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NOTA PÚBLICA SOBRE EXPULSÕES NA MARCHA DAS VADIAS-DF 2013

Antes de mais nada, gostaríamos de explicitar as razões pelas quais não publicamos esta nota anteriormente. A Marcha das Vadias – DF (MdV-DF) é composta por um grupo muito grande e diverso de mulheres que se organiza de forma horizontal para a construção da marcha. Entendemos que as expulsões realizadas, sempre polêmicas pela sua complexidade, demandavam uma discussão aprofundada e de qualidade. Assim, garantiríamos que a nota fosse o resultado de uma construção coletiva, consciente e responsável, e não de um posicionamento leviano ou hierárquico, partindo de poucas.

Esse debate foi energicamente realizado desde o dia de realização da Marcha (22/06) e se estendeu durante toda a semana seguinte. Tivemos também o auxílio de profissionais que trabalham com populações em situação de rua, que muito nos ajudaram nesse processo de reflexão e a quem agradecemos profundamente pelos diálogos e críticas extremamente válidas, que apenas começaram.

Para entender o ocorrido na Marcha das Vadias DF de 2013, é preciso compreender um pouco da nossa organização, que é dividida nas seguintes comissões: debates, comunicação, agitação/mobilização, trajeto e segurança.

Sobre a comissão de segurança da Marcha das Vadias do DF

O objetivo principal da comissão de segurança é garantir que a Marcha seja um espaço de conforto para as mulheres que dela participam e, também, de solidariedade feminista (tendo em vista que, desde a primeira marcha, recebemos ameaças recorrentes de agressões e “estupros-surpresa”). Para isso, utilizamos desde a primeira marcha (em 2011) o “escracho” como instrumento de ação, o qual consiste na publicização e expulsão de agressores por meio de gritos e buzinadas.

Frisamos que essa estratégia é compatível com os sentimentos que motivaram e possibilitam, ainda hoje, a própria existência da Marcha enquanto movimento (uma participação política múltipla em significados). Entre incontáveis outros fatores, os sentimentos de empoderamento, solidariedade e autorrealização (denominado por quem nos oprime como vadiagem, putaria ou sem-vergonhice) é parte fundamental da energia da MdV-DF. Nossa comissão de segurança preserva tal energia.

Quantas vezes os depoimentos de mulheres vítimas de violência são colocados em dúvida? Quantas vezes as escolhas não compatíveis com a cultura do assujeitamento feminino são utilizadas para nos culpabilizar pelas diversas violências que sofremos? Quantas vezes a cultura sexista e racista soma-se às discriminações de classe, região, idade, religião e outras na expressão de violências às mulheres?

Essas perguntas foram levantadas, escritas e gritadas em cartazes, corpos e vozes durante a Marcha das Vadias-DF de 2013. No entanto, a mesma problematização não foi feita em relação aos possíveis agressores. De fato, na hora da marcha, quando uma integrante da comissão de segurança ouve a buzina, segue imediatamente para o local da agressão no sentido de apoiar a ação das demais companheiras. Não questionamos a ação das outras integrantes na hora por entendermos que, se a buzina foi apertada, uma violência sexista ocorreu. Seguimos a compreensão de que “mexeu com uma, mexeu com todas”.

No caso de mulheres agressoras, decidimos conjuntamente a metodologia de dialogar com elas para que se retirem da marcha, já que, naquele ambiente dividido por vítima e agressora, a primeira se encontraria muitas vezes incomodada e com receio de continuar marchando. Essa decisão foi tomada depois de muitas discussões e de nos depararmos com agressoras na 1ª MdV-DF (2011). Naquela fase, salientamos um recorte de gênero fundamental, mas ainda não tínhamos pensado sobre outras ramificações, como homens que estivessem em situações mais vulneráveis e fossem agressores.

Durante a marcha, orientamos xs participantes a denunciarem caso houvesse algum tipo de violência sexista. Abaixo, o panfleto distribuído ao início da Marcha 2013:

Panfleto Orientações Marcha

Sobre a expulsão de homens negros em situação de rua

Diante da exposição de um vídeo sobre a expulsão da Marcha de um homem negro, em situação de rua e aparentemente sob efeito de álcool e/ou outras drogas, foram feitas inúmeras críticas, acolhidas seriamente por nós. É importante explicar que a situação ocorrida não foi completamente apresentada no vídeo e alguns relatos. O vídeo mostra apenas um fragmento e um ângulo do que aconteceu e propõe uma interpretação limitada da cena.

Algumas críticas como “o homem só estava levantando a camisa” ou “elas não deixavam ele sair dali” nos soaram simplistas diante, inclusive, do próprio vídeo, que mostra o homem em questão levantando a blusa e, também, tentando abaixar a bermuda, sendo agressivo. Mostra, igualmente, o círculo feito pela mídia, que formou uma barreira impedindo a saída dele da Marcha.

Minutos antes do momento captado no vídeo, o mesmo homem já havia gritado para uma manifestante: “levanta sua saia, quero ver sua bucetinha”. No momento da chegada da comissão de segurança ao local onde ele estava, o homem xingava uma manifestante, ameaçando bater nela com a muleta. Diante da situação, uma escolha foi feita: a buzina foi acionada e houve a tentativa de retirá-lo da Marcha –  ação padrão da comissão de segurança nesses três anos de Marcha das Vadias, como comprovam as imagens abaixo:

Dois momentos de expulsão de agressores na Marcha das Vadias-DF: a primeira em 2012 e a segunda nesse ano, minutos antes da expulsão do homem em situação de rua. (Fotos: Túlio Fortuna e Nilton Kaz)

Dois momentos de expulsão de agressores na Marcha das Vadias-DF: a primeira em 2012 e a segunda nesse ano, minutos antes da expulsão do homem em situação de rua. (Fotos: Túlio Fortuna e Nilton Kaz)

