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NOTA PÚBLICA SOBRE EXPULSÕES NA MARCHA DAS VADIAS-DF 2013

Antes de mais nada, gostaríamos de explicitar as razões pelas quais não publicamos esta nota anteriormente. A Marcha das Vadias – DF (MdV-DF) é composta por um grupo muito grande e diverso de mulheres que se organiza de forma horizontal para a construção da marcha. Entendemos que as expulsões realizadas, sempre polêmicas pela sua complexidade, demandavam uma discussão aprofundada e de qualidade. Assim, garantiríamos que a nota fosse o resultado de uma construção coletiva, consciente e responsável, e não de um posicionamento leviano ou hierárquico, partindo de poucas.

Esse debate foi energicamente realizado desde o dia de realização da Marcha (22/06) e se estendeu durante toda a semana seguinte. Tivemos também o auxílio de profissionais que trabalham com populações em situação de rua, que muito nos ajudaram nesse processo de reflexão e a quem agradecemos profundamente pelos diálogos e críticas extremamente válidas, que apenas começaram.

Para entender o ocorrido na Marcha das Vadias DF de 2013, é preciso compreender um pouco da nossa organização, que é dividida nas seguintes comissões: debates, comunicação, agitação/mobilização, trajeto e segurança.

Sobre a comissão de segurança da Marcha das Vadias do DF

O objetivo principal da comissão de segurança é garantir que a Marcha seja um espaço de conforto para as mulheres que dela participam e, também, de solidariedade feminista (tendo em vista que, desde a primeira marcha, recebemos ameaças recorrentes de agressões e “estupros-surpresa”). Para isso, utilizamos desde a primeira marcha (em 2011) o “escracho” como instrumento de ação, o qual consiste na publicização e expulsão de agressores por meio de gritos e buzinadas.

Frisamos que essa estratégia é compatível com os sentimentos que motivaram e possibilitam, ainda hoje, a própria existência da Marcha enquanto movimento (uma participação política múltipla em significados). Entre incontáveis outros fatores, os sentimentos de empoderamento, solidariedade e autorrealização (denominado por quem nos oprime como vadiagem, putaria ou sem-vergonhice) é parte fundamental da energia da MdV-DF. Nossa comissão de segurança preserva tal energia.

Quantas vezes os depoimentos de mulheres vítimas de violência são colocados em dúvida? Quantas vezes as escolhas não compatíveis com a cultura do assujeitamento feminino são utilizadas para nos culpabilizar pelas diversas violências que sofremos? Quantas vezes a cultura sexista e racista soma-se às discriminações de classe, região, idade, religião e outras na expressão de violências às mulheres?

Essas perguntas foram levantadas, escritas e gritadas em cartazes, corpos e vozes durante a Marcha das Vadias-DF de 2013. No entanto, a mesma problematização não foi feita em relação aos possíveis agressores. De fato, na hora da marcha, quando uma integrante da comissão de segurança ouve a buzina, segue imediatamente para o local da agressão no sentido de apoiar a ação das demais companheiras. Não questionamos a ação das outras integrantes na hora por entendermos que, se a buzina foi apertada, uma violência sexista ocorreu. Seguimos a compreensão de que “mexeu com uma, mexeu com todas”.

No caso de mulheres agressoras, decidimos conjuntamente a metodologia de dialogar com elas para que se retirem da marcha, já que, naquele ambiente dividido por vítima e agressora, a primeira se encontraria muitas vezes incomodada e com receio de continuar marchando. Essa decisão foi tomada depois de muitas discussões e de nos depararmos com agressoras na 1ª MdV-DF (2011). Naquela fase, salientamos um recorte de gênero fundamental, mas ainda não tínhamos pensado sobre outras ramificações, como homens que estivessem em situações mais vulneráveis e fossem agressores.

Durante a marcha, orientamos xs participantes a denunciarem caso houvesse algum tipo de violência sexista. Abaixo, o panfleto distribuído ao início da Marcha 2013:

Panfleto Orientações Marcha

Sobre a expulsão de homens negros em situação de rua

Diante da exposição de um vídeo sobre a expulsão da Marcha de um homem negro, em situação de rua e aparentemente sob efeito de álcool e/ou outras drogas, foram feitas inúmeras críticas, acolhidas seriamente por nós. É importante explicar que a situação ocorrida não foi completamente apresentada no vídeo e alguns relatos. O vídeo mostra apenas um fragmento e um ângulo do que aconteceu e propõe uma interpretação limitada da cena.

Algumas críticas como “o homem só estava levantando a camisa” ou “elas não deixavam ele sair dali” nos soaram simplistas diante, inclusive, do próprio vídeo, que mostra o homem em questão levantando a blusa e, também, tentando abaixar a bermuda, sendo agressivo. Mostra, igualmente, o círculo feito pela mídia, que formou uma barreira impedindo a saída dele da Marcha.

