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Posicionamento da Marcha das Vadias/DF quanto às mobilizações atuais

Diante do atual contexto de mobilizações populares e ocupação das ruas, a Marcha das Vadias/DF vem a público explicitar seu posicionamento.

Nós nos somamos às lutas contra o aumento nos preços das passagens em várias cidades do Brasil e especialmente no Distrito Federal, onde o transporte público é caro, precário e insuficiente para atender a demanda de pessoas que se deslocam, diariamente, entre as regiões administrativas do DF e o Plano Piloto. Sabemos que, sendo as mulheres ainda as principais responsáveis pelas tarefas domésticas, as dificuldades de locomoção que aquelas que dependem do transporte público enfrentam são ainda maiores, pois, além da dupla jornada de trabalho (fora e dentro de casa), são obrigadas a perder várias horas de seus dias somente no trajeto entre casa e trabalho. Como se não bastasse, esse ineficiente transporte público nos obriga a ficar espremidas em ônibus e metrôs lotados, permitindo que homens se aproveitem disso para nos assediar e violentar, e faz com que muitas mulheres, especialmente as mulheres pobres, moradoras de regiões absolutamente abandonadas pelo poder público, tenham que andar longas distâncias sem qualquer segurança ou iluminação até as paradas de ônibus, quando muitas são estupradas ao longo desses trajetos. Por isso, também estamos na luta por melhorias no transporte público que assegurem condições dignas para que todas as pessoas possam ter, de fato, o direito à mobilidade urbana; para que o direito à cidade não seja usufruído apenas por quem tem carro; para que não apenas homens se sintam seguros em andar pela cidade.

Todas essas violências restringem ainda mais o direito das mulheres à cidade. O espaço público ainda não é nosso e, por isso, é necessário continuar a lutar por ele. Ainda precisamos nos unir a outras mulheres para conseguirmos andar com segurança pelas ruas escuras e desertas do DF, porque a capital federal não foi construída pra quem anda a pé, muito menos para as mulheres. Mas nós também temos o direito de ocupar as ruas.

Nos indignamos e nos manifestamos contra o recente avanço fundamentalista que visa restringir a autonomia das mulheres. Hoje, nossos direitos estão ameaçados porque políticos, Igrejas e lideranças religiosas se aproveitam da fé das pessoas para oprimir mulheres, homossexuais, negr@s e outras minorias políticas. O Estatuto do Nascituro quer aumentar o controle das religiões e do Estado sobre os corpos das mulheres e legitimar o estupro. Se for aprovado, vai impedir o aborto em casos de estupro e de risco de vida para a mãe, que já são permitidos por lei, além de dar direito de paternidade ao estuprador, forçando a mulher e a criança a conviverem com ele. Recentemente, a aprovação da “Cura Gay” pela Comissão de [desrespeito aos] Direitos Humanos da Câmara dos Deputados foi mais uma violência contra a população LGBT do país, que não possui sequer a liberdade de manifestar seu amor em público. E a criminalização do aborto é uma violência cotidiana sofrida por milhares de mulheres brasileiras. Existem, no Brasil, clínicas de abortos clandestinos em pleno funcionamento há mais de 20 anos. Não sejamos hipócritas, o aborto não deixa de existir porque o Estado proíbe. A diferença é que, enquanto classe média e média alta pagam pelo aborto de forma segura, as mulheres da periferia, a maioria negras, abortam em condições desumanas e completamente desassistidas pelo Estado. Lutamos para que a sociedade pare de fechar os olhos para todas as mulheres que morrem em decorrência de abortos clandestinos.

Nos somamos, também, às lutas contra as violações sistemáticas de direitos humanos, cometidas pelo próprio Estado, para viabilizar os grandes eventos esportivos como a Copa das Confederações e a Copa do Mundo. Repudiamos as remoções forçadas de famílias para dar lugar a estádios, estacionamentos e condomínios de luxo para abrigar os ricos e os estrangeiros. Aproximadamente 200 mil pessoas já foram ou serão removidas de suas casas para dar lugar às obras megalomaníacas do “país do futebol”. Provavelmente, nenhuma delas terá condições de pagar o valor exorbitante de um ingresso para ver o Brasil jogar. Junto com as remoções, há também os superfaturamentos, a corrupção generalizada e o aumento da prostituição e exploração sexual de meninas e mulheres para atenderem aos turistas. O tráfico de mulheres para serem exploradas durante a Copa do Mundo já cresce em diversas cidades do Brasil, especialmente no norte e nordeste. Será que temos motivos pra comemorar? Essa Copa, afinal, é pra quem?

