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NOTA PÚBLICA SOBRE EXPULSÕES NA MARCHA DAS VADIAS-DF 2013

Antes de mais nada, gostaríamos de explicitar as razões pelas quais não publicamos esta nota anteriormente. A Marcha das Vadias – DF (MdV-DF) é composta por um grupo muito grande e diverso de mulheres que se organiza de forma horizontal para a construção da marcha. Entendemos que as expulsões realizadas, sempre polêmicas pela sua complexidade, demandavam uma discussão aprofundada e de qualidade. Assim, garantiríamos que a nota fosse o resultado de uma construção coletiva, consciente e responsável, e não de um posicionamento leviano ou hierárquico, partindo de poucas.

Esse debate foi energicamente realizado desde o dia de realização da Marcha (22/06) e se estendeu durante toda a semana seguinte. Tivemos também o auxílio de profissionais que trabalham com populações em situação de rua, que muito nos ajudaram nesse processo de reflexão e a quem agradecemos profundamente pelos diálogos e críticas extremamente válidas, que apenas começaram.

Para entender o ocorrido na Marcha das Vadias DF de 2013, é preciso compreender um pouco da nossa organização, que é dividida nas seguintes comissões: debates, comunicação, agitação/mobilização, trajeto e segurança.

Sobre a comissão de segurança da Marcha das Vadias do DF

O objetivo principal da comissão de segurança é garantir que a Marcha seja um espaço de conforto para as mulheres que dela participam e, também, de solidariedade feminista (tendo em vista que, desde a primeira marcha, recebemos ameaças recorrentes de agressões e “estupros-surpresa”). Para isso, utilizamos desde a primeira marcha (em 2011) o “escracho” como instrumento de ação, o qual consiste na publicização e expulsão de agressores por meio de gritos e buzinadas.

Frisamos que essa estratégia é compatível com os sentimentos que motivaram e possibilitam, ainda hoje, a própria existência da Marcha enquanto movimento (uma participação política múltipla em significados). Entre incontáveis outros fatores, os sentimentos de empoderamento, solidariedade e autorrealização (denominado por quem nos oprime como vadiagem, putaria ou sem-vergonhice) é parte fundamental da energia da MdV-DF. Nossa comissão de segurança preserva tal energia.

Quantas vezes os depoimentos de mulheres vítimas de violência são colocados em dúvida? Quantas vezes as escolhas não compatíveis com a cultura do assujeitamento feminino são utilizadas para nos culpabilizar pelas diversas violências que sofremos? Quantas vezes a cultura sexista e racista soma-se às discriminações de classe, região, idade, religião e outras na expressão de violências às mulheres?

Essas perguntas foram levantadas, escritas e gritadas em cartazes, corpos e vozes durante a Marcha das Vadias-DF de 2013. No entanto, a mesma problematização não foi feita em relação aos possíveis agressores. De fato, na hora da marcha, quando uma integrante da comissão de segurança ouve a buzina, segue imediatamente para o local da agressão no sentido de apoiar a ação das demais companheiras. Não questionamos a ação das outras integrantes na hora por entendermos que, se a buzina foi apertada, uma violência sexista ocorreu. Seguimos a compreensão de que “mexeu com uma, mexeu com todas”.

No caso de mulheres agressoras, decidimos conjuntamente a metodologia de dialogar com elas para que se retirem da marcha, já que, naquele ambiente dividido por vítima e agressora, a primeira se encontraria muitas vezes incomodada e com receio de continuar marchando. Essa decisão foi tomada depois de muitas discussões e de nos depararmos com agressoras na 1ª MdV-DF (2011). Naquela fase, salientamos um recorte de gênero fundamental, mas ainda não tínhamos pensado sobre outras ramificações, como homens que estivessem em situações mais vulneráveis e fossem agressores.