Minutos antes do momento captado no vídeo, o mesmo homem já havia gritado para uma manifestante: “levanta sua saia, quero ver sua bucetinha”. No momento da chegada da comissão de segurança ao local onde ele estava, o homem xingava uma manifestante, ameaçando bater nela com a muleta. Diante da situação, uma escolha foi feita: a buzina foi acionada e houve a tentativa de retirá-lo da Marcha –  ação padrão da comissão de segurança nesses três anos de Marcha das Vadias, como comprovam as imagens abaixo:

Dois momentos de expulsão de agressores na Marcha das Vadias-DF: a primeira em 2012 e a segunda nesse ano, minutos antes da expulsão do homem em situação de rua. (Fotos: Túlio Fortuna e Nilton Kaz)

Dois momentos de expulsão de agressores na Marcha das Vadias-DF: a primeira em 2012 e a segunda nesse ano, minutos antes da expulsão do homem em situação de rua. (Fotos: Túlio Fortuna e Nilton Kaz)

Esse homem foi expulso exatamente da mesma forma que um fotógrafo branco havia sido expulso poucos momentos antes, por ter oprimido e constrangido algumas manifestantes (na foto acima, à direita). O que motivou o aperto da buzina não foram questões raciais, mas sim o fato de ele ter sido considerado um agressor naquele momento. Temos inclusive outro vídeo, filmado mais de perto e em outro ângulo, com os momentos que antecedem a gravação divulgada. Nele, há cenas em que o homem pega no pênis e ofende as meninas que estão à sua frente, como fica explícito na imagem abaixo:

Print do vídeo da expulsão

O vídeo acima mostra que quando várias mulheres se reuniram buzinando e gritando para que ele saísse, ele virou de frente pra elas, pegou no pênis e ofendeu-as repetidas vezes. Em seguida, virou-se de costas para as mulheres e, ao notar a presença de muitas câmeras à sua frente, levantou a blusa e começou a mostrar a barriga. No momento em que ele fez menção de abaixar a bermuda e expor a genitália, uma senhora negra disse a ele que não fizesse isso e levantou em sua frente um cartaz (que denunciava a polícia racista e o genocídio da juventude negra). Ele bateu no cartaz, virou-se de costas e tentou se retirar dali, mas a barreira de fotógrafxs e cinegrafistas que se formou em frente à cena o impediu. É importante ressaltar que não foram as manifestantes que o impediram de sair, visto que nós pedíamos justamente pra que ele se retirasse: quem impediu a passagem dele foram xs fotógrafxs da imprensa. Ele fez sinal para que xs fotógrafxs abrissem passagem, mas ninguém se moveu. Foi então que uma integrante da comissão de segurança abriu passagem entre xs fotógrafxs e ele conseguiu sair. Optamos por não divulgar esse outro vídeo para não expor ainda mais a identidade desse homem, que já foi exposto a milhares de visualizações pela ação da MdV e pela repercussão do vídeo na internet, mas nos dispomos a apresentar o vídeo aos grupos que tiverem interesse em ter uma visão mais ampla do ocorrido e colaborar conosco nos debates e reflexões sobre o caso.

O que percebemos é que a violência sexista praticada por esse homem não foi problematizada na maioria das críticas às quais tivemos acesso. Foram críticas que pareceram desconsiderar ou minimizar a possibilidade de opressões e agressões sexistas que ocorreram antes do ponto em que o vídeo começou a ser gravado. A invisibilização e a hierarquização de uma opressão em detrimento da outra pode ocorrer quando uma rede complexa de opressões entra em conflito, tornando possível que uma das opressões anule as demais. Por outro lado, esse foi também o grande erro de ação da Marcha das Vadias do DF, no caso específico desse homem em situação de rua. Um erro que tem como origem uma série de outros erros estruturais na própria formação da MdV-DF, como, por exemplo, a dificuldade na desconstrução de privilégios que fazem parte do cotidiano de muitas de nós, o que muitas vezes nos leva a reproduzir as opressões que buscamos combater.

Considerando que aquele homem também é constantemente oprimido – pela sua classe, sua situação de rua, sua saúde debilitada e sua cor – não poderíamos agir de maneira a igualá-lo a um agressor qualquer.  Tivemos alguns cuidados durante a passagem da marcha, como o de proteger as pessoas que dormiam no chão da rodoviária para que não fossem pisoteadas pela multidão ou de avisar antecipadamente todxs comerciantes da rodoviária que ali passaria uma marcha feminista. Acreditamos, portanto, que faltou dialogar também com a população em situação de rua, pois, ao marchar pelos espaços públicos da cidade, estamos também entrando no ambiente em que essas pessoas vivem. Não percebemos que a situação de vulnerabilidade na qual ele se encontrava deveria ter sido motivo suficiente para que ele não fosse jogado na mesma “caixa homogênea” em que colocamos todxs xs outrxs agressorxs. 

Na verdade, em três anos de Marcha, essa “caixa” nunca havia sido devidamente problematizada. Por isso entendemos que todas as críticas, inclusive aquelas com as quais não concordamos inteiramente, têm sido importantíssimas para a nossa caminhada de luta por um mundo livre de opressões. Sabemos que é uma longa caminhada e que passa por processos constantes de (des)construções, auto-reflexão e auto-crítica, além de muito diálogo com outros movimentos. Mas é uma caminhada que precisa ser construída coletivamente, procurando superar as resistências apresentadas por nossas identidades e subjetividades.

Entendemos que a ação de expulsão com buzinas (“o escracho”) foi excessiva em relação a esse homem, na sua situação de vulnerabilidade, e que devemos  repensar a forma de abordagem de possíveis agressorxs em situações similares. Também entendemos que essa reflexão não deve ser apenas sobre como a organização da MdV-DF e as manifestantes agiram, mas deve alcançar também como isso se reflete na nossa sociedade, em especial pela postura da mídia e da PM na situação.

No momento da expulsão do fotógrafo branco, minutos antes, a mídia não fez a mesma cobertura que ocorreu na expulsão seguinte. Quando o homem branco foi expulso, em vez de uma barreira para encurralá-lo, uma repórter da grande mídia tentou entrevistá-lo para ouvir “seu lado da história”, o que a comissão de segurança impediu. Nessa ocasião, a polícia cercou o fotógrafo branco para “protegê-lo” de um eventual ataque da Marcha. Nota-se, mais uma vez, a presença do racismo estrutural que fez com que o branco fosse protegido e acolhido pela polícia e pela mídia, que nada fizeram para proteger o homem negro marginalizado: ele, ao contrário, foi exposto pela mídia e criminalizado pela ação da PM.

