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Transgressor é não ser machista – Gerald Thomas e a cultura do estupro

Por Bruna Seixas*

Recentemente, durante o lançamento de um livro seu em uma livraria do Rio de Janeiro, o diretor de teatro Gerald Thomas enfiou a mão entre as pernas de Nicole Bahls, do programa Pânico, e tocou-a insistentemente, enquanto ela tentava tirar a mão dele. A situação foi uma sucessão de absurdos.

Quando um dos entrevistadores perguntou se ele poderia passar um exercício pra ela se soltar, já que era sua primeira entrevista, o diretor a virou de costas, empurrou seu quadril contra o dela e simulou um ato sexual.

Ele fez graça do sotaque de Nicole e a tocou novamente, bagunçando seu cabelo e dizendo: “Ela tá muito confusa, né, coitada? Como ela é confusa!” Por fim, quando perguntaram qual conselho ele daria, de verdade, na primeira matéria dela, ele disse: “Chupe bem um pau”. Após as inúmeras humilhações, tudo, no fim das contas, foi resumido pelo programa a um “teatro de provocação”. Escondido sob o manto do “artista”, Gerald pode tudo.

A divulgação das fotos e do vídeo da matéria promoveram a espetacularização da violência cometida contra Nicole. No mesmo dia do fato, ela disse em seu twitter que ficou muito triste com o que aconteceu. Mas ninguém a ouviu.

Como sempre, muitas pessoas culpam a mulher, e não quem a violentou: “Se ela tivesse se dado ao respeito, isso não teria acontecido”, “Quem manda se vestir assim?”, “Ela se comporta como uma qualquer e ainda quer respeito?”, “Ela simplesmente teve o que gosta de provocar nos homens”, “Essa puta mereceu”.

Esse discurso é bastante difundido e muito comum inclusive em casos de estupro, numa sociedade em que a conduta da mulher está sempre sob julgamento e é frequentemente questionada e atacada pra justificar o ato do agressor. Toda mulher é ensinada, desde criança, a se comportar de forma a evitar um estupro: “Não use roupas curtas”, “não aceite bebidas de estranhos”, “não ande sozinha à noite”. Mas o mais grave é que, enquanto temos nosso comportamento tolhido e censurado frequentemente, nossa sociedade não ensina aos homens que eles não podem estuprar. Toda a responsabilidade é direcionada às vítimas, e as mulheres vivem num clima de insegurança constante. Isso é uma cultura de terror.

Gerald Thomas tentou justificar o abuso que cometeu dizendo o seguinte:

ESTUPRA? Como assim? So levantei a saia de alguem que estava usando trajes ousadamente ‘putos’, sentando no meu colo e …nada mais. Mas ISSO TAMBEM é teatro.

ORA BAHLS!!!

Não, Gerald Thomas, teatro seria se ela tivesse sido previamente informada da sua intenção de meter a mão na buceta dela e tivesse concordado com isso. Mas não foi, você agiu contra a vontade dela. Portanto, foi uma violência.

Ao contrário do que disse dela, ele não se considera “ousadamente puto” ao expor sua nudez quando lhe dá na telha, como numa entrevista que concedeu nu à revista TPM, ou quando mostrou seu pau à imprensa no mesmo dia em que violentou Nicole. Por que a nudez só é “ousadamente puta” quando é da mulher?

Ele ainda completou:

Vem uma menina, de (praticamente) bunda de fora, salto alto de “fuck me”, seios a mostra, dentro de um contexto chamado PANICO e eu (que não deixo me intimidar e gosto desse pessoal) entro no jogo e viro as cartas – e os intimido ! (que nada! Brincadeira também!) 

Segundo sua lógica perversa, já que o humor do programa é agressivo e invasivo, ele pode revidar enfiando a mão dentro do vestido da menina que trabalha lá e está cumprindo ordens. De acordo com essa lógica, ele também deveria ter sido violentado em todas as vezes que apareceu nu em público. Mas é mais cômodo descontar no corpo de uma mulher.

A questão é que, mesmo que ela estivesse nua, isso não quer dizer de forma alguma que estivesse pedindo pra ser tocada, e NINGUÉM, em nenhuma hipótese, tem o direito de tocar uma mulher sem o seu consentimento. Isso não é brincadeira, isso é violência. Dizer que a mulher “provocou” o estupro pela roupa que estava vestindo é, além de tudo, uma ofensa aos homens: pressupõe que são todos animais irracionais, incapazes de dominar um suposto “instinto” sexual violento. Mas sabemos que vocês são capazes de pensar e refletir antes de agir. Vocês são capazes de respeitar uma mulher.