Esse homem foi expulso exatamente da mesma forma que um fotógrafo branco havia sido expulso poucos momentos antes, por ter oprimido e constrangido algumas manifestantes (na foto acima, à direita). O que motivou o aperto da buzina não foram questões raciais, mas sim o fato de ele ter sido considerado um agressor naquele momento. Temos inclusive outro vídeo, filmado mais de perto e em outro ângulo, com os momentos que antecedem a gravação divulgada. Nele, há cenas em que o homem pega no pênis e ofende as meninas que estão à sua frente, como fica explícito na imagem abaixo:

Print do vídeo da expulsão

O vídeo acima mostra que quando várias mulheres se reuniram buzinando e gritando para que ele saísse, ele virou de frente pra elas, pegou no pênis e ofendeu-as repetidas vezes. Em seguida, virou-se de costas para as mulheres e, ao notar a presença de muitas câmeras à sua frente, levantou a blusa e começou a mostrar a barriga. No momento em que ele fez menção de abaixar a bermuda e expor a genitália, uma senhora negra disse a ele que não fizesse isso e levantou em sua frente um cartaz (que denunciava a polícia racista e o genocídio da juventude negra). Ele bateu no cartaz, virou-se de costas e tentou se retirar dali, mas a barreira de fotógrafxs e cinegrafistas que se formou em frente à cena o impediu. É importante ressaltar que não foram as manifestantes que o impediram de sair, visto que nós pedíamos justamente pra que ele se retirasse: quem impediu a passagem dele foram xs fotógrafxs da imprensa. Ele fez sinal para que xs fotógrafxs abrissem passagem, mas ninguém se moveu. Foi então que uma integrante da comissão de segurança abriu passagem entre xs fotógrafxs e ele conseguiu sair. Optamos por não divulgar esse outro vídeo para não expor ainda mais a identidade desse homem, que já foi exposto a milhares de visualizações pela ação da MdV e pela repercussão do vídeo na internet, mas nos dispomos a apresentar o vídeo aos grupos que tiverem interesse em ter uma visão mais ampla do ocorrido e colaborar conosco nos debates e reflexões sobre o caso.

O que percebemos é que a violência sexista praticada por esse homem não foi problematizada na maioria das críticas às quais tivemos acesso. Foram críticas que pareceram desconsiderar ou minimizar a possibilidade de opressões e agressões sexistas que ocorreram antes do ponto em que o vídeo começou a ser gravado. A invisibilização e a hierarquização de uma opressão em detrimento da outra pode ocorrer quando uma rede complexa de opressões entra em conflito, tornando possível que uma das opressões anule as demais. Por outro lado, esse foi também o grande erro de ação da Marcha das Vadias do DF, no caso específico desse homem em situação de rua. Um erro que tem como origem uma série de outros erros estruturais na própria formação da MdV-DF, como, por exemplo, a dificuldade na desconstrução de privilégios que fazem parte do cotidiano de muitas de nós, o que muitas vezes nos leva a reproduzir as opressões que buscamos combater.

Considerando que aquele homem também é constantemente oprimido – pela sua classe, sua situação de rua, sua saúde debilitada e sua cor – não poderíamos agir de maneira a igualá-lo a um agressor qualquer.  Tivemos alguns cuidados durante a passagem da marcha, como o de proteger as pessoas que dormiam no chão da rodoviária para que não fossem pisoteadas pela multidão ou de avisar antecipadamente todxs comerciantes da rodoviária que ali passaria uma marcha feminista. Acreditamos, portanto, que faltou dialogar também com a população em situação de rua, pois, ao marchar pelos espaços públicos da cidade, estamos também entrando no ambiente em que essas pessoas vivem. Não percebemos que a situação de vulnerabilidade na qual ele se encontrava deveria ter sido motivo suficiente para que ele não fosse jogado na mesma “caixa homogênea” em que colocamos todxs xs outrxs agressorxs. 

Na verdade, em três anos de Marcha, essa “caixa” nunca havia sido devidamente problematizada. Por isso entendemos que todas as críticas, inclusive aquelas com as quais não concordamos inteiramente, têm sido importantíssimas para a nossa caminhada de luta por um mundo livre de opressões. Sabemos que é uma longa caminhada e que passa por processos constantes de (des)construções, auto-reflexão e auto-crítica, além de muito diálogo com outros movimentos. Mas é uma caminhada que precisa ser construída coletivamente, procurando superar as resistências apresentadas por nossas identidades e subjetividades.

Entendemos que a ação de expulsão com buzinas (“o escracho”) foi excessiva em relação a esse homem, na sua situação de vulnerabilidade, e que devemos  repensar a forma de abordagem de possíveis agressorxs em situações similares. Também entendemos que essa reflexão não deve ser apenas sobre como a organização da MdV-DF e as manifestantes agiram, mas deve alcançar também como isso se reflete na nossa sociedade, em especial pela postura da mídia e da PM na situação.

No momento da expulsão do fotógrafo branco, minutos antes, a mídia não fez a mesma cobertura que ocorreu na expulsão seguinte. Quando o homem branco foi expulso, em vez de uma barreira para encurralá-lo, uma repórter da grande mídia tentou entrevistá-lo para ouvir “seu lado da história”, o que a comissão de segurança impediu. Nessa ocasião, a polícia cercou o fotógrafo branco para “protegê-lo” de um eventual ataque da Marcha. Nota-se, mais uma vez, a presença do racismo estrutural que fez com que o branco fosse protegido e acolhido pela polícia e pela mídia, que nada fizeram para proteger o homem negro marginalizado: ele, ao contrário, foi exposto pela mídia e criminalizado pela ação da PM.

Sobre a Marcha das Vadias no DF

Estamos nas ruas há três anos. Inicialmente, éramos apenas um grupo de mulheres na sua maioria branca e classe média que sentiram a necessidade de ir às ruas para denunciar as mais variadas formas de machismo e violência contra a mulher. Já no segundo ano, percebemos a necessidade de dialogar de maneira mais ampla.  Além de termos agregado mais diversidade de mulheres (especialmente lésbicas, mulheres mais velhas, negras e mulheres da periferia), percorremos caminhos de estratégias para que a marcha fosse cada vez mais plural e atenta à existência dessa pluralidade, e foi justamente o que tentamos trabalhar na nossa campanha fotográfica “Feminista por quê?” e no vídeo irônico “Ai, que vadia”. Mas as recentes críticas colaboram para nos mostrar, mais uma vez, as nossas falhas de alcance, assim como o debate com mulheres trans e outras formas de vivenciar a identidade de gênero.

