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NOTA PÚBLICA SOBRE EXPULSÕES NA MARCHA DAS VADIAS-DF 2013

Antes de mais nada, gostaríamos de explicitar as razões pelas quais não publicamos esta nota anteriormente. A Marcha das Vadias – DF (MdV-DF) é composta por um grupo muito grande e diverso de mulheres que se organiza de forma horizontal para a construção da marcha. Entendemos que as expulsões realizadas, sempre polêmicas pela sua complexidade, demandavam uma discussão aprofundada e de qualidade. Assim, garantiríamos que a nota fosse o resultado de uma construção coletiva, consciente e responsável, e não de um posicionamento leviano ou hierárquico, partindo de poucas.

Esse debate foi energicamente realizado desde o dia de realização da Marcha (22/06) e se estendeu durante toda a semana seguinte. Tivemos também o auxílio de profissionais que trabalham com populações em situação de rua, que muito nos ajudaram nesse processo de reflexão e a quem agradecemos profundamente pelos diálogos e críticas extremamente válidas, que apenas começaram.

Para entender o ocorrido na Marcha das Vadias DF de 2013, é preciso compreender um pouco da nossa organização, que é dividida nas seguintes comissões: debates, comunicação, agitação/mobilização, trajeto e segurança.

Sobre a comissão de segurança da Marcha das Vadias do DF

O objetivo principal da comissão de segurança é garantir que a Marcha seja um espaço de conforto para as mulheres que dela participam e, também, de solidariedade feminista (tendo em vista que, desde a primeira marcha, recebemos ameaças recorrentes de agressões e “estupros-surpresa”). Para isso, utilizamos desde a primeira marcha (em 2011) o “escracho” como instrumento de ação, o qual consiste na publicização e expulsão de agressores por meio de gritos e buzinadas.

Frisamos que essa estratégia é compatível com os sentimentos que motivaram e possibilitam, ainda hoje, a própria existência da Marcha enquanto movimento (uma participação política múltipla em significados). Entre incontáveis outros fatores, os sentimentos de empoderamento, solidariedade e autorrealização (denominado por quem nos oprime como vadiagem, putaria ou sem-vergonhice) é parte fundamental da energia da MdV-DF. Nossa comissão de segurança preserva tal energia.

Quantas vezes os depoimentos de mulheres vítimas de violência são colocados em dúvida? Quantas vezes as escolhas não compatíveis com a cultura do assujeitamento feminino são utilizadas para nos culpabilizar pelas diversas violências que sofremos? Quantas vezes a cultura sexista e racista soma-se às discriminações de classe, região, idade, religião e outras na expressão de violências às mulheres?

Essas perguntas foram levantadas, escritas e gritadas em cartazes, corpos e vozes durante a Marcha das Vadias-DF de 2013. No entanto, a mesma problematização não foi feita em relação aos possíveis agressores. De fato, na hora da marcha, quando uma integrante da comissão de segurança ouve a buzina, segue imediatamente para o local da agressão no sentido de apoiar a ação das demais companheiras. Não questionamos a ação das outras integrantes na hora por entendermos que, se a buzina foi apertada, uma violência sexista ocorreu. Seguimos a compreensão de que “mexeu com uma, mexeu com todas”.

No caso de mulheres agressoras, decidimos conjuntamente a metodologia de dialogar com elas para que se retirem da marcha, já que, naquele ambiente dividido por vítima e agressora, a primeira se encontraria muitas vezes incomodada e com receio de continuar marchando. Essa decisão foi tomada depois de muitas discussões e de nos depararmos com agressoras na 1ª MdV-DF (2011). Naquela fase, salientamos um recorte de gênero fundamental, mas ainda não tínhamos pensado sobre outras ramificações, como homens que estivessem em situações mais vulneráveis e fossem agressores.

Durante a marcha, orientamos xs participantes a denunciarem caso houvesse algum tipo de violência sexista. Abaixo, o panfleto distribuído ao início da Marcha 2013:

Panfleto Orientações Marcha

Sobre a expulsão de homens negros em situação de rua

Diante da exposição de um vídeo sobre a expulsão da Marcha de um homem negro, em situação de rua e aparentemente sob efeito de álcool e/ou outras drogas, foram feitas inúmeras críticas, acolhidas seriamente por nós. É importante explicar que a situação ocorrida não foi completamente apresentada no vídeo e alguns relatos. O vídeo mostra apenas um fragmento e um ângulo do que aconteceu e propõe uma interpretação limitada da cena.

Algumas críticas como “o homem só estava levantando a camisa” ou “elas não deixavam ele sair dali” nos soaram simplistas diante, inclusive, do próprio vídeo, que mostra o homem em questão levantando a blusa e, também, tentando abaixar a bermuda, sendo agressivo. Mostra, igualmente, o círculo feito pela mídia, que formou uma barreira impedindo a saída dele da Marcha.

Minutos antes do momento captado no vídeo, o mesmo homem já havia gritado para uma manifestante: “levanta sua saia, quero ver sua bucetinha”. No momento da chegada da comissão de segurança ao local onde ele estava, o homem xingava uma manifestante, ameaçando bater nela com a muleta. Diante da situação, uma escolha foi feita: a buzina foi acionada e houve a tentativa de retirá-lo da Marcha –  ação padrão da comissão de segurança nesses três anos de Marcha das Vadias, como comprovam as imagens abaixo:

Dois momentos de expulsão de agressores na Marcha das Vadias-DF: a primeira em 2012 e a segunda nesse ano, minutos antes da expulsão do homem em situação de rua. (Fotos: Túlio Fortuna e Nilton Kaz)

Dois momentos de expulsão de agressores na Marcha das Vadias-DF: a primeira em 2012 e a segunda nesse ano, minutos antes da expulsão do homem em situação de rua. (Fotos: Túlio Fortuna e Nilton Kaz)

Esse homem foi expulso exatamente da mesma forma que um fotógrafo branco havia sido expulso poucos momentos antes, por ter oprimido e constrangido algumas manifestantes (na foto acima, à direita). O que motivou o aperto da buzina não foram questões raciais, mas sim o fato de ele ter sido considerado um agressor naquele momento. Temos inclusive outro vídeo, filmado mais de perto e em outro ângulo, com os momentos que antecedem a gravação divulgada. Nele, há cenas em que o homem pega no pênis e ofende as meninas que estão à sua frente, como fica explícito na imagem abaixo:

Print do vídeo da expulsão

O vídeo acima mostra que quando várias mulheres se reuniram buzinando e gritando para que ele saísse, ele virou de frente pra elas, pegou no pênis e ofendeu-as repetidas vezes. Em seguida, virou-se de costas para as mulheres e, ao notar a presença de muitas câmeras à sua frente, levantou a blusa e começou a mostrar a barriga. No momento em que ele fez menção de abaixar a bermuda e expor a genitália, uma senhora negra disse a ele que não fizesse isso e levantou em sua frente um cartaz (que denunciava a polícia racista e o genocídio da juventude negra). Ele bateu no cartaz, virou-se de costas e tentou se retirar dali, mas a barreira de fotógrafxs e cinegrafistas que se formou em frente à cena o impediu. É importante ressaltar que não foram as manifestantes que o impediram de sair, visto que nós pedíamos justamente pra que ele se retirasse: quem impediu a passagem dele foram xs fotógrafxs da imprensa. Ele fez sinal para que xs fotógrafxs abrissem passagem, mas ninguém se moveu. Foi então que uma integrante da comissão de segurança abriu passagem entre xs fotógrafxs e ele conseguiu sair. Optamos por não divulgar esse outro vídeo para não expor ainda mais a identidade desse homem, que já foi exposto a milhares de visualizações pela ação da MdV e pela repercussão do vídeo na internet, mas nos dispomos a apresentar o vídeo aos grupos que tiverem interesse em ter uma visão mais ampla do ocorrido e colaborar conosco nos debates e reflexões sobre o caso.

O que percebemos é que a violência sexista praticada por esse homem não foi problematizada na maioria das críticas às quais tivemos acesso. Foram críticas que pareceram desconsiderar ou minimizar a possibilidade de opressões e agressões sexistas que ocorreram antes do ponto em que o vídeo começou a ser gravado. A invisibilização e a hierarquização de uma opressão em detrimento da outra pode ocorrer quando uma rede complexa de opressões entra em conflito, tornando possível que uma das opressões anule as demais. Por outro lado, esse foi também o grande erro de ação da Marcha das Vadias do DF, no caso específico desse homem em situação de rua. Um erro que tem como origem uma série de outros erros estruturais na própria formação da MdV-DF, como, por exemplo, a dificuldade na desconstrução de privilégios que fazem parte do cotidiano de muitas de nós, o que muitas vezes nos leva a reproduzir as opressões que buscamos combater.

Considerando que aquele homem também é constantemente oprimido – pela sua classe, sua situação de rua, sua saúde debilitada e sua cor – não poderíamos agir de maneira a igualá-lo a um agressor qualquer.  Tivemos alguns cuidados durante a passagem da marcha, como o de proteger as pessoas que dormiam no chão da rodoviária para que não fossem pisoteadas pela multidão ou de avisar antecipadamente todxs comerciantes da rodoviária que ali passaria uma marcha feminista. Acreditamos, portanto, que faltou dialogar também com a população em situação de rua, pois, ao marchar pelos espaços públicos da cidade, estamos também entrando no ambiente em que essas pessoas vivem. Não percebemos que a situação de vulnerabilidade na qual ele se encontrava deveria ter sido motivo suficiente para que ele não fosse jogado na mesma “caixa homogênea” em que colocamos todxs xs outrxs agressorxs. 

Na verdade, em três anos de Marcha, essa “caixa” nunca havia sido devidamente problematizada. Por isso entendemos que todas as críticas, inclusive aquelas com as quais não concordamos inteiramente, têm sido importantíssimas para a nossa caminhada de luta por um mundo livre de opressões. Sabemos que é uma longa caminhada e que passa por processos constantes de (des)construções, auto-reflexão e auto-crítica, além de muito diálogo com outros movimentos. Mas é uma caminhada que precisa ser construída coletivamente, procurando superar as resistências apresentadas por nossas identidades e subjetividades.

Entendemos que a ação de expulsão com buzinas (“o escracho”) foi excessiva em relação a esse homem, na sua situação de vulnerabilidade, e que devemos  repensar a forma de abordagem de possíveis agressorxs em situações similares. Também entendemos que essa reflexão não deve ser apenas sobre como a organização da MdV-DF e as manifestantes agiram, mas deve alcançar também como isso se reflete na nossa sociedade, em especial pela postura da mídia e da PM na situação.

No momento da expulsão do fotógrafo branco, minutos antes, a mídia não fez a mesma cobertura que ocorreu na expulsão seguinte. Quando o homem branco foi expulso, em vez de uma barreira para encurralá-lo, uma repórter da grande mídia tentou entrevistá-lo para ouvir “seu lado da história”, o que a comissão de segurança impediu. Nessa ocasião, a polícia cercou o fotógrafo branco para “protegê-lo” de um eventual ataque da Marcha. Nota-se, mais uma vez, a presença do racismo estrutural que fez com que o branco fosse protegido e acolhido pela polícia e pela mídia, que nada fizeram para proteger o homem negro marginalizado: ele, ao contrário, foi exposto pela mídia e criminalizado pela ação da PM.

Sobre a Marcha das Vadias no DF

Estamos nas ruas há três anos. Inicialmente, éramos apenas um grupo de mulheres na sua maioria branca e classe média que sentiram a necessidade de ir às ruas para denunciar as mais variadas formas de machismo e violência contra a mulher. Já no segundo ano, percebemos a necessidade de dialogar de maneira mais ampla.  Além de termos agregado mais diversidade de mulheres (especialmente lésbicas, mulheres mais velhas, negras e mulheres da periferia), percorremos caminhos de estratégias para que a marcha fosse cada vez mais plural e atenta à existência dessa pluralidade, e foi justamente o que tentamos trabalhar na nossa campanha fotográfica “Feminista por quê?” e no vídeo irônico “Ai, que vadia”. Mas as recentes críticas colaboram para nos mostrar, mais uma vez, as nossas falhas de alcance, assim como o debate com mulheres trans e outras formas de vivenciar a identidade de gênero.

Em 2013, sentimos a urgência de nos posicionarmos diante de alguns temas mais específicos, como o Estatuto do Nascituro e a legalização do aborto, no vídeo “O corpo é meu”. Quisemos reivindicar cada vez mais o fim da cultura do estupro (no vídeo “Não estupre!”) e o nosso direito à cidade, com a campanha fotográfica “A cidade é nossa”, nos somando às manifestações que ocupam as ruas de todo o país.