Durante a marcha, orientamos xs participantes a denunciarem caso houvesse algum tipo de violência sexista. Abaixo, o panfleto distribuído ao início da Marcha 2013:

Panfleto Orientações Marcha

Sobre a expulsão de homens negros em situação de rua

Diante da exposição de um vídeo sobre a expulsão da Marcha de um homem negro, em situação de rua e aparentemente sob efeito de álcool e/ou outras drogas, foram feitas inúmeras críticas, acolhidas seriamente por nós. É importante explicar que a situação ocorrida não foi completamente apresentada no vídeo e alguns relatos. O vídeo mostra apenas um fragmento e um ângulo do que aconteceu e propõe uma interpretação limitada da cena.

Algumas críticas como “o homem só estava levantando a camisa” ou “elas não deixavam ele sair dali” nos soaram simplistas diante, inclusive, do próprio vídeo, que mostra o homem em questão levantando a blusa e, também, tentando abaixar a bermuda, sendo agressivo. Mostra, igualmente, o círculo feito pela mídia, que formou uma barreira impedindo a saída dele da Marcha.

Minutos antes do momento captado no vídeo, o mesmo homem já havia gritado para uma manifestante: “levanta sua saia, quero ver sua bucetinha”. No momento da chegada da comissão de segurança ao local onde ele estava, o homem xingava uma manifestante, ameaçando bater nela com a muleta. Diante da situação, uma escolha foi feita: a buzina foi acionada e houve a tentativa de retirá-lo da Marcha –  ação padrão da comissão de segurança nesses três anos de Marcha das Vadias, como comprovam as imagens abaixo:

Dois momentos de expulsão de agressores na Marcha das Vadias-DF: a primeira em 2012 e a segunda nesse ano, minutos antes da expulsão do homem em situação de rua. (Fotos: Túlio Fortuna e Nilton Kaz)

Dois momentos de expulsão de agressores na Marcha das Vadias-DF: a primeira em 2012 e a segunda nesse ano, minutos antes da expulsão do homem em situação de rua. (Fotos: Túlio Fortuna e Nilton Kaz)

Esse homem foi expulso exatamente da mesma forma que um fotógrafo branco havia sido expulso poucos momentos antes, por ter oprimido e constrangido algumas manifestantes (na foto acima, à direita). O que motivou o aperto da buzina não foram questões raciais, mas sim o fato de ele ter sido considerado um agressor naquele momento. Temos inclusive outro vídeo, filmado mais de perto e em outro ângulo, com os momentos que antecedem a gravação divulgada. Nele, há cenas em que o homem pega no pênis e ofende as meninas que estão à sua frente, como fica explícito na imagem abaixo:

Print do vídeo da expulsão

O vídeo acima mostra que quando várias mulheres se reuniram buzinando e gritando para que ele saísse, ele virou de frente pra elas, pegou no pênis e ofendeu-as repetidas vezes. Em seguida, virou-se de costas para as mulheres e, ao notar a presença de muitas câmeras à sua frente, levantou a blusa e começou a mostrar a barriga. No momento em que ele fez menção de abaixar a bermuda e expor a genitália, uma senhora negra disse a ele que não fizesse isso e levantou em sua frente um cartaz (que denunciava a polícia racista e o genocídio da juventude negra). Ele bateu no cartaz, virou-se de costas e tentou se retirar dali, mas a barreira de fotógrafxs e cinegrafistas que se formou em frente à cena o impediu. É importante ressaltar que não foram as manifestantes que o impediram de sair, visto que nós pedíamos justamente pra que ele se retirasse: quem impediu a passagem dele foram xs fotógrafxs da imprensa. Ele fez sinal para que xs fotógrafxs abrissem passagem, mas ninguém se moveu. Foi então que uma integrante da comissão de segurança abriu passagem entre xs fotógrafxs e ele conseguiu sair. Optamos por não divulgar esse outro vídeo para não expor ainda mais a identidade desse homem, que já foi exposto a milhares de visualizações pela ação da MdV e pela repercussão do vídeo na internet, mas nos dispomos a apresentar o vídeo aos grupos que tiverem interesse em ter uma visão mais ampla do ocorrido e colaborar conosco nos debates e reflexões sobre o caso.