Em 2013, sentimos a urgência de nos posicionarmos diante de alguns temas mais específicos, como o Estatuto do Nascituro e a legalização do aborto, no vídeo “O corpo é meu”. Quisemos reivindicar cada vez mais o fim da cultura do estupro (no vídeo “Não estupre!”) e o nosso direito à cidade, com a campanha fotográfica “A cidade é nossa”, nos somando às manifestações que ocupam as ruas de todo o país.

Nesse esforço de desconstrução de privilégios/opressões e pensar diversidades, tivemos a criação de alguns Grupos de Trabalho para o aprofundamento de discussões sobre raça e lesbiandade, como o GT de mulheres negras e o GT de mulheres lésbicas, porém sem muito sucesso. Tivemos falhas de diálogo e, desde o ocorrido na última marcha, assumimos a postura de extinguir o GT de mulheres negras, para que seja evidenciado que o racismo opera na racialização de todas as mulheres: brancas, negras, indígenas, entre outras. Por isso, entendemos que o debate racial deve ser abraçado por toda a coletiva, com aprofundamento teórico, respeitando as experiências de cada mulher negra que faz parte da coletiva.

Algumas de nós – mulheres negras – nos sentimos profundamente magoadas pelas maneiras antifeministas com que outras companheiras negras nos acusaram, questionando não apenas nosso feminismo como também nossa militância e nossa composição dentro da Marcha. Questionando também nosso livre arbítrio de poder compor um movimento que seja plural, que se expressa com a diversidade de muitas mulheres e que caminha com altruísmo e sororidade com as diversas companheiras que participam de outras coletivas e movimentos sociais. Por outro lado, enquanto mulheres negras, sentimo-nos extremamente felizes com a disposição de outras companheiras negras em colaborar com nossas reflexões, inclusive, expondo seus processos de construção identitária, tanto dentro quanto fora da militância, e ponderando sobre as conjunturas de uma luta anti-racista entre diferentes pertencimentos etnicorraciais.

Aos poucos, estamos nos descobrindo como um coletivo mais permanente, com a necessidade de ações e reflexões para além da organização da marcha em si. Neste ano, por meio de um longo processo de amadurecimento interno, nós conseguimos construir nossa Carta de Princípios, com o intuito de sistematizar algumas discussões já consolidadas. Desde 2011, temos desenvolvido atividades feministas que ultrapassam o dia do ato: oficinas, cineclubes, retomes, debates, encontros, notas, seminários e conversas. De forma muito espontânea, fomos nos sintonizando.

Para muitas de nós, a Marcha das Vadias foi o primeiro contato com a militância social ou com os feminismos. Ainda temos muito a aprender e refletir sobre o combate aos preconceitos para que consigamos construir coletivamente um outro mundo, livre de opressões. Acreditamos que reconhecer nossos erros é o primeiro passo para esse aprendizado. Mas entendemos, também, que o que nos move é o combate a uma violência concreta, que vivenciamos e sofremos cotidianamente, e deslegitimar nossa luta e indignação, ou minimizar a opressão que sofremos, não pode ser o caminho para verdadeiras transformações sociais.

Pretendemos, com essas reflexões, dar um passo adiante na consolidação dessa coletiva de mulheres feministas. Para isso, contamos com apoio e abertura para dialogarmos com todxs aquelxs que foram críticxs à nossa atuação, nesse e em outros episódios. Podemos estar em frentes de batalha diferentes, mas, quando se tratar do combate às opressões e à desconstrução das desigualdades sociais, queremos somar forças sempre que possível.

Marcha das Vadias-DF, 2 de julho de 2013

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FEMINISTAS CONTRA O ASSÉDIO MORAL

Ser feminista também é combater a opressão e a violência no trabalho. É NÃO se utilizar do abuso de poder para constranger, pressionar, humilhar ou assediar quem é subordinad@ a você; é combater, e não perpetuar, práticas de assédio moral. É preciso, antes de tudo, ajustar o discurso à prática. Na Secretaria de Políticas para as Mulheres e em outros espaços de promoção de políticas públicas voltadas à igualdade de gênero e aos direitos das mulheres, é inaceitável que se reproduzam padrões de comportamento usados historicamente pelo patriarcado para oprimir e subjugar. É contra essas práticas, perpetuadas atualmente em uma Secretaria que deve lutar contra todo tipo de opressão, que protestamos em frente à SPM. Não nos calaremos diante de assédio moral!

MEXEU COM UMA, MEXEU COM TODAS!!!

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Desafios e possibilidades de uma ampla luta anti-racista no Coletivo da Marcha das Vadias/DF

TEMA: Desafios e possibilidades de uma ampla luta anti-racista no coletivo da Marcha das Vadias.

Este texto foi produzido por ocasião de debate no IV Painel – Racismos e Feminismos da III Semana Gênero e Direito da Universidade de Brasília (25 a 30 de junho de 2012), cuja comunicação se deu no dia 27 desse mês.

Hoje eu estou aqui como Líbia historiadora, Promotora Legal Popular e também como integrante da Marcha das Vadias. Gostaria de frisar bastante esse aspecto (integrante) porque meu nome está na programação como “representante” do coletivo, o que não é o caso, devido ao fato de o movimento ser horizontal, embora isso não exclua assimetrias de ordem etnicorracial, de classe etc. É preciso rejeitar a ideia de representação porque eu não posso dar conta da expectativa de reportar com mais propriedade/autoridade que qualquer outra companheira as discussões realizadas e as estratégias assumidas. Ainda assim, é preciso explicitar que o meu lugar, assim como o de qualquer outra companheira, é um lugar específico, por isso eu entendo que o convite para minha comunicação hoje deva-se ao compromisso que assumi abertamente durante a minha militância quanto à construção de relações pautadas pela equidade de gênero e também etnicorracial.