Sobre a Marcha das Vadias no DF

Estamos nas ruas há três anos. Inicialmente, éramos apenas um grupo de mulheres na sua maioria branca e classe média que sentiram a necessidade de ir às ruas para denunciar as mais variadas formas de machismo e violência contra a mulher. Já no segundo ano, percebemos a necessidade de dialogar de maneira mais ampla.  Além de termos agregado mais diversidade de mulheres (especialmente lésbicas, mulheres mais velhas, negras e mulheres da periferia), percorremos caminhos de estratégias para que a marcha fosse cada vez mais plural e atenta à existência dessa pluralidade, e foi justamente o que tentamos trabalhar na nossa campanha fotográfica “Feminista por quê?” e no vídeo irônico “Ai, que vadia”. Mas as recentes críticas colaboram para nos mostrar, mais uma vez, as nossas falhas de alcance, assim como o debate com mulheres trans e outras formas de vivenciar a identidade de gênero.

Em 2013, sentimos a urgência de nos posicionarmos diante de alguns temas mais específicos, como o Estatuto do Nascituro e a legalização do aborto, no vídeo “O corpo é meu”. Quisemos reivindicar cada vez mais o fim da cultura do estupro (no vídeo “Não estupre!”) e o nosso direito à cidade, com a campanha fotográfica “A cidade é nossa”, nos somando às manifestações que ocupam as ruas de todo o país.

Nesse esforço de desconstrução de privilégios/opressões e pensar diversidades, tivemos a criação de alguns Grupos de Trabalho para o aprofundamento de discussões sobre raça e lesbiandade, como o GT de mulheres negras e o GT de mulheres lésbicas, porém sem muito sucesso. Tivemos falhas de diálogo e, desde o ocorrido na última marcha, assumimos a postura de extinguir o GT de mulheres negras, para que seja evidenciado que o racismo opera na racialização de todas as mulheres: brancas, negras, indígenas, entre outras. Por isso, entendemos que o debate racial deve ser abraçado por toda a coletiva, com aprofundamento teórico, respeitando as experiências de cada mulher negra que faz parte da coletiva.

Algumas de nós – mulheres negras – nos sentimos profundamente magoadas pelas maneiras antifeministas com que outras companheiras negras nos acusaram, questionando não apenas nosso feminismo como também nossa militância e nossa composição dentro da Marcha. Questionando também nosso livre arbítrio de poder compor um movimento que seja plural, que se expressa com a diversidade de muitas mulheres e que caminha com altruísmo e sororidade com as diversas companheiras que participam de outras coletivas e movimentos sociais. Por outro lado, enquanto mulheres negras, sentimo-nos extremamente felizes com a disposição de outras companheiras negras em colaborar com nossas reflexões, inclusive, expondo seus processos de construção identitária, tanto dentro quanto fora da militância, e ponderando sobre as conjunturas de uma luta anti-racista entre diferentes pertencimentos etnicorraciais.

Aos poucos, estamos nos descobrindo como um coletivo mais permanente, com a necessidade de ações e reflexões para além da organização da marcha em si. Neste ano, por meio de um longo processo de amadurecimento interno, nós conseguimos construir nossa Carta de Princípios, com o intuito de sistematizar algumas discussões já consolidadas. Desde 2011, temos desenvolvido atividades feministas que ultrapassam o dia do ato: oficinas, cineclubes, retomes, debates, encontros, notas, seminários e conversas. De forma muito espontânea, fomos nos sintonizando.

Para muitas de nós, a Marcha das Vadias foi o primeiro contato com a militância social ou com os feminismos. Ainda temos muito a aprender e refletir sobre o combate aos preconceitos para que consigamos construir coletivamente um outro mundo, livre de opressões. Acreditamos que reconhecer nossos erros é o primeiro passo para esse aprendizado. Mas entendemos, também, que o que nos move é o combate a uma violência concreta, que vivenciamos e sofremos cotidianamente, e deslegitimar nossa luta e indignação, ou minimizar a opressão que sofremos, não pode ser o caminho para verdadeiras transformações sociais.

Pretendemos, com essas reflexões, dar um passo adiante na consolidação dessa coletiva de mulheres feministas. Para isso, contamos com apoio e abertura para dialogarmos com todxs aquelxs que foram críticxs à nossa atuação, nesse e em outros episódios. Podemos estar em frentes de batalha diferentes, mas, quando se tratar do combate às opressões e à desconstrução das desigualdades sociais, queremos somar forças sempre que possível.

Marcha das Vadias-DF, 2 de julho de 2013

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Transgressor é não ser machista – Gerald Thomas e a cultura do estupro

Por Bruna Seixas*

Recentemente, durante o lançamento de um livro seu em uma livraria do Rio de Janeiro, o diretor de teatro Gerald Thomas enfiou a mão entre as pernas de Nicole Bahls, do programa Pânico, e tocou-a insistentemente, enquanto ela tentava tirar a mão dele. A situação foi uma sucessão de absurdos.

Quando um dos entrevistadores perguntou se ele poderia passar um exercício pra ela se soltar, já que era sua primeira entrevista, o diretor a virou de costas, empurrou seu quadril contra o dela e simulou um ato sexual.