Aos protestos atuais, nós, enquanto mulheres e enquanto feministas, fazemos questão de incluir nossas pautas: acreditamos que qualquer movimento que se pretenda revolucionário deve combater toda e qualquer forma de opressão ou discriminação, seja por gênero, orientação sexual, raça, etnia, credo, classe social etc. Como afirmamos na nossa Carta de Princípios, acreditamos que o fim da violência contra a mulher está diretamente ligado à transformação dos valores conservadores e hegemônicos em nossa sociedade, assim como à superação do patriarcado, de todos os fundamentalismos, da lesbofobia, da bifobia, da transfobia, da homofobia, do machismo, do racismo e do capital

Por isso, nos assusta perceber, nos protestos recentes em que temos participado, a quantidade de gritos homofóbicos, machistas, racistas, elitistas e reprodutores de vários outros preconceitos que são entoados em coro. Já vimos cartazes pedindo a volta da Ditadura Militar e comentários agressivos e desrespeitosos quanto a indígenas e moradorxs de periferia que participavam do protesto. Muitas das integrantes da Marcha das Vadias/DF foram assediadas por manifestantes, bandeiras de partidos e de movimento negro foram queimadas, manifestantes partidárixs foram agredidxs. Cada vez que um grito de “filha da puta”, “viado”, “vai tomar no cu” aparece, como xingamento, várixs manifestantes ali são desrespeitadxs, o que demonstra que esses movimentos, por serem bastante heterogêneos, ainda não problematizam a reprodução de opressões em seu interior. Essa reprodução generalizada de discursos opressores e hegemônicos nos preocupa. E, por isso, trazemos aos movimentos a necessidade de promover esse e outros debates, para que a indignação coletiva não sirva de massa de manobra para manifestações fascistas a interesse dos setores mais conservadores e poderosos do país. As lutas históricas dos movimentos sociais do DF não podem ser invisibilizadas por discursos genéricos e despolitizados.

Sabemos da importância de juntarmos forças e lutarmos por uma sociedade melhor, mas não recuaremos em nossas pautas, porque elas não são menores. Em movimentos com pautas muito amplas, as pautas que envolvem o combate à violência de gênero ainda são tidas como secundárias, porque as lutas das mulheres são historicamente invisibilizadas. Por isso, apesar de haver dois protestos marcados para o próximo sábado, 22 de junho, próximos ao local onde ocorrerá a Marcha das Vadias/DF 2013, vimos informar que a Marcha das Vadias é um movimento independente e autônomo dos outros protestos que se realizarão no mesmo dia, pois temos pautas específicas e direcionadas ao combate à violência contra a mulher e às desigualdades de gênero, e buscamos a construção de um espaço livre de qualquer tipo de discriminação ou violência.

Por fim, enfatizamos nosso repúdio às ações extremamente violentas e desproporcionais que a Polícia Militar adota, hoje e sempre, na repressão aos movimentos sociais. É inaceitável que uma instituição criada nos tempos da Ditadura Militar para perseguir, reprimir e exterminar pessoas continue existindo até hoje. Até mesmo a ONU recomendou sua extinção, em virtude das execuções sumárias e graves violações aos direitos humanos perpetradas sistematicamente por essa instituição falida e corrompida. Repudiamos, principalmente, as violações cometidas por vários policiais militares contra as mulheres, nos protestos e fora deles. Há policiais que enfiam cacetetes debaixo de nossas saias nos protestos, cometem abusos nas revistas, estupram, ofendem e humilham nos chamando de “vadias”. Nos protestos e fora deles, somos vadias, porque esse é o lugar que o patriarcado e suas instituições nos reservam para nos manter sob controle. Mas não nos calaremos nem nos deixaremos constranger! A nossa resistência segue nas ruas, unidas e auto-organizadas, gritando ao mundo que MEXEU COM UMA, MEXEU COM TODAS!

E, por isso, convidamos todas as pessoas que se sintam contempladas pela nossa luta por liberdade a marcharem conosco no próximo sábado.

A revolução será feminista ou não será!

Marcha das Vadias DF | 22 de junho de 2013 | 14h | Em frente ao Conjunto Nacional (Praça do Chafariz)

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Por que reivindicar o direito ao corpo na Marcha das Vadias?

As imagens dizem muito. Corpos expostos, pernas, barrigas e peitos de fora. Dizeres que reivindicam o direito ao próprio corpo. O uso dos nossos corpos para o nosso prazer, o direito à sexualidade, o direito a ser tocada por outr@ apenas com consentimento, o direito de não ter meu corpo violentado, machucado, invadido. O corpo não é um pedaço de carne, nem um pedaço de gente, não é uma parte, mas o todo. Não queremos discursos e imposições sobre nossos corpos.  Estes, portanto, não devem ser moldados, regrados, estereotipados, objetificados. Então, nos despimos para nos apropriarmos dos nossos corpos. Somos contra a nudez mercantilizada, a venda dos corpos. Mas, lutamos pelo direito a nos desnudarmos sem que isso justifique qualquer forma de violência a nossos corpos.

Foto: Rayane Noronha               Foto: Lívia Mota                    Foto: Rayane Noronha                  Foto: Lorena Bruschi

Nas imagens da marcha das vadias, vemos, então, os corpos expostos, e a eles associadas frases de impacto sobre o próprio corpo. Quase como uma metalinguagem. O uso do corpo como um meio de comunicação, é pelo corpo, para o corpo e por meio do corpo que afirmamos nossas reivindicações. Seja com estapados dizeres, seja pela simples exposição de nossos corpos.

“Mas então, qual é a diferença entre uma fotografia da playboy e as fotografias da campanha da marcha? Se vocês são contra as objetificações do corpo da mulher, porque tiraram a roupa?”

Somente ao olhar a imagem é possível perceber a diferença.