Nesse esforço de desconstrução de privilégios/opressões e pensar diversidades, tivemos a criação de alguns Grupos de Trabalho para o aprofundamento de discussões sobre raça e lesbiandade, como o GT de mulheres negras e o GT de mulheres lésbicas, porém sem muito sucesso. Tivemos falhas de diálogo e, desde o ocorrido na última marcha, assumimos a postura de extinguir o GT de mulheres negras, para que seja evidenciado que o racismo opera na racialização de todas as mulheres: brancas, negras, indígenas, entre outras. Por isso, entendemos que o debate racial deve ser abraçado por toda a coletiva, com aprofundamento teórico, respeitando as experiências de cada mulher negra que faz parte da coletiva.

Algumas de nós – mulheres negras – nos sentimos profundamente magoadas pelas maneiras antifeministas com que outras companheiras negras nos acusaram, questionando não apenas nosso feminismo como também nossa militância e nossa composição dentro da Marcha. Questionando também nosso livre arbítrio de poder compor um movimento que seja plural, que se expressa com a diversidade de muitas mulheres e que caminha com altruísmo e sororidade com as diversas companheiras que participam de outras coletivas e movimentos sociais. Por outro lado, enquanto mulheres negras, sentimo-nos extremamente felizes com a disposição de outras companheiras negras em colaborar com nossas reflexões, inclusive, expondo seus processos de construção identitária, tanto dentro quanto fora da militância, e ponderando sobre as conjunturas de uma luta anti-racista entre diferentes pertencimentos etnicorraciais.

Aos poucos, estamos nos descobrindo como um coletivo mais permanente, com a necessidade de ações e reflexões para além da organização da marcha em si. Neste ano, por meio de um longo processo de amadurecimento interno, nós conseguimos construir nossa Carta de Princípios, com o intuito de sistematizar algumas discussões já consolidadas. Desde 2011, temos desenvolvido atividades feministas que ultrapassam o dia do ato: oficinas, cineclubes, retomes, debates, encontros, notas, seminários e conversas. De forma muito espontânea, fomos nos sintonizando.

Para muitas de nós, a Marcha das Vadias foi o primeiro contato com a militância social ou com os feminismos. Ainda temos muito a aprender e refletir sobre o combate aos preconceitos para que consigamos construir coletivamente um outro mundo, livre de opressões. Acreditamos que reconhecer nossos erros é o primeiro passo para esse aprendizado. Mas entendemos, também, que o que nos move é o combate a uma violência concreta, que vivenciamos e sofremos cotidianamente, e deslegitimar nossa luta e indignação, ou minimizar a opressão que sofremos, não pode ser o caminho para verdadeiras transformações sociais.

Pretendemos, com essas reflexões, dar um passo adiante na consolidação dessa coletiva de mulheres feministas. Para isso, contamos com apoio e abertura para dialogarmos com todxs aquelxs que foram críticxs à nossa atuação, nesse e em outros episódios. Podemos estar em frentes de batalha diferentes, mas, quando se tratar do combate às opressões e à desconstrução das desigualdades sociais, queremos somar forças sempre que possível.

Marcha das Vadias-DF, 2 de julho de 2013

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Transgressor é não ser machista – Gerald Thomas e a cultura do estupro

Por Bruna Seixas*

Recentemente, durante o lançamento de um livro seu em uma livraria do Rio de Janeiro, o diretor de teatro Gerald Thomas enfiou a mão entre as pernas de Nicole Bahls, do programa Pânico, e tocou-a insistentemente, enquanto ela tentava tirar a mão dele. A situação foi uma sucessão de absurdos.

Quando um dos entrevistadores perguntou se ele poderia passar um exercício pra ela se soltar, já que era sua primeira entrevista, o diretor a virou de costas, empurrou seu quadril contra o dela e simulou um ato sexual.

Ele fez graça do sotaque de Nicole e a tocou novamente, bagunçando seu cabelo e dizendo: “Ela tá muito confusa, né, coitada? Como ela é confusa!” Por fim, quando perguntaram qual conselho ele daria, de verdade, na primeira matéria dela, ele disse: “Chupe bem um pau”. Após as inúmeras humilhações, tudo, no fim das contas, foi resumido pelo programa a um “teatro de provocação”. Escondido sob o manto do “artista”, Gerald pode tudo.

A divulgação das fotos e do vídeo da matéria promoveram a espetacularização da violência cometida contra Nicole. No mesmo dia do fato, ela disse em seu twitter que ficou muito triste com o que aconteceu. Mas ninguém a ouviu.

Como sempre, muitas pessoas culpam a mulher, e não quem a violentou: “Se ela tivesse se dado ao respeito, isso não teria acontecido”, “Quem manda se vestir assim?”, “Ela se comporta como uma qualquer e ainda quer respeito?”, “Ela simplesmente teve o que gosta de provocar nos homens”, “Essa puta mereceu”.

Esse discurso é bastante difundido e muito comum inclusive em casos de estupro, numa sociedade em que a conduta da mulher está sempre sob julgamento e é frequentemente questionada e atacada pra justificar o ato do agressor. Toda mulher é ensinada, desde criança, a se comportar de forma a evitar um estupro: “Não use roupas curtas”, “não aceite bebidas de estranhos”, “não ande sozinha à noite”. Mas o mais grave é que, enquanto temos nosso comportamento tolhido e censurado frequentemente, nossa sociedade não ensina aos homens que eles não podem estuprar. Toda a responsabilidade é direcionada às vítimas, e as mulheres vivem num clima de insegurança constante. Isso é uma cultura de terror.

Gerald Thomas tentou justificar o abuso que cometeu dizendo o seguinte:

ESTUPRA? Como assim? So levantei a saia de alguem que estava usando trajes ousadamente ‘putos’, sentando no meu colo e …nada mais. Mas ISSO TAMBEM é teatro.

ORA BAHLS!!!

Não, Gerald Thomas, teatro seria se ela tivesse sido previamente informada da sua intenção de meter a mão na buceta dela e tivesse concordado com isso. Mas não foi, você agiu contra a vontade dela. Portanto, foi uma violência.

Ao contrário do que disse dela, ele não se considera “ousadamente puto” ao expor sua nudez quando lhe dá na telha, como numa entrevista que concedeu nu à revista TPM, ou quando mostrou seu pau à imprensa no mesmo dia em que violentou Nicole. Por que a nudez só é “ousadamente puta” quando é da mulher?

