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Nota de repúdio às/aos organizadorxs da Marcha do Vinagre

Nós, da Marcha das Vadias DF, manifestamos através desta nota o nosso descontentamento com as atitudes daquelxs que se consideram organizadorxs da chamada Marcha do Vinagre de Brasília. Recebemos uma notificação de que na reunião da Marcha dos Vinagre de ontem (19 de junho), onde aproximadamente 15 pessoas estiveram presentes, foi unânime a decisão de não fazer nenhum ato no sábado, dia 22 de junho, data em que a Marcha das Vadias sairá às ruas. Entre os motivos colocados estava o fato de que as duas marchas têm pautas muito específicas e, ao juntar as duas, poderia ocorrer a invizibilização de algumas dessas pautas. Outro motivo: muita gente da Marcha do Vinagre não se sente contemplada pela Marcha das Vadias e vice-e-versa.

A nossa surpresa foi que xs 5 organizadorxs da Marcha do Vinagre, que detêm a administração da página do evento no Facebook, passaram por cima da decisão tirada em reunião e de maneira vertical, hierárquica e unilateral, optaram por manter a manifestação no dia 22, alterando apenas o horário de início. O problema é que a concentração da Marcha do Vinagre está marcada para o mesmo local e o mesmo horário de chegada da Marcha das Vadias, o Museu da República, onde faremos alguns atos e performances antes de encerrar nosso protesto. Interpretamos essa decisão como um desrespeito à nossa luta que entra agora em seu terceiro ano de existência. Sabemos que na maior parte das manifestações políticas, principalmente nas que estão ocorrendo agora pelo Brasil, as pautas feministas são constantemente invisibilizadas e secundarizadas, e essa atitude dxs organizadorxs da Marcha do Vinagre deixa esse silenciamento evidente. A pauta de combate à corrupção parece se sobrepor, nos discursos gerais, às pautas pelas quais grupos historicamente orpimidos há anos têm se colocado nas ruas. O discurso padrão é de que esta – a luta contra a corrupção – é a grande prioridade do povo brasileiro no momento. É fácil falar que a prioridade é outra quando não é você que vai ser acusado pelo Estado caso sofra um aborto espontâneo. Ou que vai se enfiar numa clínica clandestina por não ter condições de ter um filhx naquele momento. Ou quando não é você que anda nas ruas com medo de ser estupradx. É óbvio que nossas pautas são secundárias para muitos desses movimentos, POR QUE AS PAUTAS DE GRUPOS HISTORICAMENTE ORPIMIDOS SÃO SEMPRE SECUNDARIZADAS!!!!

Buscamos travar um diálogo com essxs organizadorxs para tentar resolver este impasse. Em um primeiro momento recebemos a resposta de que seria impossível alterar local e data por que “toda a mídia já havia sido avisada sobre a manifestação”. Que tipo de movimento social é esse que pauta seus atos pela mídia, ao invés de pautar a mídia através de seus atos?! Marcamos uma reunião hoje (20 de junho), às 15h, para tentar resolver a questão. Ninguém da “organização” da Marcha do Vinagre apareceu para dialogar. Diante de tamanho descaso, resolvemos expor nossa indignação e alertar as pessoas que inocentemente participam dessa manifestação, para que fiquem atentas para a maneira com que essxs “organizadorxs” têm guiado os protestos, quais são suas intenções e sobre o tamanho do personalismo de suas ações. Se o movimento é horizontal como dizem, por que não criar comissões e fazer debates sobre como e quando as manifestações devem ocorrer, sobre as pautas, buscando tornar o movimento cada vez mais horizontal e politizado?

Nós somos vadias, somos mulheres feministas, que lutamos em marcha contra as discriminações de raça, sexualidade, gênero, credo e classe. Acreditamos que o fim da violência contra as mulheres está diretamente ligado à transformação dos valores conservadores e hegemônicos em nossa sociedade, assim como à superação do patriarcado, de todos os fundamentalismos, da lesbofobia, da bifobia, da transfobia, da homofobia, do machismo, do racismo e do capital. Consideramos que as manifestações e lutas feministas são urgentes, especialmente em um país que acaba de dar um passo significativo rumo à aprovação da cura gay e do Estatuto do Nascituro. Não podemos deixar que pautas genéricas como “o fim da corrupção” e “mais saúde e educação” façam sumir as nossas vozes e invisibilizar a nossa luta. Lutamos por um mundo onde todas as mulheres tenham direito a viver uma vida sem violências, a serem livres para seguirem os caminhos que desejarem e onde tenham pleno direito sobre o seus corpos. Lutamos por um mundo sem estupros, onde o aborto seja legal e as oportunidades sejam as mesmas para as mulheres e homens, negrxs, indígenas e brancxs. E ESSA TRANSFORMAÇÃO É SIM URGENTE!

Por isso chamamos todxs aquelxs que acreditam nessa luta que venham marchar conosco no dias 22 de junho, às 14h, com concentração na praça das fontes, em frente ao Conjunto Nacional. Às/Aos participantes da Marcha do Vinagre, pedimos que respeitem a data da nossa manifestação, que vem sendo organizada há três meses e que foi cuidadosamente pensada para não interferir na agenda de lutas do DF (por isso não fizemos a Marcha no dia da luta antimanicomial, por exemplo). Entendemos que nenhuma marcha, nenhum movimento consegue contemplar todos os grupos, todas as pautas ou todas as lutas. Existem diferenças políticas fundamentais entre as duas marchas aqui em questão, por isso enfatizamos a importância de não colidirmos as datas das manifestações.