O que percebemos é que a violência sexista praticada por esse homem não foi problematizada na maioria das críticas às quais tivemos acesso. Foram críticas que pareceram desconsiderar ou minimizar a possibilidade de opressões e agressões sexistas que ocorreram antes do ponto em que o vídeo começou a ser gravado. A invisibilização e a hierarquização de uma opressão em detrimento da outra pode ocorrer quando uma rede complexa de opressões entra em conflito, tornando possível que uma das opressões anule as demais. Por outro lado, esse foi também o grande erro de ação da Marcha das Vadias do DF, no caso específico desse homem em situação de rua. Um erro que tem como origem uma série de outros erros estruturais na própria formação da MdV-DF, como, por exemplo, a dificuldade na desconstrução de privilégios que fazem parte do cotidiano de muitas de nós, o que muitas vezes nos leva a reproduzir as opressões que buscamos combater.

Considerando que aquele homem também é constantemente oprimido – pela sua classe, sua situação de rua, sua saúde debilitada e sua cor – não poderíamos agir de maneira a igualá-lo a um agressor qualquer.  Tivemos alguns cuidados durante a passagem da marcha, como o de proteger as pessoas que dormiam no chão da rodoviária para que não fossem pisoteadas pela multidão ou de avisar antecipadamente todxs comerciantes da rodoviária que ali passaria uma marcha feminista. Acreditamos, portanto, que faltou dialogar também com a população em situação de rua, pois, ao marchar pelos espaços públicos da cidade, estamos também entrando no ambiente em que essas pessoas vivem. Não percebemos que a situação de vulnerabilidade na qual ele se encontrava deveria ter sido motivo suficiente para que ele não fosse jogado na mesma “caixa homogênea” em que colocamos todxs xs outrxs agressorxs. 

Na verdade, em três anos de Marcha, essa “caixa” nunca havia sido devidamente problematizada. Por isso entendemos que todas as críticas, inclusive aquelas com as quais não concordamos inteiramente, têm sido importantíssimas para a nossa caminhada de luta por um mundo livre de opressões. Sabemos que é uma longa caminhada e que passa por processos constantes de (des)construções, auto-reflexão e auto-crítica, além de muito diálogo com outros movimentos. Mas é uma caminhada que precisa ser construída coletivamente, procurando superar as resistências apresentadas por nossas identidades e subjetividades.

Entendemos que a ação de expulsão com buzinas (“o escracho”) foi excessiva em relação a esse homem, na sua situação de vulnerabilidade, e que devemos  repensar a forma de abordagem de possíveis agressorxs em situações similares. Também entendemos que essa reflexão não deve ser apenas sobre como a organização da MdV-DF e as manifestantes agiram, mas deve alcançar também como isso se reflete na nossa sociedade, em especial pela postura da mídia e da PM na situação.

No momento da expulsão do fotógrafo branco, minutos antes, a mídia não fez a mesma cobertura que ocorreu na expulsão seguinte. Quando o homem branco foi expulso, em vez de uma barreira para encurralá-lo, uma repórter da grande mídia tentou entrevistá-lo para ouvir “seu lado da história”, o que a comissão de segurança impediu. Nessa ocasião, a polícia cercou o fotógrafo branco para “protegê-lo” de um eventual ataque da Marcha. Nota-se, mais uma vez, a presença do racismo estrutural que fez com que o branco fosse protegido e acolhido pela polícia e pela mídia, que nada fizeram para proteger o homem negro marginalizado: ele, ao contrário, foi exposto pela mídia e criminalizado pela ação da PM.

Sobre a Marcha das Vadias no DF

Estamos nas ruas há três anos. Inicialmente, éramos apenas um grupo de mulheres na sua maioria branca e classe média que sentiram a necessidade de ir às ruas para denunciar as mais variadas formas de machismo e violência contra a mulher. Já no segundo ano, percebemos a necessidade de dialogar de maneira mais ampla.  Além de termos agregado mais diversidade de mulheres (especialmente lésbicas, mulheres mais velhas, negras e mulheres da periferia), percorremos caminhos de estratégias para que a marcha fosse cada vez mais plural e atenta à existência dessa pluralidade, e foi justamente o que tentamos trabalhar na nossa campanha fotográfica “Feminista por quê?” e no vídeo irônico “Ai, que vadia”. Mas as recentes críticas colaboram para nos mostrar, mais uma vez, as nossas falhas de alcance, assim como o debate com mulheres trans e outras formas de vivenciar a identidade de gênero.