Ele fez graça do sotaque de Nicole e a tocou novamente, bagunçando seu cabelo e dizendo: “Ela tá muito confusa, né, coitada? Como ela é confusa!” Por fim, quando perguntaram qual conselho ele daria, de verdade, na primeira matéria dela, ele disse: “Chupe bem um pau”. Após as inúmeras humilhações, tudo, no fim das contas, foi resumido pelo programa a um “teatro de provocação”. Escondido sob o manto do “artista”, Gerald pode tudo.

A divulgação das fotos e do vídeo da matéria promoveram a espetacularização da violência cometida contra Nicole. No mesmo dia do fato, ela disse em seu twitter que ficou muito triste com o que aconteceu. Mas ninguém a ouviu.

Como sempre, muitas pessoas culpam a mulher, e não quem a violentou: “Se ela tivesse se dado ao respeito, isso não teria acontecido”, “Quem manda se vestir assim?”, “Ela se comporta como uma qualquer e ainda quer respeito?”, “Ela simplesmente teve o que gosta de provocar nos homens”, “Essa puta mereceu”.

Esse discurso é bastante difundido e muito comum inclusive em casos de estupro, numa sociedade em que a conduta da mulher está sempre sob julgamento e é frequentemente questionada e atacada pra justificar o ato do agressor. Toda mulher é ensinada, desde criança, a se comportar de forma a evitar um estupro: “Não use roupas curtas”, “não aceite bebidas de estranhos”, “não ande sozinha à noite”. Mas o mais grave é que, enquanto temos nosso comportamento tolhido e censurado frequentemente, nossa sociedade não ensina aos homens que eles não podem estuprar. Toda a responsabilidade é direcionada às vítimas, e as mulheres vivem num clima de insegurança constante. Isso é uma cultura de terror.

Gerald Thomas tentou justificar o abuso que cometeu dizendo o seguinte:

ESTUPRA? Como assim? So levantei a saia de alguem que estava usando trajes ousadamente ‘putos’, sentando no meu colo e …nada mais. Mas ISSO TAMBEM é teatro.

ORA BAHLS!!!

Não, Gerald Thomas, teatro seria se ela tivesse sido previamente informada da sua intenção de meter a mão na buceta dela e tivesse concordado com isso. Mas não foi, você agiu contra a vontade dela. Portanto, foi uma violência.

Ao contrário do que disse dela, ele não se considera “ousadamente puto” ao expor sua nudez quando lhe dá na telha, como numa entrevista que concedeu nu à revista TPM, ou quando mostrou seu pau à imprensa no mesmo dia em que violentou Nicole. Por que a nudez só é “ousadamente puta” quando é da mulher?

Ele ainda completou:

Vem uma menina, de (praticamente) bunda de fora, salto alto de “fuck me”, seios a mostra, dentro de um contexto chamado PANICO e eu (que não deixo me intimidar e gosto desse pessoal) entro no jogo e viro as cartas – e os intimido ! (que nada! Brincadeira também!) 

Segundo sua lógica perversa, já que o humor do programa é agressivo e invasivo, ele pode revidar enfiando a mão dentro do vestido da menina que trabalha lá e está cumprindo ordens. De acordo com essa lógica, ele também deveria ter sido violentado em todas as vezes que apareceu nu em público. Mas é mais cômodo descontar no corpo de uma mulher.

A questão é que, mesmo que ela estivesse nua, isso não quer dizer de forma alguma que estivesse pedindo pra ser tocada, e NINGUÉM, em nenhuma hipótese, tem o direito de tocar uma mulher sem o seu consentimento. Isso não é brincadeira, isso é violência. Dizer que a mulher “provocou” o estupro pela roupa que estava vestindo é, além de tudo, uma ofensa aos homens: pressupõe que são todos animais irracionais, incapazes de dominar um suposto “instinto” sexual violento. Mas sabemos que vocês são capazes de pensar e refletir antes de agir. Vocês são capazes de respeitar uma mulher.

Nessa situação, Nicole é vítima duas vezes: por ter tido a violência que sofreu exposta e desconsiderada no programa machista para o qual trabalha, em que o assédio e a humilhação são cometidos contra ela e as outras integrantes o tempo todo, e por ter sido violentada pelo homem que foi entrevistar.  É evidente o lugar subalterno reservado a ela nessas relações de poder, ao ser agredida na frente de muitas pessoas, sendo filmada por várias câmeras, numa livraria lotada, no exercício do próprio trabalho, sem que ninguém que assistia à cena fizesse nada em sua defesa. Se reagisse, ela poderia perder o emprego, já que seus patrões saíram em defesa do agressor.

Depois da repercussão do fato, ela disse: “Me desacostumei com esse tipo de humor. Cheguei em casa e fiquei abalada, constrangida. Mas depois, pensei um pouco e acho que faz parte do personagem. É uma oportunidade que estou tendo de voltar e isso faz parte do programa. Tenho que começar a separar o personagem da vida real”. Não é de se surpreender que, diante da naturalização da violência que sofreu por parte de todos que presenciaram a cena, ela tenha se convencido de que foi mesmo uma brincadeira. Nessa cultura de culpabilização da vítima, muitas mulheres silenciam as violências que sofrem.