Ele ainda completou:

Vem uma menina, de (praticamente) bunda de fora, salto alto de “fuck me”, seios a mostra, dentro de um contexto chamado PANICO e eu (que não deixo me intimidar e gosto desse pessoal) entro no jogo e viro as cartas – e os intimido ! (que nada! Brincadeira também!) 

Segundo sua lógica perversa, já que o humor do programa é agressivo e invasivo, ele pode revidar enfiando a mão dentro do vestido da menina que trabalha lá e está cumprindo ordens. De acordo com essa lógica, ele também deveria ter sido violentado em todas as vezes que apareceu nu em público. Mas é mais cômodo descontar no corpo de uma mulher.

A questão é que, mesmo que ela estivesse nua, isso não quer dizer de forma alguma que estivesse pedindo pra ser tocada, e NINGUÉM, em nenhuma hipótese, tem o direito de tocar uma mulher sem o seu consentimento. Isso não é brincadeira, isso é violência. Dizer que a mulher “provocou” o estupro pela roupa que estava vestindo é, além de tudo, uma ofensa aos homens: pressupõe que são todos animais irracionais, incapazes de dominar um suposto “instinto” sexual violento. Mas sabemos que vocês são capazes de pensar e refletir antes de agir. Vocês são capazes de respeitar uma mulher.

Nessa situação, Nicole é vítima duas vezes: por ter tido a violência que sofreu exposta e desconsiderada no programa machista para o qual trabalha, em que o assédio e a humilhação são cometidos contra ela e as outras integrantes o tempo todo, e por ter sido violentada pelo homem que foi entrevistar.  É evidente o lugar subalterno reservado a ela nessas relações de poder, ao ser agredida na frente de muitas pessoas, sendo filmada por várias câmeras, numa livraria lotada, no exercício do próprio trabalho, sem que ninguém que assistia à cena fizesse nada em sua defesa. Se reagisse, ela poderia perder o emprego, já que seus patrões saíram em defesa do agressor.

Depois da repercussão do fato, ela disse: “Me desacostumei com esse tipo de humor. Cheguei em casa e fiquei abalada, constrangida. Mas depois, pensei um pouco e acho que faz parte do personagem. É uma oportunidade que estou tendo de voltar e isso faz parte do programa. Tenho que começar a separar o personagem da vida real”. Não é de se surpreender que, diante da naturalização da violência que sofreu por parte de todos que presenciaram a cena, ela tenha se convencido de que foi mesmo uma brincadeira. Nessa cultura de culpabilização da vítima, muitas mulheres silenciam as violências que sofrem.

Apesar disso, ele ainda teve coragem de dizer:

Eu, Gerald Thomas, faço a olho nu, na frente dos fotógrafos, das câmeras, das luzes, o que esse bando de carecas e pseudo moralistas gostaria de estar fazendo atrás de portas fechadas, com as luzes apagadas! EYES WIDE SHUT

Sim, muitos homens gostariam de fazer o que você fez, e é exatamente esse o problema. Muitos homens, assim como você, veem as mulheres como objetos à disposição para serem tocadas sem consentimento e acreditam que existimos para servir a eles e aos seus desejos. Nosso país oferece lições básicas de misoginia e desrespeito às mulheres a todo momento, ao explorar nossa nudez e a erotização dos nossos corpos na TV, nas revistas, no Carnaval – todas indústrias comandadas majoritariamente por homens -, ao usar nossos corpos pra vender cerveja ou qualquer outro produto como se fôssemos também mercadoria. É por isso que tantos homens acreditam que nossos corpos são públicos, disponíveis, e é por isso que toda mulher tem pelo menos uma história de assédio e horror pra contar: seja numa balada, na fila do banco, no médico, dentro de casa, no meio da rua ou até no próprio trabalho, como aconteceu com Nicole. Nós somos desrespeitadas cotidianamente e em qualquer lugar.

E o mais impressionante é que você, Gerald Thomas, se orgulha de cometer essa violência na frente das câmeras. Mas isso é resultado do lugar de conforto reservado aos homens na nossa sociedade, é resultado dessa cultura que nos ensina que quando a mulher diz “não” você tem que insistir até que ela diga “sim”, porque dizer “não” é desafiar o poder inquestionável do macho.

A masculinidade é social e historicamente construída, e o domínio dos homens sobre as mulheres está associado à sua especialização cultural no exercício da força bruta. A violência não é inerente à natureza masculina, é um dispositivo de controle de uma sociedade que ainda trata as mulheres como cidadãs de segunda categoria, como objetos de prazer e consumo dos homens. Mas é chocante como, ainda hoje, mesmo depois de tantas lutas vencidas rumo à igualdade entre os gêneros, nossa sociedade é tão machista e patriarcal a ponto de muitos homens se sentirem autorizados a se apropriarem à força do corpo de uma mulher. Vários homens entrevistados pelo programa afirmaram rindo que, se estivessem na mesma situação de Gerald Thomas, fariam o mesmo com Nicole. O psicólogo convocado pelo Pânico pra tentar nos fazer acreditar que não houve nada de errado na cena, referendou, mais uma vez, a violência cometida contra ela: “Cumpre registrar que a Nicole é irresistível”. Portanto, segundo ele, não há nenhum problema se qualquer homem resolver tocar uma mulher contra sua vontade, caso a considere irresistível. Isso é uma cultura do estupro.

Por isso, Gerald Thomas, homens como você não se veem como agressores, mesmo ignorando a resistência verbal e/ou física da mulher – como você ignorou as mãos de Nicole Bahls tentando te afastar de seu corpo -, porque muita gente encara esses comportamentos como a coisa mais normal do mundo. Realmente, não há nada de absurdo em ser opressor, porque esse é o padrão de comportamento masculino com o qual somos obrigadas a conviver diariamente. Transgressor é não ser machista.

Como se não bastasse, ele se achou o máximo por supostamente nos alertar sobre as falhas da nossa sociedade:

Somos todos da classe teatral e nossa função é apontar as VOSSAS falhas. E se VOCES se revoltam TANTO, então, já fico contente porque os alertei pra alguma coisa. O que? SIM:

1-        A mulher não é um objeto. Mas não deveria se apresentar como tal

2-        E os homens jamais deveriam se utilizar desse objeto de forma alguma

Seja como for: a única coisa que REALMENTE FIZ foi; tentar levantar a saia de Nicole Bahls e, pela expressão da cara dela nas fotos, she must have had a bahls!