Em 2013, sentimos a urgência de nos posicionarmos diante de alguns temas mais específicos, como o Estatuto do Nascituro e a legalização do aborto, no vídeo “O corpo é meu”. Quisemos reivindicar cada vez mais o fim da cultura do estupro (no vídeo “Não estupre!”) e o nosso direito à cidade, com a campanha fotográfica “A cidade é nossa”, nos somando às manifestações que ocupam as ruas de todo o país.

Nesse esforço de desconstrução de privilégios/opressões e pensar diversidades, tivemos a criação de alguns Grupos de Trabalho para o aprofundamento de discussões sobre raça e lesbiandade, como o GT de mulheres negras e o GT de mulheres lésbicas, porém sem muito sucesso. Tivemos falhas de diálogo e, desde o ocorrido na última marcha, assumimos a postura de extinguir o GT de mulheres negras, para que seja evidenciado que o racismo opera na racialização de todas as mulheres: brancas, negras, indígenas, entre outras. Por isso, entendemos que o debate racial deve ser abraçado por toda a coletiva, com aprofundamento teórico, respeitando as experiências de cada mulher negra que faz parte da coletiva.

Algumas de nós – mulheres negras – nos sentimos profundamente magoadas pelas maneiras antifeministas com que outras companheiras negras nos acusaram, questionando não apenas nosso feminismo como também nossa militância e nossa composição dentro da Marcha. Questionando também nosso livre arbítrio de poder compor um movimento que seja plural, que se expressa com a diversidade de muitas mulheres e que caminha com altruísmo e sororidade com as diversas companheiras que participam de outras coletivas e movimentos sociais. Por outro lado, enquanto mulheres negras, sentimo-nos extremamente felizes com a disposição de outras companheiras negras em colaborar com nossas reflexões, inclusive, expondo seus processos de construção identitária, tanto dentro quanto fora da militância, e ponderando sobre as conjunturas de uma luta anti-racista entre diferentes pertencimentos etnicorraciais.

Aos poucos, estamos nos descobrindo como um coletivo mais permanente, com a necessidade de ações e reflexões para além da organização da marcha em si. Neste ano, por meio de um longo processo de amadurecimento interno, nós conseguimos construir nossa Carta de Princípios, com o intuito de sistematizar algumas discussões já consolidadas. Desde 2011, temos desenvolvido atividades feministas que ultrapassam o dia do ato: oficinas, cineclubes, retomes, debates, encontros, notas, seminários e conversas. De forma muito espontânea, fomos nos sintonizando.

Para muitas de nós, a Marcha das Vadias foi o primeiro contato com a militância social ou com os feminismos. Ainda temos muito a aprender e refletir sobre o combate aos preconceitos para que consigamos construir coletivamente um outro mundo, livre de opressões. Acreditamos que reconhecer nossos erros é o primeiro passo para esse aprendizado. Mas entendemos, também, que o que nos move é o combate a uma violência concreta, que vivenciamos e sofremos cotidianamente, e deslegitimar nossa luta e indignação, ou minimizar a opressão que sofremos, não pode ser o caminho para verdadeiras transformações sociais.

Pretendemos, com essas reflexões, dar um passo adiante na consolidação dessa coletiva de mulheres feministas. Para isso, contamos com apoio e abertura para dialogarmos com todxs aquelxs que foram críticxs à nossa atuação, nesse e em outros episódios. Podemos estar em frentes de batalha diferentes, mas, quando se tratar do combate às opressões e à desconstrução das desigualdades sociais, queremos somar forças sempre que possível.

Marcha das Vadias-DF, 2 de julho de 2013

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LUTA SILENCIADA, CONQUISTA HISTÓRICA

Post maravilhoso da blogueira Juliana Cezar Nunes, do coletivo Pretas Candangas.