Apesar disso, ele ainda teve coragem de dizer:

Eu, Gerald Thomas, faço a olho nu, na frente dos fotógrafos, das câmeras, das luzes, o que esse bando de carecas e pseudo moralistas gostaria de estar fazendo atrás de portas fechadas, com as luzes apagadas! EYES WIDE SHUT

Sim, muitos homens gostariam de fazer o que você fez, e é exatamente esse o problema. Muitos homens, assim como você, veem as mulheres como objetos à disposição para serem tocadas sem consentimento e acreditam que existimos para servir a eles e aos seus desejos. Nosso país oferece lições básicas de misoginia e desrespeito às mulheres a todo momento, ao explorar nossa nudez e a erotização dos nossos corpos na TV, nas revistas, no Carnaval – todas indústrias comandadas majoritariamente por homens -, ao usar nossos corpos pra vender cerveja ou qualquer outro produto como se fôssemos também mercadoria. É por isso que tantos homens acreditam que nossos corpos são públicos, disponíveis, e é por isso que toda mulher tem pelo menos uma história de assédio e horror pra contar: seja numa balada, na fila do banco, no médico, dentro de casa, no meio da rua ou até no próprio trabalho, como aconteceu com Nicole. Nós somos desrespeitadas cotidianamente e em qualquer lugar.

E o mais impressionante é que você, Gerald Thomas, se orgulha de cometer essa violência na frente das câmeras. Mas isso é resultado do lugar de conforto reservado aos homens na nossa sociedade, é resultado dessa cultura que nos ensina que quando a mulher diz “não” você tem que insistir até que ela diga “sim”, porque dizer “não” é desafiar o poder inquestionável do macho.

A masculinidade é social e historicamente construída, e o domínio dos homens sobre as mulheres está associado à sua especialização cultural no exercício da força bruta. A violência não é inerente à natureza masculina, é um dispositivo de controle de uma sociedade que ainda trata as mulheres como cidadãs de segunda categoria, como objetos de prazer e consumo dos homens. Mas é chocante como, ainda hoje, mesmo depois de tantas lutas vencidas rumo à igualdade entre os gêneros, nossa sociedade é tão machista e patriarcal a ponto de muitos homens se sentirem autorizados a se apropriarem à força do corpo de uma mulher. Vários homens entrevistados pelo programa afirmaram rindo que, se estivessem na mesma situação de Gerald Thomas, fariam o mesmo com Nicole. O psicólogo convocado pelo Pânico pra tentar nos fazer acreditar que não houve nada de errado na cena, referendou, mais uma vez, a violência cometida contra ela: “Cumpre registrar que a Nicole é irresistível”. Portanto, segundo ele, não há nenhum problema se qualquer homem resolver tocar uma mulher contra sua vontade, caso a considere irresistível. Isso é uma cultura do estupro.

Por isso, Gerald Thomas, homens como você não se veem como agressores, mesmo ignorando a resistência verbal e/ou física da mulher – como você ignorou as mãos de Nicole Bahls tentando te afastar de seu corpo -, porque muita gente encara esses comportamentos como a coisa mais normal do mundo. Realmente, não há nada de absurdo em ser opressor, porque esse é o padrão de comportamento masculino com o qual somos obrigadas a conviver diariamente. Transgressor é não ser machista.

Como se não bastasse, ele se achou o máximo por supostamente nos alertar sobre as falhas da nossa sociedade:

Somos todos da classe teatral e nossa função é apontar as VOSSAS falhas. E se VOCES se revoltam TANTO, então, já fico contente porque os alertei pra alguma coisa. O que? SIM:

1-        A mulher não é um objeto. Mas não deveria se apresentar como tal

2-        E os homens jamais deveriam se utilizar desse objeto de forma alguma

Seja como for: a única coisa que REALMENTE FIZ foi; tentar levantar a saia de Nicole Bahls e, pela expressão da cara dela nas fotos, she must have had a bahls!

Gerald Thomas, quem falhou foi você. Não há nada de transgressor em compactuar com a violência sexual e psicológica contra uma mulher, e não é você nem homem nenhum que pode dizer como devemos nos apresentar. Somos livres pra escolher como queremos nos vestir e nos comportar sem que isso justifique nenhum tipo de violência cometida contra nós. Você pressupõe que é permitido fazer o que quiser com as mulheres se, do seu ponto de vista, elas te parecem objeto. Mas você não tem esse direito. Ah, um lembrete: artistas também cometem crimes. E não há licença poética para a opressão.

Uma agressão a uma mulher é uma agressão a todas nós. Se ainda precisamos explicar por quê é inaceitável que alguém enfie a mão em qualquer parte do nosso corpo sem o nosso consentimento, existe algo muito errado com nossa sociedade. Cada vez que esse tipo de cena acontece e é amplamente divulgada e tratada com naturalidade, todas nós ficamos mais vulneráveis diante da violência sexual, do olhar de desconfiança da polícia e da sociedade quando denunciamos uma violência, da impunidade que faz homens se sentirem à vontade para estuprarem mulheres numa festa, no assento de um ônibus, numa escada de incêndio, num elevador, numa van, no meio da rua, em plena luz do dia. Assistir a essas violências sendo retratadas como piada contribui para a naturalização desse estado de alerta constante que nos é imposto. Toda mulher tem medo de ser estuprada. Mas nós não deveríamos viver com medo.

Gerald Thomas, nenhuma mulher pede para ser violentada, e reproduzir esse discurso é ser conivente com as violências que mulheres anônimas sofrem todos os dias, a todo momento, no Brasil e no mundo. Você, o Pânico e todas as outras pessoas e programas que contribuem para perpetuar a naturalização da violência contra as mulheres são responsáveis pela manutenção da cultura do estupro na nossa sociedade.