Nessa situação, Nicole é vítima duas vezes: por ter tido a violência que sofreu exposta e desconsiderada no programa machista para o qual trabalha, em que o assédio e a humilhação são cometidos contra ela e as outras integrantes o tempo todo, e por ter sido violentada pelo homem que foi entrevistar.  É evidente o lugar subalterno reservado a ela nessas relações de poder, ao ser agredida na frente de muitas pessoas, sendo filmada por várias câmeras, numa livraria lotada, no exercício do próprio trabalho, sem que ninguém que assistia à cena fizesse nada em sua defesa. Se reagisse, ela poderia perder o emprego, já que seus patrões saíram em defesa do agressor.

Depois da repercussão do fato, ela disse: “Me desacostumei com esse tipo de humor. Cheguei em casa e fiquei abalada, constrangida. Mas depois, pensei um pouco e acho que faz parte do personagem. É uma oportunidade que estou tendo de voltar e isso faz parte do programa. Tenho que começar a separar o personagem da vida real”. Não é de se surpreender que, diante da naturalização da violência que sofreu por parte de todos que presenciaram a cena, ela tenha se convencido de que foi mesmo uma brincadeira. Nessa cultura de culpabilização da vítima, muitas mulheres silenciam as violências que sofrem.

Apesar disso, ele ainda teve coragem de dizer:

Eu, Gerald Thomas, faço a olho nu, na frente dos fotógrafos, das câmeras, das luzes, o que esse bando de carecas e pseudo moralistas gostaria de estar fazendo atrás de portas fechadas, com as luzes apagadas! EYES WIDE SHUT

Sim, muitos homens gostariam de fazer o que você fez, e é exatamente esse o problema. Muitos homens, assim como você, veem as mulheres como objetos à disposição para serem tocadas sem consentimento e acreditam que existimos para servir a eles e aos seus desejos. Nosso país oferece lições básicas de misoginia e desrespeito às mulheres a todo momento, ao explorar nossa nudez e a erotização dos nossos corpos na TV, nas revistas, no Carnaval – todas indústrias comandadas majoritariamente por homens -, ao usar nossos corpos pra vender cerveja ou qualquer outro produto como se fôssemos também mercadoria. É por isso que tantos homens acreditam que nossos corpos são públicos, disponíveis, e é por isso que toda mulher tem pelo menos uma história de assédio e horror pra contar: seja numa balada, na fila do banco, no médico, dentro de casa, no meio da rua ou até no próprio trabalho, como aconteceu com Nicole. Nós somos desrespeitadas cotidianamente e em qualquer lugar.

E o mais impressionante é que você, Gerald Thomas, se orgulha de cometer essa violência na frente das câmeras. Mas isso é resultado do lugar de conforto reservado aos homens na nossa sociedade, é resultado dessa cultura que nos ensina que quando a mulher diz “não” você tem que insistir até que ela diga “sim”, porque dizer “não” é desafiar o poder inquestionável do macho.

A masculinidade é social e historicamente construída, e o domínio dos homens sobre as mulheres está associado à sua especialização cultural no exercício da força bruta. A violência não é inerente à natureza masculina, é um dispositivo de controle de uma sociedade que ainda trata as mulheres como cidadãs de segunda categoria, como objetos de prazer e consumo dos homens. Mas é chocante como, ainda hoje, mesmo depois de tantas lutas vencidas rumo à igualdade entre os gêneros, nossa sociedade é tão machista e patriarcal a ponto de muitos homens se sentirem autorizados a se apropriarem à força do corpo de uma mulher. Vários homens entrevistados pelo programa afirmaram rindo que, se estivessem na mesma situação de Gerald Thomas, fariam o mesmo com Nicole. O psicólogo convocado pelo Pânico pra tentar nos fazer acreditar que não houve nada de errado na cena, referendou, mais uma vez, a violência cometida contra ela: “Cumpre registrar que a Nicole é irresistível”. Portanto, segundo ele, não há nenhum problema se qualquer homem resolver tocar uma mulher contra sua vontade, caso a considere irresistível. Isso é uma cultura do estupro.

Por isso, Gerald Thomas, homens como você não se veem como agressores, mesmo ignorando a resistência verbal e/ou física da mulher – como você ignorou as mãos de Nicole Bahls tentando te afastar de seu corpo -, porque muita gente encara esses comportamentos como a coisa mais normal do mundo. Realmente, não há nada de absurdo em ser opressor, porque esse é o padrão de comportamento masculino com o qual somos obrigadas a conviver diariamente. Transgressor é não ser machista.