Compartilhado de: http://blogueirasnegras.wordpress.com/2013/04/09/luta-silenciada-trabalho-domestico/

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Desde que me tornei mãe, em janeiro, passo horas contemplando meu filho e pensando como ele irá interpretar os acontecimentos de 2013 daqui a 20, 30, 40 anos… Tenho especial curiosidade em saber como Bento contará para os filhos e netos que apenas no ano do seu nascimento as trabalhadoras domésticas tiveram seus direitos reconhecidos no Brasil. Passaram a ter jornada de trabalho, piso salarial, direito a férias remuneradas, INSS, hora extra, adicional noturno… Ao todo, dezessete direitos trabalhistas negados mesmo 125 anos depois da abolição da escravatura e 25 anos após a última Constituição dita cidadã.

O silêncio centenário da sociedade brasileira diante da exploração vivenciada por milhares de mulheres, em sua maioria negras, revela que a espinha dorsal escravocrata teima em ceder. A forma como as classes mais “abastadas” resistem a essa mudança me causa especial repúdio.

Sou filha, neta, bisneta e tataraneta de mulheres que foram empregadas, cuidadoras, cozinheiras, doceiras e enfermeiras comunitárias. Minha tataravó, Antônia Benta, veio traficada da África e trabalhou como escrava, em Minas Gerais. Morreu com mais de 100 anos livre, mas sem saber o que é direito trabalhista.

Minhas avós cuidaram de idosos e cozinharam para outras famílias em busca do sustento de suas próprias casas. Minha mãe, com apenas 12 anos, foi trabalhar em “casa de família” e passou por diversos tipos de humilhação. Tinha o acesso proibido à geladeira e, para matar a fome, se alimentava por meio de furinhos em latas e potes.

A realidade que elas vivenciaram é bem comum às trabalhadoras que são chamadas de integrantes da família, mas não têm hora pra acordar, dormir ou mesmo se aposentar depois de anos e anos de trabalho. Mulheres que muitas vezes começaram a limpar casas e a cuidar de bebês ainda na infância, frequentemente expostas a abusos morais e sexuais. Tudo isso com a cumplicidade do Estado brasileiro, que permaneceu por muitos anos com os olhos confortavelmente vendados para uma negação de direitos que deveria nos levar às cortes internacionais por violação de direitos humanos.

É lamentável constatar que, se meu filho quiser entender como a sociedade reagiu à conquista histórica das mulheres em 2013, certamente vai se deparar com décadas de omissão da chamada intelectualidade brasileira. Formadores de opinião que se mobilizam contra a violência urbana e sobrecarga de impostos, mas mantêm empregadas vivendo em minúsculos quartos e submetidas a inúmeras formas de violência simbólica e física.

Às vésperas da aprovação no Congresso Nacional da proposta de emenda à Constituição que reconhece as domésticas como trabalhadoras, a maior parte dos jornais e revistas seguia dando mais espaço para o temor das patroas de ter um acréscimo de absurdos 10% no salário pagos para suas empregadas.

Em várias publicações, “especialistas” chegaram a classificar as “casas de família” como um ambiente de relaxamento para os patrões e, portanto, impossível de ser caracterizado como um local onde se estabelecem relações de trabalho. Patroas se perguntavam como controlar o horário de trabalho de suas empregadas uma vez que não permaneciam em casa e, aparentemente, acham que o serviço doméstico precisa ser realizado 24 horas por dia.

A verdade é que jornalistas e seus patrões nunca priorizaram em suas coberturas a luta das trabalhadoras domésticas pelos seus direitos. Profissionais e mídias sequer reconheciam que essas mulheres tinham direitos. Após a mudança constitucional, alguns jornais chegaram a mudar de linha de cobertura e a exaltar a conquista das trabalhadoras. No entanto, uma semana antes da PEC ser aprovada, ainda li uma reportagem que começava com a seguinte pergunta: “Demissão em massa ou conquista histórica?”

Custo a acreditar que ainda seja necessária uma resposta. Mas, se a pergunta insiste em ser feita, vale repetir: conquista histórica de gerações de mulheres que agora devem ter mais do que direitos respeitados e pagos. Precisam ser tratadas com dignidade, respeito e, acima de tudo, admiração por terem sobrevivido a tantas violências antes desse complemento tardio à abolição da escravatura no Brasil.


