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Conheça o PLC 03/2013 e entenda por que queremos a sanção total

O projeto de lei n.º 3/2013 tem como origem o projeto de lei n.º 60 de 1999, criado com o objetivo de sustentar legalmente a política de prevenção e tratamento dos agravos resultantes da violência sexual contra mulheres e adolescentes, lançada no mesmo ano de 1999 e aprimorada em 2005.

Para que não fique nenhuma dúvida quanto ao conteúdo desse projeto de lei, colocaremos abaixo todo seu conteúdo, pontuando algumas observações (caso queira lê-lo no site do Senado Federal, clique aqui .

Projeto de Lei da Câmara n.º 3, de 2013

(nº 60/1999, na Casa de origem, da Deputada Iara Bernardi)

 

Dispõe sobre o atendimento obrigatório e integral de pessoas em situação de violência sexual)

Art. 1º Os hospitais devem oferecer às vítimas de violência sexual atendimento emergencial, integral e multidisciplinar, visando ao controle e ao tratamento dos agravos físicos e psíquicos decorrentes de violência sexual, e encaminhanto, se for o caso, aos serviços de assistência social.

Antes de mais nada é necessário entendermos qual a importância do atendimento nos equipamentos de saúde às mulheres que sofreram violência sexual:

A mulher sobrevivente de uma violência sexual grande parte das vezes encontra-se em estado de stress pós-traumático que a impede de lidar com todo o processo de registro de boletim de ocorrência e outras situações que a obriguem emitir relatos repetitivos sobre o ocorrido.

Portanto, o acolhimento dessa mulher no, muitas das vezes, primeiro atendimento que ela receberá é essencial para evitar sua revitimização e até mesmo facilitar a identificação do estuprador.

Por que, então, a defesa de veto total desse projeto de lei? Qual é o interesse nisso?

Não podemos nos esquecer que 44% dos hospitais brasileiros são hospitais filantrópicos, estando, muitos deles vinculados a entidades religiosas, que recebem isenção parcial ou total de impostos para fazer atendimentos pelo SUS.

A insistência ao veto total desse projeto de lei pode estar vinculada à recusa de grupos religiosos mantenedores de hospitais filantrópicos a fazer o atendimento adequado à pessoa em situação de violência sexual. Vemos, novamente, a imposição de crenças religiosas acima dos direitos humanos da pessoa que sofreu o crime tipificado, não por acaso, como hediondo.

Art. 2º Considera-se violência sexual, para os efeitos desta Lei, qualquer forma de atividade sexual não consentida

No dia 10 de julho de 2013, o Pe. Paulo Ricardo foi convidado para participar de audiência pública na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados e questionou a definição de violência sexual descrevendo o estupro conjugal como algo naturalmente aceitável.

Segundo a Lei Maria da Penha, art. 7.º inciso III, violência sexual é “entendida como qualquer conduta que a constranja a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força; [que a induza a comercializar ou a utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade, que a impeça de usar qualquer método contraceptivo ou que a force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição, mediante coação, chantagem, suborno ou manipulação; ou que limite ou anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos;]”

Ou seja,  o que vimos foi uma apologia ao estupro conjugal em plena Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados.

São essas as pessoas que se colocam contra a sanção integral dessa lei.

Art. 3º O atendimento imediato, obrigatório em todos os hospitais integrantes da rede do SUS, compreende os seguintes serviços:

I – dianóstico e tratamento das lesões físicas no aparelho genital e nas demais áreas afetadas;

II – amparo médico, psicológico e social imediatos;

III – facilitação do registro da ocorrência e encaminhamento ao órgão de medicina legal e às delegacias especializadas com informações que possam ser úteis à identificação do agressor e à comprovação da violência sexual;

IV – profilaxia da gravidez

 

Esse é o ponto que mais polemizam:

“A gravidez decorrente de violência sexual representa, para grande parte das mulheres, uma segunda forma de violência. A complexidade dessa situação e os danos por ela provocados podem ser evitados, nos casos de pronto atendimento, com a utilização da anticoncepção de emergência.”

