“Fiz dois abortos e não me culpo”, afirma a jornalista Marina Caruso

“Fiz dois abortos e não me culpo”, afirma a jornalista Marina Caruso

Redatora-chefe de Marie Claire, grávida de quase sete meses, conta porque decidiu interromper duas gestações anteriormente

MARINA CARUSO, REDATORA-CHEFE DE MARIE CLAIRE, CONTA PORQUE INTERROMPEU DUAS GESTAÇÕES ANTERIORMENTE (Foto: Márcio Scavone)MARINA CARUSO, REDATORA-CHEFE DE MARIE CLAIRE, CONTA PORQUE INTERROMPEU DUAS GESTAÇÕES ANTERIORMENTE (FOTO: MÁRCIO SCAVONE)

“Na semana em que este artigo é publicado, completo seis meses e meio de gestação. Quando o bebê nascer, estarei com 34 anos e 8 meses. Temo horas insones, amamentação e dilemas da educação infantil, mas sei que estou emocional e profissionalmente pronta para ser mãe. O mesmo não aconteceu em 1999 e em 2002, quando, aos 19 e 22 anos, decidi interromper duas gestações.

Nas duas ocasiões, achei que o coito interrompido resolveria minha resistência à pílula e a de meu então namorado à camisinha. Não deu certo e acabamos numa clínica de abortos clandestina em uma maternidade na Zona Sul de São Paulo. Em uma semana, fazia-se a avaliação do caso. Na seguinte, marcava-se o procedimento. Lembro-me com nitidez da sala de cirurgia onde fiz o que o médico disse ser “uma curetagem supernormal em países onde o aborto é legalizado”. Por R$ 1.200 (o equivalente a R$ 3.000 hoje), o problema foi resolvido em apenas três horas. Ao despertar da sedação senti um pouco de cólica e nada mais.

Não quero fazer apologia do aborto. No Brasil, isso é crime, com pena de um a três anos de prisão. Mas seria leviana em dizer que me sinto mal por tê-lo feitoA compreensão dos meus pais e a minha convicção de que aquele não era o momento para engravidar me eximem de culpa. Tive (e tenho!) uma mãe maravilhosa: coerente na ação e no discurso nos momentos mais difíceis da minha criação. E sempre soube que o mínimo que eu teria de fazer era tentar me igualar a ela. Aos 19 e aos 22 anos, quando só pensava em mim mesma, nos gatinhos e em baladas, isso seria impossível. Aos 34, não será fácil. Mas além de uma mãe dedicada, meu filho terá um pai incrível. Orgulhoso não só dele, mas da mulher que escolheu.

 

Fonte: http://revistamarieclaire.globo.com/Comportamento/noticia/2013/05/fiz-dois-abortos-e-nao-me-culpo-afirma-jornalista-marina-caruso.html

Transgressor é não ser machista – Gerald Thomas e a cultura do estupro

Por Bruna Seixas*

Recentemente, durante o lançamento de um livro seu em uma livraria do Rio de Janeiro, o diretor de teatro Gerald Thomas enfiou a mão entre as pernas de Nicole Bahls, do programa Pânico, e tocou-a insistentemente, enquanto ela tentava tirar a mão dele. A situação foi uma sucessão de absurdos.

Quando um dos entrevistadores perguntou se ele poderia passar um exercício pra ela se soltar, já que era sua primeira entrevista, o diretor a virou de costas, empurrou seu quadril contra o dela e simulou um ato sexual.

Ele fez graça do sotaque de Nicole e a tocou novamente, bagunçando seu cabelo e dizendo: “Ela tá muito confusa, né, coitada? Como ela é confusa!” Por fim, quando perguntaram qual conselho ele daria, de verdade, na primeira matéria dela, ele disse: “Chupe bem um pau”. Após as inúmeras humilhações, tudo, no fim das contas, foi resumido pelo programa a um “teatro de provocação”. Escondido sob o manto do “artista”, Gerald pode tudo.

A divulgação das fotos e do vídeo da matéria promoveram a espetacularização da violência cometida contra Nicole. No mesmo dia do fato, ela disse em seu twitter que ficou muito triste com o que aconteceu. Mas ninguém a ouviu.

Como sempre, muitas pessoas culpam a mulher, e não quem a violentou: “Se ela tivesse se dado ao respeito, isso não teria acontecido”, “Quem manda se vestir assim?”, “Ela se comporta como uma qualquer e ainda quer respeito?”, “Ela simplesmente teve o que gosta de provocar nos homens”, “Essa puta mereceu”.

Esse discurso é bastante difundido e muito comum inclusive em casos de estupro, numa sociedade em que a conduta da mulher está sempre sob julgamento e é frequentemente questionada e atacada pra justificar o ato do agressor. Toda mulher é ensinada, desde criança, a se comportar de forma a evitar um estupro: “Não use roupas curtas”, “não aceite bebidas de estranhos”, “não ande sozinha à noite”. Mas o mais grave é que, enquanto temos nosso comportamento tolhido e censurado frequentemente, nossa sociedade não ensina aos homens que eles não podem estuprar. Toda a responsabilidade é direcionada às vítimas, e as mulheres vivem num clima de insegurança constante. Isso é uma cultura de terror.

Gerald Thomas tentou justificar o abuso que cometeu dizendo o seguinte:

ESTUPRA? Como assim? So levantei a saia de alguem que estava usando trajes ousadamente ‘putos’, sentando no meu colo e …nada mais. Mas ISSO TAMBEM é teatro.

ORA BAHLS!!!