Juliana Cézar Nunes é jornalista e feminista negra. Faz parte do coletivo Pretas Candangas e da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-DF). Mestranda em Comunicação na UnB, integra a diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do DF (SJPDF) e trabalha na Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

Esse texto foi publicado originalmente no blog do coletivo Pretas Candangas.

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Pastor racista e homofóbico é eleito presidente da CDHM – É tempo de LUTA! (Relato)

Não sei nem o que dizer depois do que presenciei esta manhã na sessão da comissão de Direitos Humanos da Câmara. Por um lado, ouvi discursos fortes, e muitas vezes emocionados, de parlamentares como o deputado Domingos Dutra (PT), que renunciou à presidência da comissão, dizendo que não ficaria numa comissão em que o povo brasileiro foi excluído! Sem contar falas como as de Jean Wyllys (PSOL), Erika Kokay (PT) e Chico Alencar (PSOL), que lembraram do importante papel daquela comissão, da necessidade de diálogo com a sociedade, de não retrocedermos nas conquistas de direitos, correndo o risco de rememorarmos outros períodos sombrios da história brasileira.

Por outro lado, não consigo descrever o que senti ouvindo e vendo as atitudes e falas de parlamentares como o deputado Jair Bolsonaro. Ouvi-lo sendo sarcástico com a tortura por que passaram diversas pessoas na época da ditadura, fazendo piadinhas em relação a “baitolas”, provocando e sendo irônico o tempo todo, mostra como tudo o que ele busca é holofote. O deputado Takayama (PSC) comparou o relacionamento homossexual ao relacionamento de um homem e uma vaca, no melhor estilo cabra da Veja. O deputado Eurico (PSB) não ficou para trás, enaltecendo um discurso homofóbico e preconceituoso e desrespeitando colegas deputados.

Triste também é pensar que o presidente da Câmara dos Deputados, o deputado Henrique Alves (PMDB), foi quem determinou que a sessão ocorresse a portas fechadas, sem sequer ouvir a própria presidência da Comissão. Como bem lembrou o deputado Domingos Dutra, a comissão de Direitos Humanos e Minorias surgiu para ser ponto de diálogo com os movimentos sociais e com toda a sociedade, surgiu como reinvidicação desses movimentos. Fazer a opção de reforçar a segurança e impedir a entrada na sala e até no corredor revela um posicionamento bem definido, diz a que veio.

Agora, mais que nunca, a nossa pressão popular precisa estar presente! A eleição do pastor Feliciano, que tem em seu histórico processo disciplinar por homofobia na Câmara, é sintomática e clama pela participação cada vez mais forte do povo na política do nosso Brasil. Não passarão!

Érika Medeiros

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Desafios e possibilidades de uma ampla luta anti-racista no Coletivo da Marcha das Vadias/DF

TEMA: Desafios e possibilidades de uma ampla luta anti-racista no coletivo da Marcha das Vadias.

Este texto foi produzido por ocasião de debate no IV Painel – Racismos e Feminismos da III Semana Gênero e Direito da Universidade de Brasília (25 a 30 de junho de 2012), cuja comunicação se deu no dia 27 desse mês.

Hoje eu estou aqui como Líbia historiadora, Promotora Legal Popular e também como integrante da Marcha das Vadias. Gostaria de frisar bastante esse aspecto (integrante) porque meu nome está na programação como “representante” do coletivo, o que não é o caso, devido ao fato de o movimento ser horizontal, embora isso não exclua assimetrias de ordem etnicorracial, de classe etc. É preciso rejeitar a ideia de representação porque eu não posso dar conta da expectativa de reportar com mais propriedade/autoridade que qualquer outra companheira as discussões realizadas e as estratégias assumidas. Ainda assim, é preciso explicitar que o meu lugar, assim como o de qualquer outra companheira, é um lugar específico, por isso eu entendo que o convite para minha comunicação hoje deva-se ao compromisso que assumi abertamente durante a minha militância quanto à construção de relações pautadas pela equidade de gênero e também etnicorracial.