(Norma técnica de Prevenção e tratamento dos agravos resultantes da violência sexual contra mulheres e adolescentes – Ministério da Saúde)

Caso a mulher não tenha conseguido passar por esse procedimento e se descobrir grávida do  estuprador é direito dela recorrer aos serviços públicos para abortar, caso assim decida. Enfatizando: a mulher não será obrigada a interromper a gestação.

É obrigação do Estado disponibilizar esse atendimento que é realizado apenas em hospitais de referência, em que uma equipe multidisciplinar é treinada e preparada para atender essa mulher.

V – profilaxia das Doenças Sexualmente Transmissíveis – DST

VI – coleta de material para realização do exame de HIV para posterior acompanhamento e terapia;

VII – fornecimento de informações às vítimas sobre os direitos legais e sobre todos os serviços sanitários disponíveis.

§ 1º Os serviços de que trata esta Lei são prestados de forma gratuita aos que deles necessitarem.

§ 2º No tratamento das lesões, caberá ao médico preservar materiais que possam ser coletados no exame médico legal.

§ 3º Cabe ao órgão de medicina legal o exame de DNA para identificação do agressor.

 Art. 4º Esta Lei entra em vigor após decorridos 90 (noventa) dias de sua publicação oficial.

 

O deputado e também pastor Marco Feliciano constantemente utiliza-se de mídias sociais para exaltar o seu poder de mobilização de votos do público de sua religião, fazendo disso pressão para que o executivo dance conforme sua música.

Nesses últimos anos, por muitas vezes, o poder executivo cedeu.

 

O recuo do Governo Federal na distribuição do Kit de Combate à Homofobia nas escolas e a demissão do diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais (Ministério da Saúde) após lançar a Campanha "Sou feliz sendo prostituta".

O recuo do Governo Federal na distribuição do Kit de Combate à Homofobia nas escolas e a demissão do diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais (Ministério da Saúde) após lançar a Campanha “Sou feliz sendo prostituta” são exemplos dos recuos do Governo Federal frente à pressão de setores religiosos.

E agora, fica a pergunta à nossa primeira presidenta mulher:

QUANTOS VOTOS VALEM O CORPO E A MENTE DAS MULHERES VIOLENTADAS?

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Transgressor é não ser machista – Gerald Thomas e a cultura do estupro

Por Bruna Seixas*

Recentemente, durante o lançamento de um livro seu em uma livraria do Rio de Janeiro, o diretor de teatro Gerald Thomas enfiou a mão entre as pernas de Nicole Bahls, do programa Pânico, e tocou-a insistentemente, enquanto ela tentava tirar a mão dele. A situação foi uma sucessão de absurdos.

Quando um dos entrevistadores perguntou se ele poderia passar um exercício pra ela se soltar, já que era sua primeira entrevista, o diretor a virou de costas, empurrou seu quadril contra o dela e simulou um ato sexual.

Ele fez graça do sotaque de Nicole e a tocou novamente, bagunçando seu cabelo e dizendo: “Ela tá muito confusa, né, coitada? Como ela é confusa!” Por fim, quando perguntaram qual conselho ele daria, de verdade, na primeira matéria dela, ele disse: “Chupe bem um pau”. Após as inúmeras humilhações, tudo, no fim das contas, foi resumido pelo programa a um “teatro de provocação”. Escondido sob o manto do “artista”, Gerald pode tudo.

A divulgação das fotos e do vídeo da matéria promoveram a espetacularização da violência cometida contra Nicole. No mesmo dia do fato, ela disse em seu twitter que ficou muito triste com o que aconteceu. Mas ninguém a ouviu.

Como sempre, muitas pessoas culpam a mulher, e não quem a violentou: “Se ela tivesse se dado ao respeito, isso não teria acontecido”, “Quem manda se vestir assim?”, “Ela se comporta como uma qualquer e ainda quer respeito?”, “Ela simplesmente teve o que gosta de provocar nos homens”, “Essa puta mereceu”.