Não, Gerald Thomas, teatro seria se ela tivesse sido previamente informada da sua intenção de meter a mão na buceta dela e tivesse concordado com isso. Mas não foi, você agiu contra a vontade dela. Portanto, foi uma violência.

Ao contrário do que disse dela, ele não se considera “ousadamente puto” ao expor sua nudez quando lhe dá na telha, como numa entrevista que concedeu nu à revista TPM, ou quando mostrou seu pau à imprensa no mesmo dia em que violentou Nicole. Por que a nudez só é “ousadamente puta” quando é da mulher?

Ele ainda completou:

Vem uma menina, de (praticamente) bunda de fora, salto alto de “fuck me”, seios a mostra, dentro de um contexto chamado PANICO e eu (que não deixo me intimidar e gosto desse pessoal) entro no jogo e viro as cartas – e os intimido ! (que nada! Brincadeira também!) 

Segundo sua lógica perversa, já que o humor do programa é agressivo e invasivo, ele pode revidar enfiando a mão dentro do vestido da menina que trabalha lá e está cumprindo ordens. De acordo com essa lógica, ele também deveria ter sido violentado em todas as vezes que apareceu nu em público. Mas é mais cômodo descontar no corpo de uma mulher.

A questão é que, mesmo que ela estivesse nua, isso não quer dizer de forma alguma que estivesse pedindo pra ser tocada, e NINGUÉM, em nenhuma hipótese, tem o direito de tocar uma mulher sem o seu consentimento. Isso não é brincadeira, isso é violência. Dizer que a mulher “provocou” o estupro pela roupa que estava vestindo é, além de tudo, uma ofensa aos homens: pressupõe que são todos animais irracionais, incapazes de dominar um suposto “instinto” sexual violento. Mas sabemos que vocês são capazes de pensar e refletir antes de agir. Vocês são capazes de respeitar uma mulher.

Nessa situação, Nicole é vítima duas vezes: por ter tido a violência que sofreu exposta e desconsiderada no programa machista para o qual trabalha, em que o assédio e a humilhação são cometidos contra ela e as outras integrantes o tempo todo, e por ter sido violentada pelo homem que foi entrevistar.  É evidente o lugar subalterno reservado a ela nessas relações de poder, ao ser agredida na frente de muitas pessoas, sendo filmada por várias câmeras, numa livraria lotada, no exercício do próprio trabalho, sem que ninguém que assistia à cena fizesse nada em sua defesa. Se reagisse, ela poderia perder o emprego, já que seus patrões saíram em defesa do agressor.

Depois da repercussão do fato, ela disse: “Me desacostumei com esse tipo de humor. Cheguei em casa e fiquei abalada, constrangida. Mas depois, pensei um pouco e acho que faz parte do personagem. É uma oportunidade que estou tendo de voltar e isso faz parte do programa. Tenho que começar a separar o personagem da vida real”. Não é de se surpreender que, diante da naturalização da violência que sofreu por parte de todos que presenciaram a cena, ela tenha se convencido de que foi mesmo uma brincadeira. Nessa cultura de culpabilização da vítima, muitas mulheres silenciam as violências que sofrem.

Apesar disso, ele ainda teve coragem de dizer:

Eu, Gerald Thomas, faço a olho nu, na frente dos fotógrafos, das câmeras, das luzes, o que esse bando de carecas e pseudo moralistas gostaria de estar fazendo atrás de portas fechadas, com as luzes apagadas! EYES WIDE SHUT

Sim, muitos homens gostariam de fazer o que você fez, e é exatamente esse o problema. Muitos homens, assim como você, veem as mulheres como objetos à disposição para serem tocadas sem consentimento e acreditam que existimos para servir a eles e aos seus desejos. Nosso país oferece lições básicas de misoginia e desrespeito às mulheres a todo momento, ao explorar nossa nudez e a erotização dos nossos corpos na TV, nas revistas, no Carnaval – todas indústrias comandadas majoritariamente por homens -, ao usar nossos corpos pra vender cerveja ou qualquer outro produto como se fôssemos também mercadoria. É por isso que tantos homens acreditam que nossos corpos são públicos, disponíveis, e é por isso que toda mulher tem pelo menos uma história de assédio e horror pra contar: seja numa balada, na fila do banco, no médico, dentro de casa, no meio da rua ou até no próprio trabalho, como aconteceu com Nicole. Nós somos desrespeitadas cotidianamente e em qualquer lugar.

E o mais impressionante é que você, Gerald Thomas, se orgulha de cometer essa violência na frente das câmeras. Mas isso é resultado do lugar de conforto reservado aos homens na nossa sociedade, é resultado dessa cultura que nos ensina que quando a mulher diz “não” você tem que insistir até que ela diga “sim”, porque dizer “não” é desafiar o poder inquestionável do macho.

A masculinidade é social e historicamente construída, e o domínio dos homens sobre as mulheres está associado à sua especialização cultural no exercício da força bruta. A violência não é inerente à natureza masculina, é um dispositivo de controle de uma sociedade que ainda trata as mulheres como cidadãs de segunda categoria, como objetos de prazer e consumo dos homens. Mas é chocante como, ainda hoje, mesmo depois de tantas lutas vencidas rumo à igualdade entre os gêneros, nossa sociedade é tão machista e patriarcal a ponto de muitos homens se sentirem autorizados a se apropriarem à força do corpo de uma mulher. Vários homens entrevistados pelo programa afirmaram rindo que, se estivessem na mesma situação de Gerald Thomas, fariam o mesmo com Nicole. O psicólogo convocado pelo Pânico pra tentar nos fazer acreditar que não houve nada de errado na cena, referendou, mais uma vez, a violência cometida contra ela: “Cumpre registrar que a Nicole é irresistível”. Portanto, segundo ele, não há nenhum problema se qualquer homem resolver tocar uma mulher contra sua vontade, caso a considere irresistível. Isso é uma cultura do estupro.