Marcha das Vadias DF

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LUTA SILENCIADA, CONQUISTA HISTÓRICA

Post maravilhoso da blogueira Juliana Cezar Nunes, do coletivo Pretas Candangas.

Compartilhado de: http://blogueirasnegras.wordpress.com/2013/04/09/luta-silenciada-trabalho-domestico/

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Desde que me tornei mãe, em janeiro, passo horas contemplando meu filho e pensando como ele irá interpretar os acontecimentos de 2013 daqui a 20, 30, 40 anos… Tenho especial curiosidade em saber como Bento contará para os filhos e netos que apenas no ano do seu nascimento as trabalhadoras domésticas tiveram seus direitos reconhecidos no Brasil. Passaram a ter jornada de trabalho, piso salarial, direito a férias remuneradas, INSS, hora extra, adicional noturno… Ao todo, dezessete direitos trabalhistas negados mesmo 125 anos depois da abolição da escravatura e 25 anos após a última Constituição dita cidadã.

O silêncio centenário da sociedade brasileira diante da exploração vivenciada por milhares de mulheres, em sua maioria negras, revela que a espinha dorsal escravocrata teima em ceder. A forma como as classes mais “abastadas” resistem a essa mudança me causa especial repúdio.

Sou filha, neta, bisneta e tataraneta de mulheres que foram empregadas, cuidadoras, cozinheiras, doceiras e enfermeiras comunitárias. Minha tataravó, Antônia Benta, veio traficada da África e trabalhou como escrava, em Minas Gerais. Morreu com mais de 100 anos livre, mas sem saber o que é direito trabalhista.

Minhas avós cuidaram de idosos e cozinharam para outras famílias em busca do sustento de suas próprias casas. Minha mãe, com apenas 12 anos, foi trabalhar em “casa de família” e passou por diversos tipos de humilhação. Tinha o acesso proibido à geladeira e, para matar a fome, se alimentava por meio de furinhos em latas e potes.

A realidade que elas vivenciaram é bem comum às trabalhadoras que são chamadas de integrantes da família, mas não têm hora pra acordar, dormir ou mesmo se aposentar depois de anos e anos de trabalho. Mulheres que muitas vezes começaram a limpar casas e a cuidar de bebês ainda na infância, frequentemente expostas a abusos morais e sexuais. Tudo isso com a cumplicidade do Estado brasileiro, que permaneceu por muitos anos com os olhos confortavelmente vendados para uma negação de direitos que deveria nos levar às cortes internacionais por violação de direitos humanos.

É lamentável constatar que, se meu filho quiser entender como a sociedade reagiu à conquista histórica das mulheres em 2013, certamente vai se deparar com décadas de omissão da chamada intelectualidade brasileira. Formadores de opinião que se mobilizam contra a violência urbana e sobrecarga de impostos, mas mantêm empregadas vivendo em minúsculos quartos e submetidas a inúmeras formas de violência simbólica e física.

Às vésperas da aprovação no Congresso Nacional da proposta de emenda à Constituição que reconhece as domésticas como trabalhadoras, a maior parte dos jornais e revistas seguia dando mais espaço para o temor das patroas de ter um acréscimo de absurdos 10% no salário pagos para suas empregadas.

Em várias publicações, “especialistas” chegaram a classificar as “casas de família” como um ambiente de relaxamento para os patrões e, portanto, impossível de ser caracterizado como um local onde se estabelecem relações de trabalho. Patroas se perguntavam como controlar o horário de trabalho de suas empregadas uma vez que não permaneciam em casa e, aparentemente, acham que o serviço doméstico precisa ser realizado 24 horas por dia.

A verdade é que jornalistas e seus patrões nunca priorizaram em suas coberturas a luta das trabalhadoras domésticas pelos seus direitos. Profissionais e mídias sequer reconheciam que essas mulheres tinham direitos. Após a mudança constitucional, alguns jornais chegaram a mudar de linha de cobertura e a exaltar a conquista das trabalhadoras. No entanto, uma semana antes da PEC ser aprovada, ainda li uma reportagem que começava com a seguinte pergunta: “Demissão em massa ou conquista histórica?”

Custo a acreditar que ainda seja necessária uma resposta. Mas, se a pergunta insiste em ser feita, vale repetir: conquista histórica de gerações de mulheres que agora devem ter mais do que direitos respeitados e pagos. Precisam ser tratadas com dignidade, respeito e, acima de tudo, admiração por terem sobrevivido a tantas violências antes desse complemento tardio à abolição da escravatura no Brasil.


Juliana Cézar Nunes é jornalista e feminista negra. Faz parte do coletivo Pretas Candangas e da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-DF). Mestranda em Comunicação na UnB, integra a diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do DF (SJPDF) e trabalha na Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

Esse texto foi publicado originalmente no blog do coletivo Pretas Candangas.

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