Como integrante da Marcha das Vadias, entre outras dimensões da atuação política, eu venho apresentar reflexão inspirada em um dos principais desafios que estão colocados hoje dentro do coletivo, por proposições tanto internas quanto externas, pois o coletivo não é hermético ou auto-centrado, está voltado para uma realidade mais ampla e tem construído formas de intervenção nessa realidade complexa, paradoxal etc. Qual é esse desafio? A viabilidade de o coletivo empreender uma luta anti-racista, sendo que a composição de seus quadros é majoritariamente branca, universitária, “motorizada”.

A reflexão que proponho é sobre os desafios e as possibilidades de uma luta anti-racista ser assumida amplamente por um movimento como a Marcha das Vadias. Com isso, pretendo contribuir para o debate sobre a importância das subjetividades dentro dos feminismos em âmbito teórico e em âmbito deliberativo, assumindo a responsabilidade por ser mais provocativa e crítica que conclusiva. Pergunto: como as experiências pessoais e compartilhadas qualificam a atuação política por direitos? Quais condições e limites as experiências impõem aos feminismos?

Essas questões têm seu fundamento na ênfase que os feminismos foram dando às vivências individuais. Principalmente a partir da década de 1960, os processos de formação de uma consciência feminista foram operando a tradução de experiências individuais como efeitos de uma produção social, ou seja, como efeitos de tecnologias de poder. Assim, compuseram-se os termos da proposição que bem conhecemos como: “o pessoal é político”. Grande parte da capilaridade histórica dos feminismos, com grupos demarcando uma atuação em prol do que elaboravam e queriam ver reconhecido como direitos, deve-se ao apelo totalizante da categoria mulher. O processo ocorreu de maneira tão eficaz que ainda hoje os feminismos têm dificuldade em pontuar as especificidades e fazer interlocução com outras categorias como raça/etnia, classe e orientação sexual, idade etc. Mas nem por isso, o uso da categoria mulher é sem sentido, na medida em que lida com aparatos que criam a eficácia dos significados que a própria categoria comporta, entre elas, a apropriação, o auto-reconhecimento como mulher.

Essa dificuldade foi apontada nas discussões de organização da primeira Marcha das Vadias, em junho de 2011. Entre tantas diferenças percebidas e expostas, o dissenso mais demorado foi de caráter etnicorracial. Colocou-se a questão de que muitas mulheres negras não participariam porque não se sentiam contempladas pelo próprio nome do movimento e nem mesmo pela apropriação de uma série de protestos que tiveram origem no Canadá, uma realidade muito distante em vários sentidos. A recusa dessas mulheres negras foi mal recebida. Como recusavam, se somos todas mulheres vulneráveis a estupros? Como recusavam, se temos tão boas intenções? Será que elas não entenderam a ironia do nome “Marcha das Vadias”? Mas porque elas não vieram pra gente explicar o que a gente quer dizer? Será que elas não curtem o lance do “vamos construir juntas”?

Lembrando que essas perguntas são uma interpretação minha do clima naquele momento, aquela discussão fazia lembrar as cisões nos movimentos feministas de mulheres negras e latino-americanas em geral quando expuseram o caráter elitista do feminismo. Fez lembrar como essas divergências foram interpretadas como “criação de caso”, falta de vontade para a união revolucionária que o feminismo possibilitava. Dessa forma, um dos procedimentos mais bem sucedidos do pensamento tradicional/patriarcal continuava atuando: a homogeneização em termos universalistas. E qual o efeito disso? O potencial transformador do feminismo ficava contido nos termos do opressor. Assim, as lutas das mulheres afro-descendentes, pretas ou não, e indígenas só podiam fazer sentido em espaços autônomos, onde a opressão de feministas brancas não invisibilizasse suas demandas. Destacadamente, os feminismos negros foram críticos às formas como se atuava e como se fazia teoria feminista. Os feminismos negros provocaram uma mudança fundamental para a consciência feminista, no sentido de explicitar as relações entre feminismo e outras ideologias como o racismo, o liberalismo, o socialismo, o individualismo etc. No caso de movimentos feministas, o racismo continua tão velado em nossas representações que ficava difícil para as discussões iniciais da Marcha das Vadias perceberem sua extensão a uma recusa veemente de mulheres negras se auto-intitularem “vadias”. Estava difícil perceber que para mulheres afro-descendentes, pretas ou as vistas como “mulatas”, desconstruir esse termo e fazer uso com todo orgulho daquela ironia era bem mais difícil e que talvez não fosse a melhor estratégia.

Até então, a Marcha das Vadias não era um coletivo. Tornou-se um após a realização da primeira Marcha e a vontade das integrantes de continuar as conversar e planejar ações futuras. Quase um ano depois, quando se decidiu organizar a segunda Marcha, em maio de 2012, as discussões etnicorraciais foram reacendidas a partir de insatisfações de mulheres negras com imagens que divulgavam essa segunda Marcha por acontecer. Foram colocadas questões sobre os significados das imagens de mulheres negras e a forma como foram divulgadas. Qual o significado do corpo seminu de uma mulher negra quando em contraste com o corpo vestido de uma mulher branca? Como a cultura machista/racista/elitista brasileira tem sublinhado as características dos corpos de mulheres negras, pretas e “mulatas”? Quais os corpos vistos como ícones nacionais que, dispostos ao lado da palavra “vadia”, confirmam a história de luxúria, lascívia e do frevo racial no Brasil? Nesse segundo momento, não foi possível deixar de pensar as violências machistas sem considerar o histórico de violências que as mulheres negras vivenciaram e são hoje contadas como um romance de formação da cultura nacional.

Fizemos reuniões para discutir essas questões e nos demos conta de que muitos esforços ainda precisariam ser feitos pós-marcha, quando teríamos um calendário mais largo para nos dedicarmos a essas questões, assim como o machismo, estruturantes de nossa realidade sócio-cultural. Entre as possibilidades aventadas para abordarmos as relações raciais, foi colocada a de formarmos grupos de mulheres negras, brancas e também indígenas, pois tivemos enriquecedores apontamentos de uma companheira indígena que expôs a necessidade de pensarmos sobre essas mulheres também perversamente invisibilizadas.