Por isso, Gerald Thomas, homens como você não se veem como agressores, mesmo ignorando a resistência verbal e/ou física da mulher – como você ignorou as mãos de Nicole Bahls tentando te afastar de seu corpo -, porque muita gente encara esses comportamentos como a coisa mais normal do mundo. Realmente, não há nada de absurdo em ser opressor, porque esse é o padrão de comportamento masculino com o qual somos obrigadas a conviver diariamente. Transgressor é não ser machista.

Como se não bastasse, ele se achou o máximo por supostamente nos alertar sobre as falhas da nossa sociedade:

Somos todos da classe teatral e nossa função é apontar as VOSSAS falhas. E se VOCES se revoltam TANTO, então, já fico contente porque os alertei pra alguma coisa. O que? SIM:

1-        A mulher não é um objeto. Mas não deveria se apresentar como tal

2-        E os homens jamais deveriam se utilizar desse objeto de forma alguma

Seja como for: a única coisa que REALMENTE FIZ foi; tentar levantar a saia de Nicole Bahls e, pela expressão da cara dela nas fotos, she must have had a bahls!

Gerald Thomas, quem falhou foi você. Não há nada de transgressor em compactuar com a violência sexual e psicológica contra uma mulher, e não é você nem homem nenhum que pode dizer como devemos nos apresentar. Somos livres pra escolher como queremos nos vestir e nos comportar sem que isso justifique nenhum tipo de violência cometida contra nós. Você pressupõe que é permitido fazer o que quiser com as mulheres se, do seu ponto de vista, elas te parecem objeto. Mas você não tem esse direito. Ah, um lembrete: artistas também cometem crimes. E não há licença poética para a opressão.

Uma agressão a uma mulher é uma agressão a todas nós. Se ainda precisamos explicar por quê é inaceitável que alguém enfie a mão em qualquer parte do nosso corpo sem o nosso consentimento, existe algo muito errado com nossa sociedade. Cada vez que esse tipo de cena acontece e é amplamente divulgada e tratada com naturalidade, todas nós ficamos mais vulneráveis diante da violência sexual, do olhar de desconfiança da polícia e da sociedade quando denunciamos uma violência, da impunidade que faz homens se sentirem à vontade para estuprarem mulheres numa festa, no assento de um ônibus, numa escada de incêndio, num elevador, numa van, no meio da rua, em plena luz do dia. Assistir a essas violências sendo retratadas como piada contribui para a naturalização desse estado de alerta constante que nos é imposto. Toda mulher tem medo de ser estuprada. Mas nós não deveríamos viver com medo.

Gerald Thomas, nenhuma mulher pede para ser violentada, e reproduzir esse discurso é ser conivente com as violências que mulheres anônimas sofrem todos os dias, a todo momento, no Brasil e no mundo. Você, o Pânico e todas as outras pessoas e programas que contribuem para perpetuar a naturalização da violência contra as mulheres são responsáveis pela manutenção da cultura do estupro na nossa sociedade.

É por isso que a nossa luta ainda é tão extremamente necessária. É por isso que continuaremos questionando, denunciando, marchando e seguindo em frente, cada vez que uma violência for cometida contra uma de nós, até o dia em que conseguiremos destruir o patriarcado, até o dia em que a violência de gênero acabe, até que todas sejamos livres. Enquanto vocês…

Vocês são o retrato patético de uma masculinidade retrógrada que agoniza na tentativa de manter seus privilégios. E vocês vão ficar pra trás.

 

*Bruna Seixas, feminista, cientista social e integrante do coletivo da Marcha das Vadias/DF - http://marchadasvadiasdf.wordpress.com

 

 

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LUTA SILENCIADA, CONQUISTA HISTÓRICA

Post maravilhoso da blogueira Juliana Cezar Nunes, do coletivo Pretas Candangas.

Compartilhado de: http://blogueirasnegras.wordpress.com/2013/04/09/luta-silenciada-trabalho-domestico/

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Desde que me tornei mãe, em janeiro, passo horas contemplando meu filho e pensando como ele irá interpretar os acontecimentos de 2013 daqui a 20, 30, 40 anos… Tenho especial curiosidade em saber como Bento contará para os filhos e netos que apenas no ano do seu nascimento as trabalhadoras domésticas tiveram seus direitos reconhecidos no Brasil. Passaram a ter jornada de trabalho, piso salarial, direito a férias remuneradas, INSS, hora extra, adicional noturno… Ao todo, dezessete direitos trabalhistas negados mesmo 125 anos depois da abolição da escravatura e 25 anos após a última Constituição dita cidadã.

O silêncio centenário da sociedade brasileira diante da exploração vivenciada por milhares de mulheres, em sua maioria negras, revela que a espinha dorsal escravocrata teima em ceder. A forma como as classes mais “abastadas” resistem a essa mudança me causa especial repúdio.

Sou filha, neta, bisneta e tataraneta de mulheres que foram empregadas, cuidadoras, cozinheiras, doceiras e enfermeiras comunitárias. Minha tataravó, Antônia Benta, veio traficada da África e trabalhou como escrava, em Minas Gerais. Morreu com mais de 100 anos livre, mas sem saber o que é direito trabalhista.