Como integrante da Marcha das Vadias, entre outras dimensões da atuação política, eu venho apresentar reflexão inspirada em um dos principais desafios que estão colocados hoje dentro do coletivo, por proposições tanto internas quanto externas, pois o coletivo não é hermético ou auto-centrado, está voltado para uma realidade mais ampla e tem construído formas de intervenção nessa realidade complexa, paradoxal etc. Qual é esse desafio? A viabilidade de o coletivo empreender uma luta anti-racista, sendo que a composição de seus quadros é majoritariamente branca, universitária, “motorizada”.

A reflexão que proponho é sobre os desafios e as possibilidades de uma luta anti-racista ser assumida amplamente por um movimento como a Marcha das Vadias. Com isso, pretendo contribuir para o debate sobre a importância das subjetividades dentro dos feminismos em âmbito teórico e em âmbito deliberativo, assumindo a responsabilidade por ser mais provocativa e crítica que conclusiva. Pergunto: como as experiências pessoais e compartilhadas qualificam a atuação política por direitos? Quais condições e limites as experiências impõem aos feminismos?

Essas questões têm seu fundamento na ênfase que os feminismos foram dando às vivências individuais. Principalmente a partir da década de 1960, os processos de formação de uma consciência feminista foram operando a tradução de experiências individuais como efeitos de uma produção social, ou seja, como efeitos de tecnologias de poder. Assim, compuseram-se os termos da proposição que bem conhecemos como: “o pessoal é político”. Grande parte da capilaridade histórica dos feminismos, com grupos demarcando uma atuação em prol do que elaboravam e queriam ver reconhecido como direitos, deve-se ao apelo totalizante da categoria mulher. O processo ocorreu de maneira tão eficaz que ainda hoje os feminismos têm dificuldade em pontuar as especificidades e fazer interlocução com outras categorias como raça/etnia, classe e orientação sexual, idade etc. Mas nem por isso, o uso da categoria mulher é sem sentido, na medida em que lida com aparatos que criam a eficácia dos significados que a própria categoria comporta, entre elas, a apropriação, o auto-reconhecimento como mulher.

Essa dificuldade foi apontada nas discussões de organização da primeira Marcha das Vadias, em junho de 2011. Entre tantas diferenças percebidas e expostas, o dissenso mais demorado foi de caráter etnicorracial. Colocou-se a questão de que muitas mulheres negras não participariam porque não se sentiam contempladas pelo próprio nome do movimento e nem mesmo pela apropriação de uma série de protestos que tiveram origem no Canadá, uma realidade muito distante em vários sentidos. A recusa dessas mulheres negras foi mal recebida. Como recusavam, se somos todas mulheres vulneráveis a estupros? Como recusavam, se temos tão boas intenções? Será que elas não entenderam a ironia do nome “Marcha das Vadias”? Mas porque elas não vieram pra gente explicar o que a gente quer dizer? Será que elas não curtem o lance do “vamos construir juntas”?

Lembrando que essas perguntas são uma interpretação minha do clima naquele momento, aquela discussão fazia lembrar as cisões nos movimentos feministas de mulheres negras e latino-americanas em geral quando expuseram o caráter elitista do feminismo. Fez lembrar como essas divergências foram interpretadas como “criação de caso”, falta de vontade para a união revolucionária que o feminismo possibilitava. Dessa forma, um dos procedimentos mais bem sucedidos do pensamento tradicional/patriarcal continuava atuando: a homogeneização em termos universalistas. E qual o efeito disso? O potencial transformador do feminismo ficava contido nos termos do opressor. Assim, as lutas das mulheres afro-descendentes, pretas ou não, e indígenas só podiam fazer sentido em espaços autônomos, onde a opressão de feministas brancas não invisibilizasse suas demandas. Destacadamente, os feminismos negros foram críticos às formas como se atuava e como se fazia teoria feminista. Os feminismos negros provocaram uma mudança fundamental para a consciência feminista, no sentido de explicitar as relações entre feminismo e outras ideologias como o racismo, o liberalismo, o socialismo, o individualismo etc. No caso de movimentos feministas, o racismo continua tão velado em nossas representações que ficava difícil para as discussões iniciais da Marcha das Vadias perceberem sua extensão a uma recusa veemente de mulheres negras se auto-intitularem “vadias”. Estava difícil perceber que para mulheres afro-descendentes, pretas ou as vistas como “mulatas”, desconstruir esse termo e fazer uso com todo orgulho daquela ironia era bem mais difícil e que talvez não fosse a melhor estratégia.