Gerald Thomas, quem falhou foi você. Não há nada de transgressor em compactuar com a violência sexual e psicológica contra uma mulher, e não é você nem homem nenhum que pode dizer como devemos nos apresentar. Somos livres pra escolher como queremos nos vestir e nos comportar sem que isso justifique nenhum tipo de violência cometida contra nós. Você pressupõe que é permitido fazer o que quiser com as mulheres se, do seu ponto de vista, elas te parecem objeto. Mas você não tem esse direito. Ah, um lembrete: artistas também cometem crimes. E não há licença poética para a opressão.

Uma agressão a uma mulher é uma agressão a todas nós. Se ainda precisamos explicar por quê é inaceitável que alguém enfie a mão em qualquer parte do nosso corpo sem o nosso consentimento, existe algo muito errado com nossa sociedade. Cada vez que esse tipo de cena acontece e é amplamente divulgada e tratada com naturalidade, todas nós ficamos mais vulneráveis diante da violência sexual, do olhar de desconfiança da polícia e da sociedade quando denunciamos uma violência, da impunidade que faz homens se sentirem à vontade para estuprarem mulheres numa festa, no assento de um ônibus, numa escada de incêndio, num elevador, numa van, no meio da rua, em plena luz do dia. Assistir a essas violências sendo retratadas como piada contribui para a naturalização desse estado de alerta constante que nos é imposto. Toda mulher tem medo de ser estuprada. Mas nós não deveríamos viver com medo.

Gerald Thomas, nenhuma mulher pede para ser violentada, e reproduzir esse discurso é ser conivente com as violências que mulheres anônimas sofrem todos os dias, a todo momento, no Brasil e no mundo. Você, o Pânico e todas as outras pessoas e programas que contribuem para perpetuar a naturalização da violência contra as mulheres são responsáveis pela manutenção da cultura do estupro na nossa sociedade.

É por isso que a nossa luta ainda é tão extremamente necessária. É por isso que continuaremos questionando, denunciando, marchando e seguindo em frente, cada vez que uma violência for cometida contra uma de nós, até o dia em que conseguiremos destruir o patriarcado, até o dia em que a violência de gênero acabe, até que todas sejamos livres. Enquanto vocês…

Vocês são o retrato patético de uma masculinidade retrógrada que agoniza na tentativa de manter seus privilégios. E vocês vão ficar pra trás.

 

*Bruna Seixas, integrante do coletivo da Marcha das Vadias/DF – https://marchadasvadiasdf.wordpress.com

 

 

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Poema sobre aborto legal e seguro

Aborto legal e seguro para não morrer

Não se pode mais esperar para socorrer

O nosso grito é o direito ao nosso corpo

Nossa bandeira é a legalização e descriminalização do aborto!

 

Mulheres ricas saem do país, abortam e abortam quando querem

Não tem essa, mulher que quer abortar, abortará.

Mulheres pobres enfiam agulha de crochê, tomam chá,

E quando por sorte não morremos

Sofremos com a falta de apoio, e não porque queremos.

 

Não me obrigue a vê essa barriga crescendo

Não me obrigue a mudar minha vida devido ao seu desejo

Não me envergonhe, quero ter o meu direito.

Aborto Seguro e Legal já!

 

Nós mulheres estamos morrendo, morrendo a todo tempo.

Não existe intervenção estatal que nos ajude

Só a que nos julgue, nos maltrate, nos machuque

Queremos uma posição,

Estado enxergue nossa precaução.

 

Somos mulheres de todas as cores,

somos mulheres unidas que acreditamos na nossa força

No nosso axé, na nossa luta.

A nossa união mudará essa realidade social,

queremos uma vida mais humana e leal.

 

Estado, preste atenção no machismo, misoginia e racismo

fazem com que nossas mulheres negras sejam as que mais sofram.

Olhe para a sua ignorância e olhe para seu egoísmo.

Não queremos mais sangrar até a morte.

Queremos ter o direito a escolha e a nossa sorte

Vamos levantar, somos fortes.

Nosso corpo não te pertence.

Seu desprezo não me faz mostrar os dentes.

 

Somos mulheres guerreiras, latinas americanas

Caribenhas e Africanas

 

É a nossa necessidade que faz com que gritemos.

Que faz com que lutemos.

 

Quero o direito de escolher,

escolher e não morrer.

 

 

Poema escrito por Rayane Noronha

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“eu, minha filha e todas as mulheres do mundo”, relato de Regilane Fernandes

Abaixo, segue mais um relato emocionante que nos enviaram por e-mail, sobre mãe e filha, preconceito, violência, luta e sobre a importância “de ser Mulher e de ser COLETIVA”.

*

Prezadas companheiras,

Sou mãe da Bruna, menininha que aparece em destaque nas fotos do facebook da Marcha, no sábado.

Uma foto linda em que aparece tranqüila e bela, com o Espelho de Vênus pintado no rosto.

Símbolo da luta feminina, feminista.

Mais que isso: símbolo da trajetória de algumas das nossas sábias antecessoras.

Símbolo que nos une as nossas ancestrais.

Símbolo de suas vidas-mortes marcadas pela violência moral, psicológica, física, sexual… mas, também marcada por sua força, resistência, pioneirismo, humanidade, cumplicidade com Gaia, a Grande Mãe.

Foi com essa consciência que levei minha filha Bruna à Marcha.

Como momento de conexão dela com suas ancestrais e com suas contemporâneas… todas mulheres… E, em especial naquele dia, mulheres cercadas por homens que não têm medo de expressar sua metade feminina, feminista, não-machista.

Pois bem, uma amiga muito querida me mostrou a pouco a foto da Bruna no face.

Me emocionei com tudo.

A  foto.

O “tema” alusivo a educação como processo libertário.

Os comentários carinhosos.

Infelizmente, no meio deles, uma moça (não vou chamá-la companheira porque esta AINDA não é) colocou como comentário apenas a palavra “ridículo”.

Vejam, não tenho facebook por opção.

Então, escrevo este email pra dizer de alguma forma a esta moça que eu entendo sinceramente sua atitude.

Parece-me que ela é, como infelizmente muitos e muitas ainda são, um ser alienado e alienante, que não conseguiu passar pelos processos que resignificam nossa visão e nossa forma de ser e estar no mundo.

Se tivesse conseguido isso, saberia que ridícula é a fome.

Ridícula é a guerra.