Minhas avós cuidaram de idosos e cozinharam para outras famílias em busca do sustento de suas próprias casas. Minha mãe, com apenas 12 anos, foi trabalhar em “casa de família” e passou por diversos tipos de humilhação. Tinha o acesso proibido à geladeira e, para matar a fome, se alimentava por meio de furinhos em latas e potes.

A realidade que elas vivenciaram é bem comum às trabalhadoras que são chamadas de integrantes da família, mas não têm hora pra acordar, dormir ou mesmo se aposentar depois de anos e anos de trabalho. Mulheres que muitas vezes começaram a limpar casas e a cuidar de bebês ainda na infância, frequentemente expostas a abusos morais e sexuais. Tudo isso com a cumplicidade do Estado brasileiro, que permaneceu por muitos anos com os olhos confortavelmente vendados para uma negação de direitos que deveria nos levar às cortes internacionais por violação de direitos humanos.

É lamentável constatar que, se meu filho quiser entender como a sociedade reagiu à conquista histórica das mulheres em 2013, certamente vai se deparar com décadas de omissão da chamada intelectualidade brasileira. Formadores de opinião que se mobilizam contra a violência urbana e sobrecarga de impostos, mas mantêm empregadas vivendo em minúsculos quartos e submetidas a inúmeras formas de violência simbólica e física.

Às vésperas da aprovação no Congresso Nacional da proposta de emenda à Constituição que reconhece as domésticas como trabalhadoras, a maior parte dos jornais e revistas seguia dando mais espaço para o temor das patroas de ter um acréscimo de absurdos 10% no salário pagos para suas empregadas.

Em várias publicações, “especialistas” chegaram a classificar as “casas de família” como um ambiente de relaxamento para os patrões e, portanto, impossível de ser caracterizado como um local onde se estabelecem relações de trabalho. Patroas se perguntavam como controlar o horário de trabalho de suas empregadas uma vez que não permaneciam em casa e, aparentemente, acham que o serviço doméstico precisa ser realizado 24 horas por dia.

A verdade é que jornalistas e seus patrões nunca priorizaram em suas coberturas a luta das trabalhadoras domésticas pelos seus direitos. Profissionais e mídias sequer reconheciam que essas mulheres tinham direitos. Após a mudança constitucional, alguns jornais chegaram a mudar de linha de cobertura e a exaltar a conquista das trabalhadoras. No entanto, uma semana antes da PEC ser aprovada, ainda li uma reportagem que começava com a seguinte pergunta: “Demissão em massa ou conquista histórica?”

Custo a acreditar que ainda seja necessária uma resposta. Mas, se a pergunta insiste em ser feita, vale repetir: conquista histórica de gerações de mulheres que agora devem ter mais do que direitos respeitados e pagos. Precisam ser tratadas com dignidade, respeito e, acima de tudo, admiração por terem sobrevivido a tantas violências antes desse complemento tardio à abolição da escravatura no Brasil.


Juliana Cézar Nunes é jornalista e feminista negra. Faz parte do coletivo Pretas Candangas e da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-DF). Mestranda em Comunicação na UnB, integra a diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do DF (SJPDF) e trabalha na Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

Esse texto foi publicado originalmente no blog do coletivo Pretas Candangas.

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O que nos ensinam os peitos de Amina, a garota da Tunísia

Vamos pensar antes de reproduzir preconceitos. Contra a Islamofobia!

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O que nos ensinam os peitos de Amina, a garota da Tunísia

(24 Março 2013) ~ Por Nasreen Amina

As últimas 48 horas foram ricas em lições de todo tipo. Todas elas provêm da polêmica que surgiu a propósito da suposta fatwa que condenava à morte a jovem tunisiana chamada Amina. O grupo “feminista” Femen espalhou a informação de que um clérigo muçulmano havia emitido uma fatwa contra Amina, condenando ela a uma pena de chicotadas e apedrejamento. A notícia se espalhou como um rastro de pólvora e viralizou como uma gripe.

Hoje, 22 de março muitas inflamadas defensoras dos direitos das mulheres vão marchar nas embaixadas da Tunísia pelo mundo, na ONU, ou onde for para exigir que não se aplique a pena de morte contra Amina por divulgar a foto no qual mostrava seus peitos nus.

Na Tunísia não existe pena de morte já que foi abolida no ano de 2011, sendo o primeiro país africano a abolir. Também esta nação é das poucas que consagrou a igualdade do homem e da mulher a nível constitucional. Não esqueçamos da massiva marcham das mulheres tunisianas exigindo esta mudança na sua Constituição no ano passado. Tampouco a Tunísia está entre os países que aplicam o apedrejamento, mas isto se pode deduzir usando um pouco de lógica: o apedrejamento é um castigo que causa a morte da pessoa. Se na Tunísia não existe pena de morte e isto quer dizer que ninguém é assassinado por decisão judicial, então como poderia existir apedrejamento legal se este causa justamente a morte do(a) acusado(a)?

Outra conclusão fácil de obter com um simples exercício de raciocínio e com a ajuda da Wikipédia, tem a ver com a condenação da mesma. A Tunísia possui tribunais civis, ou seja, não são os representantes das religiões, mas sim o poder público quem julga os cidadãos. Quando Amina foi presa? Qual o tribunal que formulou as acusações? Que juiz a condenou? Ninguém pensou nisso, nem em fazer o mínimo esforço para averiguar mais além. Os preconceitos foram mais fortes.