Essa imagem foi produzida pela revista playboy, que é uma empresa que lucra com a venda de revistas de mulheres nuas. Sem moralismos, a playboy expõe corpos fictícios (em geral corpos montados no photoshop – peito de uma com barriga de outra) dentro do padrão do que se considera um corpo sexy, erótico, fantasiado pelo público masculino, ou seja, um corpo que está ali servindo ao prazer do homem, mulheres posam nuas em posições sexualizadas, e a imagem está exposta ao deleite dos olhares masculinos.

Já a outra imagem foi produzida pelo Coletivo feminista Marcha das Vadias DF. Foi construída no intuito de romper estereótipos do feminismo e mostrar pelo que estamos lutando. Nada esta sendo vendido, a proposta é passar uma idéia. O “tirar o sutiã” simboliza a liberdade da mulher, o direito a mostrar sim o corpo, mas, desta vez, não para o prazer masculino. Às vezes para o nosso próprio prazer. Às vezes para reivindicar uma situação e um espaço que nos é negado. Às vezes para dizer que não nos enquadramos nos padrões ditados de beleza. Às vezes para dizer que não queremos ter pudor e podemos mostrar nossos peitos. O que está em jogo não é o prazer e o desejo do homem, mas a liberdade da mulher.
Afinal, o sutiã simboliza o que não pode ser mostrado, o que é proibido, o que é fetichizado. O “não mostrar” já evidencia uma cena erotizada. O que está oculto e queremos ver. O que não podemos, mas queremos.
Assim são as capas das playboys. Você compra a revista e ao folhear você vai despindo a mulher. A construção do desejo se dá na capa, quando os olhos querem ver além do que é mostrado, a vontade de saber, de despir, de olhar o que está, até então, proibido.
E o sutiã as vezes serve como elemento de fetiche, para ocultar os seios, mas evidenciar suas curvas. Serve também para moldar, levantar, aumentar, e padronizar os peitos. Deixando-os nos mesmos moldes e formatos impostos pelo sutiã. Tudo bem, podemos querer isso. Pois queremos também nos sentir sensuais. Mas sabemos que essa sensualidade vem acompanhada de padrões impostos.

Ao mesmo tempo em que o sutiã representa uma repressão e imposição de valores a nossos peitos, mostrá-los na marcha das vadias pode significar “despir-se”, “despudorar-se”. Sim, é um elemento de fetiche, mas podemos fetichizar, sensualizar e erotizar nossos próprios corpos, não? E, mais uma vez, vamos a marcha cheias de elementos de fetiches: meia arrastão, cinta-liga, sutiã, rendas, saltos, batom vermelho, mini saia. E os usamos para dizer que podemos ser sensuais, podemos ter prazer, podemos ser vadias, podemos ser tudo que quisermos. E o uso desses elementos não justifica qualquer atitude desrespeitosa a nós e a nossos corpos.

Então o peitaço significa também um rompimento aos padrões. Mostramos
nossos peitos como realmente são. Sem photoshop. Pequenos, caídos, com estrias, grandes, duros, moles, aureolas grandes, pequenas. São nossos peitos, parte de nosso corpo. E somos múltiplas, somos diversas. Nossos corpos também o são. Diversidades de peitos e de vaginas! Sem padrões!


Lembro de varias meninas dizendo “o que meu pai vai pensar?”. Sim, nossos peitos ainda nãos nos pertencem. Afinal, mostrá-los passa pelo crivo de nossos pais, namorados, e toda a sociedade, que nos impõe como devemos nos comportar. Nossos corpos ainda não nos pertencem. Mais reivindicamos o direito de mostrá-los, de andar livremente com ou sem blusa, de exercer nossa autonomia e liberdade para exibir o corpo como quisermos. Aos homens não lhes é negado esse direito. Eles podem andar sem blusa e ninguém vai estuprá-los. Não por isso. Como já citei em outro post, nossa sociedade define quais partes do corpo da mulheres podem ou não ser mostradas, define, inclusive, quais partes serão erotizadas. E o peito está dentro dessa definição. Não podemos mostrá-los nos diz a sociedade! Mas nós não precisamos aceitar essa regra! O simbolismo também é esse. Dizer: eu dito as regras do meu corpo e não a sociedade. E, por isso, o peitaço significa um momento de empoderamento, de força, de união, de solidariedade, um momento feminista, um ato político.

Muitas pessoas questionaram a foto da campanha. E se for um peito dentro dos padrões estéticos? Não podemos reivindicar o direito ao corpo e a nossa liberdade de mostrá-los? Ah sim, então, se temos um corpo dentro dos padrões estéticos, devemos objetificá-los ao prazer dos outros, à comercialização?

Ela não tem o direito a reivindicar o corpo dela? Ela não sofre repressões e opressões? Mesmo as mulheres que correspondem aos padrões estéticos sofrem violências simbólicas e opressões de gênero. Não devemos nos dividir, somos mulheres. E todas sofremos de uma forma ou de outra. Reproduzo um trecho do excelentepost sobre isso: “o fato de estarmos sempre sob olhares que nos comparam com outras mulheres, essas nos fazendo sentir melhores ou piores na medida em que se enquadram mais ou menos nos padrões que nos martirizamos por não atingir, cria um incômodo entre as próprias mulheres. comparamo-nos umas às outras, e nos vemos oprimidas diante de nossas próprias companheiras”.