Ridícula é a quantidade de crianças que sofrem violência doméstica sob o consentimento silencioso de uma sociedade que teima em fechar os olhos para as atrocidades cometidas no ambiente familiar (não vou chamar “seio familiar” porque “seio” é alusivo a peito, colo. E peito é sagrado, é lugar de aconchego, amor, cuidado e não de violência).

Ridículo, moça, é ficar em casa parada enquanto mulheres em todo o mundo morrem mutiladas, estupradas, violadas. Violência que, na grande maioria das vezes, lhes causa estrago mais no espírito que no corpo.

Ridícula é essa sociedade de classes que nos torna muitas vezes sectários/as, egoístas, desumanos/as.

Ridículo é não perceber o significado daquela Marcha…

Ridículo é não perceber que o Brasil mudou e está mudando.

E precisamos acompanhar e fazer juntas essa mudança.

E mudou tanto que é hoje governado por uma MULHER.

Mulher que sofreu muito, por ser cidadã consciente de direitos.

Mulher que foi torturada em tempos de ditadura pra que você usufruisse hoje exatamente disso que está fazendo: o direito da livre expressão.

Mulher que também foi, um dia, tachada de ridícula, terrorista, anarquista e, talvez, até vadia.

Ridículo seria eu, como mãe da Bruna, ficar calada diante do seu comentário infeliz, moça.

E não lhe dizer essas coisas como uma oportunidade de lhe trazer pra lucidez de ser Mulher e de ser COLETIVA!

Ridículo seria eu não acreditar que uma hora dessas essa sua cegueira vai passar e você vai conseguir, assim como eu, rir e indignar-se na medida certa que a vida espera de nós.

(Regilane Fernandes)

Foto: Alexandra Martins / Marcha das Vadias DF 2012

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“Por que ser vadia?”, texto de Gil Piauilino

Por que ser vadia?

Em janeiro de 2011, na Escola de Direito Osgode Hall em Toronto no Canadá, um policial ministrava uma palestra sobre segurança para as/os estudantes. Em determinado momento da palestra disse: “As mulheres devem evitar vestir-se como vadias, para não se tornarem vítimas de ataques”. Logo depois as estudantes dessa mesma Universidade saíram às ruas em protesto contra o discurso de culpabilização das vítimas de violência sexual e de qualquer outra forma de violência contra as mulheres, e dizendo não, minha roupa não é um convite ao estupro. Foi a primeira Slut Walk!

No Brasil, no segundo semestre desse mesmo ano, traduzindo a “Slut Walk”, a Marcha das Vadias ocorreu em diversas cidades brasileiras. Internacionalmente a Marcha atingiu mais de 10 países. Este ano a Marcha das Vadias da Capital Federal segue o calendário da Marcha Nacional da Vadias, 26 de maio. Em 2011 foram mobilizadas mais de 2 mil pessoas e nesse ano a expectativa é ainda maior: 5 mil mulheres, homens e crianças marchando pelo fim da violência contra a mulher, por seu direito de ir e vir sem sofrer nenhum tipo de humilhação, repressão ou violência.

A violência contra a mulher assume as mais variadas formas e justificativas, quantos e quantas não se pegaram dizendo ou pensando “Mas também com aquela roupa…” “Beber que nem homem dá nisso!” O comportamento da mulher sempre foi vigiado pela Igreja, pelo Estado, pelos pais, pelo tio, pelo irmão mais velho, pelo namorado. Esses últimos reproduzem o que a moral vigente colocou, como se a forma mais justa de nos relacionarmos fosse à subjugação de um ser pelo outro. Não importa quem sustente a casa, não importa em que grau na relação de poder a mulher se encontre, a vigilância predomina.

O misto dessa relação que subjuga a mulher, essa concepção de comportamento de que mulher é a frágil, a dócil, a mãe que padece no paraíso, – chegando até a santificar com o termo o “dom de dar a vida”. Qualquer comportamento que vá contra, não seguindo esses padrões, é encarado e respondido com violência, seja ela psicológica, física, moral, sexual ou patrimonial.

Segundo a pesquisa Mulheres Brasileiras nos Espaços Público e Privado da Fundação Perseu Abramo/SESC, uma em cada cinco mulheres consideram já ter sofrido alguma vez “algum tipo de violência de parte de algum homem, conhecido ou desconhecido”. Diante de 20 modalidades de violência citadas, no entanto, duas em cada cinco mulheres (40%) já sofreram alguma, ao menos uma vez na vida, sobretudo algum tipo de controle ou cerceamento (24%), alguma violência psíquica ou verbal (23%), ou alguma ameaça ou violência física propriamente dita (24%).

A nossa sociedade marcada pelo patriarcado exerce em sua relação, não por acaso, uma moral burguesa, que perpassa pelo homem o poder de mando e desmando nas relações familiares e que estende a ele a autoridade sobre a mulher e os/as filhos/as e empregados/as como sua propriedade, o coloca em uma posição superior em relação à mulher, que lhe permitia em âmbito privado, não ter suas atitudes questionadas.

Toda essa lógica ainda é concedida tanto por autoridades religiosas que compactuam com essa dominação, quanto pelo modelo de sociedade conservadora que temos e o seu modo de produção, que acabam por estimular esse tipo de hierarquia que promove a desigualdade entre homens e mulheres.

O que antes era visto apenas como caráter privado, hoje depois de muita luta vem se tornando também de esfera pública. Temos leis específicas que visam proteger as mulheres de seus agressores, tendo a Lei Maria da Penha como a principal delas. Atualmente o Governo Brasileiro por meio da SPM – Secretaria de Políticas para as Mulheres visa atender as essas e outras demandas que perpassam pelo recorte de gênero. O Estado não está dissociado da sociedade e dela compõe, e não fica livre também de visões, percepções conservadoras que incidem diretamente nas políticas. Também o Movimento de Mulheres exerce um papel fundamental de pressionar e por vezes pautar a que lógica essas políticas devem ser concebidas, visando sempre a autonomia da mulher e, com isso, sua emancipação.

Os números revelam que lógica de sociedade vivemos: segundo o Relatório Anual de 2011 do Centro de Atendimento à Mulher – Ligue 180, 93,52% das ligações com relatos de violência eram de violência doméstica e familiar; 72,23% dos casos são acometidos por companheiros e cônjuges das vítimas e 2,23% são namorados das mesmas. Há ainda um elevado número de casos de violência cometidos por ex-maridos (11,82%) e ex-namorados (4,47%). Isso demonstra que em quase 91% das agressões são acometidas por pessoas com que as vítimas tem ou tiveram vínculos afetivo.