Esse discurso é bastante difundido e muito comum inclusive em casos de estupro, numa sociedade em que a conduta da mulher está sempre sob julgamento e é frequentemente questionada e atacada pra justificar o ato do agressor. Toda mulher é ensinada, desde criança, a se comportar de forma a evitar um estupro: “Não use roupas curtas”, “não aceite bebidas de estranhos”, “não ande sozinha à noite”. Mas o mais grave é que, enquanto temos nosso comportamento tolhido e censurado frequentemente, nossa sociedade não ensina aos homens que eles não podem estuprar. Toda a responsabilidade é direcionada às vítimas, e as mulheres vivem num clima de insegurança constante. Isso é uma cultura de terror.

Gerald Thomas tentou justificar o abuso que cometeu dizendo o seguinte:

ESTUPRA? Como assim? So levantei a saia de alguem que estava usando trajes ousadamente ‘putos’, sentando no meu colo e …nada mais. Mas ISSO TAMBEM é teatro.

ORA BAHLS!!!

Não, Gerald Thomas, teatro seria se ela tivesse sido previamente informada da sua intenção de meter a mão na buceta dela e tivesse concordado com isso. Mas não foi, você agiu contra a vontade dela. Portanto, foi uma violência.

Ao contrário do que disse dela, ele não se considera “ousadamente puto” ao expor sua nudez quando lhe dá na telha, como numa entrevista que concedeu nu à revista TPM, ou quando mostrou seu pau à imprensa no mesmo dia em que violentou Nicole. Por que a nudez só é “ousadamente puta” quando é da mulher?

Ele ainda completou:

Vem uma menina, de (praticamente) bunda de fora, salto alto de “fuck me”, seios a mostra, dentro de um contexto chamado PANICO e eu (que não deixo me intimidar e gosto desse pessoal) entro no jogo e viro as cartas – e os intimido ! (que nada! Brincadeira também!) 

Segundo sua lógica perversa, já que o humor do programa é agressivo e invasivo, ele pode revidar enfiando a mão dentro do vestido da menina que trabalha lá e está cumprindo ordens. De acordo com essa lógica, ele também deveria ter sido violentado em todas as vezes que apareceu nu em público. Mas é mais cômodo descontar no corpo de uma mulher.

A questão é que, mesmo que ela estivesse nua, isso não quer dizer de forma alguma que estivesse pedindo pra ser tocada, e NINGUÉM, em nenhuma hipótese, tem o direito de tocar uma mulher sem o seu consentimento. Isso não é brincadeira, isso é violência. Dizer que a mulher “provocou” o estupro pela roupa que estava vestindo é, além de tudo, uma ofensa aos homens: pressupõe que são todos animais irracionais, incapazes de dominar um suposto “instinto” sexual violento. Mas sabemos que vocês são capazes de pensar e refletir antes de agir. Vocês são capazes de respeitar uma mulher.

Nessa situação, Nicole é vítima duas vezes: por ter tido a violência que sofreu exposta e desconsiderada no programa machista para o qual trabalha, em que o assédio e a humilhação são cometidos contra ela e as outras integrantes o tempo todo, e por ter sido violentada pelo homem que foi entrevistar.  É evidente o lugar subalterno reservado a ela nessas relações de poder, ao ser agredida na frente de muitas pessoas, sendo filmada por várias câmeras, numa livraria lotada, no exercício do próprio trabalho, sem que ninguém que assistia à cena fizesse nada em sua defesa. Se reagisse, ela poderia perder o emprego, já que seus patrões saíram em defesa do agressor.

Depois da repercussão do fato, ela disse: “Me desacostumei com esse tipo de humor. Cheguei em casa e fiquei abalada, constrangida. Mas depois, pensei um pouco e acho que faz parte do personagem. É uma oportunidade que estou tendo de voltar e isso faz parte do programa. Tenho que começar a separar o personagem da vida real”. Não é de se surpreender que, diante da naturalização da violência que sofreu por parte de todos que presenciaram a cena, ela tenha se convencido de que foi mesmo uma brincadeira. Nessa cultura de culpabilização da vítima, muitas mulheres silenciam as violências que sofrem.