  
Por fim, algumas imagens reivindicam o direito ao corpo e denunciam as opressões que sofrem diariamente nossos corpos, ou seja, que sofremos. Porque corpo e sujeito são um só. Ambas imagens foram inspiradas nas idéias da Marcha das Vadias. A segunda foi, inclusive, uma manifestação artística de chamado para a marcha. Corpos interditados. Corpos estes que foram reprimidos, limitados, proibidos, restritos, calados, domesticados. Interditados para agir, se expressar, se manifestar, se posicionar, ocupar um espaço que historicamente não lhes foi destinado. Corpos estes que vão agora às ruas. Corpos subversivos, que pedem liberdade.
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Texto escrito por Julia Zamboni para o blog Audácia das Chicas. Disponível em: http://www.audaciadaschicas.com/2012/06/por-que-reivindicar-o-direito-ao-corpo.html
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“eu, minha filha e todas as mulheres do mundo”, relato de Regilane Fernandes

Abaixo, segue mais um relato emocionante que nos enviaram por e-mail, sobre mãe e filha, preconceito, violência, luta e sobre a importância “de ser Mulher e de ser COLETIVA”.

*

Prezadas companheiras,

Sou mãe da Bruna, menininha que aparece em destaque nas fotos do facebook da Marcha, no sábado.

Uma foto linda em que aparece tranqüila e bela, com o Espelho de Vênus pintado no rosto.

Símbolo da luta feminina, feminista.

Mais que isso: símbolo da trajetória de algumas das nossas sábias antecessoras.

Símbolo que nos une as nossas ancestrais.

Símbolo de suas vidas-mortes marcadas pela violência moral, psicológica, física, sexual… mas, também marcada por sua força, resistência, pioneirismo, humanidade, cumplicidade com Gaia, a Grande Mãe.

Foi com essa consciência que levei minha filha Bruna à Marcha.

Como momento de conexão dela com suas ancestrais e com suas contemporâneas… todas mulheres… E, em especial naquele dia, mulheres cercadas por homens que não têm medo de expressar sua metade feminina, feminista, não-machista.

Pois bem, uma amiga muito querida me mostrou a pouco a foto da Bruna no face.

Me emocionei com tudo.

A  foto.

O “tema” alusivo a educação como processo libertário.

Os comentários carinhosos.

Infelizmente, no meio deles, uma moça (não vou chamá-la companheira porque esta AINDA não é) colocou como comentário apenas a palavra “ridículo”.

Vejam, não tenho facebook por opção.

Então, escrevo este email pra dizer de alguma forma a esta moça que eu entendo sinceramente sua atitude.

Parece-me que ela é, como infelizmente muitos e muitas ainda são, um ser alienado e alienante, que não conseguiu passar pelos processos que resignificam nossa visão e nossa forma de ser e estar no mundo.

Se tivesse conseguido isso, saberia que ridícula é a fome.

Ridícula é a guerra.

Ridícula é a quantidade de crianças que sofrem violência doméstica sob o consentimento silencioso de uma sociedade que teima em fechar os olhos para as atrocidades cometidas no ambiente familiar (não vou chamar “seio familiar” porque “seio” é alusivo a peito, colo. E peito é sagrado, é lugar de aconchego, amor, cuidado e não de violência).

Ridículo, moça, é ficar em casa parada enquanto mulheres em todo o mundo morrem mutiladas, estupradas, violadas. Violência que, na grande maioria das vezes, lhes causa estrago mais no espírito que no corpo.

Ridícula é essa sociedade de classes que nos torna muitas vezes sectários/as, egoístas, desumanos/as.

Ridículo é não perceber o significado daquela Marcha…

Ridículo é não perceber que o Brasil mudou e está mudando.

E precisamos acompanhar e fazer juntas essa mudança.

E mudou tanto que é hoje governado por uma MULHER.

Mulher que sofreu muito, por ser cidadã consciente de direitos.

Mulher que foi torturada em tempos de ditadura pra que você usufruisse hoje exatamente disso que está fazendo: o direito da livre expressão.

Mulher que também foi, um dia, tachada de ridícula, terrorista, anarquista e, talvez, até vadia.

Ridículo seria eu, como mãe da Bruna, ficar calada diante do seu comentário infeliz, moça.

E não lhe dizer essas coisas como uma oportunidade de lhe trazer pra lucidez de ser Mulher e de ser COLETIVA!

Ridículo seria eu não acreditar que uma hora dessas essa sua cegueira vai passar e você vai conseguir, assim como eu, rir e indignar-se na medida certa que a vida espera de nós.

(Regilane Fernandes)

Foto: Alexandra Martins / Marcha das Vadias DF 2012

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“Por que ser vadia?”, texto de Gil Piauilino

Por que ser vadia?

Em janeiro de 2011, na Escola de Direito Osgode Hall em Toronto no Canadá, um policial ministrava uma palestra sobre segurança para as/os estudantes. Em determinado momento da palestra disse: “As mulheres devem evitar vestir-se como vadias, para não se tornarem vítimas de ataques”. Logo depois as estudantes dessa mesma Universidade saíram às ruas em protesto contra o discurso de culpabilização das vítimas de violência sexual e de qualquer outra forma de violência contra as mulheres, e dizendo não, minha roupa não é um convite ao estupro. Foi a primeira Slut Walk!