Pode-se dizer que o âmbito familiar, sendo a família no molde conservador encarado como uma das instituições que reproduzem a lógica patriarcal, mesmo não ocorrendo violência física, há a reprodução advindas dele, o sexismo, o machismo, a homo-lesbo-bi-transfobia, misoginia, entre tantas outras formas de opressão que são manifestadas nos mais diversos lugares de convivência social.

Finalizando os números, segundo o Relatório Anual de 2011, sabe-se que 59,51% das vítimas não dependem financeiramente do agressor. De posse desses índices problematiza-se que a elaboração das políticas devem construir mecanismos para além da autonomia financeira, mas também emocional e social das mulheres.

Devemos mudar essa nossa cultura conservadora e machista que ditam regras sociais, abrindo espaço para todo e qualquer tipo de violência contra a mulher. Devemos nos espaços privados começar a repensar qual papel você exerce e quais atitudes são reproduzidas. Temos que questionar, desconstruir, não encarar como natural que a figura feminina sempre está numa relação desvantagem, o social é construído e o acaso não tem vez nas relações de poder.

A Marcha das Vadias é um movimento que vai às ruas para questionar o papel que nos é colocado enquanto mulheres. A palavra vadia tanta vezes usada para ofender e machucar, hoje passa por uma ressignificação, estratégia essa usada pelo movimento. Porque somos chamadas de vadias a todo o momento, seja diretamente quando falamos sim e o sexo rola, seja quando dizemos não e o ego masculino fica ferido, ou seja, em qualquer mesa de bar, quando um desses casos é contado para os amigos. Somos chamadas de vadias se exercemos a nossa sexualidade livremente, tal qual o homem exerce e sendo estimulado para isso, se caso quiser. Somos chamadas de vadias se usamos um decote, uma saia, uma roupa justa enquanto essa vigilância sobre os corpos não é voltada em nenhum grau ao homem. Somos chamadas de vadias por transar com quem e quantos quisermos, vestir o que quisermos, nos comportar da maneira que mais nos agrada, somos chamadas de vadias por queremos ser livres.

Se ser livre é ser vadia, somos todas Vadias!

 

(Gil Piauilino, estudante de Serviço Social na UnB, integrante do Coletivo da Marcha das Vadias/DF)

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Ligue 180 registra 53% de risco de morte em relatos de violência contra as mulheres

O texto abaixo foi retirado do site da Secretaria de Políticas para as Mulheres: http://www.sepm.gov.br/noticias/ultimas_noticias/2012/04/ligue-180-registra-53-de-risco-de-morte-em-relatos-de-violencia-contra-as-mulheres

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Ligue 180 registra 53% de risco de morte em relatos de violência contra as mulheres

De janeiro a março, o Ligue 180 efetuou 201.569 atendimentos. Dentre os 24.775 relatos de violência, a física (de lesão corporal leve ao assassinato) é a mais frequente, com 14.296 atendimentos (58%); 7.000 (53%) se referem a riscos de morte dos 13.296 relatados

No primeiro trimestre deste ano, a violência de gênero representou 53% de risco de morte para as mulheres. Essa é a principal revelação dos 201.569 registros da Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR), nos meses de janeiro a março de 2012.

O relatório trimestral do Ligue 180 foi apresentado pela ministra Eleonora Menicucci, da SPM, na quinta-feira (26/4), em reunião da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) da Violência contra a Mulher no Brasil, no Senado Federal. “Os dados do Ligue 180 nos trazem a dimensão da urgência com que a violência contra as mulheres deve ser enfrentada. É preciso garantir que as vidas das mulheres sejam salvas. Para isso, o fim da impunidade é uma tarefa a ser incorporada no dia a dia pelo poder público e pela sociedade brasileira”, afirma a ministra Eleonora Menicucci.

Dos cinco tipos de violência enquadrados na Lei Maria da Penha (física, sexual, psicológica, moral e patrimonial), a física é a mais frequente. Nela estão classificadas agressões que vão desde a lesão corporal leve ao assassinato. Ao longo do primeiro trimestre de 2012, foram efetuados 14.296 atendimentos, correspondentes a 58% dos registros. Sete mil (53%) se referem a riscos de morte das mulheres, seguido de espancamentos em 6.025 (45%) dos casos. Dentre as demais violências punidas pela Lei Maria da Penha, os atendimentos apontam: psicológica em 3.305 (13%) dos registros, moral em 2.973 (12%), sexual em 460 (2%) e patrimonial em 425 (2%).

O agressor continua sendo companheiro e cônjuge da vítima, conforme percebido em 12.970 (69,7%) dos registros, seguido por ex-maridos com 2.451 (13,2%). Dentre os 24.775 relatos de violência – excluindo-se 11.245 casos não informados -, em 8.915 (65,9%) dos casos, filhas e filhos presenciaram as agressões cometidas contra suas mães. Em 2.580 (24,5%) dos registros, elas e eles sofreram violência junto com suas mães.

SERVIÇOS PÚBLICOS – Dos 101.413 encaminhamentos feitos pelo Ligue 180 para os serviços públicos – nos três primeiros meses deste ano -, 52.788 foram para a segurança pública: 60% direcionados para o serviço 190, da Polícia Militar, e 23% para as delegacias especializadas de atendimento à mulher (DEAM). Num universo de 374 DEAMs no país, somente o Ligue 180 encaminhou 12.078 casos nos três primeiros meses de 2012.

Outro destaque dos dados do Ligue 180 é o tempo de relação da mulher em situação de violência com o agressor. Dos registros informados neste primeiro trimestre, em 7.761 (42,6%) dos casos, o agressor tinha dez anos ou mais de relacionamento com a vítima, em 3.422 (18,8%) entre cinco e dez anos de relação afetiva e em 1.875 (10,3%) entre um e dois anos de relacionamento.

DADOS CONSOLIDADOS: 2006 a 2012 – Desde a sua criação em 2005, o Ligue 180 já soma 2.527.493 atendimentos. De 2006 a 2012, foram registrados 603.906 relatos de violência tipificados de acordo com a Lei Maria da Penha: física 182.857 (30%), psicológica 76.620 (12,8%), moral 32.168 (5,4%), sexual 5.899 (1%) e patrimonial 4.920 (0,8%).