Junto com essa possibilidade de um amplo debate etnicorracial, vieram diversas perguntas: formamos um grupo apenas ou dividimos em grupos segundo o pertencimento etnicorracial? Será que as nossas identidades étnicas são óbvias a ponto de podermos nos dividir eficazmente? Mulheres brancas são capazes de saírem de suas zonas de conforto para discutirem racismo, uma tecnologia de poder que as privilegia em relação a outras?

Entre os aspectos ainda indefinidos quanto ao sentido de nossa atuação e as estratégias de intervenção, acredito que devemos ter em mente que as mulheres brancas também são racializadas, pois o status de mulheres brancas também é demarcado. Precisamos colocar nossas experiências de sermos mulheres negras, indígenas, brancas, pardas, lésbicas, bissexuais, com filhos, cristãs, ateias, taurinas, escorpianas, aquarianas etc… precisamos colocar essas experiências no cerne de nossas preocupações, interrogando os processos pelos quais somos constituídas como pessoas com todas as nossas especificidades. Isso abre caminhos para a percepção das diferenças e para vias de construção conjunta das transformações, pontuando nossos lugares, mas não absolutizando esses lugares. Não podemos pensar e nem mesmo agir como se nossos lugares fossem óbvios. Além disso, agora falando como feminista historiadora, sem querer ser doutrinária: precisamos reagir à política de esquecimento que o machismo, o mito da democracia racial, a heterossexualidade normativa nos colocam como dados e nos empoderar contra a inércia do dia a dia.

Para finalizar, apoio-me nas palavras da historiadora Sandra Azeredo: “é preciso considerar gênero tanto como categoria de análise quanto como uma das formas que relações de opressão assumem numa sociedade capitalista, racista e colonialista.” De acordo como a leitura que faço, uma das condições para que assumamos uma ampla luta anti-racista é percebermos que se esses são os aspectos constituintes da realidade sócio-cultural que os feminismos visam a transformar, portanto, dizem respeito a todas e todos que visualizamos as assimetrias desse quadro.

 

Líbia Rany Oliveira Nascimento, historiadora e integrante do Coletivo Marcha das Vadias/DF

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Por que reivindicar o direito ao corpo na Marcha das Vadias?

As imagens dizem muito. Corpos expostos, pernas, barrigas e peitos de fora. Dizeres que reivindicam o direito ao próprio corpo. O uso dos nossos corpos para o nosso prazer, o direito à sexualidade, o direito a ser tocada por outr@ apenas com consentimento, o direito de não ter meu corpo violentado, machucado, invadido. O corpo não é um pedaço de carne, nem um pedaço de gente, não é uma parte, mas o todo. Não queremos discursos e imposições sobre nossos corpos.  Estes, portanto, não devem ser moldados, regrados, estereotipados, objetificados. Então, nos despimos para nos apropriarmos dos nossos corpos. Somos contra a nudez mercantilizada, a venda dos corpos. Mas, lutamos pelo direito a nos desnudarmos sem que isso justifique qualquer forma de violência a nossos corpos.

Foto: Rayane Noronha               Foto: Lívia Mota                    Foto: Rayane Noronha                  Foto: Lorena Bruschi

Nas imagens da marcha das vadias, vemos, então, os corpos expostos, e a eles associadas frases de impacto sobre o próprio corpo. Quase como uma metalinguagem. O uso do corpo como um meio de comunicação, é pelo corpo, para o corpo e por meio do corpo que afirmamos nossas reivindicações. Seja com estapados dizeres, seja pela simples exposição de nossos corpos.

“Mas então, qual é a diferença entre uma fotografia da playboy e as fotografias da campanha da marcha? Se vocês são contra as objetificações do corpo da mulher, porque tiraram a roupa?”

Somente ao olhar a imagem é possível perceber a diferença.

Essa imagem foi produzida pela revista playboy, que é uma empresa que lucra com a venda de revistas de mulheres nuas. Sem moralismos, a playboy expõe corpos fictícios (em geral corpos montados no photoshop – peito de uma com barriga de outra) dentro do padrão do que se considera um corpo sexy, erótico, fantasiado pelo público masculino, ou seja, um corpo que está ali servindo ao prazer do homem, mulheres posam nuas em posições sexualizadas, e a imagem está exposta ao deleite dos olhares masculinos.

Já a outra imagem foi produzida pelo Coletivo feminista Marcha das Vadias DF. Foi construída no intuito de romper estereótipos do feminismo e mostrar pelo que estamos lutando. Nada esta sendo vendido, a proposta é passar uma idéia. O “tirar o sutiã” simboliza a liberdade da mulher, o direito a mostrar sim o corpo, mas, desta vez, não para o prazer masculino. Às vezes para o nosso próprio prazer. Às vezes para reivindicar uma situação e um espaço que nos é negado. Às vezes para dizer que não nos enquadramos nos padrões ditados de beleza. Às vezes para dizer que não queremos ter pudor e podemos mostrar nossos peitos. O que está em jogo não é o prazer e o desejo do homem, mas a liberdade da mulher.
Afinal, o sutiã simboliza o que não pode ser mostrado, o que é proibido, o que é fetichizado. O “não mostrar” já evidencia uma cena erotizada. O que está oculto e queremos ver. O que não podemos, mas queremos.
Assim são as capas das playboys. Você compra a revista e ao folhear você vai despindo a mulher. A construção do desejo se dá na capa, quando os olhos querem ver além do que é mostrado, a vontade de saber, de despir, de olhar o que está, até então, proibido.
E o sutiã as vezes serve como elemento de fetiche, para ocultar os seios, mas evidenciar suas curvas. Serve também para moldar, levantar, aumentar, e padronizar os peitos. Deixando-os nos mesmos moldes e formatos impostos pelo sutiã. Tudo bem, podemos querer isso. Pois queremos também nos sentir sensuais. Mas sabemos que essa sensualidade vem acompanhada de padrões impostos.