No Brasil, no segundo semestre desse mesmo ano, traduzindo a “Slut Walk”, a Marcha das Vadias ocorreu em diversas cidades brasileiras. Internacionalmente a Marcha atingiu mais de 10 países. Este ano a Marcha das Vadias da Capital Federal segue o calendário da Marcha Nacional da Vadias, 26 de maio. Em 2011 foram mobilizadas mais de 2 mil pessoas e nesse ano a expectativa é ainda maior: 5 mil mulheres, homens e crianças marchando pelo fim da violência contra a mulher, por seu direito de ir e vir sem sofrer nenhum tipo de humilhação, repressão ou violência.

A violência contra a mulher assume as mais variadas formas e justificativas, quantos e quantas não se pegaram dizendo ou pensando “Mas também com aquela roupa…” “Beber que nem homem dá nisso!” O comportamento da mulher sempre foi vigiado pela Igreja, pelo Estado, pelos pais, pelo tio, pelo irmão mais velho, pelo namorado. Esses últimos reproduzem o que a moral vigente colocou, como se a forma mais justa de nos relacionarmos fosse à subjugação de um ser pelo outro. Não importa quem sustente a casa, não importa em que grau na relação de poder a mulher se encontre, a vigilância predomina.

O misto dessa relação que subjuga a mulher, essa concepção de comportamento de que mulher é a frágil, a dócil, a mãe que padece no paraíso, – chegando até a santificar com o termo o “dom de dar a vida”. Qualquer comportamento que vá contra, não seguindo esses padrões, é encarado e respondido com violência, seja ela psicológica, física, moral, sexual ou patrimonial.

Segundo a pesquisa Mulheres Brasileiras nos Espaços Público e Privado da Fundação Perseu Abramo/SESC, uma em cada cinco mulheres consideram já ter sofrido alguma vez “algum tipo de violência de parte de algum homem, conhecido ou desconhecido”. Diante de 20 modalidades de violência citadas, no entanto, duas em cada cinco mulheres (40%) já sofreram alguma, ao menos uma vez na vida, sobretudo algum tipo de controle ou cerceamento (24%), alguma violência psíquica ou verbal (23%), ou alguma ameaça ou violência física propriamente dita (24%).

A nossa sociedade marcada pelo patriarcado exerce em sua relação, não por acaso, uma moral burguesa, que perpassa pelo homem o poder de mando e desmando nas relações familiares e que estende a ele a autoridade sobre a mulher e os/as filhos/as e empregados/as como sua propriedade, o coloca em uma posição superior em relação à mulher, que lhe permitia em âmbito privado, não ter suas atitudes questionadas.

Toda essa lógica ainda é concedida tanto por autoridades religiosas que compactuam com essa dominação, quanto pelo modelo de sociedade conservadora que temos e o seu modo de produção, que acabam por estimular esse tipo de hierarquia que promove a desigualdade entre homens e mulheres.

O que antes era visto apenas como caráter privado, hoje depois de muita luta vem se tornando também de esfera pública. Temos leis específicas que visam proteger as mulheres de seus agressores, tendo a Lei Maria da Penha como a principal delas. Atualmente o Governo Brasileiro por meio da SPM – Secretaria de Políticas para as Mulheres visa atender as essas e outras demandas que perpassam pelo recorte de gênero. O Estado não está dissociado da sociedade e dela compõe, e não fica livre também de visões, percepções conservadoras que incidem diretamente nas políticas. Também o Movimento de Mulheres exerce um papel fundamental de pressionar e por vezes pautar a que lógica essas políticas devem ser concebidas, visando sempre a autonomia da mulher e, com isso, sua emancipação.

Os números revelam que lógica de sociedade vivemos: segundo o Relatório Anual de 2011 do Centro de Atendimento à Mulher – Ligue 180, 93,52% das ligações com relatos de violência eram de violência doméstica e familiar; 72,23% dos casos são acometidos por companheiros e cônjuges das vítimas e 2,23% são namorados das mesmas. Há ainda um elevado número de casos de violência cometidos por ex-maridos (11,82%) e ex-namorados (4,47%). Isso demonstra que em quase 91% das agressões são acometidas por pessoas com que as vítimas tem ou tiveram vínculos afetivo.

Pode-se dizer que o âmbito familiar, sendo a família no molde conservador encarado como uma das instituições que reproduzem a lógica patriarcal, mesmo não ocorrendo violência física, há a reprodução advindas dele, o sexismo, o machismo, a homo-lesbo-bi-transfobia, misoginia, entre tantas outras formas de opressão que são manifestadas nos mais diversos lugares de convivência social.

Finalizando os números, segundo o Relatório Anual de 2011, sabe-se que 59,51% das vítimas não dependem financeiramente do agressor. De posse desses índices problematiza-se que a elaboração das políticas devem construir mecanismos para além da autonomia financeira, mas também emocional e social das mulheres.

Devemos mudar essa nossa cultura conservadora e machista que ditam regras sociais, abrindo espaço para todo e qualquer tipo de violência contra a mulher. Devemos nos espaços privados começar a repensar qual papel você exerce e quais atitudes são reproduzidas. Temos que questionar, desconstruir, não encarar como natural que a figura feminina sempre está numa relação desvantagem, o social é construído e o acaso não tem vez nas relações de poder.