Nesses cinco anos e meio de vigência da Lei Maria da Penha, o risco de morte foi verificado em 92.684 (52%) dos atendimentos informados, e de espaçamentos em 77.954 (44%). Entre os 248.843 registros feitos pelo Ligue 180, o agressor era cônjuge ou companheiro da vítima em 153.078 (61,5%) dos casos; ex-marido, em 18.805 (7,5%); ou namorado em 5.621 (2,2%).

Das 131.047 informações coletadas acerca do tempo de relacionamento entre a vítima e o agressor, a relação estava estabelecida entre dez anos ou mais em 48.894 (37,3%) dos casos; entre cinco e dez anos em 27.483 (21%); entre um e dois anos em 15.732 (12%); e entre dois e três anos em 12.470 (9,5%) das situações. Em relações de até seis meses, a violência foi estabelecida em 5.530 (4,2%) dos casos.

A frequência da violência foi registrada em 228.180 atendimentos, sendo diária em 141.585 (62%) dos relatos e semanal em 44.987 (19,7%) das situações que chegaram ao Ligue 180. Nos últimos 27 meses – janeiro de 2010 a março de 2012 -, o Ligue 180 tem registrado a relação de filhas e filhos com a agressão. Verificou-se que nos 106.889 relatos de violência, 71.130 (66,5%) foram presenciadas por filhas e filhos. E em 19.418 (18,2%) das situações, elas e eles foram agredidos junto com suas mães.

Em novembro de 2011, o Ligue 180 expandiu sua cobertura para Espanha, Itália e Portugal. Nesses quatro meses, o serviço registrou 70 ligações de brasileiras no exterior, tendo efetuado 18 atendimentos.

LIGUE 180 – Criada em 2005 pela SPM e parceiros, a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 é um serviço de utilidade pública que presta informações e orientações sobre onde às mulheres podem recorrer caso sofram algum tipo de violência. O atendimento funciona 24 horas, todos os dias da semana, inclusive finais de semana e feriados.

Assessoria de Comunicação Social

Secretaria de Políticas para as Mulheres – SPM

Presidência da República – PR

61 3411 4214 / 4228 / 4229

http://www.spm.gov.br

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Carta do Coletivo Unificado de Mulheres da UnB contra a presença da Polícia Militar nos campi da Universidade de Brasília

Segue abaixo a carta do Coletivo Unificado de Mulheres da UnB que foi lida no dia 14 de março de 2012, após o debate sobre a presença da PM na UnB promovido pela atual gestão do Diretório Central dos Estudantes,  “Aliança Pela Liberdade”, que aconteceu no Auditório Joaquim Nabuco. A carta foi muito aplaudida e empoderadora naquele contexto, situado no prédio dos cursos mais elitizados da UnB, em que uma mesa exclusiva de homens brancos discutia um tema tão complexo e que afeta principalmente as pessoas que não estavam representadas ali.

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SEGURANÇA PRA QUEM?!

A falta de segurança da UnB não é – nem será – resolvida pela presença da Polícia Militar nos campi. Assim como não o é em nenhum lugar do DF ou do Brasil. Enquanto gastamos tempo discutindo “PM: sim ou não”, o verdadeiro problema da UnB é mascarado.

Em um universo de mais de 30 mil estudantes, professorxs e servidorxs, temos…

menos de 10 carros para fazer a ronda do estacionamento

50 vigilantes por turno (20 concursados e 30 terceirizados)

120 porteiros terceirizados por turno

rádios e iluminação insuficientes

falta de capacitação

falta de vigilantes mulheres

pouquíssimas linhas de ônibus que adentram o campus (péssimo quadro do transporte público do DF)

Medidas simples poderiam mudar completamente a realidade da UnB. Além de iluminação e capacitação, um exemplo seria o retorno do concurso para o cargo de vigilante, o qual foi proibido durante o governo FHC. Reivindicamos a reabertura desse concurso! O que fazer para dar segurança axs estudantes que precisam pegar ônibus na L2? Colocar mais ônibus circulando dentro da UnB, ora. Entre outras medidas PRÁTICAS simples que melhorariam EFETIVAMENTE a nossa segurança, afinal, como foi dito, a PM está no campus e nada foi resolvido.

Além disso, mais do que ineficaz, a presença da PM representa uma verdadeira interferência no ambiente acadêmico e criativo que é a universidade. Não é preciso falar na ditadura, onde homens fardados, com revólveres e cassetetes, reprimiam e agrediam manifestantes. Basta pegar o exemplo da USP, onde, em 2010 e 2011, a PM invadiu assembleias e manifestações, prendeu, bateu, jogou gás lacrimogêneo em estudantes e servidores e transformou o espaço de debate em prisão.

É por isso que alguns setores da sociedade defendem tanto o policiamento ostensivo no campus, afinal, pra resolver o problema da segurança que não é.

No DF, podemos recordar de que lado estava a PM no Fora Arruda, nas manifestações pelo Passe Livre e do Santuário dos Pajés: não era dxs estudantes! A mesma PM que dá bacú em qualquer negro andando de manhã-tarde-noite pela rua. Ou que assovia para mulheres de mini-saia, em vez de protegê-las. Ou que bate em travestis da W3, em vez de prender quem o faz. Não é essa PM que queremos na UnB, no DF, nem no mundo!

Além de tratar o debate de forma reducionista, como se a segurança dependesse da presença da PM, a gestão do DCE “Aliança Pela Liberdade” até hoje não reconhece o coletivo como interlocutor fundamental para esse debate, por isso nos manifestamos desta forma. E como vocês podem ver, não há nenhuma mulher nesta mesa, debatendo um tema que é tão caro para nós.

Para falar em segurança, precisamos escutar quem mais é vulnerável em sua ausência: mulheres, LGBTs e negr@s. Não adianta um homem branco de classe alta vir falar como é ser mulher, lésbica, travesti, negra e/ou pobre da Universidade de Brasília.

Desde 2011, o Coletivo Unificado de Mulheres da UnB tem se mobilizado! Realizamos atos na L2 e na reitoria, reuniões com o DFTrans, Secom UnB e CONSEG, além de debates sobre o tema da segurança, de forma mais ampla. De 26 a 30 de março, vamos promover a Semana das Calouras do 1o/2012, onde esse é um dos temas centrais. Convidamos todas as mulheres da Universidade a se juntarem a nós, estudantes, professoras e servidoras: juntas somos fortes!

Por uma segurança comunitária JÁ

Livre de racismo, sexismo e qualquer violência!

Contato: coletivodemulheresunb@gmail.com

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