Até então, a Marcha das Vadias não era um coletivo. Tornou-se um após a realização da primeira Marcha e a vontade das integrantes de continuar as conversar e planejar ações futuras. Quase um ano depois, quando se decidiu organizar a segunda Marcha, em maio de 2012, as discussões etnicorraciais foram reacendidas a partir de insatisfações de mulheres negras com imagens que divulgavam essa segunda Marcha por acontecer. Foram colocadas questões sobre os significados das imagens de mulheres negras e a forma como foram divulgadas. Qual o significado do corpo seminu de uma mulher negra quando em contraste com o corpo vestido de uma mulher branca? Como a cultura machista/racista/elitista brasileira tem sublinhado as características dos corpos de mulheres negras, pretas e “mulatas”? Quais os corpos vistos como ícones nacionais que, dispostos ao lado da palavra “vadia”, confirmam a história de luxúria, lascívia e do frevo racial no Brasil? Nesse segundo momento, não foi possível deixar de pensar as violências machistas sem considerar o histórico de violências que as mulheres negras vivenciaram e são hoje contadas como um romance de formação da cultura nacional.

Fizemos reuniões para discutir essas questões e nos demos conta de que muitos esforços ainda precisariam ser feitos pós-marcha, quando teríamos um calendário mais largo para nos dedicarmos a essas questões, assim como o machismo, estruturantes de nossa realidade sócio-cultural. Entre as possibilidades aventadas para abordarmos as relações raciais, foi colocada a de formarmos grupos de mulheres negras, brancas e também indígenas, pois tivemos enriquecedores apontamentos de uma companheira indígena que expôs a necessidade de pensarmos sobre essas mulheres também perversamente invisibilizadas.

Junto com essa possibilidade de um amplo debate etnicorracial, vieram diversas perguntas: formamos um grupo apenas ou dividimos em grupos segundo o pertencimento etnicorracial? Será que as nossas identidades étnicas são óbvias a ponto de podermos nos dividir eficazmente? Mulheres brancas são capazes de saírem de suas zonas de conforto para discutirem racismo, uma tecnologia de poder que as privilegia em relação a outras?

Entre os aspectos ainda indefinidos quanto ao sentido de nossa atuação e as estratégias de intervenção, acredito que devemos ter em mente que as mulheres brancas também são racializadas, pois o status de mulheres brancas também é demarcado. Precisamos colocar nossas experiências de sermos mulheres negras, indígenas, brancas, pardas, lésbicas, bissexuais, com filhos, cristãs, ateias, taurinas, escorpianas, aquarianas etc… precisamos colocar essas experiências no cerne de nossas preocupações, interrogando os processos pelos quais somos constituídas como pessoas com todas as nossas especificidades. Isso abre caminhos para a percepção das diferenças e para vias de construção conjunta das transformações, pontuando nossos lugares, mas não absolutizando esses lugares. Não podemos pensar e nem mesmo agir como se nossos lugares fossem óbvios. Além disso, agora falando como feminista historiadora, sem querer ser doutrinária: precisamos reagir à política de esquecimento que o machismo, o mito da democracia racial, a heterossexualidade normativa nos colocam como dados e nos empoderar contra a inércia do dia a dia.

Para finalizar, apoio-me nas palavras da historiadora Sandra Azeredo: “é preciso considerar gênero tanto como categoria de análise quanto como uma das formas que relações de opressão assumem numa sociedade capitalista, racista e colonialista.” De acordo como a leitura que faço, uma das condições para que assumamos uma ampla luta anti-racista é percebermos que se esses são os aspectos constituintes da realidade sócio-cultural que os feminismos visam a transformar, portanto, dizem respeito a todas e todos que visualizamos as assimetrias desse quadro.

 

Líbia Rany Oliveira Nascimento, historiadora e integrante do Coletivo Marcha das Vadias/DF

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