A Marcha das Vadias é um movimento que vai às ruas para questionar o papel que nos é colocado enquanto mulheres. A palavra vadia tanta vezes usada para ofender e machucar, hoje passa por uma ressignificação, estratégia essa usada pelo movimento. Porque somos chamadas de vadias a todo o momento, seja diretamente quando falamos sim e o sexo rola, seja quando dizemos não e o ego masculino fica ferido, ou seja, em qualquer mesa de bar, quando um desses casos é contado para os amigos. Somos chamadas de vadias se exercemos a nossa sexualidade livremente, tal qual o homem exerce e sendo estimulado para isso, se caso quiser. Somos chamadas de vadias se usamos um decote, uma saia, uma roupa justa enquanto essa vigilância sobre os corpos não é voltada em nenhum grau ao homem. Somos chamadas de vadias por transar com quem e quantos quisermos, vestir o que quisermos, nos comportar da maneira que mais nos agrada, somos chamadas de vadias por queremos ser livres.

Se ser livre é ser vadia, somos todas Vadias!

 

(Gil Piauilino, estudante de Serviço Social na UnB, integrante do Coletivo da Marcha das Vadias/DF)

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“Vá-dia de violência contra a mulher”!

Reproduzimos, abaixo, lindo texto da Marcha das Vadias de Campinas, pra aumentar ainda mais a nossa vontade de marchar!

Até sábado, nos vemos nas ruas!  ;)

*

Vá-dia de violência contra a mulher
Vá-dia de estupro
Vá-dia de soco, pontapé, pancada

Vá-dia da palavra mal colocada.

Hoje é dia de não adiar:
Não adiar os milênios
de Pudor
de Medo
de Violação

Se somos iguais, me mostre a diferença:
não sacrifique seu desejo em mim!

Vá-dia, e adia o silêncio:
das mães
das filhas
das santas e das putas

Dessas nós, mulheres

Que de corpo marcado
Trazemos a cara pintada
Pra ter a alma lavada:

Basta!

(Coletivo Marcha das Vadias Campinas: http://marchavadiascampinas.wordpress.com/2011/08/12/marcha-das-vadias-11-08-2011/)

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Publicada a Carta Manifesto da Marcha das Vadias/DF 2012!

Após um ano intenso de lutas, reflexões, debates e (re)construções, atualizamos a nossa Carta Manifesto, em um esforço conjunto para contemplar as várias diversidades de mulheres. Esperamos que vocês também se sintam parte disso. A luta é nossa!

Leia e entenda por que marcharemos mais uma vez:

Carta Manifesto da Marcha das Vadias/DF 2012 – Por que marchamos?

“MEXEU COM UMA, MEXEU COM TODAS!”

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“Por que ir à marcha das vadias (uma resposta pessoal)”, texto de uma garota transgênera

Segue, abaixo, um lindo e emocionante texto da Vivi, uma garota transgênera, que achamos importante compartilhar. Reproduzido do blog dela: http://porcausadamulher.wordpress.com/2012/05/14/por-que-ir-a-marcha-das-vadias-uma-resposta-pessoal/

A luta feminista é por todas as mulheres que se sentem mulheres, independente da nossa condição biológica. Estamos todas juntas! o/

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Por que ir à marcha das vadias (uma resposta pessoal)

Espero que você tenha amigxs interessantes o suficiente para ter ao menos escutado algo (bom, mesmo que crítico) sobre a(s) marcha(s) das vadias mundo afora. Caso não tenha — e não evito estranhar as razões pelas quais você estaria lendo este post –, duas sugestões: (1, que listas parecem ser o mote desses nossos tempos produtivos) leia um pouco, informe-se sobre as lutas políticas contemporâneas, discuta com a intenção de aprender, e  (2) item que é potencialmente consequência direta de (1), reavalie suas companhias.

En passant, a marcha das vadias, originalmente denominada slutwalk, consiste em um protesto por direitos humanos. Uma daquelas marchas aludidas porPaulo Freire, cujas energias estão entre nós:

“Eu morreria feliz se eu visse um Brasil cheio, em seu tempo histórico, de marchas. De marcha dxs que não têm escola, marcha dxs reprovadxs, marcha dxs que querem amar e não podem, marcha dxs que se recusam a uma obediência servil, marcha dxs que se rebelam, marcha dxs que querem ser e estão proibidxs de ser. Eu acho que, afinal de contas, as marchas são andarilhagens históricas pelo mundo.” [vídeo aqui, a partir de 1:15]

Mais especificamente, a marcha das vadias é uma marcha pelo respeito incondicional às mulheres [1], pelo direito de exercerem suas sexualidades, suas liberdades sociais, e de não serem vítimas de violências impunes-ignoradas. O episódio que se constituiu em fagulha pra marcha foi uma infeliz  recomendação feita por um policial em uma palestra sobre segurança no campus da York University, Mulheres devem evitar se vestir como vadias para não serem vitimizadas. Aspectos mais específicos da marcha podem ser encontrados aqui.

Caso essas razões não x convençam a participar da marcha — e você tem toda a legitimidade para não se convencer –, e caso você se convença também, gostaria de trazer um pequeno relato pessoal. Por essas coincidências do mundo, estive morando na cidade de Toronto durante o primeiro semestre do ano passado, quando se realizou a primeira marcha das vadias, a slutwalk toronto.  E, embora tivesse sabido da marcha um tanto em cima da hora, ainda pude participar da última reunião de organização e da marcha em si.