Em cada página onde a foto da garota com os seios de fora foi postada, os comentários contra os muçulmanos foram de uma virulência, ódio e desumanização que não se diferenciavam muito de qualquer discurso fascista de aniquilação de outros por ser diferentes. O grau de violência das expressões daqueles que alegavam defender a liberdade estavam muito próximos do discurso de ódio e de incitação a violência por razões religiosas. Apesar dos textos e da informação esclarecendo a situação [1] ter sido publicado em várias páginas e colocada na frente dos narizes dos ditos “Defensor@s dos Direitos Humanos”, est@s não o leram porque não confirma suas próprias verdades assumidas sobre os muçulmanos.

Também deixou em evidência que o discurso de integração das mulheres muçulmanas da parte de outras mulheres sejam feministas ou não, ainda tem muito de discurso e pouco de vontade, ao menos no que se refere às redes sociais. Durante as últimas horas vi como as mulheres muçulmanas são castigadas com violência verbal e palavras e termos discriminatórios; em meio a verborragias pela liberdade, nos pedem que respondamos “moralmente” pelo que fazem os governantes e as autoridades religiosas nos países de maioria muçulmana.

Esta violência contra nós nas redes sociais é tão injusta quanto castigar as católicas pelo que fazem os padres pedófilos. É absurdo, mas assim é. É tão ridículo. Um idiota profere frases misóginas e outros, que se creem menos idiotas, em vez de perseguir o idiota que falou primeiro, começam a fazer caça as bruxas contra uma comunidade. A reação de islamofobia do caso de Amina na Tunísia se explica bem com a seguinte analogia: um leão ruge na África e as pessoas, em vez de tentarem pegar o leão, começam a envenenar gatos.

A grande maioria das pessoas não nos escutam. Colocamos a informação a sua disposição mas insistem em negá-la como mentira e propaganda. Só serve a informação que alimenta seus estereótipos. Foi repetido muito que nós muçulmanas fazíamos propaganda e limpeza de imagem do Islã no Facebook. Isto apesar de não sermos donas da CNN, Fox News, Televisa nem controlarmos Facebook ou Twitter.

É curioso que para certo setor do ativismo os meios de comunicação não conspiram e se tornam fontes muito credíveis quando se trata de dar crédito a seus próprios preconceitos. Quando questionamos as verdades assumidas sobre nós como mulheres e sobre o Islã como nossa fé, só recebemos violência e maltrato, somos desautorizadas como possuidoras de um ponto de vista, somos tratadas como menores, ignorantes e incapazes.

Não é o governo da Tunísia, nem seus tribunais, nem a comunidade muçulmana quem quer cometer danos a Amina. É importante fazer esta distinção. Misóginos estão em todos os lados e certamente muitos cidadãos molestam uma mulher que se manifesta desta forma, mas são indivíduos. O que há que pedir através das embaixadas da Tunísia no mundo é que se aplique a lei que garante a segurança da garota contra as reações violentas que, aliás, podem ocorrer de todos os lados, porque machistas violentos sobram no planeta.

A propósito não posso deixar de mencionar meu profundo questionamento aos objetivos reais do grupo autodenominado feminista “Femen”, o qual foi denunciado por muitas de seus ex-membros, assim como por distintas pessoas, como promotor da islamofobia, do neo-colonialismo, relação com grupos neonazistas e de ser financiado pela Cia. Se tanto lhes preocupa a segurança de Amina já contataram um advogado para interpor um Habeas Corpus?

Hoje vou ver como minhas “colegas” feministas marcham para reclamar pela não-aplicação de uma pena de morte que nunca existiu, apesar de que nós, as mulheres muçulmanas, termos entregado a informação correta sobre as reais dimensões do caso. Na próxima vez que escutarmos dizer a “@s libertári@s” que nós, as mulheres muçulmanas, não temos voz, saberemos que na realidade o que querem dizer é que não querem nos escutar. O preconceito justifica o duplo padrão. Um par de seios pode ser muito distrativo e um apedrejamento que nunca existirá vende mais que a verdade e a garantia de alguns minutos na Televisão Nacional. Um detalhe nada menor. No Chile é ano eleitoral.

O ocorrido com a notícia da suposta execução de Amina deixou em evidência o quão comprometidas estão as pessoas que se declaram “informadas” “libertárias” e “respeitosas” ao seguir seus próprios preconceitos, estereótipos e medos sobre o Islã.

[1] http://perderelnorte.com/al-islam/pechos-y-fatuas-comunicado-de-red-musulmanas/

Publicado em português em:
http://www.feminismo.org.br/livre/index.php?option=com_content&view=article&id=99995447%3Ao-que-nos-ensina-os-peitos-de-amina-a-garota-da-tunisia&catid=99%3Aopiniao-e-analise&Itemid=620

Traduzido de: http://nasreenvrblog.wordpress.com/2013/03/22/lo-que-ensenan-los-pechos-de-amina-la-chica-de-tunez

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Mulheres no samba

Escrito por Jaqueline Ogliari

(disponível em: http://www.almanaquebrasil.com.br/especial/10542-mulheres-do-samba.html)

O samba começou como um gênero predominantemente masculino. Lembramos de nomes como Cartola, Ataulfo Alves, Noel Rosa, Adoniran Barbosa, Candeia, Wilson Batista, Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola e muitos outros homens que, com suas canções, consolidaram o samba como símbolo de identidade nacional.

Mas grande parte do sucesso desses sambistas coube às vozes inabaláveis de mulheres, intérpretes que revitalizaram o samba com muita suavidade e emoção. Nas casas das tias baianas, nasceu o samba carioca, marcado pelo pandeiro e a batida da faca no prato – foi no quintal de Tia Ciata que nasceu o primeiro samba gravado, Pelo Telephone.