Apesar disso, ele ainda teve coragem de dizer:

Eu, Gerald Thomas, faço a olho nu, na frente dos fotógrafos, das câmeras, das luzes, o que esse bando de carecas e pseudo moralistas gostaria de estar fazendo atrás de portas fechadas, com as luzes apagadas! EYES WIDE SHUT

Sim, muitos homens gostariam de fazer o que você fez, e é exatamente esse o problema. Muitos homens, assim como você, veem as mulheres como objetos à disposição para serem tocadas sem consentimento e acreditam que existimos para servir a eles e aos seus desejos. Nosso país oferece lições básicas de misoginia e desrespeito às mulheres a todo momento, ao explorar nossa nudez e a erotização dos nossos corpos na TV, nas revistas, no Carnaval – todas indústrias comandadas majoritariamente por homens -, ao usar nossos corpos pra vender cerveja ou qualquer outro produto como se fôssemos também mercadoria. É por isso que tantos homens acreditam que nossos corpos são públicos, disponíveis, e é por isso que toda mulher tem pelo menos uma história de assédio e horror pra contar: seja numa balada, na fila do banco, no médico, dentro de casa, no meio da rua ou até no próprio trabalho, como aconteceu com Nicole. Nós somos desrespeitadas cotidianamente e em qualquer lugar.

E o mais impressionante é que você, Gerald Thomas, se orgulha de cometer essa violência na frente das câmeras. Mas isso é resultado do lugar de conforto reservado aos homens na nossa sociedade, é resultado dessa cultura que nos ensina que quando a mulher diz “não” você tem que insistir até que ela diga “sim”, porque dizer “não” é desafiar o poder inquestionável do macho.

A masculinidade é social e historicamente construída, e o domínio dos homens sobre as mulheres está associado à sua especialização cultural no exercício da força bruta. A violência não é inerente à natureza masculina, é um dispositivo de controle de uma sociedade que ainda trata as mulheres como cidadãs de segunda categoria, como objetos de prazer e consumo dos homens. Mas é chocante como, ainda hoje, mesmo depois de tantas lutas vencidas rumo à igualdade entre os gêneros, nossa sociedade é tão machista e patriarcal a ponto de muitos homens se sentirem autorizados a se apropriarem à força do corpo de uma mulher. Vários homens entrevistados pelo programa afirmaram rindo que, se estivessem na mesma situação de Gerald Thomas, fariam o mesmo com Nicole. O psicólogo convocado pelo Pânico pra tentar nos fazer acreditar que não houve nada de errado na cena, referendou, mais uma vez, a violência cometida contra ela: “Cumpre registrar que a Nicole é irresistível”. Portanto, segundo ele, não há nenhum problema se qualquer homem resolver tocar uma mulher contra sua vontade, caso a considere irresistível. Isso é uma cultura do estupro.

Por isso, Gerald Thomas, homens como você não se veem como agressores, mesmo ignorando a resistência verbal e/ou física da mulher – como você ignorou as mãos de Nicole Bahls tentando te afastar de seu corpo -, porque muita gente encara esses comportamentos como a coisa mais normal do mundo. Realmente, não há nada de absurdo em ser opressor, porque esse é o padrão de comportamento masculino com o qual somos obrigadas a conviver diariamente. Transgressor é não ser machista.

Como se não bastasse, ele se achou o máximo por supostamente nos alertar sobre as falhas da nossa sociedade:

Somos todos da classe teatral e nossa função é apontar as VOSSAS falhas. E se VOCES se revoltam TANTO, então, já fico contente porque os alertei pra alguma coisa. O que? SIM:

1-        A mulher não é um objeto. Mas não deveria se apresentar como tal

2-        E os homens jamais deveriam se utilizar desse objeto de forma alguma

Seja como for: a única coisa que REALMENTE FIZ foi; tentar levantar a saia de Nicole Bahls e, pela expressão da cara dela nas fotos, she must have had a bahls!