É por isso que a nossa luta ainda é tão extremamente necessária. É por isso que continuaremos questionando, denunciando, marchando e seguindo em frente, cada vez que uma violência for cometida contra uma de nós, até o dia em que conseguiremos destruir o patriarcado, até o dia em que a violência de gênero acabe, até que todas sejamos livres. Enquanto vocês…

Vocês são o retrato patético de uma masculinidade retrógrada que agoniza na tentativa de manter seus privilégios. E vocês vão ficar pra trás.

 

*Bruna Seixas, integrante do coletivo da Marcha das Vadias/DF – https://marchadasvadiasdf.wordpress.com

 

 

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FEMINISTAS CONTRA O ASSÉDIO MORAL

Ser feminista também é combater a opressão e a violência no trabalho. É NÃO se utilizar do abuso de poder para constranger, pressionar, humilhar ou assediar quem é subordinad@ a você; é combater, e não perpetuar, práticas de assédio moral. É preciso, antes de tudo, ajustar o discurso à prática. Na Secretaria de Políticas para as Mulheres e em outros espaços de promoção de políticas públicas voltadas à igualdade de gênero e aos direitos das mulheres, é inaceitável que se reproduzam padrões de comportamento usados historicamente pelo patriarcado para oprimir e subjugar. É contra essas práticas, perpetuadas atualmente em uma Secretaria que deve lutar contra todo tipo de opressão, que protestamos em frente à SPM. Não nos calaremos diante de assédio moral!

MEXEU COM UMA, MEXEU COM TODAS!!!

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“Marcha pra que te quero”, texto de Andréa Cerqueira

 Segue, abaixo, ótimo texto de Andréa Cerqueira, reproduzido do blog: http://www.conversasdeandrea.blogspot.com.br/2012/05/marcha-pra-que-te-quero.html

MARCHA PRA QUE TE QUERO

                       “José, José, prepara teu café,

                               João, João, cozinha teu feijão,

                               Zeca, Ô Zeca, lava tua cueca!”

Toré feminista (Loucas de Pedra Lilás)

Nossa história começa lá atrás. Nos estágios mais remotos da vida humana.

Segundo o psicólogo alemão Erich Neumann, no período primordial, “não existe uma pré-disposição nem uma incapacidade, condicionadas pelo sexo, no que diz respeito a qualquer tipo de ocupação importante para o grupo. Encontramos homens ociosos e mulheres guerreiras, da mesma forma que há mulheres ociosas e homens ativos. Algumas vezes a relação com o poder é prerrogativa dos homens e, em outras circunstâncias, das mulheres.”

Já no auge da época matriarcal, a individualidade era pouco desenvolvida, assim como as relações individuais entre homens e mulheres. A existência coletiva do grupo estava em primeiro plano. Os rituais universais de fecundidade eram orientados para a comunidade como um todo.

Na religião e mitologia do Egito, segundo Neumann, “a reelaboração patriarcal do simbolismo matriarcal anterior já pode ser claramente constatada.” E, na Índia antiga, numa passagem das “lendas do Padmasambhava”, as mulheres serão tratadas como as ‘ogras’ do ser humano, e o seu corpo será o “caldeirão de cobre das bruxas, no qual têm lugar todos os sofrimentos…” Alguns historiadores creditam a origem do poder paterno, que sempre acompanha a autoridade marital, à remota Índia. Nos textos sagrados, a família era um grupo religioso do qual o pai era o chefe.

Com Jesus Cristo a coisa muda de figura, senão na prática, pelo menos teoricamente. Jesus proclama que a autoridade paterna não seria mais exercida no interesse do pai, mas do filho, e que a mãe não seria a esposa-escrava, mas a companheira. Sabemos que esta mensagem foi reinterpretada de diversas maneiras posteriormente por teólogos e apóstolos e deu no que deu!

Santo Agostinho vai afirmar que a mulher é “um animal que não é firme, nem estável, odioso, que alimenta a maldade… ela é fonte de todas as discussões, querelas e injustiças.” Ou seja, é sempre Eva, coitada, a responsável pelos pecados de Adão! E São Paulo, em a Epístola aos Efésios, vai afirmar que o homem deve ser o chefe do casal, pois foi criado primeiro: “…assim como a Igreja está sujeita à Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos.” Santa interpretação!

Como se não bastassem esses defeitos de ‘origem’, a filosofia vai tentar reafirmar, com Aristóteles, a autoridade do marido e do pai. Segundo o filósofo, haveria uma desigualdade ‘natural’ entre os seres humanos. Dotada de frágil capacidade de deliberação, a opinião de uma mulher não era digna de consideração, e sua única virtude moral seria “vencer a dificuldade de obedecer”.

Saltemos alguns séculos, para chegarmos à França de Rousseau, o pai do contrato social.  Para ele, a mulher era uma criatura essencialmente ‘relativa’, um ‘complemento’ do homem. Mas na França também se fizeram ouvir outras vozes. Montesquieu, considerado um dos precursores da antropologia, denunciou diversas vezes as desigualdades entre homens e mulheres. Afirmava que não era natural a submissão das mulheres aos homens, e que este ‘império’ masculino era uma verdadeira tirania. “…se as mulheres são efetivamente inferiores aos homens deste século, a causa não reside na sua natureza, mas na educação que lhes é dada, ou melhor, na educação que lhes é recusada.”

Mas foi a partir do século XIX, que as coisas começaram a ficar mais nítidas, porque os cientistas sociais começaram a desvendar o que antes era tido como ‘natural’. Em A origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, Engels vai afirmar que o primeiro antagonismo de classe que aparece na história coincide com o antagonismo entre o homem e a mulher, na monogamia, e que a primeira divisão do trabalho acontece entre o homem e a mulher para a procriação dos filhos. Diz ele: “a reversão do direito materno foi a grande derrota histórica do sexo feminino. O homem passou a governar também a casa, a mulher foi degradada, escravizada, tornou-se escrava do prazer do homem, e um simples instrumento de reprodução…”

A expansão do capitalismo, segundo a socióloga britânica, Sylvia Walby, foi um fator importante para a criação das circunstâncias materiais que levaram ao movimento das mulheres na esfera pública e ao feminismo.