Ao mesmo tempo em que o sutiã representa uma repressão e imposição de valores a nossos peitos, mostrá-los na marcha das vadias pode significar “despir-se”, “despudorar-se”. Sim, é um elemento de fetiche, mas podemos fetichizar, sensualizar e erotizar nossos próprios corpos, não? E, mais uma vez, vamos a marcha cheias de elementos de fetiches: meia arrastão, cinta-liga, sutiã, rendas, saltos, batom vermelho, mini saia. E os usamos para dizer que podemos ser sensuais, podemos ter prazer, podemos ser vadias, podemos ser tudo que quisermos. E o uso desses elementos não justifica qualquer atitude desrespeitosa a nós e a nossos corpos.

Então o peitaço significa também um rompimento aos padrões. Mostramos
nossos peitos como realmente são. Sem photoshop. Pequenos, caídos, com estrias, grandes, duros, moles, aureolas grandes, pequenas. São nossos peitos, parte de nosso corpo. E somos múltiplas, somos diversas. Nossos corpos também o são. Diversidades de peitos e de vaginas! Sem padrões!


Lembro de varias meninas dizendo “o que meu pai vai pensar?”. Sim, nossos peitos ainda nãos nos pertencem. Afinal, mostrá-los passa pelo crivo de nossos pais, namorados, e toda a sociedade, que nos impõe como devemos nos comportar. Nossos corpos ainda não nos pertencem. Mais reivindicamos o direito de mostrá-los, de andar livremente com ou sem blusa, de exercer nossa autonomia e liberdade para exibir o corpo como quisermos. Aos homens não lhes é negado esse direito. Eles podem andar sem blusa e ninguém vai estuprá-los. Não por isso. Como já citei em outro post, nossa sociedade define quais partes do corpo da mulheres podem ou não ser mostradas, define, inclusive, quais partes serão erotizadas. E o peito está dentro dessa definição. Não podemos mostrá-los nos diz a sociedade! Mas nós não precisamos aceitar essa regra! O simbolismo também é esse. Dizer: eu dito as regras do meu corpo e não a sociedade. E, por isso, o peitaço significa um momento de empoderamento, de força, de união, de solidariedade, um momento feminista, um ato político.

Muitas pessoas questionaram a foto da campanha. E se for um peito dentro dos padrões estéticos? Não podemos reivindicar o direito ao corpo e a nossa liberdade de mostrá-los? Ah sim, então, se temos um corpo dentro dos padrões estéticos, devemos objetificá-los ao prazer dos outros, à comercialização?

Ela não tem o direito a reivindicar o corpo dela? Ela não sofre repressões e opressões? Mesmo as mulheres que correspondem aos padrões estéticos sofrem violências simbólicas e opressões de gênero. Não devemos nos dividir, somos mulheres. E todas sofremos de uma forma ou de outra. Reproduzo um trecho do excelentepost sobre isso: “o fato de estarmos sempre sob olhares que nos comparam com outras mulheres, essas nos fazendo sentir melhores ou piores na medida em que se enquadram mais ou menos nos padrões que nos martirizamos por não atingir, cria um incômodo entre as próprias mulheres. comparamo-nos umas às outras, e nos vemos oprimidas diante de nossas próprias companheiras”.

  
Por fim, algumas imagens reivindicam o direito ao corpo e denunciam as opressões que sofrem diariamente nossos corpos, ou seja, que sofremos. Porque corpo e sujeito são um só. Ambas imagens foram inspiradas nas idéias da Marcha das Vadias. A segunda foi, inclusive, uma manifestação artística de chamado para a marcha. Corpos interditados. Corpos estes que foram reprimidos, limitados, proibidos, restritos, calados, domesticados. Interditados para agir, se expressar, se manifestar, se posicionar, ocupar um espaço que historicamente não lhes foi destinado. Corpos estes que vão agora às ruas. Corpos subversivos, que pedem liberdade.
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Texto escrito por Julia Zamboni para o blog Audácia das Chicas. Disponível em: http://www.audaciadaschicas.com/2012/06/por-que-reivindicar-o-direito-ao-corpo.html
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“eu, minha filha e todas as mulheres do mundo”, relato de Regilane Fernandes

Abaixo, segue mais um relato emocionante que nos enviaram por e-mail, sobre mãe e filha, preconceito, violência, luta e sobre a importância “de ser Mulher e de ser COLETIVA”.

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Prezadas companheiras,

Sou mãe da Bruna, menininha que aparece em destaque nas fotos do facebook da Marcha, no sábado.

Uma foto linda em que aparece tranqüila e bela, com o Espelho de Vênus pintado no rosto.

Símbolo da luta feminina, feminista.

Mais que isso: símbolo da trajetória de algumas das nossas sábias antecessoras.

Símbolo que nos une as nossas ancestrais.

Símbolo de suas vidas-mortes marcadas pela violência moral, psicológica, física, sexual… mas, também marcada por sua força, resistência, pioneirismo, humanidade, cumplicidade com Gaia, a Grande Mãe.

Foi com essa consciência que levei minha filha Bruna à Marcha.

Como momento de conexão dela com suas ancestrais e com suas contemporâneas… todas mulheres… E, em especial naquele dia, mulheres cercadas por homens que não têm medo de expressar sua metade feminina, feminista, não-machista.

Pois bem, uma amiga muito querida me mostrou a pouco a foto da Bruna no face.

Me emocionei com tudo.

A  foto.

O “tema” alusivo a educação como processo libertário.

Os comentários carinhosos.

Infelizmente, no meio deles, uma moça (não vou chamá-la companheira porque esta AINDA não é) colocou como comentário apenas a palavra “ridículo”.

Vejam, não tenho facebook por opção.

Então, escrevo este email pra dizer de alguma forma a esta moça que eu entendo sinceramente sua atitude.

Parece-me que ela é, como infelizmente muitos e muitas ainda são, um ser alienado e alienante, que não conseguiu passar pelos processos que resignificam nossa visão e nossa forma de ser e estar no mundo.

Se tivesse conseguido isso, saberia que ridícula é a fome.

Ridícula é a guerra.

Ridícula é a quantidade de crianças que sofrem violência doméstica sob o consentimento silencioso de uma sociedade que teima em fechar os olhos para as atrocidades cometidas no ambiente familiar (não vou chamar “seio familiar” porque “seio” é alusivo a peito, colo. E peito é sagrado, é lugar de aconchego, amor, cuidado e não de violência).

Ridículo, moça, é ficar em casa parada enquanto mulheres em todo o mundo morrem mutiladas, estupradas, violadas. Violência que, na grande maioria das vezes, lhes causa estrago mais no espírito que no corpo.

Ridícula é essa sociedade de classes que nos torna muitas vezes sectários/as, egoístas, desumanos/as.

Ridículo é não perceber o significado daquela Marcha…

Ridículo é não perceber que o Brasil mudou e está mudando.

E precisamos acompanhar e fazer juntas essa mudança.

E mudou tanto que é hoje governado por uma MULHER.

Mulher que sofreu muito, por ser cidadã consciente de direitos.

Mulher que foi torturada em tempos de ditadura pra que você usufruisse hoje exatamente disso que está fazendo: o direito da livre expressão.

Mulher que também foi, um dia, tachada de ridícula, terrorista, anarquista e, talvez, até vadia.

Ridículo seria eu, como mãe da Bruna, ficar calada diante do seu comentário infeliz, moça.

E não lhe dizer essas coisas como uma oportunidade de lhe trazer pra lucidez de ser Mulher e de ser COLETIVA!

Ridículo seria eu não acreditar que uma hora dessas essa sua cegueira vai passar e você vai conseguir, assim como eu, rir e indignar-se na medida certa que a vida espera de nós.

(Regilane Fernandes)

Foto: Alexandra Martins / Marcha das Vadias DF 2012

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Publicada a Carta Manifesto da Marcha das Vadias/DF 2012!

Após um ano intenso de lutas, reflexões, debates e (re)construções, atualizamos a nossa Carta Manifesto, em um esforço conjunto para contemplar as várias diversidades de mulheres. Esperamos que vocês também se sintam parte disso. A luta é nossa!

Leia e entenda por que marcharemos mais uma vez:

Carta Manifesto da Marcha das Vadias/DF 2012 – Por que marchamos?

“MEXEU COM UMA, MEXEU COM TODAS!”

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“Marcha pra que te quero”, texto de Andréa Cerqueira

 Segue, abaixo, ótimo texto de Andréa Cerqueira, reproduzido do blog: http://www.conversasdeandrea.blogspot.com.br/2012/05/marcha-pra-que-te-quero.html

MARCHA PRA QUE TE QUERO

                       “José, José, prepara teu café,

                               João, João, cozinha teu feijão,

                               Zeca, Ô Zeca, lava tua cueca!”

Toré feminista (Loucas de Pedra Lilás)

Nossa história começa lá atrás. Nos estágios mais remotos da vida humana.

Segundo o psicólogo alemão Erich Neumann, no período primordial, “não existe uma pré-disposição nem uma incapacidade, condicionadas pelo sexo, no que diz respeito a qualquer tipo de ocupação importante para o grupo. Encontramos homens ociosos e mulheres guerreiras, da mesma forma que há mulheres ociosas e homens ativos. Algumas vezes a relação com o poder é prerrogativa dos homens e, em outras circunstâncias, das mulheres.”

Já no auge da época matriarcal, a individualidade era pouco desenvolvida, assim como as relações individuais entre homens e mulheres. A existência coletiva do grupo estava em primeiro plano. Os rituais universais de fecundidade eram orientados para a comunidade como um todo.

Na religião e mitologia do Egito, segundo Neumann, “a reelaboração patriarcal do simbolismo matriarcal anterior já pode ser claramente constatada.” E, na Índia antiga, numa passagem das “lendas do Padmasambhava”, as mulheres serão tratadas como as ‘ogras’ do ser humano, e o seu corpo será o “caldeirão de cobre das bruxas, no qual têm lugar todos os sofrimentos…” Alguns historiadores creditam a origem do poder paterno, que sempre acompanha a autoridade marital, à remota Índia. Nos textos sagrados, a família era um grupo religioso do qual o pai era o chefe.

Com Jesus Cristo a coisa muda de figura, senão na prática, pelo menos teoricamente. Jesus proclama que a autoridade paterna não seria mais exercida no interesse do pai, mas do filho, e que a mãe não seria a esposa-escrava, mas a companheira. Sabemos que esta mensagem foi reinterpretada de diversas maneiras posteriormente por teólogos e apóstolos e deu no que deu!

Santo Agostinho vai afirmar que a mulher é “um animal que não é firme, nem estável, odioso, que alimenta a maldade… ela é fonte de todas as discussões, querelas e injustiças.” Ou seja, é sempre Eva, coitada, a responsável pelos pecados de Adão! E São Paulo, em a Epístola aos Efésios, vai afirmar que o homem deve ser o chefe do casal, pois foi criado primeiro: “…assim como a Igreja está sujeita à Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos.” Santa interpretação!

Como se não bastassem esses defeitos de ‘origem’, a filosofia vai tentar reafirmar, com Aristóteles, a autoridade do marido e do pai. Segundo o filósofo, haveria uma desigualdade ‘natural’ entre os seres humanos. Dotada de frágil capacidade de deliberação, a opinião de uma mulher não era digna de consideração, e sua única virtude moral seria “vencer a dificuldade de obedecer”.

Saltemos alguns séculos, para chegarmos à França de Rousseau, o pai do contrato social.  Para ele, a mulher era uma criatura essencialmente ‘relativa’, um ‘complemento’ do homem. Mas na França também se fizeram ouvir outras vozes. Montesquieu, considerado um dos precursores da antropologia, denunciou diversas vezes as desigualdades entre homens e mulheres. Afirmava que não era natural a submissão das mulheres aos homens, e que este ‘império’ masculino era uma verdadeira tirania. “…se as mulheres são efetivamente inferiores aos homens deste século, a causa não reside na sua natureza, mas na educação que lhes é dada, ou melhor, na educação que lhes é recusada.”

Mas foi a partir do século XIX, que as coisas começaram a ficar mais nítidas, porque os cientistas sociais começaram a desvendar o que antes era tido como ‘natural’. Em A origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, Engels vai afirmar que o primeiro antagonismo de classe que aparece na história coincide com o antagonismo entre o homem e a mulher, na monogamia, e que a primeira divisão do trabalho acontece entre o homem e a mulher para a procriação dos filhos. Diz ele: “a reversão do direito materno foi a grande derrota histórica do sexo feminino. O homem passou a governar também a casa, a mulher foi degradada, escravizada, tornou-se escrava do prazer do homem, e um simples instrumento de reprodução…”

A expansão do capitalismo, segundo a socióloga britânica, Sylvia Walby, foi um fator importante para a criação das circunstâncias materiais que levaram ao movimento das mulheres na esfera pública e ao feminismo.

A feminista norteamericana Heidi Hartmann buscou explicar a parceria entre patriarcado e capitalismo e a incapacidade dos movimentos trabalhistas socialistas, dominados por homens, em priorizar o sexismo. A filósofa e cientista política Iris Young, sua conterrânea, argumentava que as relações patriarcais estavam internamente relacionadas às relações de produção como um todo. E afirmava que a organização autônoma das mulheres permanecia como uma necessidade prática. Já a feminista francesa Christine Delphy descreveu o matrimônio como uma relação de classe em que o trabalho da mulher beneficia o homem, sem que haja uma remuneração compatível.

Segundo o sociólogo Avtar Brah, até recentemente, as perspectivas feministas ocidentais davam pouca ou nenhuma atenção aos processos de racialização do gênero, classe e sexualidade. Segundo o autor, estruturas de classe, racismo, gênero e sexualidade não podem ser tratados como “variáveis independentes”, porque a opressão de cada uma está inscrita dentro da outra – é constituída pela outra e é constitutiva dela.

E falar em feminismo no Brasil e na América Latina sem falar em gênero e raça, não faz sentido. Em todos os períodos de crise, houve a feminização da pobreza. Mulheres e negras foram as mais atingidas pela violência e pelas desigualdades. Segundo a feminista negra brasileira Luiza Bairros, o patriarcado repousa em bases ideológicas semelhantes às que permeiam o racismo: a crença na dominação constituída com base em noções de inferioridade e superioridade.

Se, a violência atinge uma em cada três mulheres na América Latina; quatro em cada dez mulheres brasileiras já foram vítimas de violência doméstica; uma mulher é agredida a cada cinco minutos no Brasil; e 70% das vítimas de violência sexual doméstica no DF têm até 14 anos, eu pergunto: COMO NÃO MARCHAR?

Segundo a infopedia, a marcha descende da tradição medieval inglesa que levava um servo a acompanhar a pé o seu amo que viajava em carruagens puxadas por cavalos.

Contra tradições e preconceitos que queremos superar, marchamos sem oprimir ninguém, lado a lado.

Contra o MACHISMO, O RACISMO, A HOMOFOBIA E TODAS AS FORMAS DE OPRESSÃO E DESIGUALDADE.

VIVA A MARCHA DAS VADIAS!

Andréa Cerqueira, mãe da Bruna, do Coletivo da Marcha, mestranda em Sociologia pela Universidade de Brasília e Multiplicadora da Técnica do Teatro do Oprimido.

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Feminista por quê? – Campanha da Marcha das Vadias/DF

Como forma de divulgação da próxima Marcha e desmistificação do Feminismo, que é visto com bastante preconceito por grande parte da sociedade, a Marcha das Vadias/DF decidiu fazer uma campanha fotográfica. A ideia é, basicamente, uma tentativa simples e direta de mostrar o que é o feminismo pra gente, várias mulheres diversas e alguns homens apoiadores, mas sempre tendo em vista que os feminismos são vários e nunca contemplaremos a todos. Nessa proposta, fotografamos 44 pessoas e estamos publicando as fotos diariamente, até o dia da Marcha, na nossa página do Facebook: http://www.facebook.com/marchadasvadiasdf e também no nosso Tumblr: http://marchadasvadiasdf.tumblr.com/

O site do Festival Latino-americano e Africano de Arte e Cultura (FLAAC 2012) publicou uma entrevista bem legal com a gente sobre o propósito da campanha: http://www.flaac2012.com.br/feminista-por-que/#.T6NXpbOZ28A

A campanha está sendo bastante elogiada e estamos muito felizes de ver o debate sobre o(s) feminismo(s) e a não-violência contra as mulheres sendo compartilhado por todos os cantos! Era justamente esse o objetivo: compartilhar, debater, refletir e transformar os feminismos em nós e no mundo!

Seguimos na luta, até que todas sejamos livres!

Marcha das Vadias/DF - 26 de maio de 2012, 13h, concentração em frente ao CONIC (próximo à Rodoviária do Plano Piloto).

 

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Mais um belo vídeo da Marcha das Vadias de Brasília

Segue abaixo mais um ótimo registro da Marcha que reúne algumas das quase 2.000 vozes que se reuniram no dia 18 de junho de 2011, em Brasília/DF, pra gritar contra o machismo:

“A nossa luta é por respeito, mulher não é só bunda e peito!”

(vídeo por Gustavo Amora)

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Vídeo lindo da Marcha das Vadias de Brasília

A nossa Marcha foi absolutamente grandiosa, e os sentimentos de solidariedade, missão cumprida e empoderamento que experimentamos nela foram compartilhados em vários de nossos encontros e conversas pós-Marcha. Pra quem não pode participar desse acontecimento histórico, e pra quem esteve lá e não queria que acabasse, fica aqui um registro, feito pelo Coletivo Muruá, que conseguiu capturar lindamente um pouco da atmosfera que acompanhou nossos passos em marcha:

Brasília, 18 de junho de 2011

Acompanhando os levantes mundiais pela igualdade de gênero e pelo fim da violência contra a mulher, é realizada a Marcha das Vadias:

 

“Se cuida, se cuida, se cuida, seu machista! América Latina vai ser toda feminista!”

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