Pois então. Talvez seja relevante mencionar, neste momento, o fato de que sou uma pessoa transgênera, ao menos parcialmente identificada com a categoria mulher. E muitas de minhas experiências de gênero estão relacionadas com os monitoramentos e controles sobre a quem, como, e onde se autoriza a expressão do ‘feminino’ [2]. Foi a partir da consciência destas opressões que se gerou a indignação associativa entre minhas experiências pessoais, o episódio do policial infeliz e as violências diárias contra mulheres pelo mundo, indignação que me impeliu a participar do slutwalk.

As pessoas que me conhecem saberão que não me sinto muito à vontade em manifestações públicas, estes atos que explicitam posições políticas muitas vezes sob olhares de estranhamento e-ou discordância. Talvez minha participação nestes atos me faça sentir vulnerável a estes olhares — algo que deve se relacionar em algum nível com minha identidade de gênero deslegitimada. Sei lá. Mas após algumas horas de indecisão, decidi sair de casa como a mulher que era. Ou a mulher que circunstancialmente existia naquele momento, e que proclamava sua legitimidade — mesmo que tardia.

[Mas não saímos todxs, todos os dias, de maneira circunstancial? Ou isso seria específico às transgeneridades? Enfim.]

O dia estava nublado, e ventava frio. A caminhada de minha casa talvez durasse em torno de dez minutos, quinze em saltos. À usual insegurança das caminhadas gênero-transgressoras se somava à vulnerabilidade que os protestos costumavam me trazer, e a claridade cinza do céu, um tempo-espaço mais complicado para quem tentasse ‘se passar’ pela feminilidade cisgênera (ou seja: para parecer uma mulher “””biológica”””, como parecem preferir).

Mas algo foi mudando conforme me aproximava do ponto de partida da marcha.

Pequenos grupos já rodeavam as pessoas da organização, com seus dois megafones, alguns equipamentos de som e cartazes. Aproximei-me para ter uma das primeiras interações sociais como uma mulher transgênera, e não, não morri — suei e tremi, é verdade. Pediram-nos que caminhássemos até um parque próximo para convidar xs passantes a participar da marcha.

Éramos um grupo de seis pessoas, que se dividiu em três duplas. Eu e uma garota. Como não houvesse muitxs passantes, começamos a conversar, compartilhar nossas histórias. E a chamar gente pra marcha, um esforço tranquilo tomando-se em conta que boa parte das pessoas andando pelo parque já se dirigiam a ela.

Então, a interação era mais de boas-vindas que de convencimento. O que me facilitava muito a vida: sendo o convencimento maneira de ‘vender’ determinada(s) ideia(s) a outrem, não poderia me sentir segura a partir de minha posição de gênero usualmente deslegitimada. Em realidade, aos poucos pude notar uma espécie de auto-confiança emergindo.

Bem. aos. poucos. Até hoje.

A garota e eu nos sentimos com confianças suficientes para falar de aspectos bastante pessoais de nossas vivências. Havia uma certa energia que nos permitia isso: o fato de estarmos naquela marcha e de estarmos ajudando (ainda que de forma muito pequena) na sua organização nos inspiravam fortemente. E então procuramos episódios longínquos de nossas existências, fagulhas de uma sexualidade ou gênero inconformes, ou de opressões a elxs.

E, neste contexto, ela menciona ser sobrevivente de abuso sexual.

E de como o responsável pelo crime era um conhecido seu.

E de como ela estava vestida na ocasião — nada ‘vadia’, para desconcerto do policial.

Havia uma dor imensurável na voz da garota. Era a dor dos momentos irreversíveis nas nossas vidas, a dor da impunidade dos crimes contra nós. Não me lembro do que lhe falei — e o que se pode dizer, afinal –, mas a dor que senti era terrível.

E terrível, não porque perfurasse, jorrasse sangue, ou latejasse, mas porque aturdia através do silêncio que habitava os olhos detrás dos óculos de grau.

Silêncio que expressava, jamais se questione, perfurações, jorros de sangue, latejos. Silêncio que se iria despertando a cada conversa com as gentes do parque, e que se passava a levantar nos coros e bordões a se iniciar; silêncios que, de tanto ocuparem mentes, puderam ocupar umas tantas ruas na cidade, atrapalhando-lhes o trânsito.

Silêncios, afinal, que de tanto se acostumarem à casa mental, somente sairiam em gritos, em passadas firmes, em sorrisos, em lágrimas.

Lágrimas que choramos em diversos momentos, saindo-nos de nossos silêncios, ainda que caladas. E presenciar o choro da garota, a algumas pessoas de distância, foi possivelmente um dos presentes mais bonitos que já recebi do universo.

É por isso que acredito na marcha das vadias.

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Notas.

[1]- o foco me parece em mulheres cis, no geral — ainda que as trans estejam explicitamente incluídas também na marcha original.

[2]- muitas outras se referem às opressões derivadas de ser vista socialmente como mulher, em especial uma mulher transgênera; neste caso, reconheço a limitação que tenho em oferecer um testemunho mais apurado, afinal isto não ocorre com muita frequência.