A feminista norteamericana Heidi Hartmann buscou explicar a parceria entre patriarcado e capitalismo e a incapacidade dos movimentos trabalhistas socialistas, dominados por homens, em priorizar o sexismo. A filósofa e cientista política Iris Young, sua conterrânea, argumentava que as relações patriarcais estavam internamente relacionadas às relações de produção como um todo. E afirmava que a organização autônoma das mulheres permanecia como uma necessidade prática. Já a feminista francesa Christine Delphy descreveu o matrimônio como uma relação de classe em que o trabalho da mulher beneficia o homem, sem que haja uma remuneração compatível.

Segundo o sociólogo Avtar Brah, até recentemente, as perspectivas feministas ocidentais davam pouca ou nenhuma atenção aos processos de racialização do gênero, classe e sexualidade. Segundo o autor, estruturas de classe, racismo, gênero e sexualidade não podem ser tratados como “variáveis independentes”, porque a opressão de cada uma está inscrita dentro da outra – é constituída pela outra e é constitutiva dela.

E falar em feminismo no Brasil e na América Latina sem falar em gênero e raça, não faz sentido. Em todos os períodos de crise, houve a feminização da pobreza. Mulheres e negras foram as mais atingidas pela violência e pelas desigualdades. Segundo a feminista negra brasileira Luiza Bairros, o patriarcado repousa em bases ideológicas semelhantes às que permeiam o racismo: a crença na dominação constituída com base em noções de inferioridade e superioridade.

Se, a violência atinge uma em cada três mulheres na América Latina; quatro em cada dez mulheres brasileiras já foram vítimas de violência doméstica; uma mulher é agredida a cada cinco minutos no Brasil; e 70% das vítimas de violência sexual doméstica no DF têm até 14 anos, eu pergunto: COMO NÃO MARCHAR?

Segundo a infopedia, a marcha descende da tradição medieval inglesa que levava um servo a acompanhar a pé o seu amo que viajava em carruagens puxadas por cavalos.

Contra tradições e preconceitos que queremos superar, marchamos sem oprimir ninguém, lado a lado.

Contra o MACHISMO, O RACISMO, A HOMOFOBIA E TODAS AS FORMAS DE OPRESSÃO E DESIGUALDADE.

VIVA A MARCHA DAS VADIAS!

Andréa Cerqueira, mãe da Bruna, do Coletivo da Marcha, mestranda em Sociologia pela Universidade de Brasília e Multiplicadora da Técnica do Teatro do Oprimido.

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Dia Internacional de Combate a Homofobia na Universidade Católica de Brasília

Segue abaixo a programação do Núcleo Discente de Diálogo em Gênero e Diversidades – Div’Gê, da Universidade Católica de Brasília, para o Dia Internacional de Combate à Homofobia:

“Como algumas/alguns sabem, Maio é marcado pelo Mês Internacional de Combate à Homofobia, onde a data escolhida remete a exclusão da homossexualidade da lista de Classificação Internacional de Doenças (CID) pela Organização Mundial de Saúde (OMS), oficialmente declarada em 17 de Maio de 1992.

Devido a isso e a necessidade de continuidade da luta por direitos LGBTTT’s, o Núcleo Discente de Diálogo em Gênero e Diversidades – Div’Gê comemora a data dos 20 anos de abolição do termo “homossexualismo”, trazendo para a Universidade Católica uma amostra de filme e um enorme protesto/beijaço contra a homofobia nas Universidades e escolas do país. Além disso, estaremos com uma intervenção adaptada onde haverá uma imagem do Deputado Jair Bolsonaro, onde você poderá deixar seu recado.

15h: Cine-Debate: “Milk – A Voz da Igualdade” (com Felipe Areda)
18h: Intervalo Interativo: Recado ao Bolsonaro
18h40: Concentração
19h20: Manifesto/Beijaço

Precisamos de vozes e forças dentro da Universidade que é propulsora de boicotes passados de movimentos sociais e conhecida por inúmeros casos de homofobia e machismo. Então traga sua bandeira, tambores, latas para batuque, cartazes, apitos e muita voz para esse dia de comemoração e combate à homofobia, lesbofobia e transfobia não somente no Brasil, mas em todo o mundo.”

Fonte: http://www.facebook.com/events/442356725778420/447987718548654/?notif_t=plan_mall_activity

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Quem o machismo matou hoje?

Estamos diante de sete mulheres que foram estupradas e ofertadas como “presente”. Duas delas, depois perderam a vida. Que direitos tiveram aquelas mulheres?

É uma mistura de revolta, angústia, impotência, indignação, pavor, raiva, nojo, tristeza. Muita tristeza. Não é possível definir sentimentos que nos tornam quase que incapazes de acreditar no ser humano.

O estupro coletivo de sete mulheres e assassinato de duas delas, ocorridos na cidade de Queimadas, no interior do Estado da Paraíba, foi um crime premeditado. O estupro seria um “presente de aniversário” de um irmão para outro. O caso revela muito mais que psicopatia. Revela um cenário brutal de machismo e misoginia.