Gerald Thomas, quem falhou foi você. Não há nada de transgressor em compactuar com a violência sexual e psicológica contra uma mulher, e não é você nem homem nenhum que pode dizer como devemos nos apresentar. Somos livres pra escolher como queremos nos vestir e nos comportar sem que isso justifique nenhum tipo de violência cometida contra nós. Você pressupõe que é permitido fazer o que quiser com as mulheres se, do seu ponto de vista, elas te parecem objeto. Mas você não tem esse direito. Ah, um lembrete: artistas também cometem crimes. E não há licença poética para a opressão.

Uma agressão a uma mulher é uma agressão a todas nós. Se ainda precisamos explicar por quê é inaceitável que alguém enfie a mão em qualquer parte do nosso corpo sem o nosso consentimento, existe algo muito errado com nossa sociedade. Cada vez que esse tipo de cena acontece e é amplamente divulgada e tratada com naturalidade, todas nós ficamos mais vulneráveis diante da violência sexual, do olhar de desconfiança da polícia e da sociedade quando denunciamos uma violência, da impunidade que faz homens se sentirem à vontade para estuprarem mulheres numa festa, no assento de um ônibus, numa escada de incêndio, num elevador, numa van, no meio da rua, em plena luz do dia. Assistir a essas violências sendo retratadas como piada contribui para a naturalização desse estado de alerta constante que nos é imposto. Toda mulher tem medo de ser estuprada. Mas nós não deveríamos viver com medo.

Gerald Thomas, nenhuma mulher pede para ser violentada, e reproduzir esse discurso é ser conivente com as violências que mulheres anônimas sofrem todos os dias, a todo momento, no Brasil e no mundo. Você, o Pânico e todas as outras pessoas e programas que contribuem para perpetuar a naturalização da violência contra as mulheres são responsáveis pela manutenção da cultura do estupro na nossa sociedade.

É por isso que a nossa luta ainda é tão extremamente necessária. É por isso que continuaremos questionando, denunciando, marchando e seguindo em frente, cada vez que uma violência for cometida contra uma de nós, até o dia em que conseguiremos destruir o patriarcado, até o dia em que a violência de gênero acabe, até que todas sejamos livres. Enquanto vocês…

Vocês são o retrato patético de uma masculinidade retrógrada que agoniza na tentativa de manter seus privilégios. E vocês vão ficar pra trás.

 

*Bruna Seixas, integrante do coletivo da Marcha das Vadias/DF – https://marchadasvadiasdf.wordpress.com

 

 

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Integrantes da banda New Hit estupram duas adolescentes. Do que o machismo é capaz?