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Quem o machismo matou hoje?

Estamos diante de sete mulheres que foram estupradas e ofertadas como “presente”. Duas delas, depois perderam a vida. Que direitos tiveram aquelas mulheres?

É uma mistura de revolta, angústia, impotência, indignação, pavor, raiva, nojo, tristeza. Muita tristeza. Não é possível definir sentimentos que nos tornam quase que incapazes de acreditar no ser humano.

O estupro coletivo de sete mulheres e assassinato de duas delas, ocorridos na cidade de Queimadas, no interior do Estado da Paraíba, foi um crime premeditado. O estupro seria um “presente de aniversário” de um irmão para outro. O caso revela muito mais que psicopatia. Revela um cenário brutal de machismo e misoginia.

O fato de que a sociedade trata os estupradores como psicopatas, monstros e indivíduos que não pertencem à sociedade é, no mínimo, hipócrita. Os homens que violam e violentam os corpos das mulheres estão apenas reproduzindo os padrões disseminados pela sociedade. Padrões que colocam os nossos corpos como mercadorias, objetos de desejo, sem que nós sejamos protagonistas desse desejo. Sempre representadas como incitadoras da violência, como se fosse nossa vontade não sermos donas de nós mesmas e nossos corpos sendo apenas objetos que estão lá para satisfazer vontades de outros, sonhos de outros, vidas de outros.

 Em propagandas como a da Hope com a Gisele Bundchen, não basta sermos objetificadas, devemos também nos orgulhar disso e nos objetificar também.

Então, um homem ganha de aniversário um estupro coletivo e as mesmas pessoas que corroboram com essas relações sociais distorcidas se chocam, acusam, apontam dedos, desejam a morte desses homens. Sem perceber que esses homens trataram aquelas mulheres como elas são retratadas cotidianamente, como objetos. Já passou da hora de refletirmos que a culpa é do estuprador e não da vítima, e que é também dos que perpetuam o imaginário da mulher objeto. Um imaginário doente, violento e que nos agride todos os dias. 

Temos acompanhado também o julgamento de Lindemberg Alves, acusado de manter em cárcere privado e matar Eloá Pimentel, 15 anos, sua ex-namorada. Em sua defesa, a advogada Ana Lúcia Assad declarou: “Ele não é bandido. Ele confessou que atirouem Eloá. Lindembergé apaixonado por Eloá. Foi o grande e único amor da vida dele, tanto é que ele não recebe visita íntima porque ele não quer ter outra mulher. Lindemberg sofre pela morte de Eloá”.

Não podemos enxergar o homicídio de Eloá Pimentel como apenas mais um “crime passional” entre namorados, como resultado de um “descontrole emocional”. Aqui há também a questão do sentimento de posse de um homem com relação a sua namorada, a idéia de que “se ela não for minha, também não será de mais ninguém”; o machismo estrutural em nossa sociedade que fundamenta o argumento de que Lindemberg teria matado por “amar muito” Eloá.

A advogada ainda enfatizou que a vítima era “geniosa e explosiva”. Segundo ela, “Eloá contribuiu para deixar a situação pior do que estava”. Uma defesa pautada na idéia da culpa da vítima, responsabilizando Eloá pela violência que sofreu. Mas pra nós está claro: quem ama não mata.

Esses dois episódios não são fatos isolados. Casos como estes, em que mulheres são estupradas e mortas, acontecem todos os dias. Mas é mais fácil situar os estupradores como psicopatas ou doentes mentais à ter que enfrentar uma sociedade que é doente: entende-se machista.

É necessário juntar forças de todos os cantos para combater o machismo e nunca mais permitir que apareça qualquer sintoma dele, como o estupro e mortes de mulheres.

E, por isso, nós, da Marcha das Vadias do Distrito Federal, repudiamos toda e qualquer violência contra as mulheres. Lutamos para que casos como estes não mais existam. E continuaremos lutando pelo fim do machismo e fim da violência.

Por Mariana Castellani, Kilma Cavalcanti e Lia Padilha da Marcha das Vadias do DF.

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Mais um belo vídeo da Marcha das Vadias de Brasília

Segue abaixo mais um ótimo registro da Marcha que reúne algumas das quase 2.000 vozes que se reuniram no dia 18 de junho de 2011, em Brasília/DF, pra gritar contra o machismo:

“A nossa luta é por respeito, mulher não é só bunda e peito!”

(vídeo por Gustavo Amora)

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Vídeo lindo da Marcha das Vadias de Brasília

A nossa Marcha foi absolutamente grandiosa, e os sentimentos de solidariedade, missão cumprida e empoderamento que experimentamos nela foram compartilhados em vários de nossos encontros e conversas pós-Marcha. Pra quem não pode participar desse acontecimento histórico, e pra quem esteve lá e não queria que acabasse, fica aqui um registro, feito pelo Coletivo Muruá, que conseguiu capturar lindamente um pouco da atmosfera que acompanhou nossos passos em marcha:

Brasília, 18 de junho de 2011

Acompanhando os levantes mundiais pela igualdade de gênero e pelo fim da violência contra a mulher, é realizada a Marcha das Vadias:

 

“Se cuida, se cuida, se cuida, seu machista! América Latina vai ser toda feminista!”

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