Clementina, Jovelina e Dona Ivone Lara formaram a tríade do samba carioca, vozes legítimas da raiz africana no Brasil. Da melancolia do samba-canção, surgiram as célebres Dalva de Oliveira e Dolores Duran, marcadas pela intensidade ao cantar e viver. Com Nara Leão, Aracy de Almeida e Clara Nunes, o samba arrebatou-se com a força da mulher.

Hoje o samba se faz universal na voz de novas cantoras, que refrescam o nosso gênero mais brasileiro. Para celebrar o Dia Internacional da Mulher, vamos saudar as divas do samba, que o deixam cada vez mais vivo e feminino.


Com Tia Ciata, nasce o samba carioca

Estudiosos são unânimes ao apontar a casa da Tia Ciata como o berço do samba carioca, ainda no início do século 20. Na célebre Praça Onze, zona portuária do Rio, negros recém-chegados da Bahia batucavam no quintal da mais famosa das tias baianas. A hospitalidade dessa mulher foi a base para que grandes compositores pudessem desenvolver o ritmo carioca.

Com comida boa e rodas regadas a muita música, a casa de Tia Ciata logo se tornou tradicional ponto de encontro, onde se reuniam grandes nomes, como Donga, Pixinguinha, João da Baiana, Sinhô e Heitor dos Prazeres. Numa dessas rodas, Donga e Mauro de Almeida compuseram Pelo Telephone, o primeiro samba gravado na história da música brasileira.

Naquela época, os encontros de samba eram proibidos pela polícia. Mas, para as batucadas na casa de Tia Ciata, os homens da lei faziam vista grossa pela sua fama de curandeira. Segundo registros, Ciata curou uma ferida da perna do presidente Venceslau Brás, que em troca lhe atendeu ao pedido de arrumar um trabalho para o marido: um lugar no gabinete do chefe de polícia.

Raízes do samba brasileiro
Tempos depois, nos idos de 1963, Hermínio Bello de Carvalho descobriu por acaso uma das vozes mais imponentes do samba brasileiro: Clementina de Jesus, com 62 anos de idade. “Me vi diante de algo insólito, único”, descreveu o compositor num papo com o Almanaque em 2007.

Hermínio levou Clementina para participar do espetáculoRosas de Ouro, e por ele ficou conhecida no Brasil todo. Gravou com Pixinguinha e João da Baiana, e em 1983 foi homenageada com um grande show no Teatro Municipal do Rio. O respeito pela sua voz, raiz da África na música brasileira, lhe rendeu um apelido digno de majestade: Rainha Quelé. 

Descoberta tardiamente, assim como Clementina, Jovelina Pérola Negra ajudou a consolidar o pagode, originado a partir do samba tocado nos fundos de quintais. Herdou de Quelé o jeito amarfanhado de cantar, e gravou seu primeiro disco em 1985, Raça Brasileira, conquistando muitos fãs do mundo artístico, como Maria Bethânia e Alcione.

Jovelina integrou o grupo de sambistas anônimos da Império Serrano, assim como Dona Ivone Lara, que na época ainda trabalhava como assistente social. Ambas compartilharam a mesma musicalidade e são consideradas as grandes damas do samba carioca.

Apesar de ter se consagrado só depois de 1965, quando se tornou a primeira mulher a fazer parte da ala dos compositores de uma escola de samba, Dona Ivone já fazia sucesso nas rodas informais. A partir de 1977, dedicou-se por completo à carreira artística. 

Em 1980, cantou no palco do Teatro Vila Velha, em Salvador, com Clementina de Jesus. As duas eram tão amigas que chamavam uma a outra de “mana”. Nesse show, cantaram o clássico de Dona Ivone, que Quelé tanto adorava: Sonho meu, sonho meu / Vai buscar quem mora longe…


Divas do samba-canção

O gênero é um tipo de samba, influenciado pelo bolero mexicano e a onda de romantismo que tomava conta das rádios no fim da década de 1930. Expressava principalmente a melancolia por um amor perdido, e foi Lupicínio Rodrigues, um dos grandes compositores do estilo, que inventou o termo que o definiu: dor-de-cotovelo.

O samba-canção também teve suas intérpretes na época de ouro, marcadas pelo canto intenso e arrebatador. Tamanha intensidade deu à Adiléia Silva da Rocha o nome artístico de Dolores Duran, que significa dor sem fim.

Dolores compôs junto com Tom Jobim o samba O Negócio é Amar, que foi interpretada por Nara Leão. Morreu muito jovem, aos 29 anos, vítima de um infarto causado pelas doses excessivas de álcool e cigarro. 

Em 1935, Dalva de Oliveira integrou o Trio de Ouro, do qual fazia parte seu marido, Herivelto Martins. Consagrou-se Rainha da Voz pelo canto afinado e belo. Com o fim do casamento com Herivelto, depois de tantas brigas e traições, Dalva assumiu carreira solo.

Do samba pra bossa, da bossa pro samba
A amizade de Noel Rosa e Aracy de Almeida começou entre cervejinhas da Taberna da Glória, em 1933. Lançou-se como intérprete de suas canções e cantava nas rádios cariocas. Em maio de 1937, Noel Rosa morreu aos 26 anos. Aracy gravou em dois álbuns seus sambas inéditos, como Conversa de Botequim e O X do Problema, salvando-os do esquecimento.