Como se não bastasse, ele se achou o máximo por supostamente nos alertar sobre as falhas da nossa sociedade:

Somos todos da classe teatral e nossa função é apontar as VOSSAS falhas. E se VOCES se revoltam TANTO, então, já fico contente porque os alertei pra alguma coisa. O que? SIM:

1-        A mulher não é um objeto. Mas não deveria se apresentar como tal

2-        E os homens jamais deveriam se utilizar desse objeto de forma alguma

Seja como for: a única coisa que REALMENTE FIZ foi; tentar levantar a saia de Nicole Bahls e, pela expressão da cara dela nas fotos, she must have had a bahls!

Gerald Thomas, quem falhou foi você. Não há nada de transgressor em compactuar com a violência sexual e psicológica contra uma mulher, e não é você nem homem nenhum que pode dizer como devemos nos apresentar. Somos livres pra escolher como queremos nos vestir e nos comportar sem que isso justifique nenhum tipo de violência cometida contra nós. Você pressupõe que é permitido fazer o que quiser com as mulheres se, do seu ponto de vista, elas te parecem objeto. Mas você não tem esse direito. Ah, um lembrete: artistas também cometem crimes. E não há licença poética para a opressão.

Uma agressão a uma mulher é uma agressão a todas nós. Se ainda precisamos explicar por quê é inaceitável que alguém enfie a mão em qualquer parte do nosso corpo sem o nosso consentimento, existe algo muito errado com nossa sociedade. Cada vez que esse tipo de cena acontece e é amplamente divulgada e tratada com naturalidade, todas nós ficamos mais vulneráveis diante da violência sexual, do olhar de desconfiança da polícia e da sociedade quando denunciamos uma violência, da impunidade que faz homens se sentirem à vontade para estuprarem mulheres numa festa, no assento de um ônibus, numa escada de incêndio, num elevador, numa van, no meio da rua, em plena luz do dia. Assistir a essas violências sendo retratadas como piada contribui para a naturalização desse estado de alerta constante que nos é imposto. Toda mulher tem medo de ser estuprada. Mas nós não deveríamos viver com medo.

Gerald Thomas, nenhuma mulher pede para ser violentada, e reproduzir esse discurso é ser conivente com as violências que mulheres anônimas sofrem todos os dias, a todo momento, no Brasil e no mundo. Você, o Pânico e todas as outras pessoas e programas que contribuem para perpetuar a naturalização da violência contra as mulheres são responsáveis pela manutenção da cultura do estupro na nossa sociedade.

É por isso que a nossa luta ainda é tão extremamente necessária. É por isso que continuaremos questionando, denunciando, marchando e seguindo em frente, cada vez que uma violência for cometida contra uma de nós, até o dia em que conseguiremos destruir o patriarcado, até o dia em que a violência de gênero acabe, até que todas sejamos livres. Enquanto vocês…

Vocês são o retrato patético de uma masculinidade retrógrada que agoniza na tentativa de manter seus privilégios. E vocês vão ficar pra trás.

 

*Bruna Seixas, integrante do coletivo da Marcha das Vadias/DF – https://marchadasvadiasdf.wordpress.com

 

 

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Ligue 180 registra 53% de risco de morte em relatos de violência contra as mulheres

O texto abaixo foi retirado do site da Secretaria de Políticas para as Mulheres: http://www.sepm.gov.br/noticias/ultimas_noticias/2012/04/ligue-180-registra-53-de-risco-de-morte-em-relatos-de-violencia-contra-as-mulheres

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Ligue 180 registra 53% de risco de morte em relatos de violência contra as mulheres

De janeiro a março, o Ligue 180 efetuou 201.569 atendimentos. Dentre os 24.775 relatos de violência, a física (de lesão corporal leve ao assassinato) é a mais frequente, com 14.296 atendimentos (58%); 7.000 (53%) se referem a riscos de morte dos 13.296 relatados

No primeiro trimestre deste ano, a violência de gênero representou 53% de risco de morte para as mulheres. Essa é a principal revelação dos 201.569 registros da Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR), nos meses de janeiro a março de 2012.

O relatório trimestral do Ligue 180 foi apresentado pela ministra Eleonora Menicucci, da SPM, na quinta-feira (26/4), em reunião da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) da Violência contra a Mulher no Brasil, no Senado Federal. “Os dados do Ligue 180 nos trazem a dimensão da urgência com que a violência contra as mulheres deve ser enfrentada. É preciso garantir que as vidas das mulheres sejam salvas. Para isso, o fim da impunidade é uma tarefa a ser incorporada no dia a dia pelo poder público e pela sociedade brasileira”, afirma a ministra Eleonora Menicucci.

