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Desafios e possibilidades de uma ampla luta anti-racista no Coletivo da Marcha das Vadias/DF

TEMA: Desafios e possibilidades de uma ampla luta anti-racista no coletivo da Marcha das Vadias.

Este texto foi produzido por ocasião de debate no IV Painel – Racismos e Feminismos da III Semana Gênero e Direito da Universidade de Brasília (25 a 30 de junho de 2012), cuja comunicação se deu no dia 27 desse mês.

Hoje eu estou aqui como Líbia historiadora, Promotora Legal Popular e também como integrante da Marcha das Vadias. Gostaria de frisar bastante esse aspecto (integrante) porque meu nome está na programação como “representante” do coletivo, o que não é o caso, devido ao fato de o movimento ser horizontal, embora isso não exclua assimetrias de ordem etnicorracial, de classe etc. É preciso rejeitar a ideia de representação porque eu não posso dar conta da expectativa de reportar com mais propriedade/autoridade que qualquer outra companheira as discussões realizadas e as estratégias assumidas. Ainda assim, é preciso explicitar que o meu lugar, assim como o de qualquer outra companheira, é um lugar específico, por isso eu entendo que o convite para minha comunicação hoje deva-se ao compromisso que assumi abertamente durante a minha militância quanto à construção de relações pautadas pela equidade de gênero e também etnicorracial.

Como integrante da Marcha das Vadias, entre outras dimensões da atuação política, eu venho apresentar reflexão inspirada em um dos principais desafios que estão colocados hoje dentro do coletivo, por proposições tanto internas quanto externas, pois o coletivo não é hermético ou auto-centrado, está voltado para uma realidade mais ampla e tem construído formas de intervenção nessa realidade complexa, paradoxal etc. Qual é esse desafio? A viabilidade de o coletivo empreender uma luta anti-racista, sendo que a composição de seus quadros é majoritariamente branca, universitária, “motorizada”.

A reflexão que proponho é sobre os desafios e as possibilidades de uma luta anti-racista ser assumida amplamente por um movimento como a Marcha das Vadias. Com isso, pretendo contribuir para o debate sobre a importância das subjetividades dentro dos feminismos em âmbito teórico e em âmbito deliberativo, assumindo a responsabilidade por ser mais provocativa e crítica que conclusiva. Pergunto: como as experiências pessoais e compartilhadas qualificam a atuação política por direitos? Quais condições e limites as experiências impõem aos feminismos?

Essas questões têm seu fundamento na ênfase que os feminismos foram dando às vivências individuais. Principalmente a partir da década de 1960, os processos de formação de uma consciência feminista foram operando a tradução de experiências individuais como efeitos de uma produção social, ou seja, como efeitos de tecnologias de poder. Assim, compuseram-se os termos da proposição que bem conhecemos como: “o pessoal é político”. Grande parte da capilaridade histórica dos feminismos, com grupos demarcando uma atuação em prol do que elaboravam e queriam ver reconhecido como direitos, deve-se ao apelo totalizante da categoria mulher. O processo ocorreu de maneira tão eficaz que ainda hoje os feminismos têm dificuldade em pontuar as especificidades e fazer interlocução com outras categorias como raça/etnia, classe e orientação sexual, idade etc. Mas nem por isso, o uso da categoria mulher é sem sentido, na medida em que lida com aparatos que criam a eficácia dos significados que a própria categoria comporta, entre elas, a apropriação, o auto-reconhecimento como mulher.

Essa dificuldade foi apontada nas discussões de organização da primeira Marcha das Vadias, em junho de 2011. Entre tantas diferenças percebidas e expostas, o dissenso mais demorado foi de caráter etnicorracial. Colocou-se a questão de que muitas mulheres negras não participariam porque não se sentiam contempladas pelo próprio nome do movimento e nem mesmo pela apropriação de uma série de protestos que tiveram origem no Canadá, uma realidade muito distante em vários sentidos. A recusa dessas mulheres negras foi mal recebida. Como recusavam, se somos todas mulheres vulneráveis a estupros? Como recusavam, se temos tão boas intenções? Será que elas não entenderam a ironia do nome “Marcha das Vadias”? Mas porque elas não vieram pra gente explicar o que a gente quer dizer? Será que elas não curtem o lance do “vamos construir juntas”?

Lembrando que essas perguntas são uma interpretação minha do clima naquele momento, aquela discussão fazia lembrar as cisões nos movimentos feministas de mulheres negras e latino-americanas em geral quando expuseram o caráter elitista do feminismo. Fez lembrar como essas divergências foram interpretadas como “criação de caso”, falta de vontade para a união revolucionária que o feminismo possibilitava. Dessa forma, um dos procedimentos mais bem sucedidos do pensamento tradicional/patriarcal continuava atuando: a homogeneização em termos universalistas. E qual o efeito disso? O potencial transformador do feminismo ficava contido nos termos do opressor. Assim, as lutas das mulheres afro-descendentes, pretas ou não, e indígenas só podiam fazer sentido em espaços autônomos, onde a opressão de feministas brancas não invisibilizasse suas demandas. Destacadamente, os feminismos negros foram críticos às formas como se atuava e como se fazia teoria feminista. Os feminismos negros provocaram uma mudança fundamental para a consciência feminista, no sentido de explicitar as relações entre feminismo e outras ideologias como o racismo, o liberalismo, o socialismo, o individualismo etc. No caso de movimentos feministas, o racismo continua tão velado em nossas representações que ficava difícil para as discussões iniciais da Marcha das Vadias perceberem sua extensão a uma recusa veemente de mulheres negras se auto-intitularem “vadias”. Estava difícil perceber que para mulheres afro-descendentes, pretas ou as vistas como “mulatas”, desconstruir esse termo e fazer uso com todo orgulho daquela ironia era bem mais difícil e que talvez não fosse a melhor estratégia.