Na década de 1950, mudou-se para São Paulo e foi contratada pela Rádio Record, famosa por consagrar grandes vozes brasileiras. Mas, Aracy foi perdendo espaço para a bossa nova, gênero que arrebatava o público com seu novo jeito de cantar samba.

Revelada pelas rádios cariocas, Elizeth Cardoso também se destacou no samba-canção. Cantou com Vicente Celestino, Aracy de Almeida, Noel Rosa, entre outros. Mas fez-se Divina ao ser a primeira cantora da bossa nova, interpretando canções de Vinicius de Moraes, João Gilberto e Tom Jobim.

No caminho inverso, Nara Leão abandonou a bossa nova e foi ao encontro dos sambistas do morro. “Chega de bossa nova. Chega de cantar para dois ou três intelectuais uma musiquinha de apartamento. Quero o samba puro, que tem muito mais a dizer, que é a expressão do povo”, declarou, numa entrevista à revista Fatos & Fotos, em 1964.

Nara pôs-se contra a ditadura militar. Queria ser a cantora do povo, e para isso se aproximou de Zé Keti e Nelson Cavaquinho, “os artistas populares genuínos”, como definia. Morreu em 1989, mas sua voz marca gerações até hoje.

Filha de Ogum com Iansã
Clara Nunes começou na carreira artística cantando boleros em Minas Gerais, mas abandonou tudo e foi para o Rio tentar a vida com samba. Estreou com Você Passa e Eu Acho Graça, de Ataulfo Alves e Carlos Imperial, grande sucesso radiofônico.

Viajou à África, representando o Brasil, e converteu-se ao candomblé. Casou-se com Paulo César Pinheiro, que a imortalizou com suas canções: Sou a mineira guerreira / Filha de Ogum com Iansã.

Gravou, em 1970, seu quarto LP, no qual interpretou Ilu Ayê, samba-enredo da Portela, uma das paixões de Clara. Foi uma das cantoras que mais gravou composições dos mestres da Portela. Em 1975, lançou pela Odeon o álbumClaridade, que vendeu mais de 400 mil cópias, desmentindo a máxima de que “mulher não vende disco”.

Clara lutava pela emancipação feminina. “Não tenho medo de nada. Eu sou mulher. Eu sou tudo muito. Sou feminista pela emancipação da mulher. Mas – pelo amor de Deus! – a feminilidade vamos manter.”

Morreu jovem, aos 39 anos de idade, em decorrência de uma mal-sucedida cirurgia de varizes. Seu corpo foi velado na quadra da Portela, onde mais de 50 mil pessoas passaram para deixar o último adeus.

Novo samba feminino
Convidada para participar do musical Rainha Quelé, em 2002, Ignez Francisco da Silva volta aos palcos aos 67 anos de idade. Batizada por Hermínio Bello de Carvalho de Dona Inah, a paulista de Araras canta samba desde os 14 anos, mas só com a gravação do primeiro álbum, Divino Samba Meu, conseguiu engrenar a carreira artística.

A partir daí, ganhou reconhecimento como nova revelação do samba. Gravou o segundo álbum com repertório de Eduardo Gudin em 2008, e já prepara o terceiro, como conta em entrevista ao site do Almanaque.

Hoje o samba contemporâneo brilha na voz de novas cantoras, que ganham espaço no cenário musical pelo frescor e muita suavidade. Destaque para Fabiana Cozza, Mariana Aydar, Teresa Cristina, Lucinha Guerra e Roberta Sá, mostrando os muitos matizes desse gênero cada vez mais feminino.


SAIBA MAIS

Tia Ciata e a pequena África no Rio de Janeiro, de Roberto Moura.
Dona Ivone Lara, por Zélia Duncan, da Coleção Álbum de Retratos.
Clara Nunes: Guerreira da Utopia, de Vagner Fernando.
Veja ao lado vídeos com algumas canções das grandes mulheres do samba.

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Poesia feminista no Dia Internacional das Mulheres

Segue abaixo o poema LINDO da atriz, poetisa, e militante da Marcha Laura Moreira:

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DEVOÇÃO

Ao movimento feminista

Pois que é nas mulheres que deposito minha fé

E a elas rezo para merecer essa irmandade,

À mais anonima e à que todas o nome conhecem

Às que habitam esferas passadas

e as que ao meu lado caminham.

À elas eu rezo para merecer essa irmandade,

Pois que é nas mulheres que eu deposito a minha fé.

Às mulheres que teceram, no anonimato ou na infâmia,

os espaços que ocupo, eu oriento as minhas orações:

Que eu possa ser filha, mãe e irmã de todas que encontrar,

Pois que é nas mulheres que deposito minha fé.

Nos ventres redondos, seios fartos,

Braços musculosos ou pernas fortes

Ou nos corpos frágeis recendendo suavidade,

- não importa -

Pois que é nas mulheres que deposito minha fé.

E elas ensinam e me ensinaram:

A nunca recriminar uma mulher livre,

- Nunca mais -

A nunca me reduzir em feminilidades,

- Nunca mais -

A nunca acreditar nas mentiras dos que definem,

A nunca calar diante do desamor.

Pois que é nas mulheres que eu deposito minha fé

E serão elas a me guiar nas trilhas incertas que abrimos juntas.

E que possa perpetuar a dívida eterna

Doando o que recebi a outras mulheres,

Nas quais deposito a minha fé.

As que nasceram e as que se tornaram,

As por dentro, as por fora

E as mil possibilidades da textura.

E que possamos combater

Intrincadas formas de opressão,

As que vivo e as que não.