Mais uma vez nos deparamos com um caso de estupro, em que as mulheres são culpabilizadas pela violência e, por isso, acabam sendo agredidas duplamente. A Marcha das Vadias do DF repudia veementemente a maneira com que estão sendo tratadas as duas meninas que sofreram abuso sexual por todos os integrantes da Banda New Hit, que devem responder judicialmente pelos bárbaros atos! É vergonhosa a organização de uma manifestação para apoiar os músicos criminosos, enquanto as vítimas e seus familiares permanecem encarcerados em casa por medo de retaliações e consumação das ameaças que recebem por telefone. A violência sobre essas meninas ainda não terminou: suas vidas e imagens estão sendo expostas, suas nomeações foram substituídas por xingamentos. Qual é a lógica que continua determinando o modo de pensar, que inverte papéis e condena vítimas? O machismo violentou essas meninas inúmeras vezes: o machismo fez com que estes homens acreditassem que detinham a propriedade dos corpos dessas meninas; o machismo fez com que acreditassem que a vontade delas não existia frente à vontade desses homens; o machismo fez com que duvidassem da denúncia dessas meninas mesmo que estivessem cobertas de sêmen; o machismo fez com que duvidassem delas mesmo com o laudo médico atestando a presença de hematomas e lesões nos órgãos genitais dessas meninas; o machismo fez com divulgassem fotos dessas meninas com xingamentos e dizeres que induzem a pensar que elas desejaram a violência sofrida; o machismo fez com que as pessoas organizassem uma manifestação em defesa de homens que acreditam que os mundo foi feito somente para eles. Pois estamos aqui e não vamos mais nos silenciar diante de tanta violência! Esse mundo também é nosso, somos donas dos nossos corpos e desejos. Não vamos mais deixar que somente o machismo se manifeste por aqui.
O papel de mídias, redes sociais é comunicar, sem dúvidas. No entanto o que ocorre é uma reprodução, em larga escala, de padrões de hierarquização que reificam e essencializam mulheres, por reafirmarem que estas são passivas, vagabundas, “putas” e que, por tudo isso, são também estupráveis. Se o papel das mídias é também construir narrativas culturais, pessoas e instituições que estão despedaçando a imagem dessas meninas vítimas de estupro – por banalizarem este crime – apenas reafirmam que comportamentos machistas e agressivos são aceitos socialmente. O padrão de masculinidade veiculado por mídias e pessoas machistas impede homens de serem mais que apenas brutamontes, agressores, estupradores, assassinos, “machos de verdade” e, assim, cria uma cultura de estupro em nossa sociedade. Mas, novamente, há vozes dissonantes que lutam por e com mulheres, homens, pessoas livres de opressão, de violência, de sexo SEM CONSENTIMENTO. Estupro não é um problema apenas da pessoa que comete o crime, mas sim da nossa sociedade, que não pode ser conivente com uma violação de corpos e integridades físicas e morais. Por isso, a Marcha das Vadias acredita que liberdade de expressão não deve significar liberdade de opressão.

 

#NewHitNaCadeia

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Quem o machismo matou hoje?

Estamos diante de sete mulheres que foram estupradas e ofertadas como “presente”. Duas delas, depois perderam a vida. Que direitos tiveram aquelas mulheres?

É uma mistura de revolta, angústia, impotência, indignação, pavor, raiva, nojo, tristeza. Muita tristeza. Não é possível definir sentimentos que nos tornam quase que incapazes de acreditar no ser humano.

O estupro coletivo de sete mulheres e assassinato de duas delas, ocorridos na cidade de Queimadas, no interior do Estado da Paraíba, foi um crime premeditado. O estupro seria um “presente de aniversário” de um irmão para outro. O caso revela muito mais que psicopatia. Revela um cenário brutal de machismo e misoginia.

O fato de que a sociedade trata os estupradores como psicopatas, monstros e indivíduos que não pertencem à sociedade é, no mínimo, hipócrita. Os homens que violam e violentam os corpos das mulheres estão apenas reproduzindo os padrões disseminados pela sociedade. Padrões que colocam os nossos corpos como mercadorias, objetos de desejo, sem que nós sejamos protagonistas desse desejo. Sempre representadas como incitadoras da violência, como se fosse nossa vontade não sermos donas de nós mesmas e nossos corpos sendo apenas objetos que estão lá para satisfazer vontades de outros, sonhos de outros, vidas de outros.

 Em propagandas como a da Hope com a Gisele Bundchen, não basta sermos objetificadas, devemos também nos orgulhar disso e nos objetificar também.

Então, um homem ganha de aniversário um estupro coletivo e as mesmas pessoas que corroboram com essas relações sociais distorcidas se chocam, acusam, apontam dedos, desejam a morte desses homens. Sem perceber que esses homens trataram aquelas mulheres como elas são retratadas cotidianamente, como objetos. Já passou da hora de refletirmos que a culpa é do estuprador e não da vítima, e que é também dos que perpetuam o imaginário da mulher objeto. Um imaginário doente, violento e que nos agride todos os dias. 

