” Santa interpretação!

Como se não bastassem esses defeitos de ‘origem’, a filosofia vai tentar reafirmar, com Aristóteles, a autoridade do marido e do pai. Segundo o filósofo, haveria uma desigualdade ‘natural’ entre os seres humanos. Dotada de frágil capacidade de deliberação, a opinião de uma mulher não era digna de consideração, e sua única virtude moral seria “vencer a dificuldade de obedecer”.

Saltemos alguns séculos, para chegarmos à França de Rousseau, o pai do contrato social.  Para ele, a mulher era uma criatura essencialmente ‘relativa’, um ‘complemento’ do homem. Mas na França também se fizeram ouvir outras vozes. Montesquieu, considerado um dos precursores da antropologia, denunciou diversas vezes as desigualdades entre homens e mulheres. Afirmava que não era natural a submissão das mulheres aos homens, e que este ‘império’ masculino era uma verdadeira tirania. “…se as mulheres são efetivamente inferiores aos homens deste século, a causa não reside na sua natureza, mas na educação que lhes é dada, ou melhor, na educação que lhes é recusada.”

Mas foi a partir do século XIX, que as coisas começaram a ficar mais nítidas, porque os cientistas sociais começaram a desvendar o que antes era tido como ‘natural’. Em A origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, Engels vai afirmar que o primeiro antagonismo de classe que aparece na história coincide com o antagonismo entre o homem e a mulher, na monogamia, e que a primeira divisão do trabalho acontece entre o homem e a mulher para a procriação dos filhos. Diz ele: “a reversão do direito materno foi a grande derrota histórica do sexo feminino. O homem passou a governar também a casa, a mulher foi degradada, escravizada, tornou-se escrava do prazer do homem, e um simples instrumento de reprodução…”

A expansão do capitalismo, segundo a socióloga britânica, Sylvia Walby, foi um fator importante para a criação das circunstâncias materiais que levaram ao movimento das mulheres na esfera pública e ao feminismo.

A feminista norteamericana Heidi Hartmann buscou explicar a parceria entre patriarcado e capitalismo e a incapacidade dos movimentos trabalhistas socialistas, dominados por homens, em priorizar o sexismo. A filósofa e cientista política Iris Young, sua conterrânea, argumentava que as relações patriarcais estavam internamente relacionadas às relações de produção como um todo. E afirmava que a organização autônoma das mulheres permanecia como uma necessidade prática. Já a feminista francesa Christine Delphy descreveu o matrimônio como uma relação de classe em que o trabalho da mulher beneficia o homem, sem que haja uma remuneração compatível.

Segundo o sociólogo Avtar Brah, até recentemente, as perspectivas feministas ocidentais davam pouca ou nenhuma atenção aos processos de racialização do gênero, classe e sexualidade. Segundo o autor, estruturas de classe, racismo, gênero e sexualidade não podem ser tratados como “variáveis independentes”, porque a opressão de cada uma está inscrita dentro da outra – é constituída pela outra e é constitutiva dela.

E falar em feminismo no Brasil e na América Latina sem falar em gênero e raça, não faz sentido. Em todos os períodos de crise, houve a feminização da pobreza. Mulheres e negras foram as mais atingidas pela violência e pelas desigualdades. Segundo a feminista negra brasileira Luiza Bairros, o patriarcado repousa em bases ideológicas semelhantes às que permeiam o racismo: a crença na dominação constituída com base em noções de inferioridade e superioridade.

Se, a violência atinge uma em cada três mulheres na América Latina; quatro em cada dez mulheres brasileiras já foram vítimas de violência doméstica; uma mulher é agredida a cada cinco minutos no Brasil; e 70% das vítimas de violência sexual doméstica no DF têm até 14 anos, eu pergunto: COMO NÃO MARCHAR?

Segundo a infopedia, a marcha descende da tradição medieval inglesa que levava um servo a acompanhar a pé o seu amo que viajava em carruagens puxadas por cavalos.

Contra tradições e preconceitos que queremos superar, marchamos sem oprimir ninguém, lado a lado.

Contra o MACHISMO, O RACISMO, A HOMOFOBIA E TODAS AS FORMAS DE OPRESSÃO E DESIGUALDADE.

VIVA A MARCHA DAS VADIAS!

Andréa Cerqueira, mãe da Bruna, do Coletivo da Marcha, mestranda em Sociologia pela Universidade de Brasília e Multiplicadora da Técnica do Teatro do Oprimido.

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