O fato de que a sociedade trata os estupradores como psicopatas, monstros e indivíduos que não pertencem à sociedade é, no mínimo, hipócrita. Os homens que violam e violentam os corpos das mulheres estão apenas reproduzindo os padrões disseminados pela sociedade. Padrões que colocam os nossos corpos como mercadorias, objetos de desejo, sem que nós sejamos protagonistas desse desejo. Sempre representadas como incitadoras da violência, como se fosse nossa vontade não sermos donas de nós mesmas e nossos corpos sendo apenas objetos que estão lá para satisfazer vontades de outros, sonhos de outros, vidas de outros.

 Em propagandas como a da Hope com a Gisele Bundchen, não basta sermos objetificadas, devemos também nos orgulhar disso e nos objetificar também.

Então, um homem ganha de aniversário um estupro coletivo e as mesmas pessoas que corroboram com essas relações sociais distorcidas se chocam, acusam, apontam dedos, desejam a morte desses homens. Sem perceber que esses homens trataram aquelas mulheres como elas são retratadas cotidianamente, como objetos. Já passou da hora de refletirmos que a culpa é do estuprador e não da vítima, e que é também dos que perpetuam o imaginário da mulher objeto. Um imaginário doente, violento e que nos agride todos os dias. 

Temos acompanhado também o julgamento de Lindemberg Alves, acusado de manter em cárcere privado e matar Eloá Pimentel, 15 anos, sua ex-namorada. Em sua defesa, a advogada Ana Lúcia Assad declarou: “Ele não é bandido. Ele confessou que atirouem Eloá. Lindembergé apaixonado por Eloá. Foi o grande e único amor da vida dele, tanto é que ele não recebe visita íntima porque ele não quer ter outra mulher. Lindemberg sofre pela morte de Eloá”.

Não podemos enxergar o homicídio de Eloá Pimentel como apenas mais um “crime passional” entre namorados, como resultado de um “descontrole emocional”. Aqui há também a questão do sentimento de posse de um homem com relação a sua namorada, a idéia de que “se ela não for minha, também não será de mais ninguém”; o machismo estrutural em nossa sociedade que fundamenta o argumento de que Lindemberg teria matado por “amar muito” Eloá.

A advogada ainda enfatizou que a vítima era “geniosa e explosiva”. Segundo ela, “Eloá contribuiu para deixar a situação pior do que estava”. Uma defesa pautada na idéia da culpa da vítima, responsabilizando Eloá pela violência que sofreu. Mas pra nós está claro: quem ama não mata.

Esses dois episódios não são fatos isolados. Casos como estes, em que mulheres são estupradas e mortas, acontecem todos os dias. Mas é mais fácil situar os estupradores como psicopatas ou doentes mentais à ter que enfrentar uma sociedade que é doente: entende-se machista.

É necessário juntar forças de todos os cantos para combater o machismo e nunca mais permitir que apareça qualquer sintoma dele, como o estupro e mortes de mulheres.

E, por isso, nós, da Marcha das Vadias do Distrito Federal, repudiamos toda e qualquer violência contra as mulheres. Lutamos para que casos como estes não mais existam. E continuaremos lutando pelo fim do machismo e fim da violência.

Por Mariana Castellani, Kilma Cavalcanti e Lia Padilha da Marcha das Vadias do DF.

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Metroviárias de SP denunciam incentivo à violência sexual no programa Zorra Total

Abrimos esse espaço para nos solidarizar às metroviárias de São Paulo, que denunciaram o absurdo quadro humorístico do programa Zorra Total, da Rede Globo, em que uma mulher é abusada sexualmente no metrô. Nos sentimos plenamente contempladas pela iniciativa dessas mulheres e ficamos muito felizes ao ver que cada vez mais mulheres estão se manifestando contra os abusos e violências de diversas ordens que nos atingem. Jamais nos calaremos!

Mais uma vez: Estupro não é piada e machismo não tem graça! 

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Piranha é peixe!

"Já fomos chamadas de vadias porque usamos roupas curtas, já fomos chamadas de vadias porque transamosantes do casamento, já fomos chamadas de vadias por simplesmente dizer “não” a um homem, já fomos chamadas de vadias porque levantamos o tom de voz em uma discussão, já fomos chamadas de vadias porque andamos sozinhas à noite e fomos estupradas, já fomos chamadas de vadias porque ficamos bêbadas e sofremos estupro enquanto estávamos inconscientes, por um ou vários homens ao mesmo tempo, já fomos chamadas de vadias quando torturadas e curradas durante a Ditadura Militar. Já fomos e somos diariamente chamadas de vadias apenas porque somos MULHERES."

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Sou homem e não preciso ser machista

"No mundo, marchamos porque desde muito novas somos ensinadas a sentir culpa e vergonha pela expressão de nossa sexualidade e a temer que homens invadam nossos corpos sem o nosso consentimento; marchamos porque muitas de nós somos responsabilizadas pela possibilidade de sermos estupradas, quando são os homens que deveriam ser ensinados a não estuprar; marchamos porque mulheres lésbicas de vários países sofrem o chamado “estupro corretivo” por parte de homens que se acham no direito de puni-las para corrigir o que consideram um desvio sexual; marchamos porque ontem um pai abusou sexualmente de uma filha, porque hoje um marido violentou a esposa e, nesse momento, várias mulheres e meninas estão tendo seus corpos invadidos por homens aos quais elas não deram permissão para fazê-lo, e todas choramos porque sentimos que não podemos fazer nada por nossas irmãs agredidas e mortas diariamente. Mas podemos."

Observação: Solicitamos aos homens que forem participar da marcha que não se fantasiem ou façam piadas com a Marcha das Vadias. Machismo não é brincadeira.

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