Até então, a Marcha das Vadias não era um coletivo. Tornou-se um após a realização da primeira Marcha e a vontade das integrantes de continuar as conversar e planejar ações futuras. Quase um ano depois, quando se decidiu organizar a segunda Marcha, em maio de 2012, as discussões etnicorraciais foram reacendidas a partir de insatisfações de mulheres negras com imagens que divulgavam essa segunda Marcha por acontecer. Foram colocadas questões sobre os significados das imagens de mulheres negras e a forma como foram divulgadas. Qual o significado do corpo seminu de uma mulher negra quando em contraste com o corpo vestido de uma mulher branca? Como a cultura machista/racista/elitista brasileira tem sublinhado as características dos corpos de mulheres negras, pretas e “mulatas”? Quais os corpos vistos como ícones nacionais que, dispostos ao lado da palavra “vadia”, confirmam a história de luxúria, lascívia e do frevo racial no Brasil? Nesse segundo momento, não foi possível deixar de pensar as violências machistas sem considerar o histórico de violências que as mulheres negras vivenciaram e são hoje contadas como um romance de formação da cultura nacional.

Fizemos reuniões para discutir essas questões e nos demos conta de que muitos esforços ainda precisariam ser feitos pós-marcha, quando teríamos um calendário mais largo para nos dedicarmos a essas questões, assim como o machismo, estruturantes de nossa realidade sócio-cultural. Entre as possibilidades aventadas para abordarmos as relações raciais, foi colocada a de formarmos grupos de mulheres negras, brancas e também indígenas, pois tivemos enriquecedores apontamentos de uma companheira indígena que expôs a necessidade de pensarmos sobre essas mulheres também perversamente invisibilizadas.

Junto com essa possibilidade de um amplo debate etnicorracial, vieram diversas perguntas: formamos um grupo apenas ou dividimos em grupos segundo o pertencimento etnicorracial? Será que as nossas identidades étnicas são óbvias a ponto de podermos nos dividir eficazmente? Mulheres brancas são capazes de saírem de suas zonas de conforto para discutirem racismo, uma tecnologia de poder que as privilegia em relação a outras?

Entre os aspectos ainda indefinidos quanto ao sentido de nossa atuação e as estratégias de intervenção, acredito que devemos ter em mente que as mulheres brancas também são racializadas, pois o status de mulheres brancas também é demarcado. Precisamos colocar nossas experiências de sermos mulheres negras, indígenas, brancas, pardas, lésbicas, bissexuais, com filhos, cristãs, ateias, taurinas, escorpianas, aquarianas etc… precisamos colocar essas experiências no cerne de nossas preocupações, interrogando os processos pelos quais somos constituídas como pessoas com todas as nossas especificidades. Isso abre caminhos para a percepção das diferenças e para vias de construção conjunta das transformações, pontuando nossos lugares, mas não absolutizando esses lugares. Não podemos pensar e nem mesmo agir como se nossos lugares fossem óbvios. Além disso, agora falando como feminista historiadora, sem querer ser doutrinária: precisamos reagir à política de esquecimento que o machismo, o mito da democracia racial, a heterossexualidade normativa nos colocam como dados e nos empoderar contra a inércia do dia a dia.

Para finalizar, apoio-me nas palavras da historiadora Sandra Azeredo: “é preciso considerar gênero tanto como categoria de análise quanto como uma das formas que relações de opressão assumem numa sociedade capitalista, racista e colonialista.” De acordo como a leitura que faço, uma das condições para que assumamos uma ampla luta anti-racista é percebermos que se esses são os aspectos constituintes da realidade sócio-cultural que os feminismos visam a transformar, portanto, dizem respeito a todas e todos que visualizamos as assimetrias desse quadro.

 

Líbia Rany Oliveira Nascimento, historiadora e integrante do Coletivo Marcha das Vadias/DF

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Publicada a Carta Manifesto da Marcha das Vadias/DF 2012!

Após um ano intenso de lutas, reflexões, debates e (re)construções, atualizamos a nossa Carta Manifesto, em um esforço conjunto para contemplar as várias diversidades de mulheres. Esperamos que vocês também se sintam parte disso. A luta é nossa!

Leia e entenda por que marcharemos mais uma vez:

Carta Manifesto da Marcha das Vadias/DF 2012 – Por que marchamos?

“MEXEU COM UMA, MEXEU COM TODAS!”

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Marcha das Vadias/DF pensasentindo e conversando: questão étnico-racial!

Para nós mulheres negras e todas nósotras mulheres!!!!

** Amanhã, 09-05-2012 às 19h no Centro de Convivência Negra (Universidade de Brasília, Asa Norte, Campus Darcy Ribeiro Gleba A, ao lado da prefeitura do campus e logo abaixo do postinho!)

=> Marcha das Vadias DF pensasentindo e conversando: atenções universo mulheres negras/indígenas e a questão étnico-racial! 

(negritudes, branquitudes, privilégios, estigmas, representatividade, 
vozes, discussões, afirmação, reparação, cuidado, reconhecimento, gentileza, emancipações…)

Com merecida e especial convocação honrosa de mulheres negras e indígenas como indispensável postura afirmativa e reparatória! Chamamo-nos mulheres amarelas, brancas, amendoadas, púrpuras…! todas somos singularmente responsáveis, todas fazemos parte dessas questões e somos mais que fundamentais, bem vindas e desejadas nesses processos! Construindo equanimidade pelo direito à diferença, juntas sem pavor!

***

“cambiar la historia es cuestión de voluntades colectivas vivas 
y no vidas pasivas en pleno romance
con nuestras penas, rompamos las cadenas, bajemos los escudos…”

(Actud Maria Marta)

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