Temos acompanhado também o julgamento de Lindemberg Alves, acusado de manter em cárcere privado e matar Eloá Pimentel, 15 anos, sua ex-namorada. Em sua defesa, a advogada Ana Lúcia Assad declarou: “Ele não é bandido. Ele confessou que atirouem Eloá. Lindembergé apaixonado por Eloá. Foi o grande e único amor da vida dele, tanto é que ele não recebe visita íntima porque ele não quer ter outra mulher. Lindemberg sofre pela morte de Eloá”.

Não podemos enxergar o homicídio de Eloá Pimentel como apenas mais um “crime passional” entre namorados, como resultado de um “descontrole emocional”. Aqui há também a questão do sentimento de posse de um homem com relação a sua namorada, a idéia de que “se ela não for minha, também não será de mais ninguém”; o machismo estrutural em nossa sociedade que fundamenta o argumento de que Lindemberg teria matado por “amar muito” Eloá.

A advogada ainda enfatizou que a vítima era “geniosa e explosiva”. Segundo ela, “Eloá contribuiu para deixar a situação pior do que estava”. Uma defesa pautada na idéia da culpa da vítima, responsabilizando Eloá pela violência que sofreu. Mas pra nós está claro: quem ama não mata.

Esses dois episódios não são fatos isolados. Casos como estes, em que mulheres são estupradas e mortas, acontecem todos os dias. Mas é mais fácil situar os estupradores como psicopatas ou doentes mentais à ter que enfrentar uma sociedade que é doente: entende-se machista.

É necessário juntar forças de todos os cantos para combater o machismo e nunca mais permitir que apareça qualquer sintoma dele, como o estupro e mortes de mulheres.

E, por isso, nós, da Marcha das Vadias do Distrito Federal, repudiamos toda e qualquer violência contra as mulheres. Lutamos para que casos como estes não mais existam. E continuaremos lutando pelo fim do machismo e fim da violência.

Por Mariana Castellani, Kilma Cavalcanti e Lia Padilha da Marcha das Vadias do DF.

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Metroviárias de SP denunciam incentivo à violência sexual no programa Zorra Total

Abrimos esse espaço para nos solidarizar às metroviárias de São Paulo, que denunciaram o absurdo quadro humorístico do programa Zorra Total, da Rede Globo, em que uma mulher é abusada sexualmente no metrô. Nos sentimos plenamente contempladas pela iniciativa dessas mulheres e ficamos muito felizes ao ver que cada vez mais mulheres estão se manifestando contra os abusos e violências de diversas ordens que nos atingem. Jamais nos calaremos!

Mais uma vez: Estupro não é piada e machismo não tem graça! 

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Estupro não é piada!

Gostaríamos de dividir com vocês um acontecimento que no mínimo nos chocou. Quarta feira à tarde, recebemos o seguinte e-mail:

“Olá, boa tarde!

Meu nome é Charline Messa e sou autora de uma foto do Rafinha Bastos que vocês estão usando no blog sem prévia autorização, além de terem alterado o conteúdo original da imagem.Peço, por gentileza, para que tirem a imagem do ar e tirem também do ar quaisquer outras imagens publicadas sem a devida autorização. Não sei que outros usos vocês fizeram dessa foto, mas não quero que um trabalho que eu fiz para o próprio Rafinha Bastos seja usado por outros veículos que não sejam autorizados por ele ou por mim.Link da imagem: https://marchadasvadiasdf.wordpress.com/2011/06/17/estupro-nao-e-piada-e-crime/

Muito obrigada!”

Cordialidades à parte, nossa querida amiga não foi tão simpática assim em seu twitter quando perguntou:

Respondemos Charline Messa que poderia mandar sim, pois felizmente não temos problema algum com o sexo anal.