Que contra todas eu possa lutar,

Pois que é nas mulheres que deposito a minha fé.

Que sejam elas a me dizer como ser mulher;

Ainda que desafie a compreensão,

Que estralhace seguranças mofadas,

Que me mostrem asperezas que não quero ver,

Pois são elas que entendem a necessidade do abraço

E são elas que determinam os meus passos.

Pois que é nas mulheres que deposito a minha fé.

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Pastor racista e homofóbico é eleito presidente da CDHM – É tempo de LUTA! (Relato)

Não sei nem o que dizer depois do que presenciei esta manhã na sessão da comissão de Direitos Humanos da Câmara. Por um lado, ouvi discursos fortes, e muitas vezes emocionados, de parlamentares como o deputado Domingos Dutra (PT), que renunciou à presidência da comissão, dizendo que não ficaria numa comissão em que o povo brasileiro foi excluído! Sem contar falas como as de Jean Wyllys (PSOL), Erika Kokay (PT) e Chico Alencar (PSOL), que lembraram do importante papel daquela comissão, da necessidade de diálogo com a sociedade, de não retrocedermos nas conquistas de direitos, correndo o risco de rememorarmos outros períodos sombrios da história brasileira.

Por outro lado, não consigo descrever o que senti ouvindo e vendo as atitudes e falas de parlamentares como o deputado Jair Bolsonaro. Ouvi-lo sendo sarcástico com a tortura por que passaram diversas pessoas na época da ditadura, fazendo piadinhas em relação a “baitolas”, provocando e sendo irônico o tempo todo, mostra como tudo o que ele busca é holofote. O deputado Takayama (PSC) comparou o relacionamento homossexual ao relacionamento de um homem e uma vaca, no melhor estilo cabra da Veja. O deputado Eurico (PSB) não ficou para trás, enaltecendo um discurso homofóbico e preconceituoso e desrespeitando colegas deputados.

Triste também é pensar que o presidente da Câmara dos Deputados, o deputado Henrique Alves (PMDB), foi quem determinou que a sessão ocorresse a portas fechadas, sem sequer ouvir a própria presidência da Comissão. Como bem lembrou o deputado Domingos Dutra, a comissão de Direitos Humanos e Minorias surgiu para ser ponto de diálogo com os movimentos sociais e com toda a sociedade, surgiu como reinvidicação desses movimentos. Fazer a opção de reforçar a segurança e impedir a entrada na sala e até no corredor revela um posicionamento bem definido, diz a que veio.

Agora, mais que nunca, a nossa pressão popular precisa estar presente! A eleição do pastor Feliciano, que tem em seu histórico processo disciplinar por homofobia na Câmara, é sintomática e clama pela participação cada vez mais forte do povo na política do nosso Brasil. Não passarão!

Érika Medeiros

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Repositório de links sobre aborto

Pensando na socialização de informações, o Coletivo da Marcha das Vadias DF disponibiliza nesse post vários links para sites, textos e vídeos que somam vozes na luta pela descriminalização e legalização do aborto no Brasil.

Se você conhece algum outro material interessante sobre o tema que não foi postado aqui, coloque o link nos comentários que ele será acrescentado ao texto em breve.

Vamos espalhar essas informações e fazer crescer o debate! :)

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1- A ONG Women on Waves (“Mulheres sobre as ondas”, em português) é holandesa, e luta pela legalização do aborto em vários países ao redor do mundo. O site da ONG traz informações muito importantes e práticas para mulheres que se encontram em situação de abortamento (remédios, quando procurar um médico, como saber se está grávida, como evitar uma gravidez indesejada).

OBS: Para visualizar o site em português é só ir no canto direito da página e clicar sobre a seta onde está escrito “English”, uma lista de opções aparece, daí é só escolher “Português”.

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2- Este vídeo, produzido pelo grupo Católicas pelo Direito de Decidir, mostra, com muita sensibilidade, uma conversa entre três amigos sobre aborto.


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3- Este vídeo de 3 minutos do Centro Feminista de Estudos e Assessoria – CFEMEA, mostra de forma rápida e didática características socioeconômicas das mulheres que praticam abortos clandestinos no Brasil.

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4- Este vídeo de 30 segundos é realizado para a Campanha “Criminalizar o aborto resolve? Vai pensando ai“. O vídeo visa estimular o debate sobre a legalização do aborto no Brasil.

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5- “O Fim do Silêncio”, documentário de Thereza Jessouroun, traz relatos emocionantes, humanos e reais de mulheres que abortaram. O filme traz uma abordagem sensível, e aproxima x espectadorx de uma realidade vivenciada por milhões de mulheres em todo o Brasil.

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6- A Pesquisa Nacional do Aborto (PNA), teve sua parte quantitativa realizada em 2010. Foi a maior e mais abrangente pesquisa desenvolvida sobre o aborto no Brasil. Se em 2005 o governo brasileiro trabalhava com a estimativa (como aponta cartilha do Ministério da Saúde) de que eram realizados 3.7 abortos em um grupo de 100 mulheres (número já muito acima da média dos países desenvolvidos), a PNA trouxe números muito mais alarmantes: uma em cada sete mulheres no Brasil já praticou um aborto.

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Cartilha: Aspectos Éticos do Atendimento ao Aborto Legal

A Anis produziu uma cartilha muito legal sobre o atendimento a mulheres que optarem pelo aborto nos casos em que ele é legal:
O material pode ser visualizado neste link:

http://www.anis.org.br/arquivos/pdf/AbortoLegal.pdf

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