Dos cinco tipos de violência enquadrados na Lei Maria da Penha (física, sexual, psicológica, moral e patrimonial), a física é a mais frequente. Nela estão classificadas agressões que vão desde a lesão corporal leve ao assassinato. Ao longo do primeiro trimestre de 2012, foram efetuados 14.296 atendimentos, correspondentes a 58% dos registros. Sete mil (53%) se referem a riscos de morte das mulheres, seguido de espancamentos em 6.025 (45%) dos casos. Dentre as demais violências punidas pela Lei Maria da Penha, os atendimentos apontam: psicológica em 3.305 (13%) dos registros, moral em 2.973 (12%), sexual em 460 (2%) e patrimonial em 425 (2%).

O agressor continua sendo companheiro e cônjuge da vítima, conforme percebido em 12.970 (69,7%) dos registros, seguido por ex-maridos com 2.451 (13,2%). Dentre os 24.775 relatos de violência – excluindo-se 11.245 casos não informados -, em 8.915 (65,9%) dos casos, filhas e filhos presenciaram as agressões cometidas contra suas mães. Em 2.580 (24,5%) dos registros, elas e eles sofreram violência junto com suas mães.

SERVIÇOS PÚBLICOS – Dos 101.413 encaminhamentos feitos pelo Ligue 180 para os serviços públicos – nos três primeiros meses deste ano -, 52.788 foram para a segurança pública: 60% direcionados para o serviço 190, da Polícia Militar, e 23% para as delegacias especializadas de atendimento à mulher (DEAM). Num universo de 374 DEAMs no país, somente o Ligue 180 encaminhou 12.078 casos nos três primeiros meses de 2012.

Outro destaque dos dados do Ligue 180 é o tempo de relação da mulher em situação de violência com o agressor. Dos registros informados neste primeiro trimestre, em 7.761 (42,6%) dos casos, o agressor tinha dez anos ou mais de relacionamento com a vítima, em 3.422 (18,8%) entre cinco e dez anos de relação afetiva e em 1.875 (10,3%) entre um e dois anos de relacionamento.

DADOS CONSOLIDADOS: 2006 a 2012 – Desde a sua criação em 2005, o Ligue 180 já soma 2.527.493 atendimentos. De 2006 a 2012, foram registrados 603.906 relatos de violência tipificados de acordo com a Lei Maria da Penha: física 182.857 (30%), psicológica 76.620 (12,8%), moral 32.168 (5,4%), sexual 5.899 (1%) e patrimonial 4.920 (0,8%).

Nesses cinco anos e meio de vigência da Lei Maria da Penha, o risco de morte foi verificado em 92.684 (52%) dos atendimentos informados, e de espaçamentos em 77.954 (44%). Entre os 248.843 registros feitos pelo Ligue 180, o agressor era cônjuge ou companheiro da vítima em 153.078 (61,5%) dos casos; ex-marido, em 18.805 (7,5%); ou namorado em 5.621 (2,2%).

Das 131.047 informações coletadas acerca do tempo de relacionamento entre a vítima e o agressor, a relação estava estabelecida entre dez anos ou mais em 48.894 (37,3%) dos casos; entre cinco e dez anos em 27.483 (21%); entre um e dois anos em 15.732 (12%); e entre dois e três anos em 12.470 (9,5%) das situações. Em relações de até seis meses, a violência foi estabelecida em 5.530 (4,2%) dos casos.

A frequência da violência foi registrada em 228.180 atendimentos, sendo diária em 141.585 (62%) dos relatos e semanal em 44.987 (19,7%) das situações que chegaram ao Ligue 180. Nos últimos 27 meses – janeiro de 2010 a março de 2012 -, o Ligue 180 tem registrado a relação de filhas e filhos com a agressão. Verificou-se que nos 106.889 relatos de violência, 71.130 (66,5%) foram presenciadas por filhas e filhos. E em 19.418 (18,2%) das situações, elas e eles foram agredidos junto com suas mães.

Em novembro de 2011, o Ligue 180 expandiu sua cobertura para Espanha, Itália e Portugal. Nesses quatro meses, o serviço registrou 70 ligações de brasileiras no exterior, tendo efetuado 18 atendimentos.

LIGUE 180 – Criada em 2005 pela SPM e parceiros, a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 é um serviço de utilidade pública que presta informações e orientações sobre onde às mulheres podem recorrer caso sofram algum tipo de violência. O atendimento funciona 24 horas, todos os dias da semana, inclusive finais de semana e feriados.

Assessoria de Comunicação Social

Secretaria de Políticas para as Mulheres – SPM

Presidência da República – PR

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