Entretanto, é mais que claro que o pedido acima não foi realizado por uma questão de direitos autorais ou de utilização indevida de obra. O pedido de Charline é uma reação às críticas que feministas vêm levantando frente aos últimos pronunciamentos de Rafael Bastos – o qual, em uma tentativa irresponsável e agressiva, procurou fazer humor com o estupro. Ao emitir tais palavras, Rafael agrediu mais uma vez todas as mulheres que já passaram por essa violência – as estatísticas apontam o assustador número de 15 mil por ano em nosso país. Ao exprimir tamanho escárnio, Rafael quis tornar risível a dor e o trauma das mulheres que tentam sobreviver cotidianamente sob um passado sufocante. Ao cometer esse insulto, Rafael quis incentivar e reafirmar a violência de homens que acreditam em seu poder irrestrito sobre os corpos e os desejos das mulheres. Rafael Bastos, com sua “inocente” piada, feriu o princípio do respeito à dignidade humana e, sem dúvida alguma, danou moralmente, por inteiro, nossa sociedade. Mesmo frente às queixas de mulheres que se sentiram pessoalmente atingidas pelo comentário, Rafael Bastos sequer teve a decência de se retratar pelas barbaridades que falou – o mínimo que poderia fazer em resposta às mulheres que se sentiram ofendidas.

Charline Messa, ao tentar retirar as possibilidades de crítica à imagem de seu amigo, tenta protegê-lo das conseqüências de seu próprio discurso. Felizmente, a justiça já corre atrás das opressões produzidas por um sistema alienante e preocupado com as vendas que uma piada de mau gosto poderia render. Rafael Bastos está sendo indiciado por apologia e incitação ao estupro e, se condenado, o humorista poderá cumprir de um ano a dois anos de pena, rindo sozinho da própria piada. Interessante coincidência foi a simultaneidade entre a divulgação da iniciativa do Ministério Público de São Paulo e a notificação ultrajada de nossa querida fotógrafa sobre a indevida utilização de sua imagem – que, diga-se de passagem, já está em nosso blog há um mês.

Por fim, respeitamos a decisão de apoio incondicional de Charline Messa a seu amigo Rafael Bastos e vamos substituir a imagem por outra que utiliza o creative commons, pois preferimos utilizar o trabalho de pessoas que entendem a importância do compartilhamento de conhecimento, que defendem a solidariedade e a utilização do conhecimento a serviço da sociedade e não do lucro.

Assine aqui o abaixo assinado de pelo fim da apologia ao estupro de Rafael  Bastos.

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Duas mulheres são estupradas por dia no DF

"Em Brasília, marchamos porque apenas nos primeiros cinco meses desse ano, foram 283 casos registrados de mulheres estupradas, uma média de duas mulheres estupradas por dia, e sabemos que ainda há várias mulheres e meninas abusadas cujos casos desconhecemos; marchamos porque muitas de nós dependemos do precário sistema de transporte público do Distrito Federal, que nos obriga a andar longas distâncias sem qualquer segurança ou iluminação para proteger as várias mulheres que são violentadas ao longo desses caminhos."

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Sou homem e não preciso ser machista

"No mundo, marchamos porque desde muito novas somos ensinadas a sentir culpa e vergonha pela expressão de nossa sexualidade e a temer que homens invadam nossos corpos sem o nosso consentimento; marchamos porque muitas de nós somos responsabilizadas pela possibilidade de sermos estupradas, quando são os homens que deveriam ser ensinados a não estuprar; marchamos porque mulheres lésbicas de vários países sofrem o chamado “estupro corretivo” por parte de homens que se acham no direito de puni-las para corrigir o que consideram um desvio sexual; marchamos porque ontem um pai abusou sexualmente de uma filha, porque hoje um marido violentou a esposa e, nesse momento, várias mulheres e meninas estão tendo seus corpos invadidos por homens aos quais elas não deram permissão para fazê-lo, e todas choramos porque sentimos que não podemos fazer nada por nossas irmãs agredidas e mortas diariamente. Mas podemos."

Observação: Solicitamos aos homens que forem participar da marcha que não se fantasiem ou façam piadas com a Marcha das Vadias. Machismo